Acádia e o Império Acádio

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Map of the Akkadian Empire (by Nareklm, GNU FDL)
Mapa do Império Acádio Nareklm (GNU FDL)

Acádia foi a sede do Império Acádio (2334-2218 a.C.), a primeira entidade política multinacional do mundo, fundada por Sargão, o Grande (reinou 2334-2279 a.C.), que unificou a Mesopotâmia sob o seu domínio e estabeleceu o modelo a seguir ou a tentar superar pelos reis mesopotâmicos posteriores. O Império Acádio estabeleceu uma série de "primeiras vezes" que mais tarde se tornariam o padrão.

Ninguém sabe onde ficava a cidade de Acádia, como ganhou destaque ou como, exatamente, caiu; mas já foi a sede do Império Acádio, que governou uma vasta extensão da região da antiga Mesopotâmia. Sabe-se que Acádia (também conhecida como Agade) era uma cidade localizada ao longo da margem ocidental do rio Eufrates, possivelmente entre as cidades de Sippar e Quis (ou, talvez, entre Mari e Babilónia ou, ainda, noutro lugar ao longo do Eufrates). Segundo a lenda, foi construída pelo rei Sargão, o Grande, que unificou a Mesopotâmia sob o domínio do seu Império Acádio e estabeleceu o padrão para as futuras formas de governo na Mesopotâmia.

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Sargão (ou os seus escribas) afirmavam que o Império Acádio se estendia do Golfo Pérsico até os atuais Kuwait, Iraque, Jordânia, Síria (possivelmente Líbano), passando pela parte inferior da Ásia Menor até o Mar Mediterrâneo e Chipre (há também uma afirmação de que se estendia até Creta, no Mar Egeu). Embora o tamanho e o alcance do império com sede em Acádia sejam contestados, não há dúvida de que Sargão, o Grande, criou o primeiro império multinacional do mundo.

O Rei de Uruk e a Ascensão de Sargão

A língua da cidade, o acádio, já era usada antes da ascensão do Império Acádio (notadamente na rica cidade de Mari, onde vastas tabuinhas cuneiformes ajudaram a definir eventos para historiadores posteriores), e é possível que Sargão tenha restaurado Acádia, em vez de construí-la. Também deve ser observado que Sargão não foi o primeiro governante a unir cidades e tribos díspares sob um único governo. O rei de Uruk (Uruque), Lugalzagesi, já o tinha conseguido, embora a uma escala muito menor, sob seu próprio governo.

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Ele foi derrotado por Sargão, que, aprimorando o modelo dado por Uruk, tornou a sua própria dinastia maior e mais forte. A historiadora Gwendolyn Leick escreve: "De acordo com as suas próprias inscrições, ele [Sargão] fez amplas campanhas além da Mesopotâmia e garantiu o acesso a todas as principais rotas comerciais, por mar e por terra" (pág. 8). Enquanto Lugalzagesi conseguiu subjugar as cidades da Suméria, Sargão estava decidido a conquistar o mundo conhecido. O historiador Will Durant escreve:

Para o leste e oeste, norte e sul, o poderoso guerreiro marchou, conquistando Elão, lavando as suas armas em triunfo simbólico no Golfo Pérsico, cruzando a Ásia Ocidental, chegando ao Mediterrâneo e estabelecendo o primeiro grande império da história. (pags. 121-122)

Akkadian Ruler
Governante de Acádia Sumerophile (Public Domain)

Este império estabilizou a região da Mesopotâmia e permitiu o desenvolvimento da arte, da literatura, da ciência, dos avanços agrícolas e da religião. De acordo com a Lista de Reis Sumérios, houve cinco governantes de Acádia: Sargão, Rimush, Manishtusu, Naram-Sin (também conhecido como Naram-Suen) e Shar-Kali-Sharri, que mantiveram a dinastia por 142 anos antes de ela entrar em colapso. Nessa época, o acádio substituiu o sumério como língua franca, exceto em serviços sagrados, e as vestimentas, a escrita e as práticas religiosas acádias infiltraram-se nos costumes dos povos conquistados na região. Uma compreensão completa da ascensão e queda de Acádia (relativamente falando) é melhor obtida através de um exame dos governantes da cidade e do império que mantiveram.

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O Governo de Sargão

Sargão, o Grande, fundou ou restaurou a cidade de Acádia, conquistou "os quatro cantos do universo" e manteve a ordem no seu império.

Sargão, o Grande, fundou ou restaurou a cidade de Acádia e governou de 2334 a 2279 a.C. Ele conquistou o que chamou de "os quatro cantos do universo" e manteve a ordem no seu império por meio de repetidas campanhas militares. A estabilidade proporcionada por este império deu origem à construção de estradas, melhorou a irrigação, ampliou a esfera de influência no comércio, bem como os desenvolvimentos acima mencionados nas artes e nas ciências.

O Império Acádio criou o primeiro sistema postal, no qual tabuinhas de argila com inscrições em escrita cuneiforme acádia eram envoltas em envelopes externos de argila marcados com o nome e endereço do destinatário e o selo do remetente. Estas cartas não podiam ser abertas, exceto pela pessoa a quem se destinavam, pois não havia como abrir o envelope de argila sem quebrá-lo.

Para manter a sua presença por todo o império, Sargão colocou estrategicamente os seus melhores e mais fiéis homens em posições de poder nas várias cidades. Os «Cidadãos de Acádia», como lhes chama um texto babilónico posterior, eram os governadores e administradores de mais de 65 cidades diferentes. Sargão também colocou habilmente a sua filha, Enheduanna, como Alta Sacerdotisa de Inanna em Ur e, por meio dela, parece ter sido capaz de manipular assuntos religiosos/culturais à distância. Enheduanna é reconhecida hoje como a primeira escritora do mundo conhecida pelo nome e, pelo que se sabe da sua vida, ela parece ter sido uma sacerdotisa muito capaz e poderosa, além de ter criado os seus impressionantes hinos a Inanna.

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Sucessores de Sargão: Rimush e Manishtusu

Sargão reinou por 56 anos e, após a sua morte, foi sucedido pelo seu filho Rimush (reinou 2279-2271 a.C.), que manteve as políticas do pai. As cidades rebelaram-se após a morte de Sargão, e Rimush passou os primeiros anos do seu reinado restaurando a ordem. Ele fez campanha contra Elão, a quem derrotou, e afirmou numa inscrição que trouxe grande riqueza de volta para Acádia. Ele governou por apenas nove anos antes de morrer e foi sucedido pelo irmão Manishtusu (reinou 2271-2261 a.C.). Especula-se que Manishtusu causou a morte do irmão para ganhar o trono.

A história repetiu-se após a morte de Rimush, e Manishtusu teve que reprimir revoltas generalizadas em todo o império antes de se dedicar à tarefa de governar as suas terras. Ele aumentou o comércio e, de acordo com as suas inscrições, envolveu-se com o comércio de longa distância com Macã e Meluá (atualmente Omã/Emirados Árabes Unidos e a Civilização do Vale do Indo, respectivamente). Ele também empreendeu grandes projetos de construção em todo o império e acredita-se que tenha decretado a construção do Templo de Ishtar em Nínive, considerado uma obra arquitetónica impressionante.

Além disso, empreendeu uma reforma agrária e, pelo que se sabe, melhorou o império do seu pai e irmão. O obelisco de Manishtusu, que descreve a distribuição de parcelas de terra, pode ser visto hoje no Museu do Louvre, em Paris. A sua morte é um tanto misteriosa, mas, de acordo com alguns estudiosos, entre eles Leick, "Manishtusu foi morto pelos seus cortesãos com os seus selos cilíndricos", embora nenhum motivo definitivo tenha sido apresentado para o assassinato (pág. 111).

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Naram-Sin: O Maior dos Reis Acádios

Manishtusu foi sucedido por seu filho Naram-Sin (também Naram-Suen), que reinou de 2261 a 2224 a.C. Assim como o pai e o tio antes dele, Naram-Sin teve que suprimir rebeliões por todo o império antes de poder começar a governar, mas, uma vez que começou, o império floresceu sob o seu reinado. Nos 36 anos em que governou, expandiu as fronteiras do império, manteve a ordem interna, aumentou o comércio e liderou pessoalmente campanhas com o seu exército além do Golfo Pérsico e, possivelmente, até mesmo no Egito.

A Estela da Vitória de Naram-Sin (atualmente exposta no Louvre) celebra a vitória do monarca acádio sobre Satuni, rei dos Lullubi (uma tribo da Cordilheira de Zagros) e retrata Naram-Sin subindo a montanha, pisoteando os corpos dos inimigos, à imagem de um deus. Como o avô, ele autoproclamou-se "rei dos quatro cantos do universo", mas, numa jogada mais ousada, começou a escrever o seu nome com um sinal que o designava como um deus em pé de igualdade com qualquer outro do panteão mesopotâmico.

Victory Stele of Naram-Sin
Estela da Vitória de Naram-Sin Jan van der Crabben (CC BY-NC-SA)

Apesar do seu reinado espetacular, considerado o auge do Império Acádio, as gerações posteriores o associariam à Maldição de Agade, um texto literário (do género Naru da Mesopotâmia) atribuído à Terceira Dinastia de Ur, mas que poderia ter sido escrito antes. Ele conta a fascinante história da tentativa de um homem de arrancar uma resposta dos deuses pela força, e esse homem é Naram-Sin. De acordo com o texto, o grande deus sumério Enlil retirou o seu prazer da cidade de Acádia e, ao fazê-lo, proibiu os outros deuses de entrar na cidade e abençoá-la com a sua presença.

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Naram-Sin não sabe o que poderia ter feito para incorrer nesse descontentamento e, por isso, reza, pede sinais e presságios e cai numa depressão de sete anos enquanto espera por uma resposta do deus. Finalmente, cansado de esperar, ele reúne o seu exército e marcha sobre o templo de Enlil em Ekur, na cidade de Nipur, destroindo-o. Ele "coloca as suas pás contra as suas raízes, os seus machados contra os alicerces até que o templo, como um soldado morto, caia prostrado" (Leick, pág. 106).

Este ataque, é claro, provoca a ira não só de Enlil, mas também dos outros deuses, que enviam os gutis, «um povo que não conhece inibições, com instintos humanos, mas inteligência canina e características de macaco» (Idem), para invadir Acádia e devastá-la. Há uma fome generalizada após a invasão dos gutianos, os mortos apodrecem nas ruas e casas, e a cidade está em ruínas e, assim, de acordo com o conto, termina a cidade de Acádia e o Império Acádio, vítima da arrogância de um rei diante dos deuses.

No entanto, não há registros históricos de Naram-Sin ter reduzido o Ekur em Nipur pela força ou destruído o templo de Enlil, e acredita-se que A Maldição de Agade seja uma obra muito posterior, escrita para expressar "uma preocupação ideológica com o relacionamento correto entre os deuses e o monarca absoluto" (Ibid., pág. 107), cujo autor escolheu Acádia e Naram-Sin como temas devido ao seu estatuto lendário na época. De acordo com os registros históricos, Naram-Sin honrava os deuses, tinha a sua própria imagem colocada ao lado das deles nos templos e foi sucedido por seu filho, Shar-Kali-Sharri, que reinou de 2223 a 2198 a.C..

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Map of the Third Dynasty of Ur
Mapa da Terceira Dinástia de Ur Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

O Declínio de Acádia

O reinado de Shar-Kali-Sharri foi difícil desde o início, pois também ele teve que despender muitos esforços para reprimir revoltas após a morte do pai, mas, ao contrário dos seus antecessores, parecia não ter a capacidade de manter a ordem e foi incapaz de impedir novos ataques ao império vindos de fora. Leick escreve:

Apesar dos seus esforços e campanhas militares bem-sucedidas, ele não foi capaz de proteger o seu estado da desintegração e, após a sua morte, as fontes escritas esgotaram-se num período de crescente anarquia e confusão. (Ibid., pág. 159)

Curiosamente, sabe-se que "o seu projeto de construção mais importante foi a reconstrução do Templo de Enlil em Nipur" e talvez este evento, juntamente com a invasão dos gutianos e a fome generalizada, tenha dado origem à lenda posterior que se transformou na Maldição de Agade. Shar-Kali-Sarri travou uma guerra quase contínua contra os elamitas, os amoritas e os invasores gutianos, mas é a invasão gutiana que é mais commumente creditada pelo colapso do Império Acádio e pela era sombria da Mesopotâmia que se seguiu.

Estudos recentes, no entanto, afirmam que foi provavelmente a mudança climática que causou a fome e, talvez, a interrupção do comércio, enfraquecendo o império ao ponto de que o tipo de invasões e rebeliões que, no passado, eram esmagadas, não pudessem mais ser tratadas com tanta facilidade. Os dois últimos reis de Acádia após a morte de Shar-Kali-Sharri, Dudu e do seu filho Shu-Turul, governaram apenas a área ao redor da cidade e raramente são mencionados em associação com o império. Assim como a ascensão da cidade de Acádia, a sua queda é um mistério e tudo o que se sabe hoje é que, outrora, existiu uma cidade cujos reis governaram um vasto império, o primeiro império do mundo, e depois passaram para a memória e a lenda.

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Perguntas & Respostas

Por que o Império Acádio é conhecido?

O Império Acádio foi o primeiro império multinacional do mundo. Também é famoso por ter sido o berço da primeira escritora da história mundial conhecida pelo nome, Enheduanna, filha de Sargão da Acádia.

Onde ficava Acádia?

Ninguém sabe onde ficava Acádia, exceto que ela se erguia na margem ocidental do rio Eufrates, na antiga Mesopotâmia.

Quem fundou o Império Acádio?

O Império Acádio foi fundado por Sargão, o Grande (também conhecido como Sargão de Acádia), que governou entre 2334 e 2279 a.C.

O que causou a queda do Império Acádio?

A causa da queda do Império Acádio é desconhecida. Tradicionalmente, atribuíam-na à invasão gutiana, mas os estudiosos modernos pensam que pode ter sido causada por alterações climáticas, fome e perturbações no comércio, juntamente com, possivelmente, a invasão pelos gutianos.

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2026, janeiro 07). Acádia e o Império Acádio. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-363/acadia-e-o-imperio-acadio/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "Acádia e o Império Acádio." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, janeiro 07, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-363/acadia-e-o-imperio-acadio/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "Acádia e o Império Acádio." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 07 jan 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-363/acadia-e-o-imperio-acadio/.

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