Cerco de Cartum

A Última Resistência do General Gordon
Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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O cerco de Cartum, de março de 1884 a janeiro de 1885, foi o episódio mais dramático da Guerra Madista (1881-99) no Sudão, quando um exército liderado pelo inspirador líder muçulmano, Muhammad Ahmad, o autoproclamado Mahdi, se rebelou contra o domínio colonial. A queda da cidade e a morte do herói nacional, o General Charles Gordon, abalaram as elites britânicas (British Establishment), que acabaram por exercer uma vingança terrível na Batalha de Omdurman, em 1898.

Siege of Khartoum
Cerco de Cartum MGM-United Artists (Copyright, fair use)

O Egipto e o Sudão

O Egipto e o Sudão mantinham uma relação peculiar no final do século XIX. O Egipto encontrava-se sob o controlo nominal do decadente Império Otomano. O governante do Egipto, o Quediva Ismail — também designado por Isma'il Pasha do Egipto (reinado 1863-1879) e essencialmente o vice-rei otomano —, alimentava as suas próprias ambições imperiais a sul, no Sudão. As campanhas militares para adquirir marfim, escravos e soldados no Sudão em 1881 (além de outras noutros locais) acabaram por levar o Paxá à bancarrota. Entretanto, o governo britânico tinha dois objetivos nesta parte de África: controlar o Canal de Suez e, assim, preservar a rota marítima vital entre a Europa e a Índia Britânica; e controlar o Sudão, uma vez que o rio Nilo atravessa esse país e é vital para a subsistência do Egipto. A Grã-Bretanha interveio para esmagar uma revolta nacionalista no Egipto, liderada por Ahmed Urabi, em setembro de 1882. Os britânicos aproveitaram então a oportunidade para governar o Egipto como um protetorado em tudo menos no nome. Isto deixou, porém, por resolver o problema do Sudão, onde eclodira uma revolta na província de Cordofão na sequência dos ataques do Paxá nessa região.

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Um nome comummente utilizado para os madistas era o de 'Dervixes', numa referência à sua religião e grande energia.

O Mahdi

Os rebeldes sudaneses uniram-se em torno de uma única figura inspiradora. Muhammad Ahmad (1844-1885) era um clérigo islâmico que, após ter tido uma série de visões, se declarou o Mahdi (o Messias), uma figura da tradição islâmica também conhecida como 'o redentor' ou 'aquele que é guiado' — uma pessoa que é "um restaurador da justiça e da equidade, divinamente guiado" (Fage, pág. 609). Muhammad Ahmad liderou a rebelião no Sudão, que ficou conhecida como a Guerra Madista. Os madistas pretendiam derrubar o domínio otomano-egípcio no Sudão e espalhar uma nova forma de Islão, tanto no Sudão como noutros locais — uma variante da fé que o Mahdi descreveu como "expurgada de heresias e acréscimos" (Boahen, pág. 39). Os madistas, ou ansars, como também eram conhecidos, eram igualmente motivados pelo desejo de pôr fim à repressão do lucrativo tráfico de escravos, aos impostos elevados e à ingerência geral dos egípcios e britânicos nos assuntos sudaneses. Ofensas ao Islão como a nomeação de um governador-geral cristão e o estabelecimento de uma grande missão católica na capital sudanesa, Cartum, não seriam mais toleradas.

Muhammad Ahmad insistia que os seus seguidores vestissem a jibba, uma túnica de material remendado que simbolizava a rejeição dos bens materiais. Quando o exército partia para a batalha, cavalgava os seus cavalos e camelos perante bandeiras vermelhas, verdes e pretas, inscritas com citações do Alcorão. O exército madista era, na verdade, um grupo diversificado de povos, incluindo não muçulmanos. Esta diversidade é ilustrada pela alcunha britânica de 'Fuzzy Wuzzy' dada aos madistas, visto que este nome pejorativo foi, na realidade, inspirado no penteado marcante de apenas um grupo em particular: os homens da tribo Hadanduwa. Outro nome comummente utilizado para os madistas era o de 'Dervixes', numa referência à sua religião e grande energia.

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Muhammad Ahmad
Muhammad Ahmad Unknown Artist (Public Domain)

Após derrotar uma série de forças turco-egípcias lamentavelmente pequenas, enviadas do Egipto para reprimir a revolta, a revolução madista espalhou-se a partir de 1882. Novos seguidores juntaram-se à revolta com cada vitória. El Obeid foi cercada e capturada em janeiro de 1883. Um grande exército egípcio, sob o comando do coronel britânico William Hicks, foi aniquilado em Omdurman em setembro de 1883. Os madistas obtiveram outra vitória contra Hicks dois meses depois, na Batalha de Shaykan (também conhecida como Shoykan), a 5 de novembro. Estas vitórias trouxeram para os vencedores o bónus adicional de centenas de espingardas modernas e uma quantidade de peças de artilharia de campanha. Foi estabelecido um Estado madista no oeste do Sudão.

A Missão de Gordon

Em vez de enviar um exército para defender os interesses britânicos no Sudão, o governo britânico optou pela solução mais económica de uma retirada em janeiro de 1884. O General Charles Gordon (1833-85) foi selecionado para organizar uma evacuação ordeira das forças egípcias restantes e das suas famílias que ainda se encontravam no Sudão. O carismático Gordon já era um herói britânico devido às suas aventuras na China, onde ajudou a reprimir a Rebelião Taiping em 1863-64 em nome do imperador chinês, e pelo seu papel em ajudar a acabar com o tráfico de escravos no Sudão enquanto lá serviu como governador-geral no final da década de 1870. Gordon era a escolha do público e não a do Primeiro-Ministro britânico William Gladstone; Gladstone descreveu uma vez o general como "inspirado e louco" (Pakenham, pág. 215). Certamente, com o seu zelo cristão e total autoconfiança, Gordon era um embaixador de risco para enviar numa missão solitária nas profundezas do interior de África. Gordon chegou a Cartum em fevereiro e, tal como Gladstone temera, decidiu ignorar as suas ordens e, em vez disso, tentar manter a capital contra o que parecia ser um inevitável cerco madista. A desculpa de Gordon para não evacuar era que desejava ver um governo sucessor estabelecido, em vez de simplesmente abandonar o país como Gladstone pretendia. O general declarou: "Venho sem soldados, mas com Deus do meu lado, para reparar os males do Sudão" (James, pág. 85).

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General Gordon in Egyptian Uniform
General Gordon em Uniforme Egípcio Unknown Artist (Public Domain)

A primeira escolha de Gordon para sucessor em Cartum foi o traficante de escravos sudanês Zebehr Pasha, mas este foi rejeitado pelo governo britânico, que ignorava que a experiência e as ligações de Zebehr faziam dele o melhor candidato disponível. Gordon sugeriu então que uma guarnição britânica permanente ou o Sultão da Turquia assumissem o controlo, mas ambas as ideias foram rejeitadas. Gordon voltou a apoiar Zebehr — obviamente não por uma escolha pessoal, dado que Gordon o tinha condenado à morte enquanto era governador-geral — e deixou um aviso contundente: "Se não enviarem Zebehr, não têm qualquer hipótese de retirar as guarnições" (Pakenham, pág. 221). Esta comunicação não obteve resposta porque os madistas cortaram os cabos do telégrafo que ligavam Cartum ao mundo exterior a 12 de março. Na verdade, Zebehr foi novamente rejeitado pelo governo britânico, que continuava convencido de que Gordon estava a exagerar o perigo que Cartum corria para perseguir os seus próprios interesses.

Cartum era uma cidade cosmopolita com uma população de 50 000 habitantes. Apesar da disputa sobre a questão do sucessor, Gordon continuava a acreditar que, se conseguisse manter Cartum por tempo suficiente, o governo britânico seria obrigado, mais tarde ou mais cedo sob a pressão da opinião pública e apesar da relutância de Gladstone, a enviar uma força de socorro imperial. Como observa o historiador Lawrence James: "Toda a sua vida Gordon fora um combatente à procura de campos de batalha morais, e Cartum era um deles" (pág. 85). O regresso de Gordon fora bem-vindo pela maioria dos residentes da capital precisamente porque estes previam que a uma figura tão importante seria certamente enviado, em breve, um exército imperial para lidar com os madistas de uma vez por todas.

O Cerco de Cartum

Pouco depois da sua chegada ao Sudão, Gordon enviou uma carta ao Mahdi propondo-lhe termos de paz e o cargo de Sultão de Cordofão. Juntamente com a carta, Gordon enviou uma magnífica túnica vermelha e um fez. O Mahdi recusou a oferta e não só devolveu a túnica, como incluiu no pacote uma jibba, acompanhada de uma nota encorajando Gordon a passar a vesti-la.

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Mahdist Jibba
Jibba Madista Geni (CC BY-SA)

Os madistas cercaram Cartum durante dez meses, com início a 12 de março. Cartum era uma cidade cosmopolita com uma população de 50 000 habitantes, que incluía mercadores e funcionários egípcios, bem como gregos, austríacos, italianos, britânicos, indianos, sírios, argelinos e sudaneses. Mais de metade da população era composta por escravos. A guarnição de Cartum consistia em 2 500 soldados regulares egípcios e sudaneses, além de outros 5 000 irregulares. Estas tropas estavam equipadas com espingardas Remington e dispunham de munições em abundância. Gordon tinha também à sua disposição um punhado de metralhadoras, dois canhões de vinte libras, onze de sete libras e uma série de peças de artilharia de campanha de menor calibre.

Apesar de a cidade já se encontrar bem protejida, Gordon conseguiu fortificá-la em ambos os lados pelos rios Nilo Azul e Nilo Branco. O general construiu um grande fosso perimetral e um parapeito no exterior do lado sul, o mais exposto da cidade — obras de defesa que ligavam os dois rios para criar um triângulo que protegia a povoação. Este terceiro lado do triângulo era um pouco longo para o gosto de Gordon, mas tornou-se mais defensável para o limitado número de tropas de que dispunha através da construção de bastiões a intervalos regulares. A muralha defensiva foi reforçada com o enterramento de granadas de artilharia e granadas improvisadas, feitas de latas cheias de pedaços de metal, à sua frente. Longos fios de detonação permitiam que as granadas fossem explodidas com a máxima eficácia no meio de um inimigo em carga. Estacas afiadas e vidro partido foram também espalhados para perturbar a cavalaria madista. Similarmente, Gordon equipou sete vapores de pás e um iate para funcionarem como canhoneiras nos rios, e enviou destacamentos de incursão para recolher mantimentos para a cidade cercada e fustigar o inimigo. Com a guarnição, os canhões e boas defesas, Gordon estava confiante de que conseguiria manter a cidade enquanto durassem os abastecimentos de comida.

Os madistas estavam preparados para esperar que as águas dos dois rios Nilo baixassem antes de atacarem Cartum diretamente, embora todos os dias fossem disparados tiros contra a cidade. Algumas das incursões de Gordon foram bem-sucedidas e trouxeram cereais muito necessários para a cidade, mas uma expedição no início de setembro foi um desastre, tendo-se perdido mais de 1 000 combatentes, juntamente com o melhor comandante de Gordon, Muhammad Ali.

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Com a opinião pública na Grã-Bretanha alimentada por um entusiasmo febril, devido às constantes notícias na imprensa que exigiam a intervenção do governo, foi finalmente organizada uma força de socorro britânica. Esta força de 10 500 homens partiu do Cairo a 9 de setembro de 1884 e era liderada pelo General Garnet Wolseley (1833-1913). Gordon recebeu notícias da Expedição de Socorro do Nilo a 20 de setembro. Infelizmente para Gordon e para Cartum, Wolseley avançou ao longo do Nilo com extrema cautela, consciente do desastre que se abatera sobre Hicks. Wolseley estava também convencido de que Gordon 'o Chinês', um herói pessoal, era perfeitamente capaz de resistir numa cidade fortificada como Cartum durante um período considerável. O general chegou, pelo menos, a organizar uma vanguarda de ritmo mais rápido para viajar em barcos fluviais e avançar à frente do corpo principal do exército, para o caso de Gordon estar, de facto, com algum tipo de problemas.

Khartoum's Defences, 1884-5
As Defesas de Cartum, 1884-85 Paul Adlam (CC BY)

O dia 9 de setembro foi um dia fatídico, uma vez que Gordon — ainda sem conhecimento da expedição de Wolseley — enviara o seu segundo comandante e único oficial britânico, o Tenente-Coronel J. D. Stewart, num vapor, para tentar fazer chegar às autoridades britânicas a mensagem de que a situação era, de facto, desesperada. Com Stewart seguiu Frank Power, cônsul britânico e correspondente do The Times. Outras mensagens tinham conseguido sair graças a mensageiros que furaram as linhas do cerco, mas esta parecia ser uma forma mais segura de convencer Gladstone de que Cartum poderia cair. Como observa o historiador Thomas Pakenham: "Com efeito, Stewart foi enviado como um SOS humano"(pág. 224). Gordon acompanhou a partida da missão através do seu telescópio, que tinha montado no telhado plano da residência. Visível para os madistas fora da cidade, Gordon passaria parte de cada dia a caminhar de um lado para o outro no telhado, perscrutando o horizonte em busca do primeiro sinal da missão de resgate que ele tinha a certeza de que acabaria por chegar.

O Aviso Final

O cerco madista a Cartum apertou-se no final de setembro, quando o exército principal chegou. Em outubro, o Mahdi assumiu o comando pessoal do cerco. A 22 de outubro, o Mahdi enviou um aviso por escrito a Gordon:

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Em nome de Deus, o misericordioso e compassivo… Aqueles que acreditaram em nós como o Mahdi, e se renderam, foram libertados; e aqueles que não o fizeram foram destruídos.

(Pakenham, pág. 218).

Esta comunicação também informou Gordon de que o vapor de Stewart tinha sido capturado e todos a bordo mortos. Gordon não acreditou na notícia. O cerco continuou. Os defensores sofreram um golpe severo nas suas esperanças em novembro, quando um inventário revelou a Gordon que 114 000 kg (250 000 libras) de bolachas, das quais ele dependia, não foram encontradas. As bolachas tinham sido roubadas há mais de um ano. Depois veio um segundo golpe: um navio a vapor chegou com a notícia de que o barco de Stewart tinha sido, de facto, atacado pelos madistas. Uma comunicação ainda mais perturbadora veio de Wolseley, que perguntava — inacreditavelmente — se o cerco já tinha terminado. Felizmente, Gordon não conseguiu decifrar o código desta mensagem e, por isso, manteve a esperança de que a força de socorro estaria a avançar à máxima velocidade para Cartum (na verdade, Wolseley estava a dar descanso aos seus homens em Dongola durante quatro semanas). Gordon enviou a Wolseley uma resposta à mensagem que não conseguira ler no início de dezembro, dizendo-lhe que a cidade apenas conseguiria resistir por mais 40 dias.

Khartoum, 1888
Cartum, 1888 Unknown Artist (Public Domain)

Em meados de janeiro de 1885, Cartum tinha ficado sem comida. Tudo o que pudesse ser comido já tinha sido, há muito, mal digerido: ratos, burros, cães e até o miolo das palmeiras. A disenteria assolava a guarnição. Pior ainda, as águas do Nilo estavam agora baixas, expondo totalmente uma zona lamacenta numa das extremidades das fortificações de Gordon que ligava os dois rios, uma brecha que os madistas certamente aproveitariam. De facto, a descida das águas já permitira aos madistas tomar o forte de Omdurman a 5 de janeiro, pelo que podiam agora disparar artilharia tanto contra a cidade, através do Nilo Branco, como ao longo de toda a extensão da longa muralha perimetral que ligava os rios.

A Queda da Cidade

No acampamento dos sitiantes, chegaram notícias dos primeiros confrontos entre as forças madistas e a vanguarda do exército de Wolseley. O Mahdi decidiu atacar a cidade diretamente antes que a força de socorro chegasse. Nas horas que antecederam a alvorada de 26 de janeiro de 1885, o exército madista invadiu a brecha nas fortificações e entrou na cidade. Pelo menos 6 000 soldados e 4 000 civis foram massacrados. As mulheres e raparigas foram escravizadas pelos vencedores.

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Segundo testemunhas oculares, Gordon morreu a combater, disparando o seu revólver contra uma multidão de ansars que avançava. No entanto, isto não era exatamente o que o público exigia de um mártir cristão e, por isso, surgiu a lenda — alimentada pelo departamento de informações — de que o general fora atingido por uma lança enquanto permanecia no topo da escadaria da residência, desarmado e a envergar o seu uniforme de gala. Esta versão dos acontecimentos foi perpetuada pelo artista George William Joy na sua famosa pintura de 1893, General Gordon's Last Stand (Última Resistência do General Gordon). A morte fictícia tornou-se um facto aceite e foi repetida no filme de 1966, Cartum (Khartoum no Brasil, protagonizado por Charlton Heston no papel de Gordon e Laurence Olivier como o Mahdi.

General Gordon's Last Stand
Última Resistência do General Gordon George W. Joy (Public Domain)

O Mahdi tinha ordenado que Gordon fosse capturado vivo, mas, agora que estava morto, o seu corpo foi profanad: a cabeça foi colocada numa estaca e o corpo foi deixado sem cerimónias no jardim do palácio, para que qualquer transeunte o pudesse pontapear ou esfaquear. A dada altura, alguém atirou o cadáver para um poço ou para o rio.

A vanguarda da força de socorro de Wolseley chegou a Cartum a 28 de janeiro, dois dias tarde demais. Isto deveu-se não só ao ritmo inicialmente pausado da expedição, mas também ao facto de ter sido atacada por uma força madista nos poços de Abu Klea. A expedição de Wolseley também começara tarde demais, para começar, o que fora culpa da hesitação do governo; no entanto, o general era certamente culpado por ter escolhido uma rota lenta para Cartum. Wolseley subestimara os madistas e sobrestimara a capacidade de Gordon para resistir a um cerco prolongado. Pelo menos agora, o mundo inteiro poderia saber o destino de Gordon.

A morte de um herói nacional não podia ser ignorada. O governo britânico foi obrigado a contra-atacar os madistas, que agora controlavam praticamente todo o Sudão, exceto as suas regiões fronteiriças. De facto, a morte de Gordon e os esforços bastante lentos para a evitar foram uma das razões pelas quais o governo de William Gladstone caiu nesse verão. A Rainha Vitória escreveu no seu diário: "O Governo é o único culpado" (Wilkinson-Latham, pág. 29). No entanto, uma outra crise no Afeganistão — onde se desenrolava o Great Game (Grande Jogo) do imperialismo asiático entre a Grã-Bretanha e a Rússia — adiou a intervenção militar britânica no Sudão por vários anos.

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As Consequências

Muhammad Ahmad morreu, provavelmente devido ao tifo, em junho de 1885, mas o Estado Madista continuou a governar o Sudão. O sucessor de Muhammad Ahmad foi o seu segundo comandante, o califa 'Abdullah. Os madistas, procurando expandir o seu Estado, atacaram o Egito, a Etiópia e o Estado Livre do Congo (o precursor do Congo Belga) com variados graus de sucesso.

Charge of the 21st Lancers at Omdurman
Carga dos 21.º Lancers em Omdurman Edward Matthew Hale (Public Domain)

O governo britânico apercebeu-se de que o Estado Madista poderia ameaçar toda a região. Continuava preocupado com a possibilidade de o Nilo ser bloqueado antes de chegar ao Egito, mas estava ainda mais apreensivo com o facto de a França poder agora tentar exercer influência num Sudão instável. Horatio Herbert Kitchener (1850-1916) foi nomeado governador-geral do leste do Sudão e comandante de um grande exército anglo-egípcio, com a missão de pôr finalmente fim à rebelião madista. Kitchener liderou metodicamente o seu exército de 19 000 homens subindo o Nilo, construindo uma linha ferroviária à medida que avançava.

Os madistas não conseguiram superar as metralhadoras modernas e a artilharia, tendo sido derrotados, primeiro na Batalha de Atbara, a 8 de abril de 1898, e depois na Batalha de Omdurman, a 2 de setembro. Cartum foi reconquistada e saqueada. O califa 'Abdullah, no entanto, não foi capturado e, com os seus 10 000 seguidores restantes, continuou a rebelião a partir da província de Cordofão. A Guerra Madista chegou finalmente ao fim em novembro de 1899, quando o exército do Califa 'Abdullah foi derrotado na Batalha de Umm Diwaykarat (também conhecida como Um Debreikat).

Depois de afastar uma força expedicionária francesa rival em Fachoda (um episódio conhecido como o Incidente de Fachoda, que quase deu início a uma guerra entre as duas potências coloniais), Kitchener foi nomeado governador militar de todo o Sudão. Foi estabelecido um governo administrativo moderno e o Sudão passou a ser governado como um protetorado britânico em tudo menos no nome.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
O Mark é o Diretor Editorial da WHE e é mestre em Filosofia Política pela Universidade de York. Investigador a tempo inteiro, é também escritor, historiador e editor. Os seus interesses particulares incluem a arte, a arquitetura e a descoberta das ideias partilhadas por todas as civilizações.

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Cartwright, M. (2026, abril 19). Cerco de Cartum: A Última Resistência do General Gordon. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2915/cerco-de-cartum/

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Cartwright, Mark. "Cerco de Cartum: A Última Resistência do General Gordon." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, abril 19, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2915/cerco-de-cartum/.

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Cartwright, Mark. "Cerco de Cartum: A Última Resistência do General Gordon." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 19 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2915/cerco-de-cartum/.

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