O bombardeiro Avro 683 Lancaster foi um bombardeiro pesado quadrimotor utilizado pela Royal Air Force (RAF - Força Aérea Real) e pelos seus aliados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-45). Os Lancaster eram particularmente utilizados em ataques de bombardeamento nocturno e podiam transportar as bombas mais pesadas alguma vez lançadas na Segunda Guerra Mundial. Os Lancaster lançaram as 'bombas saltitantes' sobre várias barragens do Ruhr na Operação Chastise, o ataque dos 'Dambusters' de maio de 1943.
As Origens do Projecto
O Lancaster começou na prancheta de desenho como uma aeronave bimotor, até se decidir criar um bombardeiro quadrimotor. Nasceu a partir do bombardeiro médio bimotor Avro 679 Manchester. Os problemas sentidos nos motores e na estrutura do Manchester durante as operações em 1940 permitiram aos projectistas da Avro tentar um bombardeiro maior e melhor. Ter quatro motores significava que o avião podia transportar cargas de bombas mais pesadas para mais longe e aumentava as probabilidades de regressar a casa caso um ou mais motores falhassem ou fossem atingidos por fogo antiaéreo inimigo ou por caças. O primeiro protótipo, designado por Manchester III, foi concluído em janeiro de 1941. Foram feitas alterações ao projecto e o primeiro bombardeiro foi testado com sucesso na base da RAF Waddington, em Lincolnshire. A Avro obteve um contracto para mais de 1000 aviões, agora designados Lancasters, mas muitas mais encomendas se seguiram pouco depois. Em outubro, os primeiros Lancasters já estavam em serviço activo, mas somente em março de 1942 é que as primeiras esquadras de Lancasters ficaram operacionais. No total, foram construídos mais de 7350 Lancasters. Os Lancasters acabaram por prestar serviço na Royal Air Force (RAF), na Royal Australian Air Force (RAAF - Força Aérea Real Australiana) e na Royal Canadian Air Force (RCAF - Força Aérea Real Canadiana).
O Lancaster superou os seus antecessores ligeiramente mais antigos, o Short Stirling e o Halifax, ambos também quadrimotores. O Lancaster possuía uma manobrabilidade superior e conseguia transportar uma carga de bombas muito mais pesada, embora as outras duas aeronaves tenham permanecido contemporâneas em termos de serviço activo. O especialista em aviação D. Mondey observa que "ninguém contestaria a afirmação de que o Avro 683 Lancaster foi o melhor bombardeiro pesado britânico da Segunda Guerra Mundial; poucos ousariam sequer contrapor a premissa de que foi o melhor bombardeiro pesado a servir em qualquer um dos lados durante o conflito" (pág. 28). O avião tornou-se o cavalo de batalha do Bomber Command da RAF e um favorito incontestável entre as tripulações devido à sua manobrabilidade, mesmo após sofrer danos causados pelo fogo inimigo, o que acontecia com demasiada frequência na perigosa atividade de bombardear profundamente em território inimigo.
Os Lancasters eram frequentemente utilizados para ataques de 'bombardeamento de área' mais indiscriminados, concebidos para destruir o moral dos civis.
As Especificações e a Tripulação
O Lancaster tinha um comprimento de 21,18 m (69,5 pés) e uma envergadura de 31,09 m (102 pés). O bombardeiro foi inicialmente equipado com quatro motores Rolls-Royce Merlin de 12 cilindros, cada um com uma potência de 854 kW (1145 hp); que sofreram constantes actualizações ao longo dos anos e, por vezes, com o uso de fabricantes alternativos. Cada motor do Lancaster accionava uma hélice de três pás. A velocidade máxima era de 462 km/h (287 mph), com uma velocidade de cruzeiro de 338 km/h (210 mph). Tinha um alcance de 4072 km (2530 milhas) e podia voar a uma altitude de 7470 metros (24 500 pés). A carga de bombas podia atingir os 6350 kg (14 000 libras) de bombas múltiplas ou uma única bomba gigantesca de quase 10 toneladas (22 000 libras), conhecida como 'Grand Slam' — a bomba mais pesada lançada durante a guerra por qualquer força aérea. O armamento de defesa incluía oito metralhadoras Browning de 0,303 polegadas (7,6 mm) distribuídas por três torres: traseira (4 metralhadoras), dorsal (2) e frontal (2). Algumas aeronaves posteriores tinham metralhadoras de 0,50 polegadas (12,7 mm) na torre de cauda. Havia um segundo nariz envidraçado para o bombardeador, localizado abaixo da cúpula do artilheiro frontal. Os Lancasters eram equipados com o equipamento mais moderno à medida que este surgia durante a guerra, como, por exemplo, o radar de varrimento H2S para bombardeamento cego. O esquema de cores mais comum consistia num trem de aterragem e metade inferior da fuselagem em preto, com camuflagem em castanho escuro e verde escuro nas superfícies superiores.
O bombardeiro Lancaster tinha uma tripulação de sete elementos que, muito frequentemente, ao terem treinado juntos, formavam um grupo muito unido, por vezes de nacionalidades mistas, como britânicos, canadianos, neozelandeses, sul-africanos e australianos. Havia o piloto (que era também o comandante), o segundo piloto/engenheiro de voo, o navegador, o operador de rádio, o bombardeador (que servia também como artilheiro frontal quando necessário), o artilheiro dorsal e, finalmente, o artilheiro de cauda, que ocupava o lugar mais perigoso, isolado, certamente, o mais frio do avião; e existiam paraquedas e um bote insuflável, caso o avião tivesse de ser abandonado.
As Operações
Os Lancasters bombardearam locais estratégicos, como fábricas; um exemplo inicial foi o ataque de agosto de 1942 à fábrica da MAN que produzia motores diesel para submarinos (U-boats) em Augsburgo, no sul da Alemanha. Este foi um ataque diurno, uma vez que o alvo não era maior do que um campo de futebol. Envolveu 12 Lancasters que voaram particularmente baixo, contudo perderam-se sete aeronaves, quer antes quer em Augsburgo, devido a ataques de caças inimigos. Aqueles que conseguiram chegar ao destino lançaram as suas cargas de quatro bombas de 450 kg (1000 libras); e 17 bombas atingiram o alvo. O ataque foi um sucesso no que diz respeito à destruição do objectivo, e o Líder de Esquadra John Nettleton recebeu a medalha da Cruz Vitória. No entanto, ficou claro para o Bomber Command da RAF que, devido às perdas, os bombardeamentos diurnos sem escolta não seriam sustentáveis (função que foi mais tarde assumida pela USAAF [Forças Aéreas do Exército dos Estados Unidos], com perdas pesadas semelhantes).
Inicialmente, pequenos grupos de bombardeiros sentiam grandes dificuldades em atingir os seus alvos; apenas um em cada três conseguia lançar uma bomba num raio de oito quilómetros (cinco milhas) do objectivo: os voos nocturnos; as condições meteorológicas desfavoráveis; o equipamento de radar pouco fiável ou simplesmente inadequado; e o caos da guerra aérea — com caças mortíferos e baterias antiaéreas concentradas — faziam com que atingir um alvo específico, como um pequeno complexo fabril, fosse mais uma esperança do que uma realidade.
O Bomber Command alterou as táticas e agrupou as esquadras de bombardeiros em grandes forças, enviando-as contra alvos variados. Os Lancasters passavam agora a ser utilizados em ataques de bombardeamento mais indiscriminados, concebidos para destruir o moral dos civis. Esta era a estratégia de 'bombardeamento de área' (também conhecido como 'bombardeamento cego') sobre cidades alemãs, bem como sobre alvos em Itália e na Europa ocupada. Os principais ataques a cidades alemãs incluíram o bombardeamento de Berlim, Colónia, Dresden, Essen, Hamburgo, Nuremberga e Estugarda.
Outra melhoria tática consistiu em fazer com que os bombardeiros operassem melhor em conjunto quando estavam sobre a zona do alvo. Os bombardeiros, que frequentemente somavam várias centenas e, por vezes, até 1000 aeronaves, tinham o seu alvo identificado por uma primeira vaga de bombardeiros ligeiros que lançavam bombas incendiárias; depois, os Lancasters entravam e lançavam primeiro bombas explosivas e, em seguida, engenhos incendiários para incendiar as ruínas. As cidades estavam, muitas vezes, bem defendidas. Os bombardeiros tinham de enfrentar o fogo cruzado das defesas de caças e das baterias antiaéreas — muitas delas controladas por radar. Algumas baterias antiaéreas eram inclusivamente colocadas em comboios que podiam ser deslocados para atingir, a partir do solo, uma rota de bombardeiros conhecida. O número de baixas no terreno nestes ataques de bombardeamento de área era enorme, mas o efeito no moral foi mínimo, tal como tinha acontecido quando a Luftwaffe alemã bombardeou as cidades britânicas anteriormente na guerra. No entanto, o Bomber Command continuou com a sua estratégia de bombardeamento de área.
Famoso como um bombardeiro pesado, o Lancaster desempenhou outras funções, tais como a colocação de minas e a operação como guia (pathfinder) para outros bombardeiros. Acabaram por existir 14 esquadras de guias (PFF - Pathfinder Force) de Lancasters, que lançavam Indicadores de Alvo (Target Indicators - TIs) para que os bombardeiros que vinham atrás conseguissem avistar melhor o objectivo. Alguns deles eram feixes de 60 archotes pirotécnicos com cores pré-especificadas (para se diferenciarem dos foguetes de engodo alemães), que iluminavam a zona do alvo descendo lentamente durante três minutos. Quando o tempo estava nublado, eram utilizados foguetes com paraquedas.
Os Lancasters com tripulações ainda em fase de treino eram frequentemente utilizados em rotas de diversão para confundir o inimigo, enquanto os Lancasters carregados com bombas operavam noutros locais. Outra tática de diversão executada pelos Lancasters consistia no lançamento de 'Window' — tiras cobertas com folha metálica que interferiam com os sistemas de radar alemães. Na primavera de 1943, a combinação de esquadras de diversão, melhores sistemas de radar, comunicações rádio aperfeiçoadas entre as tripulações, dispositivos de interferência e os TIs dos guias (pathfinders) melhorou significativamente a eficácia dos ataques, como indicado no seguinte relatório oficial do Bomber Command relativo ao ataque a Barmen-Wuppertal, no leste da Alemanha, no final de maio de 1943, realizado por uma força que incluía 272 Lancasters:
611 aeronaves, de uma força de 719, atacaram o distrito de Barmen, em Wuppertal, com enorme sucesso. A técnica de fustigação por fogo foi empregue de forma eficaz, como complemento à marcação terrestre, resultando na melhor concentração até agora alcançada pela esquadra de guia. Foram causados danos imensos na cidade, abrangendo mais de 400 hectares (1000 acres) e afetando 113 empresas industriais, além de desorganizar totalmente o sistema de transportes e os serviços públicos.
(Spick, pág. 26)
Um famoso ataque de bombardeamento com um objectivo específico envolveu, novamente, os Lancasters: tratou-se do ataque ao couraçado alemão Tirpitz, o navio-irmão do couraçado Bismarck. O Tirpitz encontrava-se em águas do norte da Noruega, perto de Tromsø, quando foi atacado a 12 de novembro de 1944. O navio foi afundado por uma bomba especificamente concebida para o efeito, a 'Tallboy' de 5443 kg (12 000 libras).
Outra bomba especializada era a Capital Ship Bomb, com a forma de um nabo e concebida para perfurar blindagem. Esta bomba foi utilizada no ataque ao porta-aviões Graf Zeppelin e ao cruzador de batalha Gneisenau, na costa polaca, em agosto de 1942. Contudo, os Lancasters não conseguiram atingir o alvo nesta incursão.
Ainda maior do que a 'Tallboy' era a bomba 'Grand Slam', concebida para penetrar betão e criar uma explosão de tal forma maciça que replicava os efeitos de um sismo. A 14 de março de 1945, foi lançada uma 'Grand Slam' sobre o Viaduto de Bielefeld e destruiu-o. Ao todo, os Lancasters lançaram 41 'Grand Slams' durante a guerra.
O Ataque dos "Dambusters"
Os Lancasters estiveram envolvidos num dos ataques mais famosos da guerra, o dos 'Dambusters' (os destruidores de barragens) da Operação Chastise. Numa tentativa de inundar uma zona de fábricas no Vale do Ruhr, na Alemanha, foi concebida uma bomba que podia ser lançada sobre a água e que saltava sucessivamente até atingir uma barragem, uma vez que aquela região possuía um grande número de reservatórios. A "bomba saltitante", com o nome de código 'Upkeep', foi idealizada pelo engenheiro Barnes Wallis (1887-1979), que também tinha projectado o bombardeiro Wellington e que viria a desenhar a 'Tallboy', a némesis do Tirpitz. As bombas saltitantes de 4200 kg (9250 libras) — tecnicamente minas — foram concebidas para detonar abaixo da superfície, encostadas à parede da barragem. Estas bombas eram transportadas por Lancasters da Esquadra N.º 617, baseada na RAF Scampton, em Lincolnshire, que treinou intensivamente com a nova bomba durante um período de seis semanas. O líder das 19 tripulações altamente experientes era o Tenente-Coronel Aviador Guy Gibson (1918-44). O alvo eram cinco barragens, mas três eram prioritárias: Möhne, Eder e Sorpe. Para lançar as bombas rotativas à altura necessária (se fosse demasiado alto, as bombas destruir-se-iam prematuramente; se fosse demasiado baixo, não saltitariam o suficiente), os Lancasters foram equipados com dois faróis fixados na parte inferior do avião, angulados de forma a criar a convergência dos feixes de luz precisamente a 18,3 m (60 pés) abaixo da aeronave. Além disso, os pilotos tinham de lançar a bomba a uma velocidade de voo de 386 km/h (240 mph).
Outras adaptações nos Lancasters dos 'Dambusters' incluíram a remoção da torre frontal e das portas do porão de bombas. A instalação de rádios VHF para que Gibson pudesse comunicar com a sua esquadra e dirigi-la foi outra inovação. O audaz ataque teve lugar na noite de 16 de maio de 1943. Tanto a barragem de Eder como a de Möhne foram rompidas; a barragem de terra de Sorpe sofreu impactos directos, mas permaneceu intacta. Considerada um sucesso, a missão valeu a Gibson a Cruz Vitória. O custo foi elevado: oito dos 19 Lancasters não regressaram a casa, 53 homens morreram e três, cujos aviões foram abatidos, tornaram-se prisioneiros de guerra. Do lado alemão, as ondas gigantes provocadas pelas brechas nas barragens espalharam-se pelo vale ao longo de 80 km (50 milhas), inundando mais de 100 fábricas, várias minas de carvão e inúmeras casas e causando a morte de mais de 1300 civis nas inundações.
Os danos infligidos pelos 'Dambusters' foram reparados em poucos meses e, acima de tudo, o maior sucesso do ataque foi destacar as vantagens do bombardeamento de precisão a baixa altitude sobre alvos específicos, realizado por tripulações altamente treinadas e seleccionadas a dedo — algo que o Bomber Command viria a perseguir com sucesso durante o resto da guerra. De facto, a Esquadra N.º 617 e muitas outras foram responsáveis por atingir inúmeros alvos cruciais, tais como importantes fábricas de armamento, refinarias de petróleo, bases navais e infraestruturas de transporte.
A Avaliação e o Legado
À medida que a guerra se aproximava do fim, os Lancasters foram utilizados para apoiar a nova e sempre crescente Frente Ocidental após o Dia D, em junho de 1944. Os últimos Lancasters a voar como uma esquadra na guerra pertenceram à Esquadra 514, em setembro de 1944. De acordo com Mondey, durante a guerra, os bombardeiros Lancaster "realizaram mais de 156 000 missões e lançaram, além de 608 612 toneladas de bombas de alto explosivo, mais de 51 milhões de engenhos incendiários" (pág. 32).
A guerra aérea travada pelo Bomber Command na Europa continua a ser controversa. O bombardeamento indiscriminado de civis teve resultados questionáveis. Contudo, na época os ataques de bombardeamento eram vistos como uma das pouquíssimas formas da Grã-Bretanha levar a guerra até à Alemanha. As derrotas tinham sido muitas, e só quando os Estados Unidos aumentaram o seu envolvimento na guerra é que os Aliados puderam sequer começar a contemplar um desembarque físico na Europa Continental.
As campanhas de bombardeamento, das quais os Lancasters foram um elemento tão importante, tiveram outra consequência, muitas vezes negligenciada. O efeito do bombardeamento na indústria da Alemanha foi tão severo e a consequente necessidade de melhor a defender, que o Ministro do Armamento alemão, Albert Speer (1905-1981), descreveu a guerra aérea como 'uma segunda frente' — uma frente que absorveu homens e máquinas que, de outra forma, poderiam ter sido utilizados na Frente Oriental contra a Rússia.
O sucessor do Lancaster foi o Avro 694 Lincoln, de quatro motores, que tinha um maior alcance e maior capacidade de altitude. Desenvolvido em 1944, o Lincoln possuía uma fuselagem mais longa, uma maior envergadura de asas e metralhadoras mais pesadas. Tendo surgido demasiado tarde para uma utilização activa na Segunda Guerra Mundial, o Lincoln prestou serviço na Malásia e no Quénia. Após a guerra, uns Lancasters acabaram como aviões de reconhecimento na marinha francesa, alguns foram usados para testes de voo e outros foram convertidos para transporte civil, sendo então conhecidos como Lancastrians. Houve até um Lancaster utilizado para salvamento no mar que conseguia lançar um barco salva-vidas. Em fevereiro de 1954, o último Lancaster britânico em serviço foi retirado do activo.
