O explorador espanhol Hernando de Soto (cerca de 1500-1542) desembarcou na costa oeste da Florida a 30 de maio de 1539, na esperança de encontrar reinos abastados para conquistar e pilhar. A sua tripulação viajou durante mais de quatro anos pelo sudeste da América do Norte, assolando as populações locais, mas acabou por regressar a casa de mãos vazias. Descobriram que a região estava repleta de dezenas de sociedades agrícolas robustas, contudo não encontraram estados ricos e deslumbrantes para subjugar.
Hernando de Soto
Nascido em Jerez de los Caballeros, na Estremadura espanhola, Hernando Mendez de Soto era o segundo filho de pais abastados. Uma vez que o irmão mais velho herdaria o património familiar, teve de construir a sua própria carreira. Aos 14 anos, de Soto partiu para a América Central como pajem do primeiro governador do Panamá, Pedrarias Dávila. Como representante de Dávila, explorou a Costa Rica e as Honduras à procura de tesouros e terras. Conquistou a Nicarágua em 1524 e foi nomeado alcaide, ou autarca, de León. Em 1530, de Soto juntou-se à expedição de Francisco Pizarro (1478-1541) ao Peru. Desempenharia um papel importante na conquista dos Incas e receberia a terceira maior parte da riqueza saqueada, logo a seguir a Francisco Pizarro e ao seu irmão Hernando. De Soto foi o primeiro europeu a entrar em Cuzco, a capital do Império Inca.
Agora um homem muito rico, de Soto regressou a casa em 1536 e casou com Isabel de Bobadilla, filha de Dávila. Apesar de casado e uma bela casa em Espanha, de Soto sentia-se inquieto. Queria ser um governador como Pizarro. Em 1537, o rei Carlos I de Espanha (também conhecido como Carlos V, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico) concedeu a de Soto um asiento para invadir e colonizar a Florida, sendo-lhe concedidos quatro anos para conquistar os «índios» e para selecionar 200 léguas de costa para o seu domínio pessoal.
As Explorações na Florida
Tinham ocorrido duas explorações anteriores na Florida. Em 1513, Juan Ponce de León (1460-1521) liderou a primeira; aportando na costa leste da Florida, mapeou a costa atlântica até aos Florida Keys e para norte ao longo da costa do Golfo. Deixou a Florida em 1514, regressou brevemente a Porto Rico e depois seguiu para Espanha. A segunda expedição foi liderada por Pánfilo de Narváez (cerca de 1470-1528) em 1527, com o objetivo de estabelecer povoações e guarnições na Florida. Esta missão falhou miseravelmente. O próprio Narváez morreu em 1528 e apenas quatro membros do seu grupo de 600 homens regressaram. Os quatro conseguiram chegar à Nova Espanha após terem sido mantidos cativos por ameríndios e de terem deambulado pelo sudoeste dos EUA e pelo norte do México durante oito anos.
A Viagem de de Soto
A 7 de abril de 1538, de Soto e 650 homens partiram de Sevilha, em Espanha, rumo a Havana, Cuba, de onde saíram em maio de 1539 em direção à Florida. A expedição incluía cavaleiros, soldados de infantaria, artesãos, padres, carpinteiros navais e escribas, bem como 200 cavalos e um grande rebanho de porcos. De Soto desembarcou na costa oeste da Florida, no domínio ameríndio de Ocita, provavelmente na zona da Baía de Tampa. Durante os meses seguintes, a expedição explorou a área em redor do local de desembarque, viajando depois para norte e noroeste até Anhayca, a principal cidade do território indígena Apalachee, situada nos arredores de Tallahassee.
Esta exploração inicial estabeleceu o padrão para toda a missão de de Soto. Naquela época, o sudeste dos EUA estava repleto de muitos domínios tribais de agricultores diferentes. De Soto viajava de uma comunidade indígena para outra seguindo trilhos locais e acampava perto de aldeias onde pudessem ser encontrados armazéns de milho. Ali, exigia que os líderes locais lhe dissessem onde poderia encontrar ouro, prata ou quaisquer outros objetos preciosos. De Soto não levava provisões alimentares além dos porcos (que raramente abatia) e o seu exército alimentava-se do milho retirado aos aldeões, deixando-os frequentemente em risco de fome. Também capturou dezenas de homens, mulheres e crianças locais para transportarem equipamento e mantimentos, realizarem tarefas no acampamento e satisfazerem quaisquer outras necessidades que o exército pudesse ter. Qualquer resistência trazia um castigo célere e cruel.
Numa das suas primeiras incursões a partir de Ocita para explorar o território, o exército de de Soto encontrou um espanhol, Juan Ortiz, que fizera parte da expedição de Narváez e fora mantido cativo pelos Apalachee durante cerca de dez anos. Ortiz forneceu a de Soto informações estratégicas sobre a zona da Baía de Tampa e desempenharia um papel crítico como interprete/tradutor.
De Soto e os seus homens passaram o inverno de 1539-1540 em Anhayca e em várias povoações próximas. Aqui fizeram cem cativos, puseram-nos em correntes com coleiras ao pescoço e obrigaram-nos a carregar bagagem e a moer milho para alimentar o exército. Na primavera, os exploradores seguiram para norte, em direção à Geórgia, com os seus escravos e serpentearam pela Carolina do Sul, Carolina do Norte e Tennessee, antes de seguirem para sudoeste, através do canto noroeste da Geórgia até ao centro do Alabama. Ali encontraram a cidade de Mabila, fortemente cercada por paliçadas, onde foram atacados pelos guerreiros do Chefe Tuskaloosa. Seguiu-se uma batalha feroz de um dia inteiro, na qual morreram 22 espanhóis e 148 ficaram feridos; no entanto, os ameríndios sofreram o maior impacto da batalha, perdendo entre 2.500 a 3.000 homens.
A expedição permaneceu em Mabila durante cerca de um mês para recuperação dos feridos. De Soto e o seu exército viajaram depois para as terras dos Chickasaw, onde acamparam durante o inverno de 1540-41. Pelo caminho, entraram em contacto com vários outros grupos indígenas, incluindo os Ichisi, Ocute, Cofitachequi, Coosa e Tuscaluza. Estes grupos eram todos subordinados a um chefe — sociedades maioritariamente sem classes, com um chefe que tomava as decisões principais. Todos construíam montículos de terra imponentes para atividades cerimoniais e cultivavam milho nas várzeas dos rios.
Em Chickasaw, em 1540-41, de Soto e o seu exército passaram um inverno muito difícil e gélido, não tinham abrigo adequado e as suas roupas estavam gastas e eram escassas. Além disso, os Chickasaw mantiveram-nos constantemente em sobressalto, travando uma guerra de guerrilha contra eles, dia e noite. As relações tornaram-se particularmente tensas quando de Soto se preparava para partir, na primavera, e exigiu 200 carregadores para os servirem nas suas viagens. Pouco antes do amanhecer de 4 de março, o dia em que a expedição planeava partir, centenas de Chickasaw atacaram os espanhóis e incendiaram o acampamento. Doze espanhóis, 59 cavalos e centenas de porcos morreram no ataque. Desconhece-se o número de baixas entre os Chickasaw.
Após um período de recuperação, a expedição avançou rumo a noroeste, atravessando os domínios de Alibamu e Quizquiz; foi durante este percurso que avistaram, pela primeira vez, o Rio Mississípi. Ali construíram jangadas para atravessar o majestoso rio e, durante a travessia, foram saudados por gentes do território dos Aquixo. Estes chegaram numa frota de 200 canoas, cada uma transportando cem guerreiros decorados com tintas coloridas e penas. O seu líder presenteou de Soto com peixe e pães de ameixa, afirmando representar o chefe de Pacaha, cuja província ficava mais a montante. De Soto rejeitou esta tentativa de amizade ao ordenar aos seus besteiros que disparassem sobre os visitantes, forçando-os a retirar-se, embora não sem antes fazerem gestos de desdém.
Depois de atravessarem o rio, de Soto e a expedição viajaram pelo centro do Arkansas e encontraram os territórios de Casqui, Pacaha, Quiguate, Coligua, Cayas e Tula. Nesta região, entraram nas franjas territoriais das Grandes Planícies, onde as populações locais eram caçadores de bisontes. Os Casqui foram muito acolhedores e ofereceram aos espanhóis comida e peles de bisonte como presentes, apesar de estarem a sofrer devido a uma seca prolongada. O Chefe de Casqui também ofereceu a sua filha a de Soto em casamento, afirmando que o seu maior desejo era unir o seu sangue ao de um líder tão grande como ele. Quando os sacerdotes da expedição falaram aos Casqui sobre o seu Deus cristão, o chefe implorou-lhes que rezassem para que chovesse. De Soto mandou erguer uma grande cruz no montículo do seu templo e os sacerdotes realizaram uma cerimónia religiosa. Incrivelmente, choveu no dia seguinte. Encorajados, os Casqui instaram os espanhóis a juntarem-se-lhes num ataque ao território rival de Pacaha, alegando que estes possuíam ouro. Uma força combinada de soldados espanhóis e guerreiros Casqui derrotou a principal cidade de Pacaha, mas os espanhóis não encontraram ouro algum.
De Soto e o seu exército continuaram a viagem e chegaram, no início de novembro, a Autiamque, situada na margem sul do Rio Arkansas, entre Little Rock e Pine Bluff. Ali passaram outro inverno gélido, durante o qual ficaram completamente retidos pela neve durante um mês. Por esta altura, já tinham morrido 250 dos seus homens bem como 150 cavalos. O seu intérprete, Juan Ortiz, também faleceu nesse inverno e, a partir deste momento, a comunicação com os povos indígenas tornou-se extremamente difícil.
A expedição partiu de Autiamque no início de março de 1542 e viajou para o território de Anilco, situado ao longo do Rio Arkansas, logo acima da sua confluência com o Mississípi. Anilco era um dos domínios mais densamente povoados que de Soto encontrou na sua viagem. Tornando-se cada vez mais frustrado com o estado do seu exército e com o fracasso na procura de ouro, de Soto enviou uma mensagem ao chefe local, exigindo que ele comparecesse e prestasse tributo. Quando o chefe recusou, de Soto teve um acesso de fúria e ordenou um ataque brutal, massacrando centenas de homens, mulheres e crianças.
Pouco antes do ataque, de Soto adoeceu com febre e não pôde liderá-lo. Morreu alguns dias depois, aos 42 anos, e Luis Moscoso de Alvarado sucedeu-lhe como capitão-geral. Desejando ocultar a morte de de Soto aos ameríndios, uma vez que estes tinham sido levados a acreditar que ele era imortal, os espanhóis envolveram o corpo de de Soto em xailes pesados com areia e, sob o manto da escuridão, afundaram-no no Rio Mississípi.
O Regresso da Expedição
Após a morte de de Soto, os restantes membros da expedição debateram a forma de chegar à Nova Espanha (México) e terminar a missão. Poderiam escapar por terra ou por rio. Primeiro escolheram a rota terrestre, mas logo abandonaram esta abordagem, pois tiveram dificuldade em encontrar milho suficiente para se sustentarem ao longo do caminho. Regressaram ao Mississípi e escolheram como ponto de partida Aminoya, onde existiam duas cidades cercadas por paliçadas. Mudaram-se para uma delas e demoliram a outra para construir os navios.
Na manhã de 2 de julho, começaram a descer o rio. Além da corrente, cada embarcação era impulsionada por sete pares de remos e por uma vela que se desenrolava quando o vento era favorável. O progresso foi rápido e percorreram 77 quilómetros (48 milhas) no primeiro dia, antes de fundearem para passar a noite perto da foz do Rio Arkansas.
No dia seguinte, chegaram a Huhasene, sob o domínio do chefe Quigualtam, e expropriaram um grande suprimento de milho dos celeiros da aldeia. Isto enfureceu o chefe e, na manhã seguinte, atacou os espanhóis com uma frota de cem grandes canoas de guerra. Os guerreiros continuaram o ataque durante todo o dia e por toda a noite, com os espanhóis a fugirem rio abaixo o mais rápido que conseguiam. Finalmente, por volta do meio-dia de 5 de julho, Quigualtam ordenou que as canoas voltassem para trás, pois teriam aparentemente chegado ao fim do seu território. Mal este ataque terminou, outro chefe enviou uma segunda frota de 50 grandes canoas para os confrontar. Esta perseguição durou mais um dia e uma noite até que estes combatentes finalmente desistiram da investida.
Nesta fase, já perto da atual cidade de Natchez, os espanhóis foram finalmente deixados em paz, provavelmente por já não estarem a passar pelo território de nenhum outro chefe tribal poderoso. Moscoso e os seus homens chegaram à foz do Rio Mississípi 12 dias depois, tendo percorrido entre 640 a 800 quilómetros (400-500 milhas fluviais). Dali, navegaram e remaram ao longo da costa do Golfo e, 53 dias mais tarde, a 10 de setembro de 1543, chegaram à foz do Rio Pánuco, no México, onde existia uma povoação espanhola. Aqui terminou a expedição de de Soto, após quatro anos e quatro meses, e com cerca de metade do exército. Os exploradores tinham caminhado, cavalgado e navegado bem mais de 8.000 quilómetros.
O Significado da Expedição de De Soto
Na época, a expedição de de Soto foi considerada um fracasso, uma vez que não encontraram uma sociedade de nível estatal com reservas de metais preciosos e pedras preciosas como as que possuíam o Império Inca e a civilização Asteca. O interesse espanhol na região diminuiu, ficando a cargo de França e Inglaterra, em meados do século XVII, a prossecução de desígnios imperiais na zona. Independentemente disso, a expedição de de Soto foi bem-sucedida de várias formas. Expedições subsequentes ao interior do sudeste durante a segunda metade do século XVI e seguintes basearam-se fortemente no conhecimento gerado por esta expedição
Foi a expedição de de Soto a primeira a conseguir penetrar e explorar as vastas áreas do interior do sudeste dos Estados Unidos. Como os primeiros europeus a verem o interior do continente, a expedição de de Soto é comparável em importância à Expedição de Coronado (1540-42), que explorou o oeste dos Estados Unidos. Os relatos escritos da viagem contêm as únicas descrições das pessoas que habitavam a região antes do contacto europeu. Além disso, os relatórios da expedição sobre a terra ajudaram, mais tarde, a estimular a colonização.
(De Soto Trail [O Trilho de De Soto], pág. 14)
A expedição de de Soto é também historicamente importante porque os participantes observaram e deixaram um registo de muitas sociedades indígenas enquanto estas ainda estavam intactas. Estas sociedades tinham construído grandes centros de montículos e eram horticultores especialistas que cultivavam milho, feijão e abóbora em quantidades suficientes para sustentar populações consideráveis. No entanto, estas sociedades começavam a ter dificuldades, perturbadas pela instabilidade interna e pela competição externa, e estavam a começar a fraturar-se e a recombinar-se. Os seus números populacionais foram também grandemente dizimados pelas doenças que lhes foram transmitidas pela longa e extensa expedição de de Soto.
Quando os europeus voltaram a explorar o interior do sudeste no final do século XVII, descobriram que muitos dos grandes domínios tribais tinham colapsado, as sociedades construtoras de montículos tinham desaparecido na sua maioria e os sobreviventes tinham começado a aglutinar-se nos grupos históricos do século XVIII, que incluíam os Creeks, Choctaws, Chickasaws, Cherokees e Catawbas.

