O Hino a Inanna (também conhecido como A Senhora de Coração Magnânimo) é uma obra devocional apaixonada da poetisa e suma sacerdotisa Enheduanna (cerca de 2300 a.C.), a primeira autora (de ambos os géneros) do mundo conhecida pelo nome. O poema é significativo por ser uma das mais antigas obras literárias subsistentes e pelo seu conteúdo, que eleva a deusa Inanna acima de todas as outras divindades.
Enheduanna era filha de Sargão de Acade (o Grande, reinado 2334–2279 a.C.), que a nomeou suma sacerdotisa da cidade de Ur, onde ela compôs as suas célebres obras: Inninsagurra (A Senhora de Coração Magnânimo), Ninmesarra (A Exaltação de Inanna) e Inninmehusa (Deusa dos Poderes Terríveis), todas dedicadas a Inanna. Escreveu ainda outros 42 poemas e preces que expressam as suas lutas pessoais, esperanças e fé. Embora as suas obras se dirijam a outras divindades, incluindo o deus da lua, Nanna, a quem servia, é na sua devoção a Inanna que ela demonstra a maior paixão.
A Deusa e o Hino
Inanna era a deusa suméria da fertilidade, do amor, da sensualidade, da procriação e da guerra, sendo mais tarde identificada com Ishtar. O seu clero era composto por homens, mulheres e pessoas transgénero, sendo frequente os homens e as mulheres vestirem-se com roupas do sexo oposto para personificarem os poderes transformadores de Inanna. A androginia do clero e dos devotos de Inanna é mencionada no poema, no verso 121, onde se afirma que ela possui o poder de «transformar um homem numa mulher e uma mulher num homem». O foco central da obra, de facto, é o poder de transformação de Inanna, o qual pode por vezes ser visto como destrutivo ou doloroso, mas tem sempre um propósito superior.
O poema descreve Inanna como sendo mais poderosa do que todos os outros e exalta os seus poderes transformadores.
Para realçar a importância de Inanna, Enheduanna remete outros deuses que normalmente seriam considerados seus superiores – Anu e Enlil – para papéis secundários, afirmando que estes «não podem opor-se ao seu comando»; e a primeira parte do poema (versos 1-72) foca-se no seu poder destrutivo como deusa da guerra. Os versos 73-114 descrevem a deusa como sendo mais poderosa do que todos os outros, e os versos 115-218 exaltam os seus poderes transformadores, que destroem, constroem, expõem a falsidade, iluminam a verdade e administram a justiça. Os versos finais (219-274) identificam Enheduanna como a autora e apelam diretamente à deusa em sinal de louvor.
Os hinos de Enheduanna foram bastante populares, como o comprova o número de cópias feitas e preservadas, e influenciaram a forma, o conteúdo e a voz de obras sagradas posteriores, incluindo os Salmos e o Cântico dos Cânticos da Bíblia. A sua influência perdura na era moderna na criação de obras de devoção pessoal dirigidas apaixonadamente a um poder superior.
O Texto
O conteúdo seguinte foi extraído da obra The Literature of Ancient Sumer (A Literatura da Suméria Antiga) traduzido para inglês por Jeremy Black et al. O deus do céu, Anu, é referido como An ao longo de todo o texto, e o nome de Inanna surge como Inana. Algumas referências, especialmente entre os versos 80 e 90, são obscuras, e as reticências indicam passagens em falta.
1-10: A senhora de grande coração, a dama impetuosa, orgulhosa entre os deuses Anuna e preeminente em todas as terras, a grande filha de Suen, exaltada entre os Grandes Príncipes (um nome dos deuses Igigi), a dama magnífica que reúne os poderes divinos do céu e da terra e rivaliza com o grande An, é a mais poderosa entre os grandes deuses — ela torna os seus vereditos finais. Os deuses Anuna rastejam perante a sua palavra augusta, cujo curso ela não dá a conhecer a An; ele não se atreve a opor-se ao seu comando. Ela... altera a sua própria ação, e ninguém sabe como esta ocorrerá. Ela torna perfeitos os grandes poderes divinos, empunha um cajado de pastor e é a sua magnífica e preeminente líder. Ela é um grilhão gigante que se abate sobre os deuses da Terra. A sua grandiosa imponência cobre a grande montanha e nivela os caminhos.
11-17: Aos seus gritos retumbantes, os deuses da Terra enchem-se de medo. O seu rugido faz os deuses Anuna tremerem como um caniço solitário. Ao seu estrondo, eles escondem-se todos juntos. Sem Inana, o grande An não toma decisões e Enlil não determina destinos. Quem se opõe à senhora que ergue a cabeça e é suprema sobre as montanhas? Onde quer que ela..., as cidades tornam-se montes de ruínas e locais assombrados, e os santuários tornam-se terras desoladas. Quando a sua ira faz o povo tremer, a sensação de ardor e a aflição que ela causa são como um demónio ulu a enredar um homem.
18-28: Ela instiga a confusão e o caos contra aqueles que lhe são desobedientes, acelerando a carnificina e incitando a inundação devastadora, revestida de um esplendor aterrador. É o seu jogo acelerar o conflito e a batalha, incansável, calçando as suas sandálias. Coberta (?) por uma tempestade furiosa, um turbilhão, ela... o traje da soberania. Quando ela toca em... há desespero, um vento sul que cobriu... Inana senta-se sobre leões ajaezados (?), ela corta em pedaços aquele que não lhe mostra respeito. Um leopardo das colinas, entrando (?) nas estradas, enfurecida (?), ..., a senhora é um grande touro confiante na sua força; ninguém se atreve a virar-se contra ela. ..., a principal entre os Grandes Príncipes, um fosso para os desobedientes, uma armadilha para os malvados, um... para os hostis, onde quer que ela lance o seu veneno...
29-38: A sua ira é..., uma inundação devastadora à qual ninguém pode resistir. Um grande curso de água, ..., ela humilha aqueles que despreza. A senhora, uma ave hurin que não deixa ninguém escapar, ..., Inana, um falcão que caça os deuses, Inana estraçalha os amplos currais do gado. Os campos da cidade para os quais Inana olhou com raiva... Os sulcos do campo que a senhora... erva. An opõe-se a ela,... Lançando fogo, na planície alta a senhora... Inana... A senhora... combatendo, ..., conflito...
39-48: ... ela entoa uma canção. Esta canção... o seu plano estabelecido, pranto, o alimento e o leite da morte. Quem quer que coma... o alimento e o leite da morte de Inana não perdurará. O fel dará uma dor ardente àqueles a quem ela o der a comer, ... na sua boca... No seu coração jubiloso, ela entoa a canção da morte na planície. Ela entoa a canção do seu coração. Ela lava as armas deles com sangue e vísceras, ... Machados esmagam cabeças, lanças penetram e maças cobrem-se de sangue. As suas bocas maléficas... os guerreiros... Sobre as suas primeiras oferendas ela verte sangue, enchendo-as de sangue.
49-59: Na planície larga e silenciosa, obscurecendo a luz brilhante do dia, ela transforma o meio-dia em trevas. As pessoas olham-se com ira, procuram o combate. Os seus gritos perturbam a planície, pesam sobre as pastagens e as terras desoladas. O seu uivo é como o de Ickur e faz tremer a carne de todas as terras. Ninguém pode opor-se à sua batalha assassina — quem lhe faz frente? Ninguém consegue olhar para a sua luta feroz, para a carnificina, para o... Água que tudo submerge (?), furiosa, varrendo a terra, ela não deixa nada para trás. A senhora, um arado quebra-muros que abre o solo duro,... Os fanfarrões não erguem os seus pescoços,... O seu grande coração cumpre as suas ordens, a senhora que, sozinha, molda (?)... Exaltada na assembleia, ela ocupa o assento de honra,... à direita e à esquerda.
60-72: Humilhando montanhas imensas como se fossem montes de lixo, ela imobiliza... Ela provoca a destruição das terras montanhosas de leste a oeste. Inana... muralha... pedras gulgul, ela obtém a vitória. Ela... a pedra kalaga... como se fosse uma malga de barro, ela torna-a como gordura de ovelha. A orgulhosa senhora segura um punhal na mão, um esplendor que cobre a Terra; a sua rede suspensa amontoa peixes nas profundezas, ... Como se fosse uma caçadora de aves astuta, pássaro algum escapa à malha da sua rede suspensa. O lugar que ela pulverizou..., ... os planos divinos do céu e da terra. A intenção da sua palavra não... para An. O contexto do seu conselho desconcertante na assembleia dos grandes deuses não é conhecido.
(2 versos fragmentários)
73-79: A senhora, um leopardo entre os deuses Anuna, plena de orgulho, recebeu autoridade. Não tendo... luta..., Inana... Ela... a rapariga adolescente no seu quarto, recebendo-a, ... coração... encantos. Ela, malignamente, ... a mulher que rejeita. Em todo o (?) país, ela... Ela deixa-a correr pela rua... ... de uma casa, a mulher vê o seu filho.
80-90: Quando ela removeu a grande punição do seu corpo, invocou bênçãos sobre ele; fez com que fosse nomeado o pilipili. Ela quebrou a lança e, como se ela fosse um homem... deu-lhe uma arma. Quando ela tinha... punição, não é... Ela... a porta da casa da sabedoria, ela dá a conhecer o seu interior. Aqueles que não respeitam a sua rede suspensa não escapam... quando ela suspende as malhas da sua rede. O homem que ela chamou pelo nome, ela não o estima. Tendo-se aproximado da mulher, ela parte a arma e dá-lhe uma lança. O jicgisajkec masculino, o nisub e as oficiantes rituais jicgi femininas, após terem... punição, gemendo... O extático, o pilipili transformado, o kurjara e o sajursaj... Lamento e canção... Eles exaurem-se com o pranto e a dor, eles... lamentos.
91-98: Chorando diariamente, o teu coração não... "Ai de mim"... coração... não conhece descanso. Amada senhora do sagrado An, o teu... em pranto... No céu... Sobre o teu peito... Tu, sozinha, és majestosa, tens renome, o céu e a terra... não... Tu rivalizas com An e Enlil, ocupas o seu assento de honra. Tu és preeminente nos lugares de culto, és magnífica na tua trajetória.
99-108: Acnan... estrado augusto... Ickur que ruge do céu... As suas nuvens espessas... Quando... os grandes poderes divinos do céu e da terra, Inana, a tua vitória é aterradora... Os deuses Anuna curvam-se em prostração, eles humilham-se. Tu cavalgas sobre sete grandes feras ao emergires do céu. O grande An temeu o teu recinto e ficou assustado com a tua morada. Ele permitiu que tomasses lugar na morada do grande An e então não te temeu mais, dizendo: "Entregar-te-ei os ritos reais augustos e os grandes ritos divinos."
109-114: Os grandes deuses beijaram a terra e prostraram-se. A terra das montanhas altas, a terra da cornalina e do lápis-lazúli, curvou-se perante ti, mas Ebih não se curvou nem te saudou. Despedaçando-a na tua ira, conforme desejado, esmagaste-a como uma tempestade. Senhora, preeminente pelo poder de An e Enlil, ... Sem ti, destino algum é determinado, nenhum conselho astuto recebe favor.
115-131: Correr, escapar, sossegar e pacificar são teus, Inana. Vagar, apressar-se, erguer-se, cair e... um companheiro são teus, Inana. Abrir estradas e caminhos, um lugar de paz para a jornada, um companheiro para os fracos, são teus, Inana. Manter trilhos e vias em boa ordem, despedaçar a terra e torná-la firme são teus, Inana. Destruir, edificar, arrancar e estabelecer são teus, Inana. Transformar um homem em mulher e uma mulher em homem são teus, Inana. O desejo e a excitação, os bens e a propriedade são teus, Inana. O ganho, o lucro, a grande riqueza e a riqueza ainda maior são teus, Inana. Obter fortuna e ter sucesso na abundância, a perda financeira e a escassez são tuas, Inana. A observação (ou tudo), a escolha, a oferenda, a inspeção e a aprovação são tuas, Inana. Atribuir a virilidade, a dignidade, os anjos da guarda, as divindades protetoras e os centros de culto são teus, Inana. (6 versos fragmentários)
132-154: ... a misericórdia e a piedade são tuas, Inana. ... são teus, Inana. Fazer o... coração tremer, ... as doenças são tuas, Inana. Ter uma mulher, ..., amar ... são teus, Inana. Jubilar, controlar (?), ... são teus, Inana. A negligência e o cuidado, o erguer e o curvar são teus, Inana. Construir uma casa, criar o quarto de uma mulher, possuir utensílios, beijar os lábios de uma criança são teus, Inana. Correr, competir, desejar e triunfar são teus, Inana. Intercambiar o bruto e o forte, e o fraco e o impotente, é teu, Inana. Intercambiar os altos e os vales, e o... e as planícies (?), é teu, Inana. Dar a coroa, o trono e o cetro real é teu, Inana. (12 versos em falta)
155-157: Diminuir, engrandecer, rebaixar, alargar, ... e dar uma provisão generosa são teus, Inana. Conceder os ritos divinos e reais, executar as instruções apropriadas, a calúnia, as palavras mentirosas, o abuso, o falar com inimizade e o exagero são teus, Inana.
158-168: A resposta falsa ou verdadeira, o escárnio, cometer violência, prolongar o derriso, falar com hostilidade, provocar o sorriso e ser humilhado ou importante, o infortúnio, a adversidade, o luto, fazer feliz, clarificar e obscurecer, a agitação, o terror, o medo, o esplendor e a grande imponência no brilho, o triunfo, a perseguição, a doença imbasur, a insónia e a inquietação, a submissão, a dádiva, ... e o uivo, a contenda, o caos, a oposição, a luta e a carnificina, ..., saber tudo, fortalecer para o futuro distante um ninho construído..., incutir medo no... deserto como uma... serpente venenosa, subjugar o inimigo hostil, ... e odiar... são teus, Inana.
169-173: ... os quinhões..., reunir o povo disperso e restaurá-lo nas suas casas, receber..., ... são teus, Inana. (1 verso fragmentário)
174-181: ... os mensageiros, quando abres a tua boca, ... transforma-se em ... Ao teu olhar, um surdo não... àquele que consegue ouvir. Ao teu clarão irado, o que é brilhante escurece; transformas o meio-dia em trevas. Quando chegou o momento, destruíste o lugar que tinhas nos teus pensamentos, fizeste o lugar tremer. Nada se pode comparar aos teus desígnios (?); quem pode opor-se aos teus grandes feitos? Tu és a senhora do céu e da terra! Inana, no (?) palácio, és a juíza subornável, entre o povo numeroso... as decisões. A invocação do teu nome preenche as montanhas, An (?) não pode competir com o teu...
182-196: A tua compreensão... todos os deuses... Tu, sozinha, és magnífica. Tu és a grande vaca entre os deuses do céu e da terra, tantos quantos existam. Quando ergues os teus olhos, eles prestam-te atenção, esperam pela tua palavra. Os deuses Anuna permanecem em oração no lugar onde habitas. Grande imponência, glória... Que o teu louvor não cesse! Onde não é o teu nome magnífico? (9 versos em falta)
197-202: A tua canção é luto, lamento.... O teu... não pode ser alterado, a tua ira é esmagadora. A tua criação não pode ser..., An não diminuiu as tuas... ordens. Mulher, com a ajuda de An e Enlil, tu (?) concedeste... como uma dádiva na assembleia. Em uníssono... An e Enlil..., entregando a Terra na tua mão. An não responde à palavra que lhe dirigiste.
203-208: Uma vez que tenhas dito «Que assim seja», o grande An não... por ele. O teu «Que assim seja» é um «Que assim seja» de destruição, para destruir....... Uma vez que tenhas proferido o teu...... na assembleia, An e Enlil não o dispersarão. Uma vez que tenhas tomado uma decisão......, esta não pode ser alterada no céu nem na terra. Uma vez que tenhas aprovado um lugar, este não conhecerá a destruição. Uma vez que tenhas determinado a destruição de um lugar, este não conhecerá a aprovação.
209-218: A tua divindade brilha nos céus puros como Nanna ou Utu. A tua tocha ilumina os confins do céu, transformando as trevas em luz. ... com fogo. O teu... refinando... caminha como Utu à tua frente. Ninguém pode pôr a mão sobre os teus preciosos poderes divinos; todos os teus poderes divinos... Tu exerces plena soberania sobre o céu e a terra; tens tudo na tua mão. Senhora, tu és magnífica, ninguém pode caminhar à tua frente. Tu habitas com o grande An no sagrado lugar de repouso. Que deus é como tu a reunir... no céu e na terra? Tu és magnífica, o teu nome é louvado, tu sozinha és magnífica!
219-242: Eu sou Enheduanna, a alta sacerdotisa do deus da lua. ...; eu sou a... de Nanna. (22 versos em falta ou fragmentários)
243-253: Conselho..., luto, amargura..., «ai de mim»... Minha senhora, ... misericórdia... compaixão... Eu sou tua! Assim será sempre! Que o teu coração se acalme para comigo! Que a tua compreensão... compaixão. Que... diante de ti, seja a minha oferenda. A tua divindade é resplandecente na Terra! O meu corpo experimentou a tua grande punição. O lamento, a amargura, a insónia, a aflição, a separação..., a misericórdia, a compaixão, o cuidado, a clemência e a homenagem são teus, assim como causar a inundação, abrir o solo duro e transformar as trevas em luz.
254-263: Minha senhora, deixa-me proclamar a tua magnificência em todas as terras, e a tua glória! Deixa-me louvar os teus caminhos e a tua grandeza! Quem rivaliza contigo em divindade? Quem se pode comparar aos teus ritos divinos? Que o grande An, a quem amas, diga por ti: «É suficiente!». Que os grandes deuses acalmem o teu ânimo. Que o estrado de lápis-lazúli, digno da soberania, ... Que a tua magnífica morada te diga: «Senta-te». Que o teu leito puro te diga: «Relaxa». O teu..., onde Utu se levanta, ...
264-271: Eles proclamam a tua magnificência; tu és a senhora... An e Enlil determinaram um grande destino para ti em todo o universo. Eles concederam-te a soberania no gu-ena. Sendo talhada para a soberania, tu determinas o destino das damas nobres. Senhora, tu és magnífica, tu és grande! Inana, tu és magnífica, tu és grande! Minha senhora, a tua magnificência é resplandecente. Que o teu coração seja restaurado por minha causa!
272-274: Os teus grandes feitos são inigualáveis; a tua magnificência é louvada! Jovem mulher, Inana, é doce louvar-te!
