Tales de Mileto

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Thales of Miletus (by Peter Paul Rubens, Copyright)
Tales de Mileto Peter Paul Rubens (Copyright)

Tales de Mileto (cera de 585 a.C.) é considerado o primeiro filósofo e matemático ocidental. Nasceu e viveu em Mileto, uma colónia grega na Jónia (atual Turquia), referida como o berço da filosofia grega devido ao seu elevado prestígio como Primeiro Filósofo — título que lhe foi atribuído por autores gregos posteriores sobre a matéria.

O filósofo Aristóteles (384 – 322 a.C.) foi o primeiro a chamar a Tales o «Primeiro Filósofo» pela sua abordagem sistemática à investigação, e a sua afirmação foi aceite porque todos os seus pronunciamentos eram regularmente tidos como precisos. No entanto, o que era exatamente a abordagem de Tales permanece incerto, uma vez que nenhuma das suas obras sobreviveu — o que se sabe da sua filosofia provém de fragmentos preservados em passagens de autores posteriores —, mas todos concordam que ele foi o pioneiro do movimento intelectual que mais tarde viria a ser conhecido como filosofia grega.

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Diz-se que previu com precisão o eclipse solar de 28 de maio de 585 a.C. e era conhecido como um hábil astrónomo, matemático, homem de Estado, engenheiro e sábio (figurando como um dos Sete Sábios da Grécia). É considerado o inventor da matemática grega devido à introdução da geometria na Grécia e por inovações matemáticas como o Teorema de Tales, utilizado para encontrar o centro de um círculo, entre outras aplicações. Embora se reconheça que Tales derivou este teorema da Babilónia (e algumas fontes o atribuam a Pitágoras), acredita-se geralmente que Tales desenvolveu mais aprofundadamente o conceito babilónico que viria a ser utilizado por Pitágoras.

Diz-se que Tales foi o primeiro a fazer a pergunta «Qual é a "matéria" básica do universo?» e que, de acordo com Aristóteles, afirmou que a Causa Primeira era a água porque, entre outros atributos, a água podia mudar de forma e de estado mantendo-se, ainda assim, inalterada na sua substância. As suas teses foram inovadoras, uma vez que eliminou a explicação teísta tradicional para um dado fenómeno.

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A investigação de Tales sobre a natureza da realidade e as causas primeiras deveria ter colocado desafios significativos à antiga religião grega, a qual defendia que o mundo fora criado pelos deuses através de meios sobrenaturais. Contudo, não há evidência de que ele tenha sido perseguido pelo seu trabalho; pelo contrário, parece ter sido altamente respeitado.

Com base nos fragmentos sobreviventes da sua obra, ele parece ter sido aceite — e respeitado — pelos seus contemporâneos porque nunca negou a existência dos deuses; limitou-se a propor um elemento primordial e único que podia ser interpretado como a matéria com a qual os deuses teriam trabalhado, uma vez que a água já era reconhecida na cosmologia grega como o elemento que circundava a Terra sob a forma do rio Oceano.

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A abordagem pragmática e empírica de Tales a esta matéria, contudo, que desprovou a criação dos seus aspetos sobrenaturais para se focar no mundo observável, iniciou a aplicação do pensamento racional. Este seria depois prosseguido por outros (conhecidos como os Filósofos Pré-Socráticos) até ao seu pleno desenvolvimento por Sócrates (cerca de 470/469 – 399 a.C.), Platão (cerca de 424/423 – 348/347 a.C.), Aristóteles e todos os que se lhes seguiram nas disciplinas hoje designadas como Filosofia da Grécia Antiga, Ciência da Grécia Antiga e Matemática da Grécia Antiga.

A Religião Grega Primitiva

Segundo o escritor grego Hesíodo (século VIII a.C.) na sua Teogonia (tít. original: Θεογονία: transliterado: Theogonia), o mundo (personificado como a deusa Gaia) emergiu de um caos turbilhonante de nada, fertilizando-se a si própria e dando à luz o céu (o deus Urano) que depois a fecundou com os entes conhecidos como os Titãs, seis masculinos e seis femininos. Posteriormente, Gaia daria também à luz os Ciclopes (os de um só olho) e os Hecatônquiros (os de cem mãos), ambos agredindo a vista de Urano, que os atirou para a prisão subterrânea e sombria do Tártaro.

Gaia, indignada com as ações de Urano, convenceu o seu filho titã Cronos a matá-lo, o que este fez castrando o pai. Mais tarde, receoso de que o mesmo lhe acontecesse a si, Cronos engoliu cada um dos filhos nascidos da sua irmã e esposa Reia até ao nascimento de Zeus, o qual Reia escondeu, dando a comer a Cronos uma pedra envolta nas mantas do recém-nascido. Zeus cresceu numa gruta na ilha de Creta e, ao atingir a idade adulta, regressou para derrubar Cronos: forçou-o a vomitar os seus irmãos mais velhos, matou-o e estabeleceu-se como Rei dos Deuses. Ele e os seus irmãos e irmãs passaram então a governar o mundo — uma espécie de disco circundado pelas águas de Oceano — a partir da sua morada no Monte Olimpo, após terem criado a humanidade.

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Na altura em que Tales nasceu, as histórias relativas aos deuses antropomórficos tinham-se tornado um sistema de crenças altamente desenvolvido, no qual se acreditava que estes deuses interagiam com os humanos no dia a dia, eram responsáveis pela manutenção e preservação do mundo e se interessavam pelas vidas pessoais e escolhas éticas das suas criações humanas. Ergueram-se templos em honra de várias divindades do panteão, desenvolveu-se um clero e os rituais foram padronizados. Não havia, por conseguinte, motivo para procurar uma origem do mundo, uma vez que esta era claramente explicada pela crença religiosa.

Tales, a Babilónia e o Egito

Uma das questões recorrentes quanto ao desenvolvimento do pensamento de Tales tem sido o modo como ele foi inicialmente inspirado a prossegui-lo, considerando o clima intelectual em que foi criado. A filosofia desenvolve-se, por norma, apenas quando a religião falha em responder às necessidades das pessoas e, de acordo com todos os relatos, a religião grega primitiva respondia-lhes. Parece, contudo, que Tales se inspirou nas suas investigações através do estudo na Babilónia. Os babilónios mantinham a crença de longa data de que a água era o primeiro princípio e a forma subjacente da existência, e Tales terá assimilado este conceito a partir deles.

O académico George G. M. James, no entanto, afirma que Tales desenvolveu as suas ideias a partir dos egípcios, com os quais também terá tido contacto. James escreve:

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Tanto a história como a tradição se calam sobre o modo como Tales chegou às suas conclusões, exceto pelo facto de Aristóteles tentar oferecer a sua opinião como razão: isto é, a de que Tales terá sido influenciado pela consideração da humidade da nutrição, baseando a sua conclusão numa interpretação racionalista do mito de Oceano. Isto, contudo, é considerado mera conjetura por parte de Aristóteles.

(pág. 55)

James sugere que Tales tomou a ideia da água como primeiro princípio diretamente da religião egípcia, a qual defendia que a Terra tinha surgido dos mares primordiais do caos. O deus Atum (acompanhado, em algumas versões da história, pelo deus Heca, pela deusa Neite ou por outros) colocou-se sobre uma pequena colina de terra conhecida como o ben-ben e criou o mundo ordenado a partir desse caos aquático. James pode bem estar correto, na medida em que é inteiramente possível que um jovem abastado e intelectual como Tales possa ter estudado no Egito assim como na Babilónia ou, com igual probabilidade, ter adquirido o seu conhecimento da história egípcia da criação através dos babilónios, que comerciavam regularmente com o Egito.

Parece não ter havido assunto que não fosse do interesse de Tales, mas, segundo Aristóteles (na obra Metafísica -tít. original: Ta meta ta physika / Metaphysica), ele estava mais preocupado com a Causa Primeira — aquilo de onde tudo o resto provinha — e declarou que esta era a água. Como se notou, contudo, o modo como ele chegou a esta conclusão não é adequadamente explicado pela cultura do seu tempo. A maioria dos académicos ocidentais rejeita as alegações de influência egípcia ou babilónica e insiste que o pensamento de Tales foi completamente original e derivado do paradigma grego antigo do universo, o que serviu de base à interpretação padrão sobre as origens da filosofia grega; todavia, esta interpretação pode estar errada.

Aristóteles e Outros Autores sobre Tales

Independentemente do modo como chegou às suas conclusões, Tales manteve uma visão pragmática da criação do mundo que não tinha, necessariamente, nada a ver com os deuses. Escolheu a água como primeiro princípio por ter observado que a água se transformava em vapor quando aquecida enquanto, quando compactada com a terra, se tornava lodo e, se suficientemente arrefecida, se transformava em gelo. A água era, portanto, a forma subjacente da realidade observável.

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De acordo com Aristóteles e outros autores da Antiguidade, Tales era considerado um pensador original, uma vez que a sua teoria sobre a água não apresenta uma relação estreita com a asserção mitológica grega, segundo a qual os deuses criaram a Terra, incluindo o elemento água. Embora Tales afirme, tal como o mito grego, que a Terra repousa sobre a água, a sua teoria descarta quaisquer causas sobrenaturais para este estado de coisas. Para Tales, existiam razões práticas, demonstráveis e lógicas para o acontecimento das coisas, e os deuses nada tinham a ver com os fenómenos observáveis.

Tendo isto em mente, é interessante notar que outra das famosas afirmações de Tales era a de que «Todas as coisas estão cheias de deuses». Aristóteles na obra Sobre a Alma (tít. original: De Anima) escreve:

Também Tales, a julgar pelo que se regista das suas opiniões, parece supor que a alma é, em certo sentido, a causa do movimento, visto dizer que uma pedra [íman ou calamita] tem alma porque provoca o movimento no ferro.

(405 a20-22)

O que, exatamente, Tales queria dizer com esta afirmação permanece incerto, mas tem sido sugerido — e é provável — que por «deuses» ele entendesse simplesmente energia, mas que Aristóteles e outros tenham mais tarde reinterpretado a afirmação de Tales segundo o entendimento comum da palavra grega theoi como significando «deuses». Todavia, Tales poderia estar a utilizar o termo num sentido inteiramente novo.

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A tese de que os «deuses» de Tales são, na realidade, «energia» é uma interpretação moderna, contudo parece provável, na medida em que a filosofia de Tales é notoriamente prática e baseada em fenómenos observáveis. Ele parece ter exercido cargos públicos, foi empregado como engenheiro pelo rei Creso da Lídia (r. 560 – 547 a.C.) e foi reconhecido pela sua perícia na astronomia. O académico Forrest E. Baird assinala:

À semelhança de muitos outros pré-socráticos, Tales não era de modo algum apenas um filósofo. Era também um homem de Estado, um astrónomo e um sábio.

(pág. 8)

Quando estava ao serviço de Creso como engenheiro, diz-se que tornou possível o prosseguimento da marcha do exército lidio ao redirecionar um rio. De acordo com Heródoto:

Quando chegou ao rio Hális, Creso, como digo, fez atravessar o seu exército pelas pontes existentes; mas, segundo o relato comum dos gregos, Tales o Milésio procedeu à travessia do exército por ele. Pois diz-se que Creso não sabia como o seu exército haveria de cruzar o rio, dado que estas pontes ainda não existiam nesta época; e que Tales, presente no exército, fez com que o rio, que corria à esquerda do exército, passasse a correr também à sua direita. fê-lo desta forma: começando a montante do exército, escavou um canal profundo em forma de meia-lua, para que corresse por trás de onde o exército se encontrava acampado, sendo assim desviado do seu antigo leito pelo canal e, passando o acampamento, voltasse a fluir no seu curso antigo. O resultado foi que, assim que o rio se dividiu, se tornou vauável em ambas as suas partes.

(Histórias, I.75)

Para Tales, existiam razões práticas, demonstráveis e lógicas para o acontecimento das coisas, e os deuses nada tinham a ver com os fenómenos observáveis.

Aristóteles conta a história de como Tales provou aos seus contemporâneos a utilidade prática da filosofia:

Quando o censuravam pela sua pobreza, como se a filosofia não tivesse qualquer utilidade, conta-se que, tendo observado através do estudo dos corpos celestes que haveria uma grande colheita de azeitona, angariou um pequeno capital quando ainda era inverno e pagou o sinal por todos os lagares de azeite em Mileto e em Quio, alugando-os a baixo preço porque ninguém licitava contra ele. Quando chegou o momento oportuno, houve uma súbita corrida aos lagares; ele alugou-os então nas suas próprias condições e obteve assim um grande lucro, demonstrando desse modo que é fácil para os filósofos enriquecerem, se o desejarem, mas não é nisso que estão interessados. (Política, 1259a)

A aplicação prática da filosofia como ferramenta da razão atraiu a atenção de jovens intelectuais masculinos que se tornaram alunos de Tales. Com o tempo, Tales fundou a Escola de Mileto que, hoje em dia, equivaleria a um colégio privado no qual os jovens podiam seguir um curso de estudos focado no debate, na investigação e na exploração do mundo que os cercava. Embora não haja evidência de que Tales fosse ateu ou de que ensinasse o ateísmo, há abundantes provas de que a compreensão tradicional dos deuses não tinha lugar nos seus ensinamentos. O seu aluno mais famoso, Anaximandro (cerca de 610 – c. 546 a.C.), deu continuidade a esta abordagem racional da investigação, rejeitando as explicações teológicas gregas tradicionais, tal como fez, depois dele, Anaxímenes (cerca de 546 a.C.), também da Escola de Mileto.

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Conclusão

Entre as suas muitas realizações, diz-se que Tales descobriu a Ursa Menor, estudou a eletricidade, desenvolveu a geometria, contribuiu para a aplicação prática da matemática posteriormente desenvolvida por Euclides, construiu um telescópio rudimentar, «descobriu» as estações e fixou o solstício, criou o que mais tarde seria conhecido como «filosofia natural» e foi reconhecido, juntamente com homens ilustres como Sólon, como um dos Sete Sábios da Grécia Antiga, mencionados pela primeira vez no diálogo Protágoras (tít. original: Πρωταγόρας; transliterado: Protagoras), de Platão.

Diz-se que Tales morreu de velhice enquanto assistia a uma competição desportiva. De acordo com o escritor grego posterior Diógenes Laércio (século III d.C.):

Este sábio Tales morreu estando presente como espetador num concurso gimnico, esgotado pelo calor, pela sede e pela fraqueza, pois era já muito idoso; e a seguinte inscrição foi colocada no seu túmulo: Vês este túmulo pequeno — mas recorda-te de que a fama de Tales alcança os céus.

(Vidas dos Filósofos Ilustres)

Embora filósofos posteriores tenham discordado da tese de Tales de que a água era a Causa Primeira e a substância básica do universo, a sua obra inspirou aqueles que viriam a ser conhecidos como os Filósofos Pré-Socráticos a seguir os seus próprios caminhos e a desenvolver os seus próprios sistemas filosóficos. Estes culminariam finalmente na visão de Sócrates, tal como interpretada e desenvolvida pelo seu aluno Platão, ressoando muito para além do mundo da Grécia Antiga para fundamentar a totalidade da filosofia ocidental e influenciar sistemas filosóficos em todo o mundo.

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Perguntas & Respostas

Quem foi Tales de Mileto?

Tales de Mileto é considerado o primeiro filósofo da Grécia antiga, o primeiro dos filósofos pré-socráticos e o inventor da matemática grega.

Por que é que Tales de Mileto é conhecido?

Tales de Mileto é conhecido por ter sido o primeiro filósofo a perguntar «qual é a matéria fundamental do universo?» e a seguir uma linha de investigação sobre a Causa Primeira da criação.

Qual é a principal teoria de Tales de Mileto?

A principal teoria de Tales de Mileto é que a Causa Primeira do Universo é a água. Quando arrefecida, a água transforma-se num sólido (gelo); quando aquecida, transforma-se em vapor (ar); dá vida às criaturas aquáticas e aos seres humanos e, por isso, é uma forte candidata a Causa Primeira. Os filósofos posteriores rejeitaram esta afirmação.

Será que Tales de Mileto acreditava nos deuses?

Tales de Mileto afirmava que todas as coisas estavam imbuídas de «deuses», mas não é claro o que ele pretendia dizer com esta afirmação. Nos seus escritos que nos chegaram, nunca negou explicitamente a existência dos deuses.

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Mark, J. J. (2026, outubro 28). Tales de Mileto. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-483/tales-de-mileto/

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Mark, Joshua J.. "Tales de Mileto." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, outubro 28, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-483/tales-de-mileto/.

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Mark, Joshua J.. "Tales de Mileto." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 28 out 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-483/tales-de-mileto/.

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