A expedição Drake-Norris, de abril a julho de 1589, também conhecida como a Expedição de D. António, Armada Inglesa ou Expedição de Portugal, foi uma tentativa fracassada de uma vultosa força naval e militar inglesa para destruir os galeões remanescentes da Armada Espanhola de Filipe II de Espanha (reinou 1556-1598); restaurar D. António como rei de Portugal; e capturar os galeões da frota do tesouro espanhola nos Açores. A expedição contou com um financiamento misto, privado e estatal, e foi liderada por Sir Francis Drake (cerca de 1540-1596) e Sir John Norris (também conhecido como Norreys, cerca de 1547-1597), daí o seu nome. Nem todas as partes concordavam com os três objetivos da expedição: Drake e Norris ignoraram os galeões da Armada; Isabel I de Inglaterra (reinou 1558-1603) ficou indignada pelo facto de Lisboa ter sido atacada por terra e mar; e, quando os ingleses foram repelidos pelas forças espanholas, já era demasiado tarde para intercetar os galeões do tesouro. Um fracasso desolador com milhares de mortos em combate e por doença, a frota inglesa regressou a casa com pouco para mostrar pelos seus esforços enormemente dispendiosos, e a guerra anglo-espanhola arrastou-se até 1604.
Os Objetivos Múltiplos
Após a derrota da Armada Espanhola em 1588, usada por Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal) na esperança de invadir Inglaterra, que Isabel I desejou aproveitar a vantagem destruindo os galeões da Armada que restavam e que se encontravam agora imobilizados em portos espanhóis. Os principais capitães de mar de Isabel há muito que pressionavam a rainha, sempre cautelosa, a conduzir a guerra com os espanhóis até à sua própria porta. Em outubro de 1588, Isabel foi finalmente convencida e investiu 49 000 libras e sete galeões de alto bordo reais num projeto que misturava financiamento estatal e privado para reunir uma vultosa frota de ataque. Os capitães acreditavam que a destruição dos galeões de Filipe, que estavam a ser reparados mas poderiam ser utilizados para outra invasão, forçaria o rei espanhol a pedir termos de paz. Entretanto, os investidores privados e a rainha consideravam a captura dos galeões do tesouro espanhóis, e possivelmente de uma ou mais ilhas dos Açores por onde estes passavam, como o melhor retorno para os seus investimentos. Finalmente, homens como Drake e Norris ambicionavam tanto o saque como a glória, e pensavam que o saque de Lisboa e a restauração do rei deposto, D. António, no seu trono levariam à conquista das riquezas daquele país. Esta mistura de interesses, imposta pela incapacidade da Coroa Inglesa em financiar a expedição inteira sozinha, fez com que a missão tivesse objetivos confusos, sendo o primeiro elo de uma cadeia de eventos que resultaria apenas no baú vazio do fracasso.
Apesar de tudo, a frota inglesa era impressionante, com 130 a 150 navios e pelo menos 15 000 homens (alguns historiadores elevam o número para os 23 000). Na verdade, a possibilidade de saque fácil foi um fator determinante para que o recrutamento da expedição fosse um enorme sucesso; o dobro dos homens necessários voluntariou-se, tornando todo o empreendimento um assunto muito maior do que o originalmente pretendido. Estes números extra colocariam uma pressão insuportável sobre os mantimentos necessários para uma força tão numerosa. Os seus líderes eram igualmente impressionantes. Sir Francis Drake era talvez o maior marinheiro da história de Inglaterra até àquele momento. Tinha capturado muitas embarcações espanholas como corsário, atacara memoravelmente Cádis em 1587 e enviara os brulotes (navios de fogo) que tanto desconcertaram a Armada Espanhola no ano seguinte. Além de tudo isso, Drake tinha circumnavegado o globo em 1577-80. O marinheiro, um dos homens mais ricos de Inglaterra graças às suas façanhas como corsário, investiu 5 000 libras da sua própria fortuna no projeto. Sir John Norris, por outro lado, possuía uma vasta experiência no comando de exércitos terrestres na Irlanda, França e Países Baixos. Norris foi um inovador e organizou, pela primeira vez, um exército inglês em regimentos. Esta parecia ser a combinação perfeita de almirante e general. Qualquer coisa que não fosse o sucesso para uma expedição liderada por tais homens era, naquele momento, impensável.
A frota, que incluía muitas embarcações de transporte holandeses (Fluyts e Urcas), partiu para Espanha com grandes expectativas em abril de 1589. A partida original estava planeada para fevereiro, mas houve atrasos na mobilização das tropas das campanhas nos Países Baixos. Estes atrasos colocaram ainda mais pressão sobre as necessidades logísticas do projeto. Drake liderou a flotilha no seu navio-almirante favorito, o Revenge, que prestara um serviço tão excecional contra a Armada Espanhola no ano anterior.
A Corunha
Ao chegar a águas espanholas, Drake ignorou as instruções da sua rainha e evitou os alvos identificados no Golfo da Biscaia. O marinheiro alegaria mais tarde que não atacara mais a oriente porque o clima e as condições marítimas locais teriam dificultado uma fuga rápida após uma incursão. Em vez disso, o alvo mais fácil da Corunha foi atacado durante um período de duas semanas, mas foi apenas parcialmente capturado., uma vez que a parte alta da cidade, bem fortificada, resistiu ao assalto, e a falta de artilharia de cerco no exército atacante revelou-se decisiva (Isabel I tinha hesitado perante o custo desta). O exército terrestre inglês acabou por se distrair bastante quando deparou com as adegas da cidade; saqueando a parte baixa da cidade, 2 000 ingleses regressaram a Inglaterra mais do que satisfeitos com os seus esforços e sem qualquer preocupação com os objetivos mais amplos da expedição. Este era o problema de utilizar exércitos privados e não estatais; assim que os soldados privados encontravam o saque pelo qual se tinham alistado, consideravam terminada a sua participação na campanha.
Entretanto, 40 a 50 galeões, naus e urcas espanhóis jaziam imobilizados e provavelmente indefesos noutros portos espanhóis mais a oriente, como San Sebastián e Santander. É verdade que a península da Madalena, que protegia Santander, estava eriçada com cinco fortalezas, o que constitui outra razão pela qual Drake possa ter hesitado em atacar ali. A Corunha, em contraste, era um alvo mais fácil, mas protegia apenas três embarcações espanhóis (um galeão, uma nau e um urca). Parece agora claro, com o benefício da retrospetiva, que Drake e Norris não andavam, de qualquer modo, atrás dos navios da Armada, mas sim de uma presa muito mais rica, embora estrategicamente menos valiosa.
Lisboa
A frota restante navegou então para Portugal, onde foi lançado um ataque total a Lisboa, contrariando as instruções de Isabel I. A ideia de atacar simultaneamente a cidade fortificada por terra e por mar era boa, mas a sua execução exigia uma sincronização excelente, coordenação de tropas e comunicação constante entre os comandantes. Nada disto foi evidente na campanha. O primeiro erro, embora não inteiramente da responsabilidade dos comandantes, foi o desembarque do exército demasiado longe da cidade, obrigando-os a marchar uma distância considerável para atingir o objetivo. Tal significou que as defesas da cidade foram alertadas para o ataque (a incursão à Corunha também deve ter feito soar os alarmes) e os soldados ingleses já estavam fatigados antes mesmo dos combates começarem.
Crucialmente, os portugueses não se revoltaram em apoio a D. António, como se esperava. Lisboa era então governada por um Cardeal-Arquiduque, mas as suas crenças religiosas de forma alguma o impediram de forçar os habitantes portugueses a ajudarem os seus senhores espanhóis a manter os ingleses fora. A cidade resistiu à captura, ainda que alguns dos subúrbios periféricos de Lisboa tenham sido tomados pelo exército terrestre inglês. Carecendo de mantimentos suficientes para continuar e sem grande esperança de romper as defesas da cidade, o ataque a Lisboa foi abandonado. O exército de terra foi recolhido no rio Tejo para a retirada, mas, como a frota se encontrava em calmaria ao largo de Lisboa, 21 galés e galeaças sob comando espanhol atacaram os invasores, imobilizando ou afundando três naus inglesas. Pelo menos, Drake conseguiu capturar depois uma frota de 60 naus mercantes que tinham partido de Hamburgo, que foram úteis para transportar os feridos ingleses de volta a casa. Vigo, na costa atlântica espanhola, foi então atacada, e Drake pretendia provavelmente saquear mais portos inimigos, mas as tripulações resistentes estavam assoladas pela doença. Além disso, a chegada de tempestades separou a frota inglesa, o que obrigou Drake a abandonar o continente.
Por essa altura, era já demasiado tarde para intercetar os galeões do tesouro que atravessavam os Açores e, por isso, a expedição, apesar de um esforço simbólico para tomar uma das ilhas do meio do Atlântico, acabou por retirar ignominiosamente de volta a Inglaterra. Com mais alguns ataques menores a portos espanhóis no caminho de regresso, a expedição Drake-Norris trouxe apenas umas minguadas 30 000 libras em saque e 150 canhões. Não foi, de todo, um bom regresso perante o preço pago em homens, equipamento e reputação perdidos. Assolados pela guerra e pela doença, apenas cerca de 6 000 homens regressaram a Inglaterra em julho de 1589.
O Rescaldo
Todo este lamentável episódio prejudicou seriamente a reputação de Drake e demonstrou claramente que a mistura de controlo privado e estatal sobre uma força expedicionária apenas conduzia à confusão e à desunião. A rainha ficou indignada com Drake pelo ataque a Lisboa, pela falha total em atacar as embarcações da Armada e pelo fraco retorno financeiro. O velho marinheiro tornou-se, assim, um "homem de terra" e serviu tanto como presidente da câmara de Plymouth como seu membro do Parlamento. Norris, entretanto, lutou com sucesso na Bretanha, apoiando Henrique IV de França (reinou 1589-1610) contra os espanhóis, e regressou depois à Irlanda para esmagar a rebelião de Tyrone em 1595. A guerra anglo-espanhola continuou para além dos reinados de Isabel I e de Filipe II mas, ao longo da década seguinte, não haveria mais grandes expedições inglesas ao continente, à medida que a Inglaterra se concentrava em ataques de corsários a embarcações espanholas.
