Platão de Atenas (424 ou 423 a 347 a.C.) foi um filósofo da Grécia antiga cuja obra é considerada de tal forma importante que pode ser apelidado de inventor da filosofia tal como entendemos o termo hoje em dia. Algumas pessoas prefeririam reservar essa honra para o seu mestre, Sócrates, mas, dado que Sócrates não escreveu nada da sua própria autoria para publicação, dispomos apenas das descrições quase ficcionais dele e da sua obra da autoria de Platão e de Xenofonte.
Tudo o que Platão diz sobre Sócrates, e especialmente toda a filosofia que lhe é atribuída nos diálogos de Platão, deve ser atribuído, antes de mais, ao próprio Platão. A homenagem de Platão ao seu mestre consistiu em desenvolver as suas linhas de pensamento, não em repeti-lo como um papagaio. E esses desenvolvimentos levaram-no a inventar ou a dar contribuições importantes para todos os campos da filosofia: metafísica, epistemologia, teoria política, jurisprudência e penologia, ética, ciência, religião, linguagem, arte e estética, amizade e amor. O filósofo britânico do século XX Alfred North Whitehead escreveu a famosa frase: «A caracterização geral mais segura da tradição filosófica europeia é que ela consiste numa série de notas de rodapé a Platão» (pág. 39)
O Nascimento e o Nome
Platão nasceu numa família ateniense abastada. Nasceu em 424 ou 423 a.C., e não em 428/7, como se costuma afirmar. Outro equívoco comum é que «Platão» teria sido originalmente uma alcunha que ficou, e que o seu nome de nascimento era Aristocles. Tal é falso. Aristocles, sendo o nome do seu avô, teria sido dado, se fosse dado a algum neto, ao mais velho; mas Platão tinha dois irmãos mais velhos, Adeimanto e Glaucão (e uma irmã mais velha, Potone). «Platão» era um nome perfeitamente comum na Atenas antiga, e sabemos da existência de outro Platão famoso, um poeta cómico. O facto de a palavra soar como o grego platus, que significa «de constituição robusta» ou, possivelmente (como preferiam os biógrafos antigos), «de intelecto vasto», é irrelevante.
As Fontes
As fontes do pensamento de Platão são as suas obras escritas, conhecidas como Diálogos (título original Grego Antigo: Διάλογοι: transliterado: Dialogoi), porque a maioria delas retrata de forma brilhante conversas fictícias, geralmente tendo Sócrates como protagonista. O facto de as suas obras completas terem sido preservadas é uma prova da importância que se atribuía a Platão, mesmo na Antiguidade. Temos cada palavra que ele escreveu, ao passo que a grande maioria da literatura grega antiga se perdeu porque não se considerava que valesse a pena preservá-la, numa época em que a conservação de manuscritos era difícil e a sua cópia demorada.
As fontes sobre a vida de Platão são de três tipos: Os próprios diálogos quase nada nos revelam, pois era estilo de Platão apagar a sua presença, tal como um dramaturgo; existem algumas biografias curtas, escritas entre o século I a.C. e o século VI d.C., mas são pouco fiáveis; e a grande fama e importância de Platão fizeram com que, mesmo durante a sua vida, ele atraísse tanto elogios excessivos como calúnias excessivas. Por exemplo, dizia-se que ele não era filho de um pai mortal, mas sim de Apolo, o deus da iluminação intelectual. Ou, no outro extremo, dizia-se que Platão era fisicamente repulsivo, moralmente corrupto e intelectualmente desonesto. Era um pederasta, um frequentador de prostitutas e um escravo de tiranos, apesar de estar sedento de poder político. Muitas das histórias relatadas nessas biografias são meras fofocas ou, pior ainda, fantasias. É fácil descartar histórias como a de que Platão morreu de vergonha por não ter conseguido responder a um enigma.
A fonte final sobre a vida de Platão é uma série de cartas escritas em seu nome. A autenticidade de qualquer uma ou de todas estas cartas é altamente controversa, mas é provável que três delas — as Cartas 3, 7 e 8 — sejam genuínas. Elas fornecem-nos uma riqueza de detalhes, especialmente sobre as visitas de Platão a Siracusa.
A Política
Platão cresceu numa época de guerra. A chamada Guerra do Peloponeso, entre Atenas (e os seus aliados) e Esparta (e os seus aliados), durou de 431 a 404 a.C. Quando Platão estava no início da adolescência, já era evidente que Atenas tinha excedido os seus limites e iria perder a guerra. Foi uma guerra terrível e uma época sombria para um rapaz jovem.
No final da guerra, em 404 a.C., os espartanos vitoriosos aboliram a famosa democracia ateniense e impuseram uma oligarquia de 30 homens, cuja crueldade lhes valeu rapidamente o nome de «Os Trinta Tiranos». Vários membros do círculo socrático estavam envolvidos na oligarquia, incluindo dois parentes próximos de Platão, Critias (primo em primeiro grau da sua mãe, Perictione) e Charmides (irmão da sua mãe). Platão sentiu-se inicialmente atraído pelo seu programa de rearmamento moral de Atenas — um afastamento da irresponsabilidade da democracia extrema e um regresso às virtudes tradicionais. Tal como muitos jovens da sua classe, Platão ponderou uma carreira na política, mas a crueldade dos Trinta afastou-o dessa ideia. O regime dos Trinta não durou muito tempo, no entanto. Talvez Platão pudesse seguir uma carreira política sob a democracia restaurada. Mas, em 399 a.C., a democracia condenou à morte o seu amado mestre Sócrates, provavelmente em grande parte devido ao facto de muitos membros do círculo socrático se sentirem atraídos pela oligarquia. Platão afastou-se da política prática e iniciou a sua carreira de 50 anos como escritor.
No entanto, muitos anos mais tarde, regressou à política prática quando surgiu a oportunidade de influenciar Dionísio II de Siracusa, o monarca mais poderoso da Europa na época. Platão não era tão irrealista ao ponto de pensar que poderia transformar Dionísio num governante filósofo , seguindo as linhas esboçadas no seu diálogo A República (tít. original Grego Antigo: Πολιτεία; transliterado: Politeia), mas esperava moderar a monarquia absoluta no sentido de uma mistura de monarquia e democracia. Apesar de duas tentativas, em 366-365 a.C. e 361-360 a.C., Platão acabou por ter de admitir que Dionísio não era o homem certo para o efeito. As suas incursões na política prática foram um fracasso, e ele voltou ao ensino e à escrita.
A Carreira de Professor
Platão ensinava desde a década de 390 a.C. A filosofia era considerada por muitos jovens em Atenas como uma forma de aperfeiçoar o seu intelecto e completar a sua educação, pelo que Platão nunca teve falta de alunos. Mas ele também queria estar rodeado de pessoas que encarassem a filosofia tal como ele a entendia, como uma forma de reformar o caráter, bem como de compreender o mundo. Em 383 a.C., fundou a sua escola, conhecida como a Academia, num subúrbio de Atenas. Em pouco tempo, esta começou a atrair alguns dos maiores intelectos da época; entre os mais famosos, tanto Aristóteles de Estagira como Eudoxo de Cnido desenvolveram grande parte do seu pensamento e investigação no seio da Academia. A escola passou por muitas mudanças, mas perdurou até ao século VI d.C., mais tempo do que qualquer outra instituição do género na Europa até à data. O seu nome deriva do santuário vizinho dedicado ao herói local Acádemo.
Assim, para além das visitas a Siracusa, a vida de Platão foi essencialmente a vida tranquila de um estudioso, praticamente isenta de incidentes emocionantes. Morreu em 347 a.C. Não sabemos o que lhe causou a morte, mas 76 anos era uma idade avançada para a época. A mais antiga das biografias que nos chegaram diz que teve uma febre, mas não sabemos de que natureza. Um epigrama, possivelmente escrito por Espeusipo, sobrinho de Platão e seu sucessor na liderança da Academia, reza assim:
Embora a Terra aqui guarde no seu seio o corpo de Platão,
A sua alma encontra-se no reino dos bem-aventurados, ao nível dos deuses.

