The Last Days of Socrates - Os Últimos Dias de Sócrates é um título contemporâneo para a coleção de quatro diálogos socráticos do filósofo grego Platão — Eutífron (tít. original: Eὐθύφρων; transliterado: Euthyphron), a Apologia (tít. original: Ἀπολογία Σωκράτους; transliterado: Apologia Socratis; transliterado: ), o Críton (tít. original: Κρίτων; transliterado: Crito) e o i (tít. original: Φαίδων; transliterado: Phaedo) —, que narram a história do julgamento, prisão e morte de Sócrates, apresentando a visão de Platão sobre o filósofo ideal e uma vida vivida na busca da verdade suprema.
A execução de Sócrates em Atenas, em 399 a.C., teve um efeito profundo no seu discípulo Platão, que se sentiu inspirado pelo mestre a abandonar as suas ambições políticas e literárias para se dedicar inteiramente à filosofia. Embora Sócrates seja frequentemente apelidado de "Pai da Filosofia Ocidental", este título aplica-se com maior correção a Platão, uma vez que Sócrates nunca escreveu nada, e quase tudo o que se sabe sobre o filósofo mais velho provém da obra de Platão Os Diálogos (título original Grego Clássico: Διάλογοι; transliterado: Dialogoi).
A visão que Platão partilhou com o mundo era diferente de tudo o que tinha surgido antes. Se essa visão pertencia efetivamente a Sócrates, não há forma de o saber. Contemporâneos de Platão, como o filósofo Fédon, outro dos discípulos de Sócrates, alegadamente afirmavam que os diálogos de Platão deturpavam totalmente Sócrates e consistiam inteiramente nos pensamentos de Platão.
Além das suas obras A República (tít. original: Πολιτεία; transliterado: Politeia), Ménon (tít. original: Μένων; transliterado: Ménōn) e O Banquete (tít. original: Συμπόσιον; transliterado: Symposion), Platão é sobretudo conhecido pelos quatro diálogos habitualmente reunidos sob o título The Last Days of Socrates - Os Últimos Dias de Sócrates que podem ser lidos como uma peça de quatro atos: o Ato I apresenta Sócrates a debruçar-se sobre o tipo de investigação que resultou nas acusações de corrupção da juventude de Atenas e de promoção da crença noutros deuses (Eutífron); o Ato II detalha a sua defesa e condenação pelo tribunal ateniense (Apologia de Sócrates); o Ato III expõe a sua firme convicção na sua própria visão enquanto se encontra na prisão (Críton); e o Ato IV mostra a sua última tentativa de clarificar a sua visão sobre a imortalidade da alma e a verdade suprema, antes da sua execução através da ingestão da taça de cicuta (Fédon).
Ao escrever este drama, Platão criou o paradigma do visionário que morre pelas suas convicções, o qual tem sido enaltecido por gerações desde então como um exemplo a seguir na defesa intransigente da verdade e da justiça, mesmo quando confrontado com a morte devido às suas crenças. No centro da visão que Platão atribui a Sócrates encontra-se a sua famosa Teoria das Ideias (ou das Formas), segundo a qual existe uma verdade suprema pela qual nos devemos esforçar. Platão não conseguia provar empiricamente a existência do reino das Ideias — até o seu aluno mais famoso, Aristóteles, rejeitou o conceito do plano invisível —, mas isso nunca o impediu de tentar.
A Teoria das Ideias de Platão
A Teoria das Ideias, que Platão sustentou e tentou provar em todas as suas obras, defende a existência de um reino superior e invisível acima do mundo que se vê, sendo este reino mais verdadeiro, melhor e mais belo do que qualquer coisa que se observe na Terra. De facto, tudo o que se vê ao longo da vida é apenas um reflexo daquilo que existe no reino ideal das Ideias. Quando alguém afirma que um vaso, ou qualquer outra coisa, é belo, está a reconhecer nesse objeto a ideia (ou forma) ideal de beleza da qual esse objeto participa. A ideia ideal de beleza pode ser alcançada pelas pessoas, animais, objetos — por qualquer coisa — que se vê ou experiencia, e quanto mais direta for essa participação, mais belo esse a pessoa ou o objeto parecerão.
Este mesmo paradigma aplica-se àqueles conceitos que consideramos «bons» ou «verdadeiros» — uma afirmação ou crença só pode ser verdadeira na medida em que participa no ideal da Verdade, e só pode ser boa na medida em que se aproxima da verdadeira Bondade. Esta teoria seria aplicável a conceitos tão elevados como a existência de Deus ou tão banais como a apreciação de uma refeição; o jantar de alguém não saberia bem simplesmente por se adequar ao paladar individual, mas sim porque a preparação dos alimentos que compõem essa refeição participa de forma mais plena no reino das Ideias do que os restantes alimentos.
Platão rejeitou completamente a tese relativista, promovida por Protágoras (cerca de 485–415 a.C.), de que «o homem é a medida de todas as coisas», expressa da melhor forma na frase segundo a qual a beleza está nos olhos de quem a vê. A noção de que todas as coisas são relativas à perceção e à experiência individuais é antitética à visão de Platão.
Platão sustentava que não se pode simplesmente acreditar ou agir como bem se entende e manter que essa é a forma correta de viver; em vez disso, deve-se trabalhar para descobrir qual é efetivamente a maneira certa de viver e, depois, esforçar-se ao máximo para viver desse modo. Através do seu drama em quatro atos, Platão fornece em Sócrates um modelo a seguir por terceiros, e este drama assenta inteiramente na aceção da Teoria das Ideias: um mundo de verdade ideal e objetiva que existe independentemente do sistema de crenças de cada indivíduo.
O Eutífron
O diálogo do Eutífron abre a peça e apresenta Sócrates antes de este entrar em tribunal para se defender da acusação capital de impiedade. O seu principal acusador foi um poeta chamado Meleto, um jovem sobre o qual nada se sabe fora da sua associação ao julgamento de Sócrates, juntamente com outros dois, Anito e Licon, todos cidadãos proeminentes de Atenas. Quando o diálogo se inicia, Sócrates encontra o homem muito mais jovem, Eutífron, que ali se encontra para processar o próprio pai pela mesma acusação. Platão concebe a situação de Eutífron como um espelho dramático da de Sócrates: um homem mais jovem que pouco ou nada sabe daquilo que alega, intentando uma acusação grave contra um homem mais velho.
Ao longo do diálogo, torna-se cada vez mais evidente que Eutífron é um jovem insensato e pretensioso, que reivindica um conhecimento superior dos deuses e da sua vontade que não consegue demonstrar. A persistência de Sócrates em tentar fazer com que Eutífron perceba que está a reclamar um conhecimento que não possui, e em tentar confrontá-lo com essa verdade e levá-lo a reavaliar a sua vida, pretende ser um exemplo de como Sócrates «corrompeu a juventude» de Atenas. Ao confrontar as pessoas com a sua pretensão e com as suas falsas imagens de si mesmas, Sócrates encorajava-as a questionar tudo o que lhes tinha sido ensinado ou o que julgavam saber, e isto não foi bem recebido pelas autoridades de Atenas.
Isto não quer dizer que «corromper a juventude» tenha sido o motivo pelo qual Sócrates foi executado; havia muitos outros fatores em jogo em Atenas que levaram à sua condenação. Platão sabia-o, naturalmente, e utiliza o Eutífron para demonstrar quão absurda era a acusação, dramatizando ao mesmo tempo, de forma incisiva, como alguém podia interpretar os esforços de Sócrates como disruptivos e destrutivos. Eutífron, afinal, não passa de um jovem muito tolo que, por confissão própria no diálogo, nunca é levado a sério por ninguém. Deixá-lo entregue às suas ilusões de grandeza não teria afetado seriamente ninguém em Atenas, mas, para Sócrates, o aperfeiçoamento da alma de qualquer pessoa revestia-se de importância primordial.
A Apologia
A Apologia dá continuidade ao drama com Sócrates em julgamento perante os homens de Atenas. O título não tem qualquer relação com Sócrates assumir a responsabilidade por um erro cometido e pedir perdão. Apologia significa a defesa de uma posição e, ao longo deste diálogo, Sócrates defende as suas ações e as suas crenças num dos melhores discursos da história literária:
Homens de Atenas, eu honro-vos e amo-vos; mas obedecerei a Deus antes do que a vós e, enquanto tiver vida e força, nunca cessarei de praticar e de ensinar a filosofia, exortando todos os que encontro à minha maneira e convencendo-os, dizendo: Ó meu amigo, tu que és cidadão da grande, poderosa e sábia cidade de Atenas, porque te importas tanto em amontoar a maior quantidade de dinheiro, honra e reputação, e tão pouco com a sabedoria, a verdade e o maior aperfeiçoamento da alma, a que nunca dás atenção nem valor? Não tens vergonha disto? E se a pessoa com quem estou a argumentar disser: Sim, mas se me importo; não me retiro nem a deixo ir embora de imediato; interrogo-a, examino-a e acareio-a, e se achar que ela não tem virtude, mas apenas diz que a tem, reprovo-a por dar menos valor ao que é maior e mais valor ao que é menor. E isto diria a todos os que encontro, jovens e velhos, cidadãos e estrangeiros, mas especialmente aos cidadãos, uma vez que são meus irmãos. Pois este é o mandado de Deus, como quero que saibais: e creio que até ao dia de hoje nunca aconteceu maior bem ao Estado do que o meu serviço ao Deus. Pois não faço outra coisa senão andar por aí a persuadir-vos a todos, velhos e jovens, a não cuidardes das vossas pessoas e das vossas propriedades, mas a cuidardes, antes e acima de tudo, do maior aperfeiçoamento da alma. Digo-vos que a virtude não provém do dinheiro, mas que do dinheiro e de todos os outros bens do homem, tanto públicos como privados, provém a virtude. Este é o meu ensinamento, e se esta é a doutrina que corrompe a juventude, a minha influência é verdadeiramente ruinosas. Mas se alguém disser que este não é o meu ensinamento, diz uma inverdade. Por isso, ó homens de Atenas, digo-vos: fazei o que Anito vos manda ou não façam o que Anito vos manda, e absolvei-me ou não; mas, façais o que fizerdes, sabei que eu nunca alterarei os meus caminhos, nem mesmo se tiver de morrer muitas vezes.
(29d-30c)
Embora Sócrates se defenda com mestria, é condenado por impiedade e sentenciado à morte. Mantendo-se irredutível nas suas crenças, desafia os seus acusadores e os membros do júri, dizendo-lhes como «uma vida não examinada não vale a pena ser vivida» e como não tem quaisquer remorsos, sabendo que cumpriu a vontade de Deus e perseguiu a verdade até ao fim. O investigador I. F. Stone elogiou a Apologia de Platão como «uma obra-prima da literatura mundial, um modelo de alegação em tribunal e a maior peça isolada de prosa grega que chegou até nós. Atinge um clímax que nunca deixa de nos tocar profundamente» (pág. 210) — uma opinião partilhada por muitos outros.
O Críton
No Críton, o velho amigo de Sócrates, Críton, vai visitá-lo à prisão e tenta convencê-lo a fugir. Na antiga Atenas, era prática comum os prisioneiros que tinham amigos ricos e influentes subornarem os guardas e escaparem da cadeia para alguma colónia grega distante ou outro país. Sócrates recusa, no entanto, argumentando que as leis de Atenas o formaram e o tornaram quem ele é, não podendo agora escolher ignorá-las apenas porque já não lhe convêm.
Platão descreve um diálogo entre Sócrates e as Leis de Atenas, no qual as leis o lembram de todo o bem que lhe proporcionaram a nível pessoal e ao povo da cidade em geral. Sócrates diz a Críton que, se fugisse, estaria a trair as leis que lhe deram tudo aquilo de que tirou proveito na vida. Estaria também a trair-se a si mesmo ao fugir à sentença que lhe foi impuesta, uma vez que não seria levado a sério em mais nenhum lugar do mundo se recuasse nos seus ensinamentos, demonstrando que não considerava valer a pena morrer por eles. O diálogo termina com Críton a aceitar os argumentos de Sócrates e a abandonar os seus planos para resgatar o amigo.
O Fédon
O Fédon, o mais complexo a nível filosófico dos diálogos, constitui o último ato do drama. Os discípulos de Sócrates reuniram-se na prisão para conversar com o seu mestre antes da execução. Dois amigos seus, Simias e Cebes, ambos filósofos pitagóricos de Tebas, são os principais interlocutores no diálogo, que defende a imortalidade da alma e a vida após a morte.
Sócrates inicia a discussão afirmando: «Estou confiante de que os mortos têm algum tipo de existência» (63C), e Simmias e Cebes propõem então argumentos contra esta afirmação de modo a testar-lhe a verdade. Na Apologia, Sócrates diz aos homens do tribunal que «o estado da morte é uma de duas coisas: ou o morto deixa totalmente de ser e perde toda a consciência ou, tal como nos dizem, é uma mudança e uma migração da alma para outro lugar» (40c), mas, mais à frente no diálogo, afirma firmemente que o indivíduo sobrevive à morte corporal, declarando que se «deve encarar a morte com esperança e acreditar nesta única verdade: que nenhum mal pode acontecer a um homem bom, quer em vida quer após a morte» (41d), e conclui dizendo-lhes: «agora chegou a hora e temos de partir — eu para morrer e vós para viver. Qual dos dois é melhor, só Deus o sabe» (42a).
O Fédon desenvolve estas ideias de forma mais completa, enquanto Simmias e Cebes argumentam contra a imortalidade da alma e Sócrates refuta os seus argumentos. Este recorre à Teoria da Reminiscência, que se encontra mais claramente desenvolvida noutro diálogo, o Ménon, a qual defende que aquilo a que chamamos «aprender» é, na verdade, um ato de recordação de experiências de uma vida anterior e, tal como nesse diálogo, tenta prová-lo mostrando como as pessoas sabem coisas que nunca lhes foram ensinadas. No Fédon, Sócrates afirma:
Ora, se recebemos este conhecimento antes do nosso nascimento e nascemos com ele, sabíamos, tanto antes como no momento do nosso nascimento, não só o igual, o maior e o menor, [no que respeita à igualdade abstrata] mas também tudo o resto do mesmo género, não é verdade? O nosso raciocínio atual não se refere apenas à igualdade. Refere-se igualmente ao bem absoluto, à beleza absoluta, à justiça absoluta e à santidade absoluta; em suma, repito, a tudo o que assinalamos com o nome de real, nas perguntas e respostas da nossa dialética. Portanto, devemos ter recebido o conhecimento de todas as realidades antes de nascermos.
(75c-d)
Aquilo que ele aqui defende é a aceitação da Teoria das Ideias, no sentido em que aquilo que se «recorda» está acessível devido à existência de um outro plano de realidade de que se participou antes do nascimento, um plano no qual se tinha consciência de verdades objetivas e derradeiras. No Ménon, ele argumenta que, se alguém morrer com as suas faculdades mentais intactas, lembrar-se-á melhor daquilo que experienciou numa vida passada e que o reino das Ideias fará parte dessa experiência; no Fédon, está a expandir essa afirmação.
Os argumentos são apresentados e refutados, mas Simmias e Cebes continuam a insistir em provas irrefutáveis da imortalidade da alma, e Cebes afirma não parecer compreender claramente o argumento de Sócrates. A esta altura, Sócrates envereda pela sua prova final da imortalidade da alma, começando por dizer:
Não digo nada de novo, apenas o que tenho repetido vezes sem conta, tanto na nossa conversa de hoje como noutras ocasiões. Vou tentar explicar-vos o tipo de causa em que tenho trabalhado, e regressarei àquilo de que tantas vezes temos falado, começando pelo pressuposto de que existe uma beleza absoluta, um bem absoluto, uma grandeza absoluta, e assim por diante. Se me concederdes isto e concordardes que elas existem, espero conseguir mostrar-vos qual é a minha causa e descobrir que a alma é imortal.
(100b)
É neste ponto que o argumento de Sócrates falha em dois aspetos: 1. o de que «começará pelo pressuposto de que existe» este reino das Ideias, e 2. o de dizer aos amigos: «se me concederdes isto e concordardes que elas existem...» Para que o reino das Ideias possa servir de prova em apoio da imortalidade da alma, é preciso aceitar que tal reino existe sem provas. Se o fizermos, então acreditamos; se não o fizermos, duvidaremos sempre. No fim, não há provas irrefutáveis que comprovem a imortalidade da alma; há apenas fé.
Conclusão
Platão trabalhou toda a sua vida para provar racionalmente, sem sombra de dúvida, a existência de um plano superior de existência e de verdades superiores que fundamentavam o mundo visível. No último diálogo que escreveria, as Leis (tít. original: Νόμοι; transliterado: Nomoi), ainda continuava a tentar e ainda sem conseguir plenamente. As obras de Platão podem ser lidas como uma refutação de uma vida inteira ao relativismo de Protágoras.
Apesar de nunca ter conseguido provar os seus critérios objetivos para satisfação própria — ou dos outros —, a sua tentativa criou um conceito que nunca tinha sido articulado antes de forma tão altamente desenvolvida: o de que existe um bem superior pelo qual lutar na vida, uma verdade objetiva que se deve procurar e uma forma correta de viver a vida de acordo com os padrões dessa verdade.
No seu drama sobre os últimos dias da vida de Sócrates, Platão ofereceu ao mundo o modelo supremo do filósofo que vive a sua crença nestas verdades superiores e no reino invisível de onde elas provêm, dando a vida por essa crença. Mesmo que não se aceitem as teses articuladas por Platão, é impossível não admirar a sua visão de um mundo maior e melhor, ao qual nos aproximamos simplesmente por acreditarmos que ele existe.
