Harald Bluetooth e a Conversão da Dinamarca

Irina-Maria Manea
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Na Escandinávia, o cristianismo espalhou-se, acima de tudo, graças ao apoio e incentivo dos governantes políticos no topo da sociedade. A conversão, definida aqui como as medidas tomadas por reis ou clérigos para introduzir a nova religião, não se processou da mesma forma em todos os países, que nem sequer estavam totalmente consolidados durante a Era Viking. A conversão da Dinamarca e da Suécia recorreu a menos força do que na Noruega. O dinamarquês Harald Dente Azul (Blåtand) Gormsson (cerca de 910 – cerca de 987), o rei com o dente estragado que a tecnologia de comunicação sem fios de curto alcance (Bluetooth) tornou famoso, foi batizado por volta de 960; já na Noruega, Olaf Tryggvasson (cerca de 960 – 1000) desencadeou uma conversão em grande escala cerca de 995, enquanto na Suécia, Olof Skötkonung (cerca de 980 – 1022) a aceitou por volta do ano 1000.

Jesus Christ Depicted on Jelling Stone
Jesus Cristo Representado na Pedra de Jelling National Museum of Denmark (CC BY-NC-SA)

A fim de ganhar poder sobre o norte, os imperadores francos incentivaram os missionários, especialmente os provenientes do arcebispado situado na atual Alemanha. Dada a sua influência na liturgia e na arquitetura eclesiástica medieval, os missionários da Inglaterra provavelmente também desempenharam um papel importante. As relações políticas entre os diferentes reis da Escandinávia também influenciaram o curso dos acontecimentos. Segundo Rimbert, arcebispo de Hamburgo-Bremen no século IX, o rei Olof, em Birka, recebeu uma mensagem do rei Horik da Dinamarca para permitir que o monge Ansgar introduzisse o cristianismo. Mais tarde, esse envolvimento parece ter continuado, uma vez que Canuto, rei tanto da Dinamarca como da Inglaterra (reinou 1016-1035), liderou campanhas em Götaland, onde poderá ter tentado difundir o cristianismo, dado que o seu código legal abordava em grande medida questões eclesiásticas. Por outras palavras, a cristianização foi resultado tanto de pressões externas como internas.

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Na Dinamarca, Harald Klak (cerca de 785 – cerca de 852) foi o primeiro rei dinamarquês a ser batizado, com o objetivo de obter o apoio de Luís, o Piedoso (reinou 813-840); no entanto, a sua contribuição para a conversão foi mínima. Por outro lado, Luís organizou as missões de Ansgar e de Ebo de Reims. O cristianismo começou a ganhar terreno graças a Harald Dente-Azul, cujo batismo também esteve ligado aos assuntos francos. Harald foi coroado em 958, e a sua conversão poderá ter ocorrido por volta de 960 ou mais tarde. Dados arqueológicos sugerem que ele removeu os restos mortais dos seus pais e retirou as pedras do navio que rodeavam os montículos, possivelmente um gesto que atestava a mudança de fé. Gradualmente, estabeleceu a sua nova sede em Roskilde e contribuiu para a construção da fortificação defensiva denominada Danevirke. Expandiu também uma rede de fortalezas, tais como Trelleborg, Aggersborg, Fyrkat ou Borgeby.

A Conversão de Harald

A Res Gestae Saxonicae sive Annalium Libri Tres (Crónica de Widukind), datada de cerca de 970, (traduzida para inlgês por trad. B. e D. Bachrach) relata como Harald ordenou a rejeição dos antigos deuses.

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No passado, os dinamarqueses eram cristãos, mas continuavam a adorar ídolos à sua maneira tradicional. Porém, surgiu então uma disputa na presença do rei, durante um banquete, sobre a adoração dos seus deuses. Os dinamarqueses afirmavam que Cristo era um deus. No entanto, alegavam que existiam outros deuses, mais poderosos, que se manifestavam ao povo através de sinais e prodígios ainda mais impressionantes. Contra isto, um certo clérigo chamado Poppo, que agora é bispo e leva uma vida religiosa, proclamou que existe um único Deus verdadeiro, o Pai, juntamente com o seu Filho unigénito, Jesus Cristo, e o Espírito Santo. As imagens, proclamou ele, eram de demónios e não de deuses. O rei Harald, de quem se diz que era rápido a ouvir mas lento a falar, perguntou se Poppo desejava demonstrar essa fé através da sua própria pessoa. Poppo respondeu sem hesitação que desejava fazê-lo. O rei ordenou então que o clérigo fosse colocado sob guarda até ao dia seguinte. Ao amanhecer, o rei ordenou que uma peça de ferro muito pesada fosse aquecida no fogo. Em seguida, ordenou ao clérigo que carregasse esse ferro incandescente em nome da sua fé católica. O confessor de Cristo agarrou o ferro sem qualquer medo e carregou-o até onde o rei tinha ordenado. O sacerdote mostrou então a todos a sua mão ilesa e deu prova a todos os presentes da sua fé católica. Em consequência, o rei tornou-se cristão e decretou que só Deus devia ser adorado. Ordenou a todos os seus súbditos que rejeitassem os ídolos e concedeu toda a honra devida aos sacerdotes e servos de Deus. Mas estes acontecimentos devem também ser atribuídos às virtudes e ao mérito do teu pai, graças aos esforços do qual as igrejas e as ordens sacerdotais brilharam nestas regiões.

(págs. 139-140).

A última frase refere-se a Otão I, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico (reinou 962–973), que no sínodo de Ingelheim tinha reivindicado o direito de supervisionar o desenvolvimento de uma organização diocesana na Dinamarca, sob a jurisdição dos arcebispos de Hamburgo-Bremen. Poppo, por outro lado, parece ter sido um colaborador do arcebispo Bruno de Colónia. A ênfase de Widukind no acontecimento milagroso que desencadeou a mudança de atitude de Harald pode ser explicada pelo seu percurso, uma vez que o autor foi educado no mosteiro beneditino de Corvey, na Saxónia, e, para além da Res gestae saxonicae (Os Feitos dos Saxões), também escreveu hagiografias.

Apesar da descrição religiosa de Widukind, é possível que Harald se tenha convertido apenas por motivos políticos.

Vestígios da história sobre o batismo de Harald após ter testemunhado o milagre de Poppo podem ser encontrados muito mais tarde em algumas sagas islandesas, por exemplo, na «Saga de Olaf Tryggvasson», da coleção «Heimskringla», pertencente ao poeta e historiador do século XIII Snorri Sturluson. Curiosamente, nesta saga, Harald é convertido por Otão II (reinou 973-983) juntamente com o Jarl Haakon da Noruega (cerca de 937-995), com o pedido de cristianizar toda a população; no entanto, passado algum tempo, voltou a realizar incursões e a praticar sacrifícios. Isto vem sublinhar a ideia de que a fé era um conceito bastante volátil na época e que a religião era, antes, uma afiliação formal.

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Apesar da descrição religiosa de Widukind, Harald pode simplesmente ter sido motivado por razões políticas a converter-se e a impedir que o imperador romano-germânico invadisse a Dinamarca usando a cruzada como pretexto. A cultura clerical que se estava a desenvolver no Sacro Império Romano-Germânico e a exaltação sagrada do imperador também podem ter levado os governantes pagãos a interessarem-se mais pela conversão, como forma de obter maior autoridade.

Embora Widukind fosse contemporâneo de Harald e de Otto, o cronista Adão de Bremen, que reconta a história, viveu cem anos mais tarde e tem uma perspetiva diferente. Adão descreve que o imperador combateu os dinamarqueses, e a invasão é explicada como uma consequência do assassinato dos legados e do margrave de Otão, bem como da destruição de uma colónia de saxões. Otão devastou então a região de Schleswig até Kattegat e deparou-se com Harald. Após a derrota dos dinamarqueses, é-nos dito que

Harold se submeteu a Otto e, ao recuperar o seu reino das mãos deste último, prometeu introduzir o cristianismo na Dinamarca. Pouco tempo depois, o próprio Harold foi batizado juntamente com a sua esposa, Gunnhild, e o seu filho pequeno, a quem o nosso rei ergueu da pia batismal e batizou de Svein Otto. Naquela época, a Dinamarca deste lado do mar, que é chamada de Jutlândia pelos habitantes, estava dividida em três dioceses e sujeita ao bispado de Hamburgo. Na igreja de Bremen conservam-se os editais reais que comprovam que o rei Otto mantinha o reino dinamarquês sob a sua jurisdição, a tal ponto que chegava mesmo a conceder os bispados.
(Adão de Bremen 1959, pág. 56)

Adão prossegue falando de como o Papa Agapeto (pontificado 946-955) felicitou a igreja de Hamburgo e concedeu a Adaldag, arcebispo entre 937 e 988, o direito de consagrar bispos como legados papais para a Dinamarca e outras regiões do norte. Harald terá permanecido um defensor do cristianismo, mas, ao ser derrotado numa rebelião a favor do seu filho Sweyn Forkbeard, viu-se obrigado a procurar refúgio entre os eslavos, onde veio a falecer. Adão expressa a sua simpatia por Harald, desejando que este recebesse a coroa do martírio. De acordo com este relato, o seu corpo foi levado para Roskilde e sepultado na igreja que ele próprio tinha construído em honra da Santíssima Trindade.

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Baptism of Harald Bluetooth
Baptismo de Harald Bluetooth Anagoria (CC BY)

Adão de Bremen, autor da Gesta Hammaburgensis ecclesiae pontificum (Feitos dos Bispos da Igreja de Hamburgo), pode ter apresentado um relato diferente da conversão, com o objetivo propagandístico de elogiar a obra do arcebispado. Estava disposto a exagerar o papel que Hamburgo desempenhou na conversão, chegando mesmo a torná-la palco de uma incursão nórdica em 845, quando a cidade mal estava habitada. Na altura em que escreveu, Hamburgo lutava para manter a sua área de influência, pelo que há sérias razões para duvidar do seu relato. Segundo Adão, Harald foi batizado em consequência de uma guerra, e todos estes acontecimentos teriam ocorrido antes de 948, quando os bispos de Slesvig, Ribe e Aarhus foram nomeados em Ingelheim; no entanto, a invasão relatada por Adão nunca teve lugar (Lund, pág. 305). A batalha a que se refere foi travada entre Harald e Otão II, seguida, em 983, por uma invasão de Hamburgo com aliados eslavos.

Infelizmente, Adão de Bremen atribui demasiado crédito a Harald, alegando uma data precoce para a sua conversão e um papel decisivo de Hamburgo-Bremen, que mantinha uma relação conflituosa com Colónia na altura. Outros pormenores, tais como a fuga de Harald para junto dos eslavos pagãos e o facto de o seu corpo ter sido levado de volta para uma igreja ainda não localizada, sublinham a inadequação da história de Adão. Além disso, a sua tentativa de transformar o filho num vilão é enganadora, uma vez que, durante os ataques à Inglaterra no final do século X, este teve bastante sucesso a extorquir dinheiro (Danegeld) aos habitantes locais, em vez de sofrer um terrível exílio. (Lund, pág. 307).

O Monumento de Harald

Para além destas fontes, uma das duas pedras rúnicas de Jelling confirma o papel fundamental de Harald na conversão dos dinamarqueses. Erigida em 965, esta pedra proclama as conquistas do rei e expressa uma ideologia de poder: «O rei Harald mandou erguer este monumento em memória de Gorm, seu pai, e de Thyra, sua mãe. Aquele Harald que conquistou para si toda a Dinamarca e a Noruega e tornou os dinamarqueses cristãos» (Price, pág. 277). Embora isto possa ser visto como um exagero, foi um passo decisivo para uma maior conversão, uma vez que o batismo de um magnata catalisou o processo. Além disso, os monumentos em Jelling, que incluem elementos tanto pagãos como cristãos, sugerem antes uma transição suave e híbrida do que o recurso à força militar.

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As pedras rúnicas não eram apenas monumentos erguidos em memória de alguém querido por quem tinha meios para o fazer, mas também podiam moldar um panorama político, como sugere o caso de Jelling. Os patrocinadores abastados que investiam em pedras grandes e pintadas com cores vivas estavam a enviar uma mensagem de poder e influência. As testemunhas dinamarquesas teriam reconhecido o esforço e ficado impressionadas com a exibição.

The Jelling Stones
As Pedras de Jelling Bjørn Giesenbauer (CC BY-SA)

A pedra mais pequena pertence ao pai de Harald, Gorm, o Velho, que a erigiu em honra da sua esposa Thyra antes de 958. A pedra maior, para além da inscrição acima mencionada, contém duas imagens impressionantes: uma com a figura de uma serpente e a outra com Cristo crucificado. Para além das pedras, o complexo inclui dois túmulos e uma igreja de madeira. O túmulo na igreja de madeira do Monte Norte continha os ossos de um homem que se pensa ser o próprio Gorm, enterrado novamente na câmara funerária da igreja, escavada na década de 1970. Este acontecimento teria representado uma declaração muito clara da intenção de Harald de cristianizar a região, começando pelo seu pai. Além disso, em consonância com uma tradição pré-cristã, costumava haver uma representação de um navio e uma cerca em torno destes elementos.

A diferença mais importante entre as pedras é que Harald transformou a sua num símbolo de auto-glorificação. Quando outros magnatas se reuniam em Jelling para discutir com o rei ou resolver disputas, teriam sido recebidos especialmente pelo marco de Harald. Ele queria apresentar-se como o novo rei cristão, distinguindo-se do seu pai. Afinal, ser cristão por volta do ano 1000 era um pré-requisito para qualquer Estado que desejasse participar na política internacional, e Harald enfatizou a transição política do mundo e da mentalidade pagãos para o mundo cristão. As outras afirmações de Harald na inscrição relativas à unificação da Dinamarca e à expansão para a Noruega são, muito provavelmente, precisas, e ele aumentou consideravelmente a sua autoridade real e expandiu o seu reino. A sua ruptura com o paganismo, voluntária ou não, pode ter ajudado a consolidar este novo poder. O rei Harald também emitiu meias-moedas marcadas com uma cruz para refletir a conversão e proclamar a mudança. A ampla distribuição das moedas por toda a Dinamarca entre 975 e 989 atesta as conquistas territoriais do rei.

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O Cristianismo em Ascensão

As evidências de Adão de Bremen ou das sagas islandesas relativas a uma possível realeza sacra, com chefes tribais a realizarem oferendas em quintas e casas comunitárias, são também relevantes para a cristianização. Esta característica significa que os chefes tribais tinham o poder legal de influenciar as assembleias locais a aceitar uma nova religião; além disso, poderiam ter influenciado os aristocratas e, posteriormente, os plebeus a seguirem os seus passos após serem batizados. Os primeiros parecem ter aceitado a decisão de Harald, e não seria descabido imaginar o rei a viajar para diferentes assembleias (things) para apresentar a religião.

Foram construídas igrejas de madeira e, posteriormente, de pedra, como a Catedral de Roskilde, em 1027, iniciada por Estrid, irmã de Canuto, o Grande. A aceitação do cristianismo é também sugerida por inscrições em pedras rúnicas que utilizam a fórmula «que Deus descanse a sua alma» ou que mencionam a construção de pontes, vista como um ato piedoso. As mulheres podem ter desempenhado um papel mais ativo neste processo, e não nos esqueçamos dos comerciantes envolvidos no comércio com as regiões cristãs da Europa. Muito provavelmente, durante algum tempo as duas fés coexistiram, como sugerem achados arqueológicos como o molde de pedra-sabão, que poderia ter servido para produzir tanto cruzes como os martelos de Thor. A mitologia nórdica possuía um panteão de vários deuses; Cristo e os santos podiam ser facilmente incorporados e, com o tempo, as figuras e crenças pré-cristãs transformaram-se em folclore. É difícil compreender o que cada indivíduo pensava sobre esta transição, mas Helgi, do Livro dos Assentamentos da Islândia, salienta que, em geral, acreditava em Cristo, mas que, quando estava no mar, preferia Thor.

Cross Coin of Harald Bluetooth
Moeda com Cruz de Harald Bluetooth British Museum (CC BY-NC-SA)

Ao contrário da Noruega, onde a transição sob os reis Olaf Tryggvason (também conhecido como Olaf I da Noruega, reinou entre 995 e 1000) e Olaf Haraldsson (também conhecido como Olaf II da Noruega, reinou entre 1015 e 1028) foi mais vigorosa, na Dinamarca decorreu de forma mais harmoniosa devido à natureza mais unificada do território. Embora o filho de Harald Bluetooth, Sweyn Forkbeard (reinou 986-1014), tenha inicialmente reagido contra o cristianismo, acabou por submeter-se mais tarde. No entanto, não apreciava a interferência da arquidiocese de Hamburgo-Bremen, optando por recrutar clérigos da Inglaterra e negociando com o papado a criação de uma arquidiocese local. Esta instituição autónoma, fundada em 1014 em Lund, aliada ao tipo de governo do rei Valdemar I da Dinamarca (reinou 1154-1182) e dos seus filhos — que envolvia uma assembleia nacional —, representou um impulso para a elaboração de uma história abrangente: a Gesta Danorum (Feitos dos Dinamarqueses), do século XII, da autoria de Saxo Grammaticus.

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