Os Gutis foram um povo da Ásia Ocidental que se crê ter habitado a região da Cordilheira de Zagros, num território designado como Gutium. Não possuíam linguagem escrita e tudo o que se sabe sobre eles provém dos seus inimigos — incluindo os Acádios, os Sumérios e os Assírios —, que os culpam pela destruição e desolação das terras antes do seu domínio na região, durante o Período Gutio (cerca de 2141 a.C. a cerca de 2050 a.C.).
Os textos sumérios antigos consideram-nos responsáveis pela queda do Império Acádio e pela desolação da Suméria. São mencionados pela primeira vez em textos acádios sob o reinado de Shar-Kali-Sharri (2217–2193 a.C.), um dos últimos reis do império fundado por Sargão, o Grande, de Acádia (reinou 2334–2279 a.C.). Surgem também em relatos do reinado do seu neto, Naram-Sin (2254–2218 a.C.), sendo ainda referenciados em obras posteriores da Literatura Naru mesopotâmica, nomeadamente em A Lenda de Cutha e em A Maldição de Ágade.
Após a queda do Império Acádio, os Gutis reivindicaram a sucessão e governaram na Suméria (embora a amplitude desse domínio seja disputada) até ao reinado do rei de Uruque, Utu-Hegal (cerca de 2119 a.C. – cerca de 2112 a.C.), que liderou uma revolta contra eles. Após o afogamento de Utu-Hegal, a realeza passou para Ur-Nammu (reinou 2112–2094 a.C.), de Ur, que deu continuidade à guerra; quando este foi morto em combate, o seu filho Shulgi de Ur (reinou 2094 – cerca de 2046 a.C.) concluiu as hostilidades, expulsando os Gutis do território.
Os textos assírios mais tardios referem-se aos Medos como Gutis, e julga-se que o termo passou a ser utilizado para designar qualquer grupo considerado 'incivilizado' ou 'barbárico' pelos escribas sumérios que redigiram as histórias. Uma vez que os próprios Gutis não deixaram registos, a sua má reputação como bárbaros nómadas — que matavam pessoas inocentes e destruíam cidades deliberadamente — tem permanecido, em grande medida, incontestada. Só recentemente é que os estudiosos começaram a considerar a possibilidade dos Gutis não terem sido tão cruéis como são retratados, mas continua a não existir prova material sólida que sustente tal afirmação.
A Acádia e os Gutis
Os Gutis são mencionados pela primeira vez em relação à queda do Império Acádio. Sargão de Acádia estabeleceu a primeira entidade política multinacional e multiétnica do mundo na Mesopotâmia, mantendo o controlo através de funcionários estrategicamente colocados em várias cidades e do seu poderio militar. O império expandiu-se durante o reinado de Naram-Sin, considerado o maior rei acádio, que empreendeu campanhas contra os Gutis e os derrotou em batalha. Ainda assim, os relatos afirmam que foi uma vitória pesada e que os Gutis conseguiram reorganizar-se posteriormente.
Desconhece-se quem eram e de onde vinham exatamente. Tudo o que os relatos antigos dizem é que vinham da Cordilheira de Zagros, a norte de Elão, no que é hoje o Irão; contudo, estes relatos não parecem referir-se ao mesmo povo. O académico Marc van de Mieroop comenta:
O nome geográfico Gutium, e a designação das pessoas como Gutis, está atestado no registo mesopotâmico desde meados do terceiro milénio até ao final do primeiro milénio a.C. É altamente improvável que o nome Gutis se tenha referido sempre ao mesmo grupo de pessoas e Gutium à mesma região. As evidências do segundo e primeiro milénios sugerem maioritariamente uma localização a leste, do ponto de vista mesopotâmico, mas não podemos afirmar que o mesmo se verificasse anteriormente, quando os Gutis foram mais importantes na história da Mesopotâmia.
(Gutians, [Gutis], pág. 1)
São mencionados pela primeira vez como saqueadores nómadas que realizavam ataques de 'atropelo e fuga' contra as cidades sob o domínio acádio. Os seus reis estão incluídos na Lista de Reis Sumérios (datada do período Ur III, de cerca de 2112 a.C. a cerca de 2004 a.C.), pelo que possuíam, aparentemente, alguma forma de governo, embora a sua natureza permaneça incerta. Antes de 2218 a.C., os Gutis já se tinham estabelecido firmemente na Suméria — contudo, desconhece-se em que medida — e, por volta de 2154 a.C., são apontados como os responsáveis pela queda do Império Acádio. O intervalo entre cerca de 2141 a.C. e cerca de 2050 a.C. é conhecido na história suméria como o Período Gutis, época em que os estrangeiros detiveram o poder antes de serem desafiados por Utu-Hegal.
A Suméria e os Gutis
Tal como em todos os outros aspetos relativos aos Gutis, desconhece-se como — ou se — estes conquistaram a Suméria em batalha, mas os escribas posteriores culparam-nos por uma devastação e mortalidade generalizadas. O académico Paul Kriwaczek observa que as escavações arqueológicas contemporâneas em vários locais da Mesopotâmia não mostram sinais de ocupação humana entre a queda de Acádia e o renascimento da Suméria sob Ur-Nammu, prosseguindo com a explicação de como os Gutis foram considerados responsáveis por tal facto pelos escribas sumérios:
O culpado foi identificado pelos antigos como sendo os Gutis, que desceram do curso superior do Vale de Diyala deixando um rasto de destruição à sua passagem. 'A realeza foi levada para as hostes de Gutium, que não tinham rei', afirma a Lista de Reis. Um lamento poético posterior, A Maldição de Ágade, explica que o deus 'Enlil trouxe das montanhas aqueles que não se assemelham a outros povos, que não são considerados parte da Terra: um povo que desconhece a inibição, possuindo instintos humanos, mas inteligência canina e feições simiescas'.
A catástrofe que infligiram a Acádia foi implacável: "Nada escapou às suas garras, ninguém evitou o seu alcance. Os mensageiros já não viajavam pelas estradas, o barco do correio já não passava pelos rios. Os prisioneiros ocupavam os postos de vigia. Salteadores ocupavam as estradas. As portas das muralhas das cidades da Terra jaziam desalojadas na lama e todas as terras estrangeiras soltavam gritos amargos do alto das suas muralhas.
(págs. 129-130)
Kriwaczek assinala que, embora os primeiros historiadores tenham aceitado estes relatos como inteiramente factuais, é possível que as alterações climáticas — que trouxeram seca e fome — tenham sido as principais responsáveis pela queda de Acádia; os Gutis limitaram-se, então, a explorar essa fraqueza. A rutura das normas e costumes sociais referida nos relatos poderá também ter sido o resultado da fome e da incapacidade dos governos locais em lidar com a inanição generalizada e a desvalorização da moeda.
Kriwaczek observa que "parece muito improvável que os Gutis, por si só, tenham sido capazes de subjugar o império pela força das armas. Acádia tinha tido, anteriormente, pouca dificuldade em resistir ao assalto de inimigos muito melhor organizados" (pág. 130). Parece possível, portanto, que as alterações ambientais tenham dado aos Gutis a vantagem na conquista precisamente no momento em que dela necessitavam.
Ao mesmo tempo, contudo, não há forma de o afirmar categoricamente. As evidências arqueológicas sugerem, de facto, alterações climáticas durante este período, mas não é claro se estas resultaram em fome ou na agitação social detalhada nos registos antigos. Os últimos reis acádios não eram tão fortes como Sargão e Naram-Sin o foram; o filho de Naram-Sin, Shar-Kali-Sharri, travou guerras quase contínuas contra os Amorreus, os Elamitas e os Gutis durante todo o seu reinado. Os últimos reis acádios — Dudu (reinou 2189–2169 a.C.) e Shu-turul (reinou 2168–2154 a.C.) — detinham apenas a área em redor da sua cidade central e não são referenciados como monarcas de um império, mas apenas de um reino. Dir-se-ia que Acádia, neste estado de debilidade, teria sido presa fácil para os Gutis, mesmo sem alterações climáticas ou quaisquer outros fatores.
Reis Gutis e o Renascimento Sumério
O primeiro rei Gutis mencionado como governante na Suméria é Imta (também designado por Nibia, cerca do final do terceiro milénio a.C.), foi sucedido por Inkishush, o primeiro a figurar na Lista de Reis Sumérios, que governou durante seis anos, mas desconhece-se a partir de onde exercia o poder ou até onde chegava a sua influência. Foi sucedido por Sarlagab, que poderá ter sido o mesmo rei capturado por Shar-Kali-Sharri, embora tal também não seja claro. Outros 16 reis Gutis surgem na Lista de Reis Sumérios, cada um governando não mais do que sete anos — e alguns apenas um ou dois —, até Tirigan, que reinou somente 40 dias antes de ser deposto por Utu-Hegal, por volta de 2050 a.C.
De acordo com a Estela da Vitória de Utu-Hegal, o rei sumério recusou-se a negociar com Tirigan e aprisionou os seus emissários. Tirigan fugiu com a mulher e filhos quando compreendeu que Utu-Hegal detinha a vantagem, mas foi capturado e, posteriormente, provavelmente executado. A estela refere apenas que "Utu-Hegal fê-lo deitar-se aos seus pés e colocou o seu pé sobre o pescoço dele", não fornecendo mais detalhes além de que Utu-Hegal restaurou a realeza da Suméria e "extraiu as presas aos serpentes Gutis das montanhas". Utu-Hegal parece ter, depois, cometido algum tipo de pecado contra Marduk, o deus patrono da Babilónia (Babilônia), o que terá provocado o seu afogamento ("pelo que o rio arrastou o seu cadáver") e a realeza passou para Ur-Nammu de Ur.
Ur-Nammu deu início ao chamado Renascimento Sumério do período Ur III, durante o qual empreendeu diversos projetos de construção, revigorou a economia e promulgou o seu conjunto de leis, o Código de Ur-Nammu — o código jurídico mais antigo do mundo. Ur-Nammu foi morto em combate contra os Gutis, e o seu filho, Shulgi de Ur, deu continuidade à guerra contra estes, acabando por expulsá-los da Suméria no início do seu reinado.
A Lenda de Cutha
Contudo, os Gutis não foram aniquilados, tendo apenas regressado aos seus locais de origem junto à Cordilheira de Zagros, a norte. Estes perduraram no género atualmente conhecido como Literatura Naru mesopotâmica, que apresentava uma figura célebre do passado — quase sempre um rei — numa narrativa ficcional que transmitia uma lição moral ou cultural importante. Em A Maldição de Ágade, por exemplo, Naram-Sin é considerado responsável pela queda de Acádia após, não obtendo resposta às suas preces, ter atacado o templo de Enlil; em consequência, os deuses retiraram a sua graça da cidade, permitindo que os Gutis a destruíssem.
A lição deste conto é que se deve aceitar tudo o que se recebe dos deuses — mesmo o silêncio em resposta a uma súplica — e que nunca se devem questionar os seus desígnios. Este tema é explorado com maior notoriedade nos Lamentos de Cidades mesopotâmicos, que choram a queda de uma cidade por vontade dos deuses.
Em A Lenda de Cutha, Naram-Sin surge novamente como a personagem principal numa história com um tema semelhante. Aqui, o reino de Naram-Sin é invadido por entidades sobre-humanas terríveis que destroem aldeias e vilas, aparentemente sem motivo. Estas criaturas são associadas aos Gutis através de um eco do seu barbarismo, tal como registado pelos escribas sumérios, mas não são designadas como Gutis. Na verdade, Gutium é uma das terras mencionadas como tendo sido devastada pelas criaturas antes de estas chegarem a Acádia. Naram-Sin envia um dos seus soldados para picar um dos monstros, pois, se este sangrar, poderá ser morto. Assim que ouve que as criaturas sangram, ele consulta os deuses sobre quando e onde deverá atacar.
Os deuses respondem que ele deve manter a sua posição e não fazer absolutamente nada, o que ele considera inaceitável, enviando um exército de 120 000 soldados, dos quais nenhum regressa. Envia depois 90 000 soldados, que são igualmente mortos, e em seguida 60 700 soldados, que têm o mesmo destino. Naram-Sin compreende que ofendeu os deuses e humilha-se perante eles.
Posteriormente, captura 12 soldados inimigos, mas não avança contra eles até ter consultado os deuses. Quando lhe é dito para não lhes fazer mal, porque Enlil tem planos para os destruir à sua maneira, ele entrega-os ao templo de Enlil. A história termina com Naram-Sin a dirigir-se diretamente ao público, dizendo-lhe para obedecer aos deuses e não confiar no seu próprio entendimento, uma vez que os humanos não podem saber o que o Divino planeou.
O conto parece ter sido popular no segundo milénio a.C., muito depois da queda de Acádia, e após Naram-Sin e os outros reis acádios se terem tornado heróis populares. A associação dos Gutis ao exército de monstros sobre-humanos deixa claro que estes ainda eram vistos como inimigos desumanos dos deuses, que apenas existiam para destruir terras civilizadas e que, a seu tempo, receberiam justiça pelas mãos da Vontade Divina. É provável que a história tenha ressoado junto do público sumério nesta época porque a Suméria tinha caído perante os Elamitas em 1750 a.C. e fora depois invadida pelos Amorreus que, ao fundirem-se com a população indígena, puseram fim à cultura suméria ou, pelo menos, contribuíram para o seu declínio. Van de Mieroop comenta:
O papel exato dos Amorreus no derrube do estado de Ur III é difícil de discernir, mas podemos observar um paralelismo com o papel dos Gutis no fim do estado acádio. Ambos os grupos vieram de fora da região, adquiriram importância política e foram, mais tarde, considerados cruciais no derrube da situação política vigente."
(A History of the Ancient Near East [Uma História do Antigo Próximo Oriente], pág. 83)
Histórias como A Lenda de Cutha e A Maldição de Ágade perpetuaram a imagem dos Gutis como o "outro", que deve ser temido e odiado por trazer mudanças indesejadas. Crê-se que, na altura em que A Lenda de Cutha foi transposta para a escrita, a história já existia na tradição oral há algum tempo, estando os Gutis firmemente enraizados no folclore mesopotâmico como o inimigo tanto do povo como dos deuses. Van de Mieroop elabora:
[Os Gutis] são sempre retratados em termos extremamente negativos: não realizam ritos religiosos adequados e abusam do povo da Babilónia, retirando a esposa ao marido e o filho ao progenitor. Um texto literário do início do segundo milénio chama-lhes 'de rosto humano, inteligência canina e corpo simiesco' Podemos, assim, concluir que, durante algum tempo, partes da Babilónia foram controladas politicamente por pessoas chamadas Gutis, as quais eram percecionadas como estrangeiras e bárbaras pela população nativa.
(Gutians, pág. 3)
Van de Mieroop prossegue, esclarecendo, contudo, que não há forma de saber se esta perceção é válida. Seriam os Gutis realmente tão maus como são retratados, ou teriam sido difamados por escribas que se opunham ao domínio estrangeiro e a tradições e ritos desconhecidos? Infelizmente, não existe uma resposta definitiva para essa questão.
Conclusão
Os Gutis continuaram a desempenhar um papel na história da Mesopotâmia após terem sido expulsos por Shulgi de Ur. Os Assírios designam os Medos como Gutis, o que sustenta a teoria moderna de que "Gutis" se tornou um termo genérico para qualquer pessoa estrangeira e entendida como perigosa ou ameaçadora. O rei assírio Assurbanípal (reinou 668–627 a.C.) culpou "os Gutis" por incitarem à rebelião na Babilónia, e o posterior rei babilónio Nabonido (reinou 556–539 a.C.) afirmou que estes foram os responsáveis pela destruição do templo na cidade de Sipar.
Em 539 a.C., quando Ciro II (O Grande, reinou cerca de 550–530 a.C.) do Império Aqueménida tomou a Babilónia, utilizou mercenários Gutis e poderá tê-lo feito também noutras campanhas. Após os Aqueménidas terem conquistado a Mesopotâmia, contudo, os Gutis desaparecem da história. O seu nome parece ter sobrevivido em referências a 'bárbaros', mas, como referido, é improvável que os 'Gutis' posteriores fossem o mesmo povo considerado responsável pela queda de Acádia ou pela desolação da Suméria.
Van de Mieroop observa: "Embora se possam recolher muitas referências aos Gutis e a Gutium, elas não nos permitem escrever a história de um povo ou de um país" (Idem). Esta afirmação é, infelizmente, a declaração mais precisa relativa aos Gutis Embora a academia contemporânea tenha tentado associá-los etnicamente aos Curdos, tal não é possível, uma vez que ninguém pode afirmar com qualquer certeza quem eram os Gutis e, até que surjam mais informações sobre eles, esta situação permanecerá inalterada.
