A Syracusia foi uma antiga embarcação concebida por Arquimedes no século III a.C. Era celebrada por ser uma das maiores embarcações alguma vez construídas na Antiguidade e por ostentar uma sumptuosa decoração em madeiras exóticas e mármore, além de torres, estátuas, um ginásio, uma biblioteca e até um templo.
Uma Nova Abordagem
A navegação antiga é habitualmente entendida como uma navegação marítima de cabotagem. O termo provém do verbo francês caboter, que significa "viajar ao longo da costa". Os povos da Antiguidade (egípcios, gregos e romanos) navegavam, regra geral, seguindo a linha da costa e não corriam o risco de se aventurar demasiado em alto-mar. Contudo, existem fontes que confirmam a existência de exceções, tendo a primeira ocorrido logo no século III a.C.
Na Sicília, sob o reinado de Hierão II de Siracusa (270 – 215 a.C.), foi construído um navio de dimensões impressionantes. Os materiais empregues na construção dessa embarcação colossal equivaliam aos necessários para 60 navios comuns. Mais ainda, essa embarcação destinava-se a abandonar as rotas costeiras protegidas e a atravessar o mar Mediterrâneo. O navio recebeu o nome de Syracusia e representou aquilo a que se poderia chamar "o primeiro paquete da Antiguidade".
Arquimedes
Arquimedes de Siracusa foi um antigo cientista e inventor que viveu entre 287 e 212 a.C. No seu livro Sobre os Corpos Flutuantes (tít. original: Ὀχουμένων; transliterado: Ochoumenōn), escrito por volta de 250 a.C., descreveu alguns dos princípios da hidrostática que tinha descoberto. Encontrava-se ocupado com esta investigação em particular quando, segundo consta, pronunciou o seu famoso "Eureka!" e começou a correr nu (uma vez que estava no banho). Essa história poderá ter sido um pouco exagerada por Vitrúvio, que foi a primeira fonte escrita desse episódio mais de um século mais tarde, mas é certo que Arquimedes realizou grandes invenções científicas que lhe valeram uma fama duradoura como um dos principais eruditos da Antiguidade.
Arquimedes convenceu-se a corresponder-se com o governante de Siracusa, o rei Hierão II. Numa carta, gabou-se das suas capacidades para mover qualquer objeto pesado no mundo que desejasse. "Dá-me um ponto onde apoiar-me e moverei a Terra!" (ΔΟΣ ΜΟΙ ΠΑ ΣΤΩ ΚΑΙ ΤΑΝ ΓΑΝ ΚΙΝΑΣΩ) declarou, atraindo imediatamente a atenção do rei de Siracusa. Impressionado com o saber do célebre erudito, Hierão II decidiu encarregar-lo de uma tarefa especial: conceber um navio, o maior que conseguisse inventar. Arquimedes esforçou-se ao máximo e superou todas as expectativas.
Syracusia
Quando Arquias de Corinto construiu o navio de acordo com os planos de Arquimedes, verificou-se que era tão grande que nenhum porto da Sicília era suficientemente vasto para o acolher. Hierão II teve de ponderar demoradamente o que fazer com ele. Por fim, decidiu enviar a embarcação como presente a Ptolomeu, o rei do Egito. O porto de Alexandria afigurou-se como o único capaz de albergar esta maravilhosa construção. Consequentemente, o navio, originalmente chamado Syracusia, foi rebatizado como Alexandria e preparado para o carregamento.
Ateneu, na sua obra Δειπνοσοφισταί (transliterado; Deipnosophistaí -Deipnosofistas), citou a única descrição da embarcação e da sua carga, escrita pelo historiador Mosquion de Fasélis. De acordo com o seu relato, a Syracusia/Alexandria transportava:
- 60 000 medidas de trigo
- 10 000 ânforas de peixe salgado da Sicília
- 20 000 talentos de peso em lã (500 000 a 600 000 kg)
- 20 000 talentos de outra carga (500 000 a 600 000 kg)
- 2000 medidas de água num reservatório para beber e tomar banho
Além de tudo isto, a bordo seguiam também a tripulação, os passageiros, os soldados e até cavalos.
As Dimensões
As características conhecidas sobre Syracusia, baseadas nos relatos de Ateneu, são as seguintes:
- Comprimento: 55 m (180 pés), embora algumas outras fontes apontem para 110 m (360 pés).
- Capacidade de carga: entre 1600 e 1800 toneladas, além de 1940 passageiros, guerreiros e tripulantes, bem como 20 cavalos com baias individuais para cada um.
- Madeira utilizada: equivalente ao material necessário para 60 trirremes padrão (com 40 m de comprimento e 6 m de largura).
- Período de construção: 1 ano, com o trabalho de 300 operários.
Conhecemos a tendência dos autores antigos para exagerar nos factos ao descreverem algo extraordinário. Ainda assim, Syracusia terá sido, sem dúvida, uma embarcação notável. Contam-se histórias sobre a sua descida à água, que parecia impossível pelos meios convencionais da época. O navio simplesmente não conseguia ser retirado da doca, independentemente do número de homens empregues na tarefa. Arquimedes voltou a surpreender Hierão II: conseguiu lançar o navio à água sozinho, recorrendo a um sistema de polias (o sistema de cadernais e polias foi uma das muitas inovações tecnológicas do erudito siracusano).
O Interior Maravilhoso
O tamanho de Syracusia não era o único aspeto impressionante que o caracterizava. Segundo Mosquion, as comodidades do navio teriam deixado pasmados até os passageiros modernos e os entusiastas de cruzeiros. Pois, figuravam entre os materiais descritos madeira de cipreste, madeira de citrinos e marfim. Além disso, todos os compartimentos tinham pavimentos compostos por trabalhos em mosaico de todo o tipo de pedras. Estes ilustravam a história completa da Ilíada (tít. original: Ἰλιάς; transliterado: Iliás) e representavam, de facto, a mais antiga representação em mosaico referida na literatura. Incontáveis desenhos e estátuas, taças e vasos adornavam o espaço interior da Syracusia; que era equipado com uma biblioteca e sala de leitura, uma sala de estar, um ginásio, uma casa de banho, uma sala de jantar e espaços de cozinha com despensas de madeira, fornos e moinhos. Perto da proa da embarcação, existia uma cisterna de água doce para beber e tomar banho (com uma capacidade calculada em cerca de 78 toneladas). Junto a esta cisterna havia um viveiro de peixes de água salgada embutido, repleto de peixe para uso do cozinheiro.
O convés superior não era sustentado por colunas comuns, mas sim por estátuas de Atlas (o Titã que sustentava o céu na mitologia grega) com cerca de 3 metros (seis côvados) de altura. Ao longo do convés mais alto, havia passeios com jardins de vários tipos de flores e plantas. Algumas zonas encontravam-se ensombradas por telhados de telha; outras tinham tendas cobertas com ramos de hera branca e videira. As raízes das plantas estavam enterradas em barris especiais cheios de terra e eram regadas regularmente. Os magníficos passeios conduziam a um templo dedicado a Afrodite, com um pavimento de pedra de ágata, mobilado da maneira mais requintada com estátuas e pinturas. No segundo convés, encontravam-se também dispostas 142 camarotes para passageiros de primeira classe.
A tripulação e cerca de 200 (segundo outros, 400) soldados ficavam alojados no convés inferior. Vinte baias de cavalos individuais também faziam parte dessa área. O navio estava igualmente bem protegido. Havia oito torres com quatro homens e dois archeiros em cada uma. Entre 200 e 400 soldados aguardavam ordens num convés especial situado na proa da embarcação, onde estava montada uma catapulta gigante. Foi construída uma paliçada a toda a volta do navio para evitar tentativas de abordagem. Quatro âncoras de madeira e oito de ferro garantiam a sua segurança no porto.
Infelizmente, a Syracusia navegou apenas uma vez — nessa viagem da Sicília para o norte de África. Não se sabe ao certo o que lhe aconteceu depois disso, pois nunca mais voltou a ser mencionado em quaisquer fontes históricas posteriores.

