Arquitetura da China Antiga

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Traditional Chinese Roof Tiles & Acroteria (by Splitbrain, CC BY-SA)
Traditional Chinese Roof Tiles & Acroteria Splitbrain (CC BY-SA)

Recintos amuralhados, pavilhões elevados, colunas e painéis de madeira, telhas vidradas amarelas, jardins paisagísticos e uma aplicação cuidadosa do planeamento urbano e do uso do espaço são características notáveis da arquitetura da China antiga, sendo que muitas delas ainda desempenham um papel importante na arquitetura moderna em todo o Leste Asiático. Os arquitetos foram influenciados por ideias provenientes da Índia e pelo Budismo que aí teve origem, mas os edifícios da China antiga mantiveram-se notavelmente constantes na sua aparência fundamental ao longo dos séculos, inspirando grande parte da arquitetura de outros estados vizinhos do Leste Asiático, especialmente no Japão e na Coreia antigos. Infelizmente, poucos edifícios chineses antigos chegaram aos dias de hoje, contudo é possível efetuar reconstruções com base em modelos de argila, descrições em textos contemporâneos e representações artísticas, tais como pinturas murais e recipientes de bronze gravados.

As Principais Características

A arquitetura chinesa manteve-se notavelmente constante ao longo da história do país. Com início na região da terra amarela, os mesmos tipos de materiais e estruturas foram empregados durante séculos. A madeira foi sempre preferida em detrimento da pedra, e o material de eleição para as coberturas eram as telhas de cerâmica vidrada. O edifício mais típico pelo menos no que toca a estruturas de maiores dimensões para a elite ou para uso público, como templos, salões e torres de vigia, era construído sobre uma plataforma elevada de terra compactada e revestida a tijolo ou pedra. Os exemplares mais antigos remontam à dinastia Shang (cerce de 1600 - 1046 a.C.) e, com o passar do tempo, tornam-se maiores, com a adição de mais níveis para criar uma impressionante estrutura de terraços sobrepostos. Exemplos de fundações de terra em sítios de Erlitou, que datam de entre cerca de 1900 e cerca de 1550 a.C., variam em tamanho de 300 metros quadrados a 9.600 metros quadrados e incluem frequentemente tubagens de esgoto subterrâneas em cerâmica.

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Os edifícios chineses utilizavam cores vivas: vermelhão para os pilares, amarelo para as telhas vidradas do telhado e verde para os elementos decorativos, tais como os suportes sob os beirais.

O tipo de edifício mais comum possuía postes de madeira regularmente espaçados, reforçados por vigas transversais horizontais. De forma a proteger melhor a estrutura contra danos provocados por sismos, utilizavam-se muito poucos pregos, e as junções entre as peças de madeira eram feitas por encaixe, recorrendo a respigas e entalhes, o que conferia uma maior flexibilidade. Estes postes de madeira sustentavam um telhado de colmo na arquitetura mais primitiva e, posteriormente, um telhado de duas águas com telhas, cujos cantos curvavam suavemente para fora e para cima. Por volta do século III, os telhados de quatro águas e de duas águas tornaram-se comuns. Não existem evidências da utilização da cúpula na arquitetura chinesa — desnecessária, de resto, em estruturas de madeira —, embora os túmulos de pedra e tijolo de vários períodos apresentem portais em arco e coberturas abobadadas ou em consola.

Gate Towers, Chang'an
Torres de Vigia dos Portões, Chang'an Unknown Artist (Public Domain)

Para distribuir o peso do telhado sobre os postes de madeira de suporte e permitir que a cobertura se estendesse para além da área do próprio edifício, foi criado o dougong, um suporte que une o topo do poste à viga horizontal do telhado. É provável que o design dos telhados projetados para além das paredes do edifício — uma característica tão típica da arquitetura asiática — tenha tido como objetivo inicial proteger as colunas de madeira e as suas bases da deterioração causada pela exposição à chuva. No desejo de criar mais espaço livre no interior do edifício, utilizaram-se menos colunas e tornou-se a estrutura do telhado mais complexa para distribuir o peso ainda mais, um feito alcançado através da combinação de suportes com vigas transversais e em consola sob os caibros do telhado. Entretanto, no exterior, os edifícios chineses utilizavam cores vivas, com tinta vermelha aplicada em pilares e balustradas, amarelo para as telhas vidradas e tinta verde para as partes decorativas, como os suportes sob os beirais.

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Os templos budistas seguiam a mesma fórmula básica descrita anteriormente. Embora nenhum sobreviva hoje, podem ver-se exemplos no complexo do templo Horyuji do século VII e no complexo Kofukuji, ambos perto de Nara, no Japão, que copiaram fielmente a arquitetura dos templos de Chang'an, a capital Tang. A maioria dos templos era construída com uma orientação precisa de bússola e os edifícios eram erguidos sobre uma plataforma elevada com, no mínimo, um metro de altura. Os edifícios subsidiários eram organizados simetricamente em redor do edifício principal do templo, que podia ter mais do que um andar, uma raridade na arquitetura chinesa.

A evidência mais tangível da influência da Índia na arquitetura chinesa é o edifício da pagoda. Derivada da estrutura da estupa, os arquitetos chineses tornaram a estrutura da pagoda muito mais grandiosa e acrescentaram muitos mais andares, frequentemente até doze. No entanto, as torres serviam apenas para exibição e os diferentes andares não se destinavam a uso real, daí a redução de tamanho em cada andar sucessivo e a ausência de qualquer acesso aos mesmos. As balustradas, frequentemente acrescentadas em cada piso, faziam apenas parte da ilusão de que cada andar era acessível.

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As pagodas eram feitas de madeira em torno de uma coluna central de madeira e só mais tarde se utilizaram a pedra e o tijolo, embora a madeira tenha regressado quando se percebeu que era possível atingir uma altura maior utilizando esse material. É provável que as pagodas fossem cobertas com reboco de cal para imitar as estruturas de pedra que copiavam da Índia. A pagoda também forneceu a ideia para torres monumentais que assinalavam túmulos. Estas são tipicamente estruturas quadradas, de vários andares, muitas vezes com janelas em cada nível, novamente para dar a ilusão de acessibilidade, não tendo qualquer função específica a não ser impressionar o observador à distância. Um bom exemplo é a pagoda funerária de Xuan Zang, do século VIII, na província de Henan.

Pagoda, Tianning Temple
Pagoda do Templo Tianning BabelStone (CC BY-SA)

Portanto, a arquitetura chinesa foi na sua essência, notavelmente constante. Um dos poucos desenvolvimentos consistiu na simplificação das vigas do telhado para tornar a estrutura mais leve e no aumento da altura dos pilares de suporte, de modo a conferir uma proporção mais elegante entre a altura e a largura. Os telhados também passaram a ser muito mais curvos nos cantos. Outra alteração foi a eventual adição de telhas decorativas e figuras, como dragões, nas extremidades e cumeeiras dos telhados. O peso extra destas adições foi suportado por um melhor design dos suportes e pelo agrupamento de quatro destes numa única coluna, empregando mais vigas em consola e utilizando capitéis mais largos.

O Planeamento Urbano

O planeamento urbano era uma preocupação particular dos chineses, sendo exemplificado de forma ideal nas suas duas capitais mais duradouras: Luoyang e Chang'an. Nestas cidades, o traçado baseava-se em avenidas largas e ruas secundárias mais pequenas que se cruzavam em ângulos retos, criando uma malha de retângulos precisos. Toda a área, cerca de 8.000 hectares no caso das cidades maiores, era cercada por uma muralha inclinada que podia atingir os 10 metros de altura. Portas com torres davam acesso à cidade; Luoyang, por exemplo, possuía 12.

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A localização de cada edifício era frequentemente decidida com base na geografia circundante. Muitos edifícios importantes e palácios reais alinhavam-se num eixo norte-sul, com a entrada principal virada a sul. Se um edifício fosse composto por diferentes partes unidas por pátios intermédios, estas eram todas alinhadas no mesmo eixo, umas atrás das outras. As estruturas menos importantes eram erguidas nos lados leste e oeste dos edifícios principais.

Chang'an Street Plan
Plano Urbanístico de Chang'an Jason22 (CC BY-SA)

A relação entre edifícios e entre as divisões dentro desses edifícios era igualmente importante para os chineses. A arquitetura podia ser utilizada para expressar hierarquias sociais e políticas, tal como explica o historiador M. E. Lewis:

Desde os tempos mais remotos, o poder político chinês articulava-se em termos da autoridade do interior sobre o exterior. Templos, palácios e casas na China antiga, e ao longo da sua história, eram murados no exterior, e os primeiros edifícios encontrados após a passagem pelo portão eram os mais públicos, onde os homens conduziam os seus negócios. Aqui, os "insulares", ou seja, membros de uma família ou o governante e a sua casa, recebiam pessoas do exterior. À medida que um visitante avançava para as traseiras, os edifícios tornavam-se mais "interiores" e privados, e o acesso a eles tornava-se mais restrito. Num complexo residencial, estes edifícios seriam os aposentos privados dos homens e mulheres da casa. Num palácio imperial, estes seriam os aposentos do imperador, que na dinastia Han se tornaram o local da corte interna.

(pág. 163)

Relativamente aos complexos palacianos imperiais de dinastias sucessivas, o movimento do exterior para o interior implicava o atravessar de vários pátios intermédios e, em cada novo perímetro, os funcionários recebiam e examinavam o visitante, tornando-se o direito de acesso cada vez mais limitado. Assim, não foi por acaso que o palácio do imperador acabaria por adquirir o nome de "Cidade Proibida", com a consequência de que "o poder e o prestígio eram marcados pela capacidade de se mover cada vez mais para dentro, para o 'santo dos santos' que era a presença imperial" (Idem, pág. 164). Os enormes e impressionantes palácios reais dominavam, assim, a capital e tornaram-se um símbolo da presença, mas também da invisibilidade, do imperador chinês.

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A Arquitetura de Uso Doméstico

As pequenas casas particulares dos antigos chineses eram geralmente construídas com lama seca, pedras brutas e madeira. As casas mais antigas são quadradas, retangulares ou ovais. Tinham telhados de colmo (por exemplo, de feixes de palha ou junco) sustentados por estacas de madeira, cujos buracos de fundação ainda são frequentemente visíveis. Restos de habitações escavados em locais do período Neolítico Yangshao (5000-3000 a.C.) indicam que as casas eram construídas com um nível subterrâneo. As casas em Banpo, em Shaanxi, encontravam-se cerca de 60 ou 70 cm abaixo da superfície do solo, mas exemplos noutros locais (por exemplo, em Anyang) chegavam a estar três metros abaixo do solo. Muitas vezes, as aldeias consistem num agrupamento de cinco habitações construídas em redor de um pátio partilhado. Algumas casas são bastante grandes, medindo 16 x 15 metros. Os interiores possuem uma lareira e superfícies elevadas para camas; por vezes, o chão era coberto com argila branca ou amarela, e muitas têm poços de armazenamento. As casas em áreas propensas a inundações, como a região do baixo rio Yangtze, eram construídas sobre estacas. Casas elevadas deste tipo encontram-se representadas em recipientes de bronze gravados.

Han Dynasty Farm Model
Maquete de Propriedade Agrícola da Dinastia Han Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Edifícios posteriores apresentam colunas que assentam em bases de pedra ou bronze, colocadas um pouco abaixo do nível do solo, frequentemente sobre um poço preenchido com cascalho. Possuíam telhados inclinados de telha cerâmica simples, com telhas que apresentavam perfurações ou saliências para ajudar ao seu encaixe. O seu design pode ser reconstruído a partir de modelos de argila de edifícios que eram comummente deixados em túmulos da dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.). Estes modelos representam frequentemente edifícios agrícolas modestos, construídos em redor de um pequeno pátio interior e, por vezes, com um recinto adjacente para animais.

As casas particulares chinesas nas cidades imperiais possuíam várias divisões interligadas, estando o edifício isolado da rua por um muro alto.

Existem evidências de alternativas à arquitetura comum de madeira e tijolo de lama seca. Os espaços de parede entre as colunas de madeira podem, em alguns casos, ter sido preenchidos com painéis de madeira lacada em vez de lama. Tais painéis eram esculpidos e incrustados; foram encontrados exemplares sobreviventes em Xiaotun. Alternativamente, os túmulos de Henan, durante os séculos II e I a.C., foram construídos com tijolos de argila ocos, tal como as muralhas de fortificação e as torres de vigia do período, sendo razoável supor que o mesmo material tenha sido empregado em alguma arquitetura doméstica, ainda que a madeira fosse preferida.

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Nas cidades imperiais, as casas particulares chinesas tinham várias divisões, todas comunicantes entre si, estando todo o edifício protegido da rua por um muro alto. O aquecimento era assegurado por tubagens sob o pavimento. Já as casas em zonas mais rurais e regiões mais quentes possuíam divisões que se abriam diretamente para a rua ou para os campos.

A Arquitetura de Grutas

Os santuários rupestres chineses consistem geralmente numa única câmara retangular escavada profundamente na face da rocha e em vários nichos esculpidos nas paredes. À fachada chegava-se através de uma escadaria esculpida na rocha ou feita de madeira, sendo que muitas grutas estão ligadas entre si por passadiços e varandins.

As Grutas de Longmen são talvez o grupo mais famoso e consistem em centenas de santuários e esculturas, maioritariamente budistas, criados a partir do século V. Localizadas perto da antiga capital Luoyang, as grutas foram esculpidas, utilizadas e ampliadas por várias dinastias chinesas, nomeadamente a Wei do Norte e a Tang. Esculpido nas falésias de calcário que bordejam o rio Luo, o local ostenta santuários em grutas, esculturas de figuras maiores do que o tamanho real e inúmeras inscrições de elogios e orações. As figuras esculpidas na face da rocha em Longmen podem atingir uma altura superior a 17 metros e representam Budas, boddhisatvas e figuras de demónios guardiões.

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Outro grupo impressionante de santuários e esculturas budistas pode ser visto nas Grutas de Yungang, perto da moderna cidade de Datong. Também criadas pela dinastia Wei do Norte, o primeiro grupo das 53 grutas no local foi esculpido nas falésias de arenito ainda antes das Grutas de Longmen, algures entre 460 e 494. O local conta com mais de 50.000 imagens budistas.

A Grande Muralha

A proeza arquitetónica mais famosa dos antigos chineses é, sem dúvida, a Grande Muralha da China, construída em grande parte durante o reinado do imperador Qin Shi Huangti, nas décadas finais do século III a.C. A muralha incorporou muitos troços de muralhas defensivas mais antigas e foi novamente ampliada durante a dinastia Han, utilizando pedra e tijolos. Estendendo-se por cerca de 5.000 quilómetros, desde a província de Gansu, a leste, até à península de Liaodong (embora não sem interrupções), foi projetada para ajudar a proteger a fronteira norte da China contra invasões de tribos nómadas das estepes. Torres de vigia quadradas foram construídas na muralha a intervalos regulares, sendo possível uma comunicação rápida entre elas através de condutores de quadrigas, que dispunham de espaço suficiente para circular ao longo do topo das muralhas.

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Cartwright, M. (2026, maio 23). Arquitetura da China Antiga. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16293/arquitetura-da-china-antiga/

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Cartwright, Mark. "Arquitetura da China Antiga." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 23, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16293/arquitetura-da-china-antiga/.

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Cartwright, Mark. "Arquitetura da China Antiga." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 23 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-16293/arquitetura-da-china-antiga/.

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