Ainda nos dias de hoje se debate o significado e propósito do diálogo socrático de Platão Eutífron (tít. original em grego clássico: Εὐθύφρων; transliterado: Euthyphrōn) sobre o conceito de piedade. No entanto, ao ler a obra apenas como uma investigação séria sobre a definição de um conceito abstrato, corre-se o risco de perder os aspetos cómicos da peça que fazem dela uma das mais divertidas das obras de Platão.
Os Diálogos (título original: Διάλογοι; transliterado: Dialogoi) de Platão exerceram uma influência tão extraordinária no pensamento e na cultura ocidentais ao longo dos últimos 2.000 anos que, nos dias de hoje, os leitores abordam frequentemente as suas obras como ícones filosóficos. A República (tít. original: Πολιτεία; transliterado: Politeia) é habitualmente lecionada nas aulas universitárias como o modelo para a sociedade ideal, a Apologia de Sócrates (tít. original: Ἀπολογία Σωκράτους; transliterado: Apologia Sokratous) é a defesa épica da liberdade de pensamento e da integridade pessoal, O Banquete (tít. original: Συμπόσιον; transliterado: Symposion) define o verdadeiro significado do amor, e todos os outros diálogos têm sido fixados e definidos pelo seu mérito intelectual particular.
Estas interpretações são todas exatas em maior ou menor grau, mas, ao ler Platão como Platão-o-Filósofo, perdem-se as nuances de Platão-o-Artista. Cada um dos diálogos de Platão é um drama grego com introdução, acção ascendente, desfecho e conclusão. A República pode ser lida com a mesma facilidade como a forma adequada de ordenar a própria alma em vez de como construir uma cidade-estado ideal, mas, além disso, pode ser apreciada simplesmente como o relato de uma conversa numa festa em casa de um amigo.
Qualquer leitor reconhece que, por vezes, se chega a uma festa para encontrar alguém que aborrece e é indesejável, um amigo do anfitrião, mas uma irritação para todos os outros; e assim é no Livro I d'A República, quando Sócrates chega a casa de Céfalo para encontrar lá o sofista Trasímaco. Trasímaco revela-se instantaneamente hostil para com Sócrates e os seus amigos, insiste nas suas próprias opiniões como sendo as únicas válidas e, quando provado estar errado, recusa-se a admiti-lo e prefere retirar-se. Trasímaco é uma personagem plenamente realizada, feita de pura arrogância e bazófia, facilmente reconhecida por qualquer leitor que já tenha tido de aturar as proclamações e a pose do seu próprio "Trasímaco".
Segundo Diogenes Laércio (por volta do século III d.C.), as personagens de Platão são tão verosímeis e habilmente desenhadas porque, antes de ser Platão o filósofo, ele foi poeta e dramaturgo. As afirmações de Laércio são frequentemente contestadas por este não ter citado as suas fontes, mas, neste caso, a sua afirmação é apoiada pela mestria literária dos diálogos platónicos.
As competências literárias de Platão são evidentes em todas as suas obras, que oferecem uma experiência de leitura muito mais gratificante quando abordadas como dramas dinâmicos em vez de discursos filosóficos estáticos. Certamente, em muitas secções de cada um dos diálogos, encontram-se Sócrates a discursar sobre algum ponto enquanto um interlocutor responde com respostas de uma só palavra, mas, com a mesma frequência, há uma discussão entre duas — ou mais — personagens com vozes, expressões e níveis de experiência de vida distintos.
Mesmo naqueles diálogos que tratam das questões mais sérias, como o Fédon (tít. original: Φαίδων; transliterado: Phaedo) com o conceito da imortalidade da alma, há momentos leves de humor e, n'O Banquete, do princípio ao fim, existem várias passagens cómicas. Estes momentos surgem todos de forma natural a partir das personagens e normalmente passam bastante depressa à medida que a discussão avança. No entanto, no diálogo do Eutífron, Platão começa com um tom sério e depois entrega-se livremente ao longo do resto da obra, enquanto ridiculariza abertamente aqueles que fingem saber o que não sabem. O Eutífron é frequentemente negligenciado e definido como um "diálogo difícil", pelo facto de nunca responder à questão central que apresenta mas, lida como uma comédia irónica, a obra é um sucesso absoluto.
A Visão Geral
O Eutífron é um diálogo entre Sócrates e o jovem autoproclamado "profeta" Eutífron, à entrada do tribunal em Atenas, pouco antes de Sócrates ir a julgamento em 399 a.C. Sócrates está ali para responder às acusações que lhe foram imputadas, enquanto Eutífron chegou para interpor uma acção judicial contra o próprio pai. Uma vez que Sócrates foi acusado pelos atenienses de impiedade e dado que Eutífron afirma compreender perfeitamente a piedade (5a), Sócrates pede ironicamente ao jovem que explique "o que é a piedade e o que é a impiedade?". Tendo afirmado inicialmente que consegue definir facilmente a piedade, bem como "muitas outras histórias sobre assuntos divinos" (6c), depressa se torna evidente que Eutífron faz ideia nenhuma do que seja a piedade nem tem qualquer noção clara da "esse conhecimento exacto" (14b) da vontade dos deuses de que se gaba repetidamente.
A importância de compreender o significado deste conceito de piedade é impressa no leitor pelo facto de Eutífron se encontrar em tribunal para mover um processo contra o seu próprio pai por impiedade. O seu pai permitira que um trabalhador que tinha morto um escravo morresse, atado numa vala, enquanto aguardava ordens das autoridades sobre como proceder contra o homem. Sócrates, conforme referido, está ali para se defender da mesma acusação de impiedade por "corromper a juventude" e "inventar novos deuses" (3b).
Um dos homens que acusa Sócrates, Meleto, é apresentado como tendo sensivelmente a mesma idade e a mesma fraca compreensão da piedade que Eutífron. Ao interrogar o jovem sobre o significado da piedade, Sócrates está, simbolicamente, a interrogar o seu próprio acusador e, como sempre, a desafiar a complacência de aceitar respostas fáceis para problemas complexos, limitando-se a repetir a retórica tradicional em vez de procurar respostas honestas por si mesmo através da investigação filosófica.
A Piedade na Grécia Antiga
O conceito em discussão, traduzido como "piedade", era conhecido como eusebia na Grécia antiga. A palavra "piedade" provém do latim pietas e significa "conduta respeitosa", enquanto, hoje em dia, a "piedade" é habitualmente entendida como "a prática ou o amor pelas coisas religiosas (devoção) e a compaixão ou solidariedade face ao sofrimento alheio (in: Dicionário Priberam da Língua Portuguesa); contudo, na Grécia antiga, a eusebia não significava exclusivamente nenhuma destas coisas e, ao mesmo tempo, significava mais.
A eusebia era o ideal que ditava o modo como os homens e as mulheres interagiam, como um amo devia falar com um escravo e o escravo com o amo, como se endereçava a palavra a um vendedor no mercado, bem como a forma como cada um se conduzia durante festivais e celebrações religiosas. Em suma, a eusebia era um contrato social que mantinha a ordem estabelecida e tornava clara a posição de cada um na hierarquia social e o que era considerado um comportamento adequado.
No entanto, quando Sócrates é acusado de impiedade (dyssebia em grego), por muito que um leitor contemporâneo possa considerar a acusação injusta, ao incentivar a juventude de Atenas a questionar os seus mais velhos, Sócrates seria, de facto, culpado perante a lei. Os jovens não deviam questionar os seus superiores, e no entanto os jovens discípulos de Sócrates viam-no a interrogar repetidamente os seus pais, professores e superiores sociais na praça pública, sendo encorajados a fazer o mesmo.
De facto, no diálogo do Eutífron, o leitor obtém um testemunho em primeira mão de Sócrates a "corromper a juventude" de Atenas, ao tentar conduzir o jovem à conclusão de que aquilo que os deuses desejam não é tão facilmente alcançável como o senso comum pretende fazer crer. A questão — "Será que os deuses amam a piedade porque ela é piedosa, ou é ela piedosa porque os deuses a amam?" (10a) — nunca chega a ser totalmente respondida porque Eutífron, repetindo respostas tradicionais, é incapaz de a resolver.
Platão concebe o diálogo de modo a vincar no leitor quão fútil e contraproducente é fiar-se pura e simplesmente naquilo que nos foi ensinado, sem nunca o questionar. Ao mesmo tempo, oferece ao público um lugar na primeira fila para o tipo de intercâmbio que teria enfurecido os atenienses das classes altas, que se poderiam sentir vitimizados pelo método socrático de busca da verdade; e, se lido com atenção, este diálogo é bastante cómico.
O Resumo e o Comentário
A situação dramática estabelece-se de imediato quando Eutífron cumprimenta Sócrates à saída do tribunal e ambos explicam um ao outro o motivo da sua presença: Sócrates para responder a acusações e Eutífron para as apresentar (linhas 2a-4e). Quando Sócrates ouve que Eutífron se atreve a acusar o próprio pai de impiedade, diz:
Por Zeus, Eutífron, julgas tu ter um conhecimento tão preciso sobre como se dispõem as coisas divinas, e as coisas piedosas e impias, que, supondo que tais coisas se passaram tal como dizes, não temes que, ao mover um processo judicial contra teu pai, venhas por tua vez a cometer um acto ímpio?
(4e)
Eutífron responde que não tem tal temor porque conhece "todas essas coisas com precisão" (5a). Sócrates (nesta altura com mais de 70 anos) pede então, em tom irónico, para se tornar discípulo de Eutífron, de modo a que o jovem lhe possa ensinar a forma e o modelo subjacentes da piedade e da impiedade, para que assim fique mais apto a defender-se das acusações que lhe foram imputadas (5a-5b). Eutífron aceita de bom grado e, quando Sócrates lhe pede para definir o que é piedoso e o que é ímpio, Eutífron responde que isso é pura e simplesmente o que ele próprio está a fazer naquele momento ao processar o seu próprio pai por impiedade (5e).
Eutífron fundamenta a sua afirmação recorrendo a histórias sobre os deuses e o seu comportamento, argumentando que está apenas a imitá-los; contudo, Sócrates salienta que essas narrativas retratam os deuses em guerra uns com os outros e a comportarem-se frequentemente de maneiras bastante ímpias. Assim, a definição seguinte de Eutífron — segundo a qual a piedade é "aquilo que é caro aos deuses" (6e) — deixa de fazer sentido, uma vez que alguns deuses parecem valorizar uma coisa enquanto outros preferem outra. Os estudiosos Thomas G. West e Grace Starry West comentam:
[O amor dos deuses por um conceito] deve ser guiado por aquilo que é verdadeiramente bom, nobre e justo, caso contrário o significado da vida humana tem de depender da vontade arbitrária de seres misteriosos que podem nem sequer ser amigos dos homens e — dada a multiplicidade de autoridades caprichosas (os muitos deuses) — a vida dos homens e dos deuses alike deve ser um conto de exércitos ignorantes que se cruzam na noite sobre uma planície escura. Além disso, se os deuses são guiados pelo conhecimento e não emitem meramente mandamentos caprichosos, a orientação proporcionada aos homens pela lei divina deve ser supérflua para quem é suficientemente sábio para descobrir por si mesmo a verdade do bem, do nobre e do justo. O homem sábio não tem necessidade de deuses.
(págs. 13-14)
Eutífron prossegue com o seu argumento desprovido de noção, afirmando que é piedoso aquilo que todos os deuses encaram como justo e bom, mas Sócrates aponta que ele já tinha admitido anteriormente que deuses diferentes possuem valores diferentes. Nota que os seres humanos em tribunal nunca negam o que é a injustiça (digamos, o homicídio), mas antes alegam não ser culpados de tal injustiça (8c). Do mesmo modo, os deuses não negam que a injustiça exista, mas parecem divergir quanto aos tipos de atos que são injustos.
Eutífron, que anteriormente afirmara poder contar a Sócrates tudo sobre a vontade dos deuses, o funcionamento do universo e o que significa a verdadeira piedade, tenta agora recuar, alegando que aquilo que Sócrates lhe pede "não é obra pequena" (9b) — por outras palavras, uma resposta adequada poderá exigir mais tempo do que aquele de que dispõe. Avança com outra resposta, segundo a qual a piedade é aquilo que todos os deuses amam e a impiedade aquilo que todos os deuses detestam (9e), mas Sócrates refuta isto e pergunta: "Será o piedoso amado pelos deuses porque é piedoso, ou é piedoso porque é amado?" (10a), ao que Eutífron não tem nenhuma resposta real, continuando a tatear à procura de uma.
Ao longo do diálogo, Sócrates insulta Eutífron pela sua presunção — como na frase "não és menos mais jovem do que eu do que és mais sábio. Mas, como digo, estás a ser exigente [ao responder-me] devido à tua riqueza de sabedoria" (12a). Embora Eutífron se tenha gabado repetidamente de saber tudo sobre os deuses e a sua vontade, quando Sócrates lhe pergunta sobre as muitas coisas nobres que os deuses produzem como dádivas para a humanidade, Eutífron volta a queixar-se de que "aprender com precisão como todas estas coisas são é um trabalho bastante longuíssimo" (14b). Quando Sócrates sugere que talvez aquilo que Eutífron define como piedade seja afinal comércio, no qual as pessoas dão culto aos deuses e os deuses lhes dão dádivas, Eutífron concorda até que esta resposta seja também provada inadequada (14c-15c).
Durante este intercâmbio, Sócrates salienta como Eutífron nada lhe ensinou e como a discussão regressou ao ponto de partida (15c), que é precisamente a forma como Platão construiu o diálogo. Os leitores modernos acham frequentemente o Eutífron frustrante, uma vez que a mesma pergunta é feita repetidamente e respondida com fraqueza; e, no entanto, este é precisamente o desígnio de Platão: o leitor é levado a sentir a própria frustração de Sócrates ao tentar obter uma resposta direta de um autoproclamado perito sobre um assunto acerca do qual esse "perito" na verdade nada sabe.
Quando Sócrates sugere que recomecem tudo de novo e tentem definir a piedade e a impiedade, Eutífron diz: "Fica para outra altura, então, Sócrates. Pois agora tenho pressa em ir a algum lado e está na hora de me ir embora" (15e). Sócrates profere as últimas linhas do diálogo, que devem ser lidas com sarcasmo, enquanto grita para o Eutífron em fuga:
Ao ires-te embora, lanças-me de uma grande esperança que eu tinha: a de que, aprendendo contigo as coisas piedosas e as não piedosas, ficaria livre da acusação de Meleto. Pois esperava mostrar-lhe que agora me tornei sábio nas coisas divinas graças a Eutífron, e que já não estou a agir de forma incauta por ignorância ou a introduzir inovações a respeito delas, e, sobretudo, que viveria melhor pelo resto da minha vida.
(15e-16a)
O humor da peça torna-se mais evidente se lida em voz alta com entonação e, especialmente, se compreendermos os conceitos básicos em questão e a estrutura social de que o diálogo depende. Mesmo sem isto, porém, qualquer leitor apreciará o absurdo de mover um processo judicial contra o próprio pai quando nem sequer se compreendem os preceitos relativos a esse caso e, visceralmente, sente-se a frustração de tentar conversar de forma inteligente com alguém que não só afirma saber o que não sabe, como age deliberadamente a partir de uma posição de ignorância.
Conclusão
No Eutífron, um leitor atento apreciará o talento de Platão enquanto dramaturgo cómico. Embora gabando-se inicialmente de saber tudo sobre a piedade, torna-se evidente, após quatro definições diferentes do conceito serem introduzidas e refutadas, que Eutífron nada sabe sobre a piedade para além da definição convencional que lhe foi ensinada por outros, mais notavelmente pelo próprio pai que agora processa por impiedade.
O pai de família era o senhor (kyrios) e tinha a responsabilidade de ensinar aos filhos a importância da eusebia, entre outras coisas. O facto de Eutífron processar o seu próprio pai por impiedade, sem compreender totalmente o conceito que supostamente está a defender, não funcionaria tão bem como comédia se Platão não desenhasse a personagem com tanto cuidado e precisão. Além disso, Platão escolhe o nome propositadamente para obter um efeito cómico, visto que o nome Euthyphro significa "pensamento reto" e a personagem demonstra exatamente o oposto através das voltas e reviravoltas do seu argumento convoluto.
Tal como a figura de Trasímaco nos é familiar, qualquer leitor reconhece ter conhecido um "Eutífron" a um dado momento: o tipo de pessoa que fala alto e com confiança sobre assuntos que não domina e, frequentemente, sobre matérias que ninguém pode possivelmente conhecer. O facto de a presunção de Eutífron ser tão profundamente irritante ao longo do diálogo é testemunho da mestria de Platão como escritor; neste diálogo, deparámo-nos com um jovem que já conhecemos, conhecemos ou iremos conhecer, o qual recusa admitir que não sabe do que está a falar, mesmo quando todas as evidências o tornam evidente.
A obra Eutífron é um aviso potente, e absurdamente cómico, contra a pretensão de falar — e agir — sobre assuntos acerca dos quais nada se sabe. A obra conta-se também facilmente entre os melhores exemplos de comédia dramática do princípio ao fim, pela sua apresentação subtil, caracterização e sentido de oportunidade. Platão reconhece o momento em que resulta melhor que Sócrates desferir um ataque direto contra Eutífron ou quando uma indirecta mais subtil servirá o propósito.
As alusões de Sócrates às lendas dos deuses deixam bem claro que ele sabe mais sobre a religião grega do que Eutífron, ainda que o jovem insista no seu saber superior. É um testemunho final da habilidade de Platão o facto de, no desfecho, quando Eutífron se vai embora, o leitor sentir exatamente a mesma sensação de alívio que Sócrates.
