O ciceão (kykeon - do grego «misturar, agitar») era uma bebida à base de água e cevada (por vezes aromatizada com hortelã ou tomilho) popular entre a classe trabalhadora, a «classe baixa», da Grécia antiga. Na Ilíada (tít. original: Ἰλιάς; transliterado - Iliás)de Homero, é descrita como uma mistura de água, cevada, ervas e queijo de cabra ralado (Livro XI), sendo a bebida também mencionada no Livro X da Odisseia (tít. original: Ὀδύσσεια transliterado - Odýsseia), quando a feiticeira Circe a utiliza, misturada com mel, para preparar a sua poção.
O ciceão é, no entanto, mais famoso pelo seu uso nos Ritos de Deméter na cidade de Eleusis, onde era consumido pelos iniciados para vivenciar o mistério da morte e do renascimento no ritual que ficou conhecido como os Mistérios de Eleusis. Esta mistura, no entanto, diferia significativamente da bebida comum, na medida em que possuía propriedades psicoativas, muito provavelmente causadas pelo fungo cravagem presente na cevada colhida nos arredores de Eleusis, o que permitia aos iniciados nos Mistérios alcançar uma compreensão mais completa do seu propósito na vida e livrar-se do medo da morte; tal como atestam os testemunhos de escritores antigos que participaram nos Mistérios.
Na época do Império Romano, o ciceão continuava a ser uma bebida popular feita de água, vinho, mel e cevada, com várias ervas adicionadas a gosto de cada um. Esta bebida comum, no entanto, era vista de forma muito semelhante à forma como uma pessoa nos dias de hoje consideraria os refrigerantes. O ciceão que era preparado para os Mistérios de Eleusis era tido em muito maior estima, porque o próprio ritual era tão importante para o povo.
O Ciceão e os Mistérios
Antes da chegada de Roma, a única estrada na Grécia antiga que não era um mero caminho de cabras era a Via Sacra, que ligava Atenas à cidade de Eleusis, o local dos Rituais de Deméter. Este ritual, que se realizava todos os anos, comemorava a busca da deusa Deméter pela sua filha desaparecida, Perséfone, e iniciava os fiéis num conhecimento esotérico sobre o significado da vida e da morte. O ciceão era tão importante para este ritual que as duas famílias proprietárias das terras onde se cultivava a cevada em Eleusis tornaram-se bastante ricas e eram tidas em grande estima. Como os iniciados nos Mistérios estavam obrigados ao segredo sob juramento, ninguém sabe o que acontecia assim que entravam no templo subterrâneo do Telesterion em Eleúsis, mas sabe-se que, antes da descida, se banhavam e purificavam ritualmente e, em seguida, bebiam uma taça de ciceão que tinha sido recentemente preparado com a cevada local. Ao descerem à terra após esta preparação, os fiéis reencenavam a jornada de Perséfone ao submundo e, tal como a sua história no mito, procuravam o renascimento.
O Mito por Trás dos Mistérios
De acordo com o mito de Deméter e Perséfone, a deusa da terra e a sua filha estavam a cuidar de flores num campo quando o deus Hades, olhando para cima a partir do seu reino no submundo, viu a rapariga e desejou-a. Quando Deméter se distraiu, Hades abriu a terra e levou Perséfone para as trevas. Deméter, desesperada por encontrar a filha desaparecida, pediu ajuda ao rei dos deuses, Zeus, mas este alegou não ter conhecimento do paradeiro de Perséfone. A mãe começou então a procurar a filha por toda a terra (uma viagem semelhante, em muitos aspetos, ao conto egípcio da deusa Ísis e à sua busca para encontrar o marido desaparecido, Osíris) até que parou junto a um poço em Eleusis. Para passar despercebida, Deméter tinha-se disfarçado de anciã e as filhas da rainha da cidade, que visitavam o poço, convidaram-na a ir ao palácio para uma entrevista para o cargo de ama do seu irmão muito mais novo. Deméter aceitou o cargo e cuidou do jovem príncipe, mas, tendo ela própria perdido recentemente um filho, queria garantir que nada lhe acontecesse e, por isso, colocava-o todas as noites nas chamas celestiais para o tornar imortal. A rainha apanhou-a a fazer isto uma noite e, compreensivelmente horrorizada ao ver o seu filho lançado às chamas, atacou Deméter. A deusa revelou-se então em toda a sua fúria e glória, mas decidiu não punir o povo pela afronta da sua rainha, desde que construíssem um templo em honra de Deméter na cidade. O povo concordou de bom grado e, depois de lhes ter concedido os dons e o conhecimento da agricultura, ela prosseguiu o seu caminho.
Entretanto, Perséfone permaneceu no submundo com Hades. Deméter ficou tão perturbada que negligenciou os seus deveres como deusa da natureza; as árvores deixaram de dar frutos, as colheitas fracassaram e a terra murchou. Primeiro, os animais começaram a morrer e, em seguida, o povo morreu na sequência. Os deuses já não recebiam os sacrifícios e oferendas a que estavam habituados e, por isso, Zeus enviou o seu mensageiro, Hermes, até ao Hades, ordenando-lhe que libertasse Perséfone. Hades, porém, tinha-se apaixonado pela rapariga e, por isso, enganou-a para que comesse uma romã. Ela comeu apenas algumas sementes, mas a lei inabalável era que, quem comesse algo da terra dos mortos, permaneceria na terra dos mortos. No entanto, como ela tinha comido apenas um pouco, foi autorizada a regressar para perto de sua mãe durante seis meses; mas, nos outros seis, tinha de regressar ao Hades. Quando Perséfone estava com a mãe, a terra era luminosa e quente e produzia alimentos; mas, quando ela regressava ao submundo e Deméter ficava deprimida, a terra ficava fria e escura e nada crescia. A história explicava, assim, as estações do ano, mas também enfatizava o conceito de uma vida após a morte e a natureza cíclica de todos os seres vivos. Os gregos compreendiam que os seus deuses estavam a atuar à sua volta, pois podiam ver a prova diária da existência dos deuses através do desabrochar das árvores na primavera ou da queda das folhas no outono.
O Ciceão e a Iluminação
Os Ritos de Deméter eram, no entanto, mais do que apenas um «festival de outono»; a reconstituição da busca de Deméter pela sua filha desaparecida e o ritual misterioso que se realizava no templo subterrâneo de Eleusis mudavam radicalmente a vida daqueles que nele participavam. Depois de os participantes terem tomado o seu cálice de ciceão e terem sido conduzidos para o templo subterrâneo, pensa-se que talvez um oficiante recitasse a história de Deméter e Perséfone, ou a encenasse, ou talvez os próprios participantes tomassem parte na encenação da história. Como o segredo dos Mistérios era bem guardado por quem participava, ninguém que não participasse jamais soube o que ali se passava. Sabe-se, no entanto, que praticamente todos os escritores, pensadores, governantes ou construtores antigos cujo nome conhecemos hoje, desde o início dos Ritos por volta de 1500 a.C. até à sua supressão e proibição pelo imperador cristão Teodósio em 392 d.C., eram iniciados nos Mistérios de Eleusis.
O Significado para os Iniciados
Platão, entre muitos outros, menciona especificamente os mistérios no seu diálogo Fédon, afirmando que apenas aqueles que foram iniciados podem habitar com os deuses. Tem-se sugerido, uma vez que o Fédon trata da imortalidade da alma, que Platão quis dizer que apenas os iniciados desfrutarão de uma vida após a morte gratificante. No contexto do diálogo, no entanto, parece mais provável que ele quisesse dizer que apenas os iniciados tinham uma compreensão das questões mais importantes da vida enquanto viviam. Outros escritores antigos, como Plutarco, corroborariam esta interpretação da passagem. Ele escreveu que, após ser iniciado, perdeu o medo da morte e reconheceu-se como uma alma imortal. O ingrediente psicoativo do cravagem presente no ciceão, combinado com o ritual no Telesterion subterrâneo, provocava uma transformação profunda nos participantes. Os Ritos de Deméter tinham uma importância incrível para quem neles participava e o ciceão era a chave que abria a mente das pessoas aos segredos dos seus deuses.
