O poeta inglês Geoffrey Chaucer (cerca de 1343-1400), mais conhecido por sua obra prima os Contos de Cantuária (The Canterbury Tales), composto nos últimos doze anos de sua vida e deixado incompleto, tem n'O Livro da Duquesa (The Book of the Duchess) sua primeira grande obra. Apesar disso, Os Contos de Cantuária, publicada pela primeira vez ccerca de 1476 por William Caxton, recebeu imensa popularidade, tanto que as primeiras obras ficaram ofuscadas e só conseguiram maior atenção crítica a partir do século XIX.
Entre essas obras de descoberta tardia encontra-se O Livro da Duquesa, composto em cerca de 1370 em honra de Branca, Duquesa de Lancaster (1342-1368), esposa de João de Gante (1340-1399), Duque de Lancaster e melhor amigo de Chaucer. Branca morreu, provavelmente pela Peste, em 1688, com a idade de 26 anos. O Duque permaneceu enlutado pelo resto de sua vida, apesar de ter se casado novamente. O Livro da Duquesa, ao que parece, foi composto no segundo aniversário de sua morte, por encomenda de João de Gante, lido na cerimônia religiosa do segundo aniversário de sua morte e visivelmente apreciado pelo Duque, o que o levou a premiar Chaucer com dez libras vitaliciamente.
Escrito em Inglês Medieval, o poema pertence ao gênero literário conhecido como Visão Onírica da Alta Idade Média, iniciando-se, caracteristicamente, por um narrador contando alguma situação de que tem conhecimento, caindo, em seguida, em sono profundo, o que sugere, ou claramente exibe, uma solução para o problema, sentindo-se em paz ou resignando-se à situação ao despertar. A obra de Chaucer desvia-se dessa fórmula, pois o narrador nunca tem a pretensão de ter resolvido o problema por meio de um sonho. O poema termina simplesmente com ele contando e registrando o sonho, ao acordar.
Dado isso, o poema, como um todo, deve ser compreendido como ter sido escrito após o narrador acordar de um sonho, sendo que e o problema do amor não correspondido – descrito por ele como uma “doença” que sofreu durante oito anos – continua mesmo após o sonho. Chaucer pode ter, astutamente, escrito o poema dessa maneira, para colocar em evidência a dificuldade de se ir em frente a partir de uma perda. O poema não oferece nenhuma solução ao problema a não ser um ouvinte piedoso e solidário na pessoa do narrador. Através de uma série de questões e histórias relacionadas, o narrador ajuda o cavaleiro a reviver as alegrias de seu relacionamento e expressar sua dor a respeito da perda de sua esposa, muito embora nada possa ser feito para aliviá-la.
Sumário
A abertura do poema se dá com o narrador queixando-se de que não pode dormir, vivendo em uma espécie de apatia, não sentindo nem alegria e nem tristeza, não conseguindo se importar a respeito de coisa alguma, temendo que possa vir a morrer devido à sua insônia (linhas 1-29). Nas linhas 30-42 ele diz que não sabe realmente por que está passando por tudo isso, mas que pode haver apenas um médico que possa curá-lo, mas não irá consultá-lo. O poema se apoia em uma audiência familiarizada com a visão romântica do amor cortês, um gênero poético de literatura medieval desenvolvido no Sul da França no século XII, que na maioria das vezes apresenta um cavaleiro devotado a uma dama e a amando desesperadamente. A dama, na maioria das vezes nesses poemas, é mostrada como um médico que pode proporcionar uma cura tanto emocional, como espiritual ou física, ao cavaleiro, e assim, o “médico” referido pelo narrador (linha 39) é uma dama que ele ama, que tanto pode o ter abandonado ou não voltará para seu amor.
Como ele não pode dormir, o narrador lê um livro (Metamorfose de Ovídio, mas o título nunca é mostrado) contendo a história dos amantes Seys (normalmente citado Ceice) e Alcione. Seys parte em uma viagem pelo mar e, quando não retorna no dia marcado, Alcione começa a se preocupar. Ela implora à deusa Juno por um sinal de que Seys ainda vive e suas preces são respondidas na forma de Morfeu, deus do sono, surgindo como Seys para dizer-lhe que ele está morto. Alcione morre de tristeza após três dias (linhas 62-214). O narrador então se admira com a história e como Alcione recebeu resposta à sua oração e ele, não; por isso reza a Juno, adormece quase imediatamente e começa a sonhar (linhas 215-291).
Ele se encontra na cama em uma manhã de maio, com pássaros cantando e rapidamente se veste para se unir a uma caçada que se encontrava em andamento. Ele se vê separado dos outros e caminha sozinho pelas florestas até que se depara com um homem vestido de negro sentado sozinho (linhas 292-445). O homem, descrito como um belo e nobre cavaleiro, está escrevendo um poema e completamente inconsciente da presença do narrador. O poema é um lamento pelo amor perdido, que o cavaleiro recita à medida que escreve, onde ele diz como o amor de sua vida havia morrido e nunca mais sentirá alegria. O narrador é tocado pelo poema e ainda mais pela óbvia tristeza do cavaleiro e passa a confortá-lo, porém o cavaleiro está tão profundamente desesperado que, inicialmente, não se dá conta do narrador (linhas 445-514).
O narrador se desculpa por perturbar o cavaleiro, diz como ele, obviamente, se encontra deprimido e pergunta o que pode fazer para ajudá-lo. O cavaleiro responde que não exista nada que possa ser feito e relata quão miserável tornou-se sua vida, como ele amaldiçoa a sorte que o tirou da felicidade e como viver é sem sentido agora, enquanto uma vez que estava animado e alegre (linhas 515-709). O narrador então tenta consolá-lo fazendo-o se lembrar da sabedoria de Sócrates ao confrontar o destino e quantos amantes famosos haviam sofrido por toda a história, como Medeia com Jasão, Dido com Eneias, Sansão com Dalila (linhas 710-740).
O cavaleiro lhe diz que não conhece o que ele está se referindo, porque o cavaleiro havia perdido mais que quaisquer das pessoas citadas e lhe diz para sentar-se e que ele iria esclarecer o problema. O cavaleiro diz ao narrador como encontrou essa linda mulher, apaixonou-se e casou-se com ela (linhas 741-1041). O narrador o interrompe para dizer como sua esposa parece muito linda, mas ela não parece ter sido tão perfeita como o cavaleiro a descreve. O cavaleiro responde dizendo como todos a viam da mesma maneira e nunca houve ninguém tão bela ou amável ou gentil como ela (linhas 1042-1111). O narrador ainda não compreendeu o problema do cavaleiro e lhe pergunta para contar suas primeiras palavras um com o outro e como ela veio a saber que ela a amava e questiona, então, simplesmente o que havia de errado com o relacionamento (linhas 1112-1144).
Após agradecer, o cavaleiro fala ao narrador a respeito da primeira música que compôs para ela, de seu relacionamento e quanto ela significava para ele (linhas 1145-1297). “Onde ela está agora?”, pergunta o narrador, e o cavaleiro responde, “Ela está morta”, ao que o narrador exclama, “Be God, hyt is routhe!” (literalmente, “Por Deus, isto é uma pena”, melhor traduzido como, “Eu sinto muito!”) e instantaneamente ouvem o grupo de caçadores retornando. Então, ele acorda do sonho e encontra em sua cama o livro de Says e Alcione, impressionado pelo sonho que teve e diz como soube que precisava registrar, imediatamente, tudo isso por escrito (linhas 1298-1334). O poema se encerra com o narrador dizendo como ele fez isso e seu sonho desapareceu.
O Texto
Como todos as obras de Chaucer, O Livro da Duquesa foi escrito em inglês medieval (Middle English), bem antes da padronização da língua pelo poeta, escritor e lexicógrafo Samuel Johnson (1709-1784), que escreveu o primeiro dicionário da língua inglesa. As palavras são escritas como soavam e o poema foi escrito para ser lido em voz alta. Lido silenciosamente, o significado de uma palavra nem sempre é claro, ao contrário da leitura em voz alta, e dentro do contexto da frase, é melhor compreendido. A primeira linha, p.ex., “I have gret wonder, be this lyght”, é claramente “I have great wonder, by this light” (fico admirado por essa luz) quando pronunciada em voz alta.
A letra “Y” representa “I”, mas os assentos silábicos (fortes ou fracos) seguem a rima do poema, e, por isso, o “Y” algumas vezes como “ee” (i) e outras vezes como “ee-uh” (i-a). A palavra “quod” ou “quoth” significam “falar” e “a sweven” é “um sonho. Outras palavras, que à primeira vista podem parecer estranhas, tornam‑se inteligíveis dentro do contexto da frase, onde a grafia de uma palavra anterior, mais próxima do inglês moderno, esclarece o significado. O texto em inglês foi baixado do site Libarius.com, (citado na bibliografia ao final do artigo) que fornece hyperlinks e um glossário para o Inglês Medieval, sendo a versão padrão encontrada no Riverside Chaucer editado pelo estudioso Larry D. Benson (1929-2015).
(N.T.: Foram utilizados:
- o Middle-english Glosary, citado em The Book of the Duchess on Librarius.com (middle-english hypertext with glossary) disponível em http://www.librarius.com/duchessfs.htm, acessado dias 7-8-9 dezembro/2025;
- Winge, Carolina “O Livro da Duquesa”: trazendo uma elegia medieval para o público jovem brasileiro. 2022, Disponível em https://lume.ufrgs.br/handle/10183/281766 Acessado dias 7-8-9 de dezembro/2025);
- e, o Copilot [Assistente de IA], Microsoft https://copilot.microsoft.com.
O Livro da Duquesa Tradução Literal
Tenho grande espanto, por esta luz,
de como eu vivo, pois, dia nem noite
eu não posso dormir quase nada,
tenho tantos pensamentos ociosos
puramente por falta de sono
que, pela minha fé, não dou atenção
a nada, como vem ou vai,
nem nada me é caro nem odioso.
Tudo me é igualmente bom —
alegria ou tristeza, onde quer que esteja —
pois não tenho sentimento em nada,
senão, como se fosse, uma coisa aturdida,
sempre a ponto de cair abaixo;
pois a imaginação dolorosa
está sempre inteira na minha mente.
E bem sabeis, contra a natureza
seria viver deste modo;
pois a natureza não consentiria
a nenhuma criatura terrena
por longo tempo suportar
sem sono, e estar em tristeza;
e eu não posso, nem de noite nem de manhã,
dormir; e assim melancolia
e temor eu tenho de morrer,
falta de sono e pesadume
matou meu espírito de vivacidade,
de modo que perdi toda a alegria.
Tais fantasias há na minha cabeça
de modo que eu não sei o que é melhor fazer.
Mas os homens poderiam perguntar-me, por que assim
Eu não posso dormir, e o que me é?
Mas, no entanto, quem pergunta isto
Perde sua pergunta verdadeiramente.
Eu mesmo não posso dizer por que
A verdade; mas verdadeiramente, como eu suponho,
Eu considero que seja uma doença
Que eu tenho sofrido estes oito anos,
E ainda minha cura nunca está mais perto;
Pois há apenas um médico,
Que pode me curar; mas isso está feito.
Passemos adiante até depois;
O que não pode ser, precisa ser deixado;
Nossa primeira matéria é boa de manter.
Então quando vi que não podia dormir,
Até agora tarde, nesta outra noite,
Sobre minha cama eu sentei ereto
E mandei alguém trazer-me um livro,
Um romance, e ele me trouxe
Para ler e afastar a noite;
Pois me pareceu melhor passatempo
Do que jogar xadrez ou dados.
E neste livro estavam escritas fábulas
Que clérigos tinham, em tempos antigos,
E outros poetas, postos em rima
Para ler, e para estar em mente
Enquanto os homens amavam a lei da natureza.
Este livro não falava senão de tais coisas,
Das vidas de rainhas, e de reis,
E muitas outras coisas pequenas.
Entre tudo isso encontrei uma história
Que me pareceu uma coisa maravilhosa.
Esta era a história: Havia um rei
Chamado Seys, e tinha uma esposa,
A melhor que poderia ter vida;
E esta rainha chamava-se Alcyone.
E aconteceu, logo depois,
Que este rei quis ir além-mar.
Para contar brevemente, quando ele
Estava no mar, assim desta maneira,
Tal tempestade começou a surgir
Que quebrou seu mastro, e o fez cair,
E rachou seu navio, e afogou todos eles,
Que nunca foram encontrados, como se conta,
Nem tábua nem homem, nem nada mais.
Assim exatamente este rei Seys perdeu sua vida.
Agora para falar de sua esposa: —
Esta senhora, que ficou em casa,
Estranhava que o rei não viesse
Para casa, pois era um longo tempo.
Logo seu coração começou a doer;
E porque lhe parecia sempre
Que não estava bem que ele demorasse assim,
Ela ansiava tanto pelo rei
Que, certamente, seria uma coisa piedosa
Contar sua vida de dor sincera
Que tinha, ai de mim! esta nobre esposa;
Pois a ele ela amava acima de todos.
Logo ela enviou tanto a leste como a oeste
Para procurá-lo, mas nada encontraram.
“Alas!” disse ela, “que eu fui feita!
E onde meu senhor, meu amor, está morto?
Certamente, eu nunca comerei pão,
Eu faço um voto ao meu deus aqui,
A menos que eu possa ouvir de meu senhor!”
Tal tristeza esta senhora tomou para si
Que verdadeiramente eu, que fiz este livro,
Tive tal piedade e tal compaixão
Ao ler sua dor, que, por minha fé,
Eu fiquei pior todo o dia seguinte
Depois, ao pensar em sua dor.
Então, quando ela não podia ouvir palavra
Que nenhum homem pudesse encontrar seu senhor,
Muito frequentemente ela desmaiava, e dizia “Alas!”
Por tristeza quase louca ela estava,
Nem podia ter conselho senão um;
Mas de joelhos ela se pôs logo,
E chorou, que era piedoso de ouvir.
“Ah! misericórdia! Doce senhora querida!”
Disse ela a Juno, sua deusa;
“Ajuda-me fora desta aflição,
E dá-me graça de ver meu senhor
Logo, ou saber onde quer que ele esteja,
Ou como ele está, ou de que maneira,
E eu farei a ti sacrifício,
E inteiramente tua me tornarei
Com boa vontade, corpo, coração, e tudo;
E a menos que tu queiras isto, doce senhora,
Envia-me graça de dormir, e sonhar
Em meu sono algum certo sonho,
Por meio do qual eu possa saber exatamente
Se meu senhor está vivo ou morto.”
Com essa palavra ela baixou a cabeça,
E caiu desmaiada como pedra fria;
Suas mulheres a levantaram logo,
E a trouxeram para a cama toda nua,
E ela, muito chorada e muito acordada,
Estava cansada, e assim o sono real
Caiu sobre ela, antes que percebesse,
Por Juno, que tinha ouvido sua súplica,
Que a fez dormir logo;
Pois como ela rezou, assim foi feito,
De fato; pois Juno, imediatamente,
Chamou assim seu mensageiro
Para fazer sua missão, e ele veio perto.
Quando ele veio, ela lhe disse assim:
“Vai depressa,” disse Juno, “a Morfeu,
Tu o conheces bem, o deus do sono;
Agora entende bem, e toma cuidado.
Dize assim em meu nome, que ele
Vá rápido ao grande mar,
E ordena-lhe que, acima de tudo,
Ele levante o corpo de Seys o rei,
Que jaz muito pálido e nada rosado.
Ordena-lhe que entre no corpo,
E o faça ir até Alcyone
A rainha, onde ela jaz sozinha,
E mostre-lhe logo, sem dúvida,
Como foi afogado no outro dia;
E faça o corpo falar assim
Exatamente como costumava fazer,
Enquanto estava vivo.
Vai agora rápido, e apressa-te logo!”
Este mensageiro tomou licença e foi
Em seu caminho, e nunca parou
Até que chegou ao vale escuro
Que está entre duas rochas,
Onde nunca ainda cresceu trigo nem grama,
Nem árvore, nem nada que fosse,
Animal, nem homem, nem nada mais,
Exceto que havia alguns poços
Que corriam das falésias abaixo,
Que faziam um som mortal de sono,
E corriam direto por uma caverna
Que estava sob uma rocha escavada
No meio do vale, maravilhosamente profundo.
Ali estes deuses jaziam e dormiam,
Morfeu, e Eclympasteyre,
Que era o herdeiro do deus dos sonos,
Que dormia e não fazia outro trabalho.
Esta caverna era também tão escura
Como o poço do inferno por toda parte;
Eles tinham bom lazer para roncar
Competindo, quem poderia dormir melhor;
Alguns penduravam o queixo sobre o peito
E dormiam eretos, a cabeça coberta,
E alguns jaziam nus em sua cama,
E dormiam enquanto duravam os dias.
Este mensageiro veio voando rápido,
E gritou, “Oh! Acordai logo!”
Foi em vão; nenhum o ouviu.
“Acordai!” disse ele, “quem está deitado aí?”
E soprou sua trompa bem em seu ouvido,
E gritou “acordai!” muito alto.
Este deus do sono, com um olho
Levantado, perguntou, “quem chama aí?”
“Sou eu,” disse este mensageiro;
“Juno mandou que tu fosses” —
E contou-lhe o que devia fazer
Como eu vos disse antes;
Não há necessidade de repetir mais;
E foi embora, quando tinha dito.
Logo este deus do sono despertou
De seu sono, e começou a ir,
E fez como lhe tinham ordenado;
Levantou logo o corpo afogado,
E o levou até Alcyone,
Sua esposa a rainha, onde ela estava deitada,
Exatamente um quarto antes do dia,
E ficou bem aos pés de sua cama.
E chamou-a, exatamente como ela se chamava,
Pelo nome, e disse: “Minha doce esposa,
Acorda! Deixa tua vida dolorosa!
Pois em tua dor não há conselho;
Pois certamente, doce, eu não sou senão morto;
Tu nunca me verás vivo.
Mas, doce coração, olha que tu
Sepultes meu corpo, que em certo tempo
Tu poderás encontrá-lo junto ao mar;
E adeus, doce, minha felicidade terrena!
Eu peço a Deus que alivie tua dor;
Muito pouco tempo nossa alegria durou!”
Com isso seus olhos ela levantou,
E nada viu; “Ah!” disse ela, “por dor!”
E morreu dentro do terceiro dia.
Mas o que ela disse mais naquele desmaio
Eu não posso contar-vos agora,
Seria muito longo de permanecer;
Minha primeira matéria eu vos direi,
Por que eu contei esta coisa
De Alcione e do rei Seys.
Pois assim muito ouso dizer bem,
Eu teria sido enterrado completamente,
E morto, justamente por falta de sono,
Se eu não tivesse lido e tomado cuidado
Desta história logo antes:
E eu vos direi por quê:
Pois eu não podia, por remédio nem por dor,
Dormir, até que tivesse lido esta história
Deste afogado rei Seys,
E dos deuses do sono.
Quando eu tinha lido esta história bem
E revisado-a completamente,
Pareceu-me maravilhoso se fosse assim;
Pois eu nunca tinha ouvido falar, até então,
De nenhum deus que pudesse fazer
Os homens dormir, nem acordar;
Pois eu nunca conheci deus senão um.
E em meu divertimento eu disse logo —
E ainda me parecia muito ruim brincar —
“Antes que eu devesse morrer
Por falta de sono assim,
Eu daria àquele Morfeu,
Ou à sua deusa, senhora Juno,
Ou a algum outro, não me importava quem —
Para me fazer dormir e ter algum descanso —
Eu lhe daria o melhor
Presente que jamais ele recebeu em sua vida,
E aqui no mundo, agora mesmo, rapidamente;
Se ele me fizer dormir um pouco,
De penugem de pombas brancas puras
Eu lhe darei uma cama de penas,
Listada com ouro, e muito bem coberta
Em fino cetim negro de ultramar,
E muitos travesseiros, e cada coberta
De tecido de Reims, para dormir suave;
Ele não teria necessidade de se virar frequentemente.
E eu lhe darei tudo o que pertence
A um quarto; e todas as suas salas
Eu mandarei pintar com ouro puro,
E tapetá-las muitas vezes
De uma só cor; isto ele terá,
Se eu soubesse onde era sua caverna,
Se ele pode me fazer dormir logo,
Como fez a deusa Alcione.
E assim este mesmo deus, Morfeu,
Pode ganhar de mim mais recompensas assim
Do que jamais ganhou; e para Juno,
Que é sua deusa, eu farei assim,
Creio que ela ficará satisfeita.”
Eu mal tinha essa palavra dito
Exatamente assim como vos contei,
Que de repente, não sei como,
Tal desejo logo me tomou
De dormir, que exatamente sobre meu livro
Eu caí adormecido, e com isso mesmo
Me veio tão doce um sonho,
Tão maravilhoso, que nunca ainda
Creio que nenhum homem teve o saber
De interpretar bem meu sonho;
Nem mesmo José, sem dúvida,
Do Egito, aquele que interpretou
O sonho do rei Faraó,
Nem mais do que poderia o menor de nós;
Nem sequer Macróbio,
(Aquele que escreveu toda a visão
Que ele sonhou, o rei Cipião,
O nobre homem, o Africano —
Tais maravilhas aconteceram então)
Creio que poderia interpretar meus sonhos exatamente.
Eis, assim foi, este foi meu sonho.
Pareceu-me assim: — que era maio,
E no amanhecer ali eu estava deitado,
Me veio assim, em minha cama todo nu: —
Olhei para fora, pois eu estava acordado
Com pequenos pássaros em grande quantidade,
Que me assustaram fora do sono
Por barulho e doçura de seu canto;
E, como me pareceu, eles se sentaram juntos,
Sobre o telhado de meu quarto do lado de fora,
Sobre as telhas, por todo lado,
E cantaram, cada um em seu modo,
O mais solene serviço
Por nota, que jamais homem, creio,
Ouviu; pois alguns deles cantaram baixo,
Alguns alto, e todos em um acorde.
Para dizer brevemente, em uma palavra,
Nunca foi ouvido tão doce som,
Exceto se fosse uma coisa do céu; —
Tão alegre um som, tão doces entonações,
Que certamente, pela cidade de Tunes,
Eu não deixaria de ouvi-los cantar,
Pois todo meu quarto começou a ressoar
Pelo canto de sua harmonia.
Pois instrumento nem melodia
Nunca foi ouvido ainda metade tão doce,
Nem em acorde metade tão adequado;
Pois não havia nenhum deles que fingisse
Cantar, pois cada um se esforçava
Para encontrar notas alegres e engenhosas;
Eles não pouparam suas gargantas.
E, para dizer a verdade, meu quarto estava
Muito bem pintado, e com vidro
Todas as janelas bem envidraçadas,
Muito claras, e não uma rachada,
Que ao ver era grande alegria.
Pois totalmente toda a história de Troia
Estava no vitral assim trabalhada,
De Heitor e do rei Príamo,
De Aquiles e do rei Laomedonte,
De Medeia e de Jasão,
De Páris, Helena, e Lavínia.
E todas as paredes com cores finas
Estavam pintadas, tanto texto como glosa,
De todo o Romance da Rosa.
Minhas janelas estavam fechadas todas,
E através do vidro o sol brilhava
Sobre minha cama com raios brilhantes,
Com muitos alegres feixes dourados;
E também o céu estava tão belo,
Azul, brilhante, claro estava o ar,
E muito temperado de fato estava;
Pois nem frio nem quente estava,
Nem em todo o céu havia uma nuvem.
E enquanto eu estava assim, maravilhosamente alto
Pareceu-me ouvir um caçador soprar
Para testar sua trompa, e para saber
Se estava clara ou rouca de som.
Eu ouvi indo, para cima e para baixo,
Homens, cavalos, cães, e outras coisas;
E todos os homens falavam de caça,
Como eles queriam matar o cervo com força,
E como o cervo tinha, em comprimento,
Tão muito emboscado, não sei o quê.
Logo, quando ouvi isso,
Como eles queriam ir caçar,
Eu fiquei muito alegre, e levantei logo;
Peguei meu cavalo, e fui adiante
Fora de meu quarto; nunca parei
Até que cheguei ao campo fora.
Ali alcancei uma grande multidão
De caçadores e também de guardas florestais,
Com muitos cães de caça e coleiras,
E apressaram-se para a floresta rapidamente,
E eu com eles; — assim, ao fim
Perguntei a um, que conduzia um cão de caça:
“Dize, companheiro, quem vai caçar aqui?”
Disse eu, e ele respondeu de novo,
“Senhor, o imperador Otaviano,”
Disse ele, “e está aqui bem perto.”
“Por Deus, em boa hora,” disse eu,
“Vamos rápido!” e comecei a cavalgar.
Quando chegamos à beira da floresta,
Cada homem fez, logo,
Como à caça cabia fazer.
O mestre-caçador logo, a pé,
Com uma grande trompa soprou três chamadas
No desencadeamento de seus cães.
Dentro de pouco tempo o cervo foi encontrado,
Saudado, e perseguido rapidamente
Por longo tempo; e assim, ao fim,
Este cervo se levantou e escapou
De todos os cães por um caminho secreto.
Os cães tinham ultrapassado todos,
E estavam em uma falta caídos;
Com isso o caçador muito rápido
Soprou um chamado de retorno ao fim.
Eu tinha me afastado de minha árvore,
E enquanto eu ia, ali veio a mim
Um filhote, que me acariciou enquanto eu estava parado,
Que tinha seguido, e não sabia nada.
Ele veio e rastejou até mim tão baixo,
Exatamente como se me conhecesse,
Baixou sua cabeça e juntou suas orelhas,
E deitou suavemente todos os seus pelos.
Eu quis pegá-lo, e logo
Ele fugiu, e estava de mim ido;
E eu o segui, e ele adiante foi
Por um caminho verde florido
Muito espesso de grama, muito suave e doce.
Com muitas flores, belas sob os pés,
E pouco usadas, parecia assim;
Pois tanto Flora como Zéfiro,
Esses dois que fazem flores crescer,
Tinham feito sua morada ali, creio eu;
Pois era, ao se olhar,
Como se a terra quisesse competir
Para ser mais bela que o céu,
Para ter mais flores, tantas quanto
Há estrelas no firmamento.
Ela havia esquecido a pobreza
Que o inverno, através de suas manhãs frias,
A fizera sofrer, e suas dores;
Tudo estava esquecido, e isso se via.
Pois toda a floresta estava tornada verde,
A doçura do orvalho a fizera crescer.
Não há necessidade também de perguntar
Se havia muitos bosques verdes,
Ou espessura de árvores, tão cheias de folhas;
E cada árvore estava separada
Das outras por dez ou doze pés.
Tão grandes árvores, tão fortes,
De quarenta ou cinquenta braças de comprimento,
Limpas sem galho ou ramo,
Com copas largas, e também tão espessas —
Não estavam nem uma polegada separadas —
Que havia sombra por todo lado embaixo;
E muitos cervos e muitas corças
Estavam tanto diante de mim como atrás.
De veados, javalis, bodes, cabras
Estava cheia a floresta, e muitos corços,
E muitos esquilos que se sentavam
Bem alto sobre as árvores, e comiam,
E à sua maneira faziam festas.
Em resumo, estava tão cheia de animais,
Que mesmo Argos, o nobre contador,
Sentado para calcular em seu ábaco,
E calcular com seus dez algarismos —
Pois por esses algarismos todos podem saber,
Se forem hábeis, contar e numerar,
E dizer de cada coisa o número —
Ainda assim falharia em contar exatamente
As maravilhas que me apareceram em meu sonho.
Mas adiante eles vagaram muito rápido
Pela floresta; e assim, ao fim,
Notei um homem de preto,
Que estava sentado e tinha voltado suas costas
A um carvalho, uma enorme árvore.
“Senhor,” pensei eu, “quem pode ser?”
“O que o aflige para sentar-se aqui?”
Logo fui mais perto;
Então encontrei sentado bem ereto
Um cavaleiro maravilhosamente bem-apessoado
Pela aparência me pareceu assim —
De boa estatura, e jovem também,
De idade de vinte e quatro anos.
Na barba apenas pouco cabelo,
E ele estava vestido todo de preto.
Aproximei-me até suas costas,
E ali fiquei tão quieto quanto possível,
Que, para dizer a verdade, ele não me viu,
Pois tinha a cabeça pendida para baixo.
E com um som mortal e doloroso
Ele fez em rima dez ou doze versos
De uma lamentação para si mesmo,
A mais piedosa, a mais compassiva,
Que jamais ouvi; pois, por minha fé,
Era grande maravilha que a natureza
Pudesse permitir a qualquer criatura
Ter tal dor, e não estar morto.
Muito lamentoso, pálido, e nada vermelho,
Ele disse um canto, uma espécie de canção,
Sem nota, sem melodia,
E era isto; pois bem posso
Repeti-lo; exatamente assim começou: —
“Eu tenho de dor tão grande quantidade,
Que alegria nunca obtenho nenhuma,
Agora que vejo minha senhora brilhante,
A quem amei com toda minha força,
Está de mim morta, e se foi.
E assim em dor me deixou sozinho.
“Alas, ó morte! O que te aflige,
Que não quiseste ter levado a mim,
Quando tomaste minha doce senhora?
Que era tão bela, tão fresca, tão livre,
Tão boa, que os homens podem bem ver
De toda bondade ela não tinha igual!”
Quando ele tinha feito assim sua lamentação,
Seu coração doloroso começou logo a desfalecer,
E seus espíritos tornaram-se mortos;
O sangue fugiu, por puro medo,
Para baixo ao coração, para aquecê-lo —
Pois bem se sentia que o coração tinha dano —
Para saber também por que estava assustado,
Por natureza, e para fazê-lo alegre;
Pois é membro principal
Do corpo; e isso fez todo
Seu aspecto mudar e tornar-se verde
E pálido, pois não se via sangue
Em nenhum membro de seu corpo.
Logo com isso, quando vi isto,
Ele estava tão mal ali sentado,
Eu fui e fiquei bem a seus pés,
E cumprimentei-o, mas ele não falou,
Mas discutia com seu próprio pensamento,
E em sua mente disputava intensamente
Por que e como sua vida poderia durar;
Parecia-lhe que suas dores eram tão fortes
E jaziam tão frias sobre seu coração;
Assim, através de sua dor e pensamento pesado,
Fez com que ele não me ouvisse;
Pois ele tinha quase perdido sua mente,
Embora Pã, que os homens chamam deus da natureza,
Fosse por suas dores nunca tão irado.
Mas ao fim, para dizer a verdade,
Ele percebeu-me, como eu estava
Diante dele, e tirei meu capuz,
E cumprimentei-o, como melhor pude.
Gentilmente, e nada alto,
Ele disse: “Eu te peço, não fiques irado,
Eu não te ouvi, para dizer a verdade,
Nem te vi, senhor, verdadeiramente.”
“Ah! bom senhor, não importa,” disse eu,
“Estou muito triste se de alguma forma
Vos perturbei fora de vosso pensamento;
Perdoai-me se errei.”
“Sim, a reparação é fácil de fazer,”
Disse ele, “pois não há nada para isso;
Não há nada maldito nem feito.”
Vede! quão bondosamente falou este cavaleiro,
Como se fosse outro homem;
Ele não fez nem áspero nem estranho
E eu vi isso, e comecei a me familiarizar
Com ele, e achei-o tão tratável,
Realmente maravilhosamente hábil e razoável,
Como me pareceu, apesar de sua dor.
Logo comecei a encontrar uma conversa
Com ele, para ver se eu poderia
Ter mais conhecimento de seu pensamento.
“Senhor,” disse eu, “esta caça está acabada;
Creio que este cervo se foi;
Estes caçadores não podem vê-lo em lugar algum.”
“Não me importa disso,” disse ele,
“Meu pensamento não está nisso nem um pouco.”
“Por nosso Senhor,” disse eu, “creio em vós,
Assim me parece por vossa expressão.
Mas, senhor, uma coisa quereis ouvir?
Parece-me, em grande dor vos vejo;
Mas certamente, bom senhor, se vós
Quiserdes revelar-me vossa dor,
Eu, como Deus me ajude,
A emendarei, se eu puder ou for capaz;
Vós podeis provar isso por tentativa.
Pois, por minha fé, para vos curar,
Eu farei todo meu poder inteiro;
E contai-me de vossas dores agudas,
Porventura isso possa aliviar vosso coração,
Que parece muito doente sob vosso lado.”
Com isso ele olhou para mim de lado,
Como quem diz, “Não, isso não será.”
“Muito obrigado, bom amigo,” disse ele,
“Agradeço-te que quiseste assim,
Mas isso nunca poderá ser feito,
Nenhum homem pode alegrar minha dor,
Que faz meu aspecto cair e desbotar,
E perdeu meu entendimento,
Que me é dor que eu tenha nascido!
Não pode fazer minhas dores passar,
Nem os remédios de Ovídio;
Nem Orfeu, deus da melodia,
Nem Dédalo, com jogos engenhosos;
Nem pode curar-me médico,
Nem Hipócrates, nem Galeno;
É-me dor que eu viva doze horas;
Mas quem quiser tentar a si mesmo
Se seu coração pode ter piedade
De alguma dor, que me veja.
Eu, miserável, que a morte tornou todo nu
De toda alegria que jamais foi feita,
Tornei-me o pior de todos os homens,
Que odeio meus dias e minhas noites;
Minha vida, meus prazeres me são odiosos,
Pois todo bem-estar e eu estamos em guerra.
A própria morte é tanto minha inimiga
Que embora eu queira morrer, não quer assim;
Pois quando eu a sigo, ela foge;
Eu quero tê-la, ela não me quer.
Esta é minha dor sem conselho,
Sempre morrendo e não estando morto,
Que Sísifo, que jaz no inferno,
Não pode de maior dor contar.
E quem soubesse tudo, por minha fé,
Minha dor, mas se tivesse compaixão
E piedade de minhas dores agudas,
Esse homem teria um coração demoníaco.
Pois quem me vê primeiro pela manhã
Pode dizer, encontrou-se com a dor;
Pois eu sou dor e dor sou eu.
“Alas! e eu vos direi por quê;
Minha canção está tornada em lamentação,
E todo meu riso em choro,
Meus pensamentos alegres em tristeza,
Em trabalho está minha ociosidade
E também meu descanso; meu bem é dor,
Meu bom é dano, e sempre
Em ira é transformado meu brincar,
E meu deleite em sofrimento.
Minha saúde é transformada em doença,
Em medo está toda minha segurança.
Em escuridão é transformada toda minha luz,
Meu juízo é loucura, meu dia é noite,
Meu amor é ódio, meu sono vigília,
Minha alegria e refeições são jejum,
Minha aparência é tolice,
E todo confuso onde quer que eu esteja,
Minha paz, em disputa e em guerra;
Alas, como poderia eu estar pior?
Minha ousadia é transformada em vergonha,
Pois falsa Fortuna jogou um jogo
De xadrez comigo, alas, nesse tempo!
A traidora falsa e cheia de engano,
Que tudo promete e nada cumpre,
Ela anda ereta e ainda manca,
Que mendiga feia e olha bela,
A desprezosa cortês,
Que escarnece de muitas criaturas!
Um ídolo de falsa aparência
É ela, pois logo se vira;
Ela é a cabeça do monstro coberta,
Como sujeira espalhada com flores;
Seu maior louvor e sua flor é
Mentir, pois isso é sua natureza;
Sem fé, lei ou medida.
Ela é falsa; e sempre rindo
Com um olho, e o outro chorando.
Aquilo que ela eleva, ela põe abaixo.
Eu a comparo ao escorpião,
Que é uma besta falsa e lisonjeira;
Pois com sua cabeça ele faz festa,
Mas bem no meio de sua lisonja
Com sua cauda ele vai picar,
E envenenar; e assim fará ela.
Ela é a caridade invejosa
Que é sempre falsa, e parece boa,
Assim ela gira sua falsa roda
Ao redor, pois não é nada estável,
Ora junto ao fogo, ora à mesa;
Muito de muitos ela enganou assim;
Ela é jogo de encantamento,
Que parece uma coisa e não é,
A falsa ladra! O que ela fez,
Crês tu? Por nosso Senhor, eu te direi.
No xadrez comigo ela começou a jogar;
Com seus falsos lances diversos
Ela me atacou, e tomou minha dama.
E quando vi minha dama perdida,
Alas! Eu não podia mais jogar,
Mas disse: “Adeus, doce, em verdade,
E adeus a tudo que jamais houve!”
Com isso Fortuna disse: “Xeque!”
E “Mate!” no meio do tabuleiro
Com um peão errante, alas!
Muito mais hábil para jogar ela era
Do que Athalus, que fez o jogo
Primeiro do xadrez: assim era seu nome.
Mas Deus queira que eu tivesse uma ou duas vezes
Sabido e conhecido os perigos
Que sabia o grego Pitágoras!
Eu teria jogado melhor no xadrez,
E guardado minha dama melhor assim;
E ainda, para quê? Pois verdadeiramente,
Eu considero esse desejo sem valor!
Nunca teria sido melhor para mim.
Pois Fortuna conhece tantas astúcias,
Há poucos que podem enganá-la,
E também ela é a menos a culpar;
Eu mesmo teria feito o mesmo,
Perante Deus, se eu fosse como ela;
Ela deve ser mais desculpada.
Pois isto eu digo ainda mais além,
Se eu fosse Deus e pudesse fazer
Minha vontade, quando ela tomou minha dama,
Eu teria feito o mesmo lance.
Pois, assim como Deus me dê descanso,
Eu ouso jurar que ela tomou o melhor!
Mas através desse lance eu perdi
Minha felicidade; alas! que eu nasci!
Pois sempre, eu creio verdadeiramente,
Todo meu desejo, minha vontade inteira
Está transformada; mas ainda o que fazer?
Por nosso Senhor, é morrer logo;
Pois nada eu acredito senão isto,
Mas viver e morrer exatamente neste pensamento.
Não há planeta no firmamento,
Nem no ar, nem na terra, nenhum elemento,
Que não me dê cada um
Um dom de choro, quando estou sozinho.
Pois quando eu considero bem,
E penso completamente,
Como ali jaz em conta,
Em minha dor por nada;
E como não resta alegria
Que possa alegrar-me em minha aflição,
E como perdi suficiência,
E além disso não tenho prazer,
Então posso dizer, não tenho nada.
E quando tudo isto cai em meu pensamento,
Alas! então sou vencido!
Pois o que está feito não pode voltar!
Tenho mais dor do que Tântalo.”
E quando eu o ouvi contar esta história
Assim piedosamente, como vos digo,
Mal podia eu permanecer mais,
Fez tanto mal a meu coração.
“Ah! bom senhor!” disse eu, “não diga assim!
Tende alguma piedade de vossa natureza
Que vos formou como criatura,
Lembrai-vos de Sócrates;
Pois ele não contava três palhas
De nada que Fortuna pudesse fazer.”
“Não,” disse ele, “eu não posso assim.”
“Por que não, bom senhor! Por Deus!” disse eu;
“Não digais assim, pois verdadeiramente,
Ainda que tivésseis perdido as damas doze,
E vós por dor matásseis a vós mesmo,
Seríeis condenado neste caso
Com tanto direito quanto Medeia foi,
Que matou seus filhos por Jasão;
E também Phyllis por Demofonte
Enforcou-se, ai de mim!
Pois ele tinha quebrado seu prazo
De vir a ela. Outra loucura
Teve Dido, rainha também de Cartago,
Que matou-se porque Eneias
Foi falso; que tola ela foi!
E Eco morreu por Narciso.
Não quis amá-la; e exatamente assim
Muitos outros fizeram loucura.
E por Dalila morreu Sansão,
Que matou-se com uma coluna.
Mas não há ninguém vivo aqui
Que por uma dama fizesse tal dor!”
“Por que assim?” disse ele; “não é assim,
Tu sabes muito pouco o que queres dizer;
Eu perdi mais do que tu pensas.”
“Vede, senhor, como pode ser?” disse eu;
“Bom senhor, dizei-me completamente
De que modo, como, por quê, e por qual razão
Que vós assim perdestes vossa felicidade,”
“De bom grado,” disse ele, “vem sentar-te,
Eu te direi sob condição
Que tu completamente, com todo teu entendimento,
Faças tua intenção de ouvir isto.”
“Sim, senhor.” “Jura tua fé nisso.”
“De bom grado.” “Então mantém nisso!”
“Eu ouvirei muito alegremente, assim Deus me salve,
Completamente, com todo o entendimento que tenho,
A vós, o melhor que posso.”
“Por Deus!” disse ele, e começou: —
“Senhor,” disse ele, “desde que primeiro eu pude
Ter qualquer tipo de entendimento desde a juventude,
Ou naturalmente compreensão
Para compreender, em qualquer coisa,
O que era amor, em meu próprio entendimento,
Sem dúvida, eu sempre ainda
Fui tributário, e dei tributo
Ao amor completamente com boa intenção,
E através de prazer tornei-me seu servo,
Com boa vontade, corpo, coração, e tudo.
Tudo isto eu pus em sua servidão,
Como a meu senhor, e fiz homenagem;
E muito devotamente roguei-lhe
Que ele dispusesse meu coração assim,
Que fosse prazer para ele,
E honra para minha senhora querida.
E isto foi longo, e muitos anos
Antes que meu coração fosse posto em outro lugar,
Que eu fiz assim, e não sabia por quê;
Creio que veio a mim naturalmente.
Porventura eu era para isso mais apto
Como uma parede branca ou uma tábua;
Pois está pronta para receber e tomar
Tudo que os homens quiserem nela fazer,
Onde quer que os homens queiram retratar ou pintar,
Sejam as obras nunca tão engenhosas.
E naquele tempo eu estava assim
Eu era capaz de ter aprendido então,
E de ter sabido tão bem ou melhor,
Porventura, outra arte ou letra.
Mas porque o amor veio primeiro em meu pensamento,
Por isso eu não o esqueci.
Eu escolhi o amor como meu primeiro ofício,
Por isso ele ficou comigo.
Pois porque eu o tomei de tão jovem idade,
Que malícia não tinha meu coração
Naquele tempo voltado para nada
Por demasiado conhecimento.
Pois naquele tempo a juventude, minha mestra,
Governava-me em ociosidade;
Pois era em minha primeira juventude,
E então muito pouco bem eu sabia,
Pois todas minhas obras eram instáveis,
E todos meus pensamentos variáveis;
Tudo era para mim igualmente bom,
Que eu sabia então; mas assim estava.
Aconteceu que eu vim um dia
A um lugar, onde eu vi,
Verdadeiramente, a mais bela companhia
De damas que jamais homem com olhos
Tinha visto juntas em um só lugar.
Devo chamar isso acaso ou graça
Que me trouxe ali? Não, mas Fortuna,
Que é mentir muito comum,
A falsa traidora, perversa,
Deus queira que eu pudesse chamá-la pior!
Pois agora ela me causa grande dor,
E eu direi logo por quê.
Entre essas damas todas,
Para dizer a verdade, eu vi ali uma
Que não era como nenhuma de todo o grupo;
Pois ouso jurar, sem dúvida,
Que assim como o sol de verão brilhante
É mais belo, claro, e tem mais luz
Do que qualquer planeta que está no céu,
A lua, ou as sete estrelas,
Assim para todo o mundo ela tinha
Superado todas em beleza,
Em maneiras e em graça,
Em estatura e bem posta alegria,
Em bondade tão bem mostrada —
Brevemente, que mais devo dizer?
Por Deus, e por seus doze santos,
Era minha doce, exatamente ela mesma!
Ela tinha semblante tão firme,
Tão nobre porte e manutenção.
E Amor, que tinha ouvido minha súplica,
Tinha me espiado assim logo,
Que ela bem cedo, em meu pensamento,
Assim Deus me ajude, foi capturada
Tão de repente, que eu não tomei
Nenhum conselho senão em seu olhar
E em meu coração; pois seus olhos
Tão alegremente, creio, meu coração viram,
Que puramente então meu próprio pensamento
Disse que era melhor servi-la em vão
Do que com outra estar bem.
E era verdade, pois, em tudo,
Eu direi logo a ti por quê.
Eu a vi dançar tão graciosamente,
Cantar e dançar tão docemente,
Rir e brincar tão feminilmente,
E olhar tão bondosamente,
Tão bem falar e tão amigavelmente,
Que certamente, creio, que sempre
Nunca foi visto tão feliz tesouro.
Pois cada cabelo sobre sua cabeça,
Para dizer a verdade, não era vermelho,
Nem amarelo, nem castanho era;
Pareceu-me, mais parecido com ouro era.
E que olhos minha senhora tinha!
Bondosos, bons, alegres, e sérios,
Simples, de boa medida, não muito largos;
Além disso seu olhar não era de lado,
Nem atravessado, mas posto tão bem,
Que atraía e tomava, completamente,
Todos que nela olhavam.
Seus olhos pareciam logo que ela queria
Ter misericórdia; tolos pensavam assim;
Mas nunca era feito por isso.
Não era coisa fingida,
Era seu próprio puro olhar,
Que a deusa, senhora Natureza,
Tinha feito abertos por medida,
E fechados; pois, fosse ela nunca tão alegre,
Seu olhar não era espalhado em tolice,
Nem selvagem, embora ela brincasse;
Mas sempre, pareceu-me, seus olhos diziam,
“Por Deus, minha ira está toda perdoada!”
Com isso ela quis tão bem viver,
Que a tristeza dela tinha medo.
Ela não era demasiado séria nem demasiado alegre;
Em todas as coisas mais medida
Nunca, creio eu, criatura teve.
Mas muitos com seu olhar ela feriu,
E isso pouco lhe importava,
Pois ela nada sabia de seu pensamento;
Mas se sabia, ou não sabia,
De qualquer modo ela não se importava nada!
Para ganhar seu amor não estava mais perto
Aquele que morava em casa, do que o da Índia;
O primeiro estava sempre atrás.
Mas boas pessoas, acima de todos,
Ela amava como homem pode amar seu irmão;
De tal amor ela era maravilhosamente generosa,
Em lugares justos que tinham dever.
Que rosto ela tinha com isso!
Alas! meu coração está maravilhosamente triste
Que eu não posso descrevê-lo!
Falta-me tanto inglês como engenho
Para desfazer isso completamente;
E também meus espíritos estão tão fracos
Para inventar tão grande coisa.
Não tenho engenho que possa bastar
Para compreender sua beleza;
Mas tanto ouso dizer, que ela
Era rosada, fresca, e de cor viva;
E cada dia sua beleza se renovava.
E perto de seu rosto era o melhor;
Pois certamente, Natureza tinha tal desejo
De fazer aquilo belo, que verdadeiramente ela
Era sua principal obra de beleza,
E principal exemplo de todo seu trabalho,
E mostra; pois, fosse nunca tão escuro,
Parece-me que a vejo sempre.
E ainda além, embora todos aqueles
Que jamais viveram não estivessem vivos,
Eles não poderiam ter encontrado para descrever
Em todo seu rosto um sinal mau;
Pois era sério, simples, e benigno.
E que fala boa e suave
Tinha aquela doce, minha cura de vida!
Tão amigável, e tão bem fundamentada,
Sobre toda razão tão bem fundada,
E tão tratável para todo bem,
Que ouso jurar pela cruz,
De eloquência nunca foi encontrado
Tão doce som de fala,
Nem mais verdadeira de língua, nem menos zombadora,
Nem melhor sabia curar; que, pela missa,
Ousaria jurar, mesmo que o papa o cantasse,
Que nunca houve ainda por sua língua
Homem nem mulher grandemente prejudicado;
Quanto a ela, todo mal estava escondido;
Nem menos lisonja em sua palavra,
Que puramente, seu simples testemunho
Foi encontrado tão verdadeiro como qualquer contrato,
Ou fé de qualquer mão de homem.
Nem ralhar ela podia de modo algum,
Isso todo o mundo sabe bem.
Mas tal beleza de pescoço
Tinha aquela doce que osso nem falha
Não se via ali, que faltasse.
Era branco, liso, reto, e plano,
Sem buraco; e clavícula,
Pelo parecer, não tinha nenhuma.
Sua garganta, como tenho memória agora,
Parecia uma torre redonda de marfim,
De boa grandeza, e não demasiado grande.
E boa bela White ela se chamava,
Esse era o nome de minha senhora.
Ela era tanto bela como brilhante,
Ela não tinha seu nome errado.
Belos ombros, e corpo longo
Ela tinha, e braços; cada membro
Cheio, carnudo, não grande demais;
Belas mãos brancas, e unhas vermelhas,
Seios redondos; e de boa largura
Seus quadris eram, costas retas e planas.
Eu não conheci nela outro defeito
Que todos seus membros não fossem perfeitos,
Na medida em que eu tinha conhecimento.
Além disso ela sabia tão bem brincar,
Quando lhe agradava, que ouso dizer,
Que ela era como tocha brilhante,
Que cada homem pode tomar luz
Bastante, e ela nunca tem menos.
De maneiras e de graça
Assim se portava minha senhora querida;
Pois cada pessoa de sua maneira
Podia tomar bastante, se quisesse,
Se tivesse olhos para contemplá-la.
Pois ouso jurar, se ela
Estivesse entre dez mil,
Ela teria sido, ao menos,
Um principal espelho de toda a festa,
Ainda que estivessem em fila,
Aos olhos dos homens poderia ser conhecida.
Pois onde quer que os homens tivessem jogado ou velado,
Pareceu-me a companhia tão vazia
Sem ela, que vi uma vez,
Como uma coroa sem pedras.
Verdadeiramente ela era, a meus olhos,
A única fênix da Arábia,
Pois ali vive apenas uma;
Nem tal como ela conheço nenhuma.
Para falar de bondade; verdadeiramente ela
Tinha tanta bondade
Como jamais teve Ester na Bíblia
E mais, se mais fosse possível.
E, para dizer a verdade, além disso
Ela tinha um engenho tão geral,
Tão totalmente inclinado a todo bem,
Que todo seu engenho estava posto, pela cruz,
Sem malícia, sobre alegria;
Além disso nunca vi ainda menos
Dano, do que ela tinha em fazer.
Não digo que ela não tivesse conhecimento
Do que era mal; ou senão ela
Não poderia saber o que era bom, assim me parece.
E verdadeiramente, para falar de verdade,
Mas se ela tivesse tido, teria sido piedade.
Disso ela tinha tanto sua parte —
E ouso dizer e jurar bem —
Que a própria Verdade, sobre tudo,
Tinha escolhido seu modo principal
Nela, que era seu lugar de descanso.
Além disso ela tinha a maior graça,
De ter firme perseverança,
E fácil, temperado governo,
Que jamais eu soube ou conheci ainda;
Tão pura paciente era sua mente.
E razão de bom grado ela entendia,
Seguia bem que ela sabia o bem.
Ela costumava de bom grado fazer o bem;
Estes eram seus modos em tudo.
Além disso ela amava tão bem o direito,
Ela não faria mal a ninguém;
Ninguém podia lhe fazer vergonha,
Ela amava tão bem seu próprio nome.
Seu desejo não era manter ninguém em engano;
Nem, fica certo, ela não queria tentar
Manter ninguém em dúvida,
Por meia palavra nem por semblante,
A menos que os homens mentissem sobre ela;
Nem enviar homens à Valáquia,
À Prússia, e à Tartária,
A Alexandria, nem à Turquia,
E ordenar-lhe logo, imediatamente, que
Vá sem capuz ao mar seco,
E volte para casa pelo Carenário;
E dizer: “Senhor, esteja agora bem atento
Que eu possa ouvir de vós
Honra, antes que volte novamente!”
Ela não usava tais truques pequenos.
Mas por que eu conto minha história?
Exatamente sobre isto, como eu disse,
Estava totalmente todo meu amor posto;
Pois certamente, ela era, aquela doce esposa,
Minha suficiência, meu desejo, minha vida,
Minha sorte, minha saúde, e toda minha felicidade,
Meu bem-estar no mundo, e minha alegria,
E eu dela totalmente, em tudo.
“Por nosso Senhor,” disse eu, “creio em vós bem!
Certamente, vosso amor estava bem posto,
Não sei como poderíeis ter feito melhor.”
“Melhor? ninguém tão bem!” disse ele.
“Creio nisso, senhor,” disse eu, “por Deus!”
“Não, acredita bem!” “Senhor, assim faço;
Creio em vós bem, que verdadeiramente
Vos parecia que ela era a melhor,
E a mais bela de se ver,
Quem a tivesse olhado com vossos olhos.”
“Com meus? Não, todos que a viram
Disseram e juraram que era assim.
E ainda que não tivessem, eu teria então
Amado melhor minha senhora livre,
Ainda que eu tivesse toda a beleza
Que jamais teve Alcibíades,
E toda a força de Hércules,
E além disso tivesse o valor
De Alexandre, e toda a riqueza
Que jamais houve em Babilônia,
Em Cartago, ou na Macedônia,
Ou em Roma, ou em Nínive;
E além disso também fosse tão corajoso
Como foi Heitor, assim tenho alegria,
Que Aquiles matou em Troia —
E por isso foi morto também
Num templo, pois ambos dois
Foram mortos, ele e Antilegius,
E assim diz Dares Frígio,
Por amor dela, Políxena —
Ou fosse tão sábio como Minerva,
Eu teria sempre, sem dúvida,
Amado-a, pois eu devia!
“Dever!” não, eu minto agora,
Não “dever”, e eu direi como,
Pois de boa vontade meu coração queria,
E também amá-la eu estava obrigado
Como a mais bela e a melhor.
Ela era tão boa, assim tenho descanso,
Como jamais foi Penélope da Grécia,
Ou como a nobre esposa Lucrécia,
Que foi a melhor — assim conta
O romano Tito Lívio —
Ela era tão boa, e nada diferente,
Embora suas histórias sejam autênticas;
De qualquer modo ela era tão fiel quanto elas.
Mas por que eu te conto
Quando primeiro vi minha senhora?
Eu era bem jovem, para dizer a verdade,
E grande necessidade eu tinha de aprender;
Quando meu coração queria ansiar
Por amor, era grande empreendimento.
Mas como meu engenho podia melhor bastar,
Segundo meu jovem entendimento infantil,
Sem dúvida, eu o pus
Para amar a ela da melhor maneira,
Para lhe dar honra e serviço
Que eu então podia, por minha fé,
Sem fingimento nem preguiça;
Pois muito desejoso eu queria vê-la.
Tanto isso me melhorava,
Que, quando eu a via pela manhã,
Eu era curado de toda minha dor
Por todo o dia depois, até que fosse noite;
Pareceu-me que nada podia me afligir,
Ainda que minhas dores fossem muito fortes.
E ainda ela está assim em meu coração,
Que, por minha fé, eu não queria,
Por todo este mundo, fora de meu pensamento
Deixar minha senhora; não, verdadeiramente!”
“Agora, por minha fé, senhor,” disse eu,
“Parece-me que tendes tal sorte
Como confissão sem arrependimento.”
“Arrependimento! Não, vergonha,” disse ele;
“Deveria eu agora arrepender-me
De amar? não, certamente, então eu seria
Pior do que foi Aquitofel,
Ou Antenor, assim tenho alegria,
O traidor que traiu Troia,
Ou o falso Genelon,
Aquele que comprou a traição
De Rolando e de Oliver.
Não, por quê! Eu estou vivo aqui
Eu não esquecerei dela nunca mais.”
“Agora, bom senhor,” disse eu logo então,
“Vós já me contastes aqui antes.
Não há necessidade de repetir mais
Como a vistes primeiro, e onde;
Mas quereis me contar a maneira,
Qual foi vossa primeira fala a ela —
Disso eu vos pediria —
E como ela soube primeiro vosso pensamento,
Se vós a amáveis ou não,
E contai-me também o que perdestes;
Eu vos ouvi contar antes.”
“Sim,” disse ele, “tu não sabes o que queres dizer;
Eu perdi mais do que tu pensas.”
“Que perda é essa, senhor?” disse eu então;
“Ela não vos ama? É isso?
Ou fizestes algo errado,
Que ela vos deixou? É isso?
Pelo amor de Deus, contai-me tudo.”
“Perante Deus,” disse ele, “e eu direi.
Eu digo exatamente como disse,
Nela estava todo meu amor posto;
E ainda ela não sabia nada disso
Por muito tempo, acredita bem.
Pois fica certo, eu não ousava
Por todo este mundo contar-lhe meu pensamento,
Nem eu queria tê-la irritado, verdadeiramente.
Pois sabes por quê? ela era senhora
Do corpo; ela tinha o coração,
E quem tem isso, não pode escapar.
Mas, para me manter longe da ociosidade,
Verdadeiramente eu fazia meu esforço
Para compor canções, como melhor podia,
E muitas vezes eu as cantava alto;
E fiz muitas canções,
Embora eu não pudesse fazer tão bem
Canções, nem conhecer toda a arte,
Como podia Tubal, filho de Lameque,
Que descobriu primeiro a arte da canção;
Pois, como os martelos de seus irmãos soavam
Sobre sua bigorna para cima e para baixo,
Disso ele tomou o primeiro som;
Mas os gregos dizem, Pitágoras,
Que ele foi o primeiro descobridor
Da arte; Aurora conta assim,
Mas disso não importa, de ambos dois.
De qualquer modo canções assim eu fiz
De meu sentimento, para alegrar meu coração;
E eis! esta foi a primeira,
Não sei se foi a pior. —
“Senhor, isso torna meu coração leve,
Quando penso naquela doce criatura
Que é tão bela de se ver;
E desejo a Deus que pudesse ser,
Que ela me tivesse por seu cavaleiro,
Minha senhora, que é tão bela e brilhante!” —
Agora eu te contei, para dizer a verdade,
Minha primeira canção. Num dia
Eu pensei em quanta dor
E tristeza eu sofria então
Por ela, e ainda ela não sabia,
Nem ousava eu contar-lhe meu pensamento.
“Alas!” pensei eu, “não sei conselho;
E, se não lhe contar, estou morto;
E se lhe contar, para dizer a verdade,
Tenho medo que ela se irrite;
Alas! o que devo então fazer?”
Neste debate eu estava tão aflito,
Pareceu-me que meu coração se partia em dois!
Assim, ao fim, para dizer a verdade,
Eu pensei que a natureza
Nunca formou em criatura
Tanta beleza, verdadeiramente,
E bondade, sem misericórdia.
Na esperança disso, minha história eu contei.
Com tristeza, como se eu nunca devesse;
Pois por necessidade, e contra minha vontade,
Eu devia ter contado a ela ou estar morto.
Não sei bem como comecei,
Muito mal posso repetir isso;
E também, assim Deus me ajude,
Creio que foi em dia funesto,
Que eram as dez pragas do Egito;
Pois muitas palavras eu pulei
Em minha fala, por puro medo
De que minhas palavras fossem mal ditas.
Com coração triste, e feridas mortas,
Suave e tremendo por puro medo
E vergonha, e interrompendo meu discurso
Por temor, e minha cor toda pálida,
Muitas vezes eu ficava tanto pálido como vermelho;
Curvando-me a ela, baixei a cabeça;
Não ousava sequer olhar para ela,
Pois engenho, maneiras, e tudo se foram.
Eu disse “misericórdia!” e nada mais;
Não era brincadeira, me doía muito.
Assim, ao fim, para dizer a verdade,
Quando meu coração voltou novamente,
Para contar brevemente toda minha fala,
Com todo o coração eu comecei a suplicar
Que ela fosse minha doce senhora;
E jurei, e comecei a prometer-lhe de coração
Sempre ser firme e fiel,
E amá-la sempre de modo novo,
E nunca ter outra senhora,
E guardar toda sua honra
Como melhor pudesse; eu lhe jurei isto —
“Pois teu é tudo que jamais existe
Para sempre, meu doce coração!
E nunca falso a ti, mas eu encontro,
Eu não serei, assim Deus me ajude!”
E quando eu tinha feito minha fala,
Deus sabe, ela não contou um palito
De toda minha fala, assim me pareceu.
Para contar brevemente como é,
Verdadeiramente sua resposta foi esta;
Não posso agora bem imitar
Suas palavras, mas isto foi o principal
De sua resposta: ela disse, “não”
Totalmente. Alas, naquele dia
A dor que sofri, e o sofrimento!
Que verdadeiramente Cassandra, que assim
Lamentou a destruição
De Troia e de Ílion,
Nunca teve tal dor como eu então.
Não ousava dizer mais por isso
Por puro medo, mas fugi;
E assim vivi muitos dias;
Que verdadeiramente, eu não tinha necessidade
Mais longe que a cabeceira de minha cama
Nunca um dia para buscar dor;
Eu a encontrava pronta toda manhã,
Pois eu a amava em todo caso.
Assim aconteceu, outro ano,
Eu pensei uma vez que tentaria
Fazer ela saber e entender
Minha dor; e ela bem entendeu
Que eu não desejava senão o bem,
E honra, e guardar seu nome
Sobre todas as coisas, e temer sua vergonha,
E estava tão ocupado em servi-la; —
E piedade seria que eu morresse,
Já que eu não desejava nenhum mal, em verdade.
Assim, quando minha senhora soube tudo isso,
Minha senhora me deu totalmente
O nobre dom de sua misericórdia,
Guardando sua honra, de todas as maneiras;
Sem dúvida, não quero dizer de outra forma.
E com isso ela me deu um anel;
Creio que foi a primeira coisa;
Mas se meu coração ficou
Alegre, isso não é preciso perguntar!
Assim Deus me ajude, eu fui logo
Levantado, como da morte para a vida,
De todas as sortes a melhor,
O mais feliz e o mais em paz.
Pois verdadeiramente, aquela doce criatura,
Quando eu estava errado e ela certa,
Ela sempre tão bondosamente
Perdoava-me tão gentilmente.
Em toda minha juventude, em toda sorte,
Ela me tomou em seu governo.
Com isso ela era sempre tão fiel,
Nossa alegria era sempre igualmente nova;
Nossos corações eram tão iguais em par,
Que nunca estava um contrário
Ao outro, por nenhuma dor.
Pois verdadeiramente, igualmente eles sofriam então
Uma alegria e também uma dor ambos;
Igualmente eles eram ambos alegres e irados;
Tudo era para nós um só, sem dúvida.
E assim vivemos muitos anos
Tão bem, não posso dizer como.”
“Senhor,” disse eu, “onde está ela agora?”
“Agora!” disse ele, e parou logo.
Com isso ele ficou como morto como pedra,
E disse, “Alas! que eu nasci,
Esse foi a perda, que aqui antes
Eu te disse, que eu tinha perdido.
Lembra como eu disse aqui antes,
‘Tu sabes muito pouco o que queres dizer;
Eu perdi mais do que tu pensas’ —
Deus sabe, alas! Exatamente essa era ela!”
“Alas! senhor, como? O que pode ser?”
“Ela está morta!” “Não!” “Sim, por minha fé!”
“É essa tua perda? Por Deus, é piedade!”
E com essa palavra, logo,
Eles começaram a avançar; tudo estava feito,
Por aquele tempo, a caça ao cervo.
Com isso, pareceu-me, que este rei
Começou rapidamente a cavalgar para casa
Até um lugar ali perto,
Que estava de nós apenas um pouco,
Um longo castelo com paredes brancas,
Por São João! sobre uma rica colina,
Assim me pareceu; mas assim aconteceu.
Exatamente assim me pareceu, como vos digo,
Que no castelo havia um sino,
Como se tivesse batido doze horas. —
Com isso eu acordei,
E encontrei-me deitado em minha cama;
E o livro que eu tinha lido,
De Alcione e do rei Seys,
E dos deuses do sono,
Eu o encontrei em minha mão exatamente.
Pensei, “isto é tão estranho um sonho,
Que eu quero, com o passar do tempo,
Tentar pôr este sonho em rima
Como melhor eu puder, e logo.”
Este foi meu sonho; agora está feito
