Protágoras

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Democritus & Protagoras (by Hermitage Museum, Public Domain)
Demócrito & Protágoras Hermitage Museum (Public Domain)

Protágoras de Abdera (cerca de 485–415 a.C.) é considerado o maior dos sofistas da Grécia antiga e o primeiro filósofo no Ocidente a promover o subjetivismo, argumentando que a interpretação de qualquer experiência dada, ou de seja o que for, é relativa ao indivíduo. Esta mesma visão tinha sido promovida anteriormente pelo filósofo relativista chinês Teng Shih (cerca de 500 a.C.).

Protágoras foi o primeiro a ensinar a filosofia relativista na Grécia através da sua posição como sofista. Um sofista era um professor de retórica, política e lógica que servia como explicador particular da juventude das classes altas, e Protágoras contava-se entre os mais populares e ricamente pagos. A Grécia em geral, mas Atenas em particular, era extremamente litigiosa e os tribunais ouviam inúmeros processos diariamente. A capacidade de persuadir um júri a aceitar o seu lado de um argumento e a rejeitar as alegações opostas era altamente valorizada, sendo esta uma das competências que os sofistas se propunham ensinar, mediante pagamento.

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Protágoras é mais conhecido pela frase frequentemente traduzida como «o homem é a medida de todas as coisas», com a qual quis dizer que tudo é relativo à interpretação individual. Uma sala parecerá fria a alguém habituado ao calor e parecerá quente a alguém que venha do frio e, na perspetiva de Protágoras, ambos têm razão. Do mesmo modo, «certo» e «errado» são rótulos que as pessoas utilizam com base na sua própria experiência e interpretação e, em última análise, não passam de opiniões. Não existe um «certo» absoluto nem um «errado» definitivo, porque não há uma Verdade final que possa conferir valor a estas definições.

As teses de Protágoras foram rebatidas por Platão (428/427–348/347 a.C.), que sustentava a necessidade de existir uma Verdade última para fundamentar as definições e os valores que as pessoas consideravam verdadeiros. Se não houve-se Verdade, então, tal como Protágoras alegaba, qualquer discussão sobre o que é certo ou errado não passava de mera opinião e, além disso, as leis e os costumes sociais perdiam todo o sentido. Platão dedicou um diálogo inteiro (o Protágoras - tít. original: Πρωταγόρας; transliterado: Prōtagoras) a refutar a perspetiva relativista, mas, poder-se-á argumentar, todo o corpus da sua obra é essencialmente consagrado a provar que Protágoras estava errado.

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Protágoras, o Sofista

Os sofistas ensinavam às pessoas, em particular aos jovens, os pontos mais subtiles da cultura e a forma de falar bem (dando origem à palavra portuguesa «sofisticado»). Como a Grécia, e em especial Atenas, era extremamente litigiosa, o conhecimento da arte da oratória era grandemente valorizado como meio de se defender em tribunal ou de acusar outrem. Não havia advogados profissionais na Grécia antiga e, por conseguinte, cabia ao indivíduo envolvido num caso judicial contratar um escritor de discursos profissional e, em seguida, ser capaz de proferir esse discurso com eloquência.

Segundo os autores antigos, Protágoras ganhava a vida principalmente a treinar a juventude rica na arte da retórica para uso no tribunal. Uma grande parte do que sabemos sobre a vida e os ensinamentos de Protágoras provém de dois diálogos de Platão, o Protágoras e o Teeteto (tít. original: Θεαίτητος: transliterado Theaitētos), nos quais é apresentado de forma desfavorável. Os professores Forrest E. Baird e Walter Kaufmann comentam:

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Platão considerava sua tarefa opor-se a estes homens e, uma vez que os seus diálogos sobreviveram e a maioria dos escritos deles não, os seus retratos altamente polémicos dos sofistas têm sido amplamente aceites como retratos justos. O próprio nome «sofista» tornou-se uma censura. Contudo, não se deve aceitar acriticamente a imagem que Platão faz dos sofistas. Embora muitos discordem das conclusões dos sofistas, o questionamento das convenções por parte destes, especialmente na ética, e a sua crítica aos limites do conhecimento representam um marco na história do pensamento.

(págs. 43–44)

Protágoras é mais conhecido pela sua afirmação de que «de todas as coisas a medida é o Homem, das coisas que são, que são, e das coisas que não são, que não são» ou, por outras palavras, que tudo é relativo à experiência, ao julgamento e à interpretação individuais. Este pensamento é frequentemente formulado como «o homem é a medida de todas as coisas» ou «tudo é relativo». Julga-se que esta afirmação era de particular utilidade em tribunal, onde um acusador ou réu podia empregar um raciocínio relativista para ganhar um caso.

Por exemplo, se a Pessoa A alegasse que a Pessoa B a tinha prejudicado ao levar uma cabra do seu quintal, e Protágoras estivesse a treinar, ou mesmo a representar, a Pessoa B, poderia responder à acusação afirmando que a Pessoa A talvez cresse que a cabra lhe pertencia mas, como a Pessoa B fazia a mesma afirmação e faltavam quaisquer provas materiais, não havia forma de verificar a crença da Pessoa A. Se a Pessoa A chamasse testemunhas para fornecer tal verificação, estas deparar-se-iam com o ceticismo de Protágoras, uma vez que eram claramente parciais a favor da Pessoa A. O caso seria ganho introduzindo dúvidas suficientes nas mentes dos jurados para decidirem a favor da Pessoa B. A verdade real a respeito de a quem pertencia a cabra ou se a Pessoa B a tinha, de facto, roubado não importava para Protágoras, porque não havia nenhuma «verdade» para além daquilo que um indivíduo definia que esse conceito era.

O Relativismo de Protágoras

Na filosofia, o «relativismo» é a crença de que não existe uma verdade final e objetiva, podendo Protágoras ser considerado o primeiro relativista conhecido na cultura ocidental. Platão, naturalmente, acreditava num padrão objetivo de verdade que todos precisam de apreender e reconhecer para viver uma vida plena, realizada e produtiva. Encontrava-se, por conseguinte, em forte desacordo com a filosofia de Protágoras. Os professores Baird and Kaufmann escrevem: «Platão entende que Protágoras quer dizer que cada pessoa, e não a humanidade como um todo, é a medida de todas as coisas, atacando assim o relativismo de Protágoras» (pág. 43). É possível, contudo, que Protágoras estivesse simplesmente a fazer uso de ideias defendidas pela primeira vez pelo filósofo grego anterior Xenófanes de Cólofon (cerca de 570–478 a.C.), que enfatizava as limitações do conhecimento humano.

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Protágoras afirmou célebremente que tudo é relativo à experiência, ao julgamento e à interpretação individuais.

Xenófanes escreve: «Nenhum homem sabe nem jamais saberá a verdade sobre os deuses e sobre tudo o que refiro; pois mesmo que por acaso alguém dissesse a verdade completa, ainda assim ele próprio não a conhece, mas a aparência cobre todas as coisas» (DK21B38). Xenófanes está aqui a dizer que, devido à natureza subjetiva da interpretação e da compreensão humanas, mesmo que um indivíduo descobrisse a verdade sobre os deuses, não seria capaz de se aperceber dessa verdade, porque a «aparência» — a nossa compreensão subjetiva — obscurece e distorce tal possibilidade.

Protágoras parece defender algo muito semelhante quando escreve:

Sobre os deuses, não me é possível saber se existem ou não existem, nem como são em termos de forma; pois os fatores que impedem o conhecimento são muitos: a obscuridade do assunto e a brevidade da vida humana.

(Baird & Kaufmann, pág. 44)

Esta frase também reflete outro dos pensamentos de Xenófanes relativo ao conhecimento dos deuses, em que o filósofo mais velho afirmava que só se podia aceder a esse conhecimento procurando-o e que, mesmo assim, só se conseguiria apreender uma sombra.

O famoso relativismo de Protágoras poderá, portanto, ter sido originalmente uma mera observação empírica acerca da condição humana e não um «relativismo» propriamente dito, na medida em que talvez nunca tenha afirmado que a «verdade» ou os «deuses» não existiam, mas sim que não há forma de definir objetivamente o que essas coisas possam ser. Todos, segundo Protágoras, interpretarão a verdade individualmente, e isto tem sido entendido no sentido de que, se alguém afirma que Deus não existe, então Deus não existe para essa pessoa. Embora Platão afirme que foi isto que Protágoras acreditou e ensinou, tal não pode ser afirmado com certeza, dado que apenas subsistem fragmentos da obra de Protágoras. A sua tutela da juventude de Atenas e a sua perícia no contencioso são consideradas prováveis com base no que foi escrito sobre ele e no comportamento dos sofistas em geral, mas, ainda assim, não passam de testemunhos indiretos.

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Protágoras e o Objetivismo de Platão

Independentemente da motivação ou inspiração que tenha impulsionado Protágoras, as suas ideias eram antagónicas ao objetivismo de Platão, tendo este último feito muito para o fazer parecer insensato. No seu diálogo Teeteto, Platão faz com que a personagem de Sócrates diga:

[Protágoras] diz, não diz, que aquilo que é acreditado por cada pessoa é assim para quem o acredita?... Ora, por muito gratificante que seja ouvir dizer que o que cada um de nós acredita é verdade, estranho que ele não comece a sua Verdade dizendo que de todas as coisas a medida é o porco, ou o babuíno de cara de cão... Se aquilo que cada homem acredita ser verdade através da sensação é verdade para ele — então, meu amigo, como foi Protágoras tão sábio que se considerou digno de ensinar os outros e por honorários avultados? E como somos nós tão ignorantes que havemos de ir à escola dele se cada um de nós é a medida da sua própria sabedoria?

(161B)

Embora pareça evidente que Protágoras defendia esta filosofia relativista, desconhece-se se ganhava a vida a ensinar estes conceitos como verdades filosóficas. É provável, uma vez mais, que utilizasse o seu paradigma de que apenas o indivíduo é capaz de apreender verdades e realidades separadas para ensinar os seus alunos a vencer casos em tribunal «fazendo com que a causa pior pareça a melhor», como Platão formula no seu diálogo da Apologia de Sócrates (tít. original: Ἀπολογία Σωκράτους; transliterado Apologia Sōkrātous).

O Primeiro Livre-Pensador Grego

Protágoras era considerado, no mínimo, agnóstico e, porventura, ateu, com base nos seus ensinamentos e na sua alegação relativa à existência dos deuses. O seu afastamento da forma convencional de encarar os temas religiosos e éticos foi apenas um aspeto da sua viragem global face aos primeiros filósofos pré-socráticos gregos e ao foco destes na filosofia natural, transitando para uma perspetiva que questionava as bases da perceção e o significado de ser um ser humano.

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A sua alegação de que «o homem é a medida» tem sido citada por muitos ao longo dos tempos como a primeira e melhor afirmação do relativismo humano, tendo também sido aclamado como um «humanista» e «livre-pensador» primordial. A sua influência sobre os filósofos posteriores tem sido imensa, na medida em que qualquer grande pensador que o sucedeu teve de se debater, a dada altura, com a sua simples afirmação de que nada é verdadeiro se não o for para o indivíduo, e de que não existe uma Verdade Objetiva suscetível de ser apreendida da mesma maneira por todos.

Este relativismo incomodou tanto a Platão que este dedicou uma quantidade enorme de tempo e esforço nos seus escritos a refutar a ideia de que qualquer coisa pode ser verdadeira desde que o indivíduo acredite que o é. A teoria das Ideias (ou Formas) de Platão — segundo a qual aquilo que vemos e chamamos de «verdadeiro» não passa de um reflexo de uma Verdade superior — constitui uma resposta direta à anterior alegação relativista de que Protágoras foi alvo, uma vez que Platão tentava provar que tinha de existir algum padrão de verdade através do qual se pudesse reconhecer objetivamente o que era certo e o que era errado, verdadeiro ou falso. O conjunto da obra de Platão pode, de facto, ser lido como uma longa refutação da famosa afirmação de Protágoras.

A Morte e o Legado

Protágoras foi acusado de impiedade aos setenta anos, por volta de 415 a.C., uma acusação na Grécia antiga que trazia associada a pena de morte. Esta foi a mesma acusação, que equivalia a negar os deuses tradicionais da Grécia e a promover o ateísmo, formulada mais tarde contra Sócrates em 399 a.C. e que conduziu à sua execução. Muitas pessoas eram habitualmente acusadas de impiedade e conseguiam pagar uma multa ou escapar de outro modo à persecução judicial, mas Protágoras optou, em vez disso, por abandonar Atenas antes de poder ser levado a julgamento. Afogou-se no mar enquanto tentava alcançar a colónia grega na Sicília.

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Apesar do seu relativismo ter sido repetida e brilhantemente refutado por Platão e por aqueles que o sucederam, o pensamento de Protágoras continua a ressoar e a intrigar as pessoas nos dias de hoje. A despeito de todas as críticas racionais e objetivas à afirmação central de Protágoras, o conceito de que tudo é relativo à interpretação individual é impossível de refutar por completo. Protágoras lançou no Ocidente as bases para o questionamento das ideias mais fundamentais sobre a realidade e a perceção, ao sugerir que o mundo que uma pessoa vê pode ser radicalmente diferente daquele que o seu vizinho está a experienciar.

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Mark, J. J. (2026, julho 21). Protágoras. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-451/protagoras/

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Mark, Joshua J.. "Protágoras." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, julho 21, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-451/protagoras/.

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Mark, Joshua J.. "Protágoras." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 21 jul 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-451/protagoras/.

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