Literatura Naru da Mesopotâmia

A Primeira Ficção Histórica do Mundo
Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Head of a Ruler (by Metropolitan Museum of Art, Copyright)
Cabeça de um Soberano Metropolitan Museum of Art (Copyright)

A literatura naru da Mesopotâmia foi um género literário que surgiu por volta do II milénio a.C. e que tinha como protagonista uma figura histórica famosa (geralmente um rei) numa história que, muitas vezes, abordava a relação da humanidade com os deuses. Estas histórias tornaram-se muito populares e, com o tempo, parecem ter substituído os acontecimentos históricos reais na mente das pessoas.

Dois exemplos de literatura naru — A Lenda de Sargão de Acádia, que veio a ser aceite como a autobiografia autêntica de Sargão de Acádia, e A Maldição de Ágade, que se refere ao neto de Sargão, Naram-Sin — foram tão amplamente aceites como história autêntica que até mesmo o grande estudioso L.W. King escreveu sobre as mesmas como tal na sua obra de 1910, A History of Sumer and Akkad (Uma História da Suméria e da Acádia). As histórias que compunham a literatura naru eram extremamente cativantes e, por se centrarem em figuras bem conhecidas do passado, capturavam instantaneamente a atenção e incentivavam a crença na sua autenticidade histórica.

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O exemplo mais famoso da literatura naru, embora se afaste significativamente da forma em muitos aspetos, é A Epopeia de Gilgamesh (escrita por volta de 2150-1400 a.C. a partir de contos pré-existentes). Nesta obra, atribui-se ao rei histórico de Uruque, Gilgamesh um papel transcendente e mítico como personagem central em busca do sentido da vida. Ao colocar uma figura bem conhecida do passado numa narrativa ficcional, os escribas da Mesopotâmia criaram a primeira ficção histórica do mundo.

A LITERATURA NARU NÃO RELATAVA O QUE REALMENTE ACONTECEU, MAS CRIOU UM CONTO SOBRE O QUE PODERIA ACONTECER SE ALGUÉM NÃO RECONHECESSE O SEU LUGAR NO UNIVERSO E NÃO SE COMPORTASSE DE ACORDO.

O Desenvolvimento do Género

Os nomes dos grandes reis acádicos eram bem conhecidos em toda a Mesopotâmia, desde o reinado de Sargão (2334-2279 a.C.) até à queda do Império Assírio em 612 a.C. As cópias dessas histórias encontradas em sítios como Nínive e Mari atestam a sua popularidade na antiga Mesopotâmia, e é altamente improvável que as pessoas da época que as ouviam se questionassem se se tratava de relatos historicamente verdadeiros; eram simplesmente boas histórias com uma mensagem importante.

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O estudioso O.R. Gurney define a literatura naru na sua obra The Cuthaean Legend of Naram-Sin (A Lenda Cuta de Naram-Sin):

Um naru era uma estela gravada, na qual um rei registava os acontecimentos do seu reinado; as características distintivas de tal inscrição são uma autoapresentação formal do autor pelo seu nome e títulos, uma narrativa na primeira pessoa e um epílogo que geralmente consiste em maldições contra qualquer pessoa que, no futuro, venha a vandalizar o monumento e bênçãos para aqueles que o honrarem. A chamada «literatura naru» consiste num pequeno conjunto de inscrições naru apócrifas, provavelmente compostas no início do segundo milénio a.C., mas em nome de reis famosos de uma época passada. Um exemplo bem conhecido é a «Lenda de Sargão de Akkad». Nestas obras, a forma do naru é mantida, mas o conteúdo é lendário ou mesmo fictício.

(pág. 93)

Os estudiosos discordam sobre se tais histórias devem ser corretamente designadas por «literatura naru» ou «autobiografia fictícia». Seja qual for o termo utilizado, as obras apresentam-se propositadamente como relatos na primeira pessoa de um acontecimento significativo, a partir do qual se espera que o público retire alguma informação importante, seja a «verdade» dos acontecimentos históricos, uma moral religiosa ou simplesmente alguma lição considerada útil para quem ouve as histórias. O termo «literatura naru» deriva de «naru», que é explicado pela estudiosa Gerdien Jonker:

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A palavra naru é utilizada para designar vários objetos, originalmente pedras de limite, pedras comemorativas e monumentos. Dois tipos de objetos com inscrições receberam a designação «naru» no início do segundo milénio: tabuletas que acompanhavam presentes e tabuletas utilizadas para inscrições em edifícios. No final do terceiro milénio, o «naru» desempenhava principalmente um papel em transações religiosas; no início do segundo milénio, viria a tornar-se, não só de facto, mas também simbolicamente, o portador da memória.

(pág. 90)

A colocação de inscrições em estelas e edifícios era, há muito, uma prática dos reis mesopotâmicos na altura em que a literatura «naru» se desenvolveu. A forma mais antiga de escrita na Mesopotâmia (cerca de 3600/3500 a.C.) consistia em pictogramas — símbolos que representavam objetos —, que serviam como auxiliares de memória. Ajudavam a recordar coisas como a quantidade de cereais enviada para cada destino ou o número de ovelhas necessárias para eventos como sacrifícios nos templos. Estes pictogramas eram gravados em argila húmida, que depois era seca, tornando-se registos oficiais do comércio.

A literatura naru assumiu a forma de histórias que versavam sobre a relação do rei com os deuses e com o seu povo.

Quando a escrita passou dos pictogramas para os fonogramas, a literatura tornou-se possível através do uso da escrita cuneiforme. Os reis podiam agora registar a glória dos seus reinados para a posteridade e, claro, assim o fizeram. As inscrições de um rei centravam-se sempre nos deuses e nos próprios feitos grandiosos do monarca, dirigindo-se quer a uma divindade, quer a um público de um futuro distante. A literatura naru assumiu a forma das inscrições naru anteriores e transformou-as em histórias que versavam sobre a relação do rei com os deuses e o seu povo, dirigidas a um público contemporâneo. A este respeito, Gerdien Jonker escreve:

Há algumas diferenças a referir entre os monumentos naru e o género literário deles derivado: a. A intenção dos objetos era principalmente a comunicação entre o deus e o homem; no género literário, o narrador dirige-se exclusivamente a outras pessoas. b. No primeiro caso, o texto era escrito num objeto (estátua, estela, edifício, placa de edifício, etc.); no segundo, o escritor apenas finge que o texto está escrito num objeto. (95)

Stele of the Akkadian king Naram-Sin
Estela do Rei Acádio Naram-Sin Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

A Literatura Naru e a Memória

O melhor exemplo disso é o conto do segundo milénio a.C., A Lenda de Cuta, que apresenta Naram-Sin (o que constitui literatura naru) em contraste com uma inscrição naru real. A história de Naram-Sin (reinou 2254-2218 a.C.) é contada no estilo de uma inscrição, mas se afasta significativamente dela. Seguem-se as primeiras linhas de uma inscrição naru do rei Lugalzagesi (falecido por volta de 2334 a.C.), que foi o antecessor de Sargão de Acádia:

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Lugalzagesi, rei de Uruque,
rei da nação,
sacerdote-encantador de An,
sacerdote lumah de Nisaba,
filho de U-U, o governante de Umma
e sacerdote lumah de Nisaba,
considerado verdadeiramente
por An como o rei de todas as terras.

Por outro lado, o início de A Lenda de Cuta começa assim:

Abre a caixa das tabuinhas e lê a estela

que eu, Naram-Sin, descendente de Sargão,

, gravei e deixei para a posteridade.

O rei de Uruque desapareceu.

Enmerkar desapareceu.

Enmerkar, rei de Uruque, governante da terra

[Um certo período de tempo] passou.

[Um certo período de tempo] passou.

As inscrições naru relatam a história do reinado e dos triunfos do rei; a literatura naru conta frequentemente a história das lutas e dos fracassos do rei, mesmo que os acontecimentos nunca tenham ocorrido. N'A Lenda de Cuta, por exemplo, Naram-Sin depara-se com uma horda invasora de criaturas aparentemente sobre-humanas. Quando pede conselho aos deuses para lhes fazer frente, é-lhe dito que não deve fazer nada. No entanto, ignora a vontade dos deuses e decide confiar no seu próprio discernimento.

Ele envia uma enorme força militar que é massacrada pelos invasores e repete a ação mais duas vezes antes de perceber que está a agir de forma errada aos olhos dos deuses, uma vez que, claramente, estes não estão a favorecer a sua causa. Ele humilha-se, procura a orientação deles e descobre que os deuses tinham planos para destruir os invasores por si próprios e não precisavam, nem queriam, a interferência de Naram-Sin. Ele chega à conclusão de que se deve confiar na vontade dos deuses em vez de seguir o conselho do próprio coração.

O poema termina com Naram-Sin a dirigir-se diretamente aos futuros governantes, dizendo-lhes para confiarem nos deuses, darem ouvidos à mensagem da sua história e não cometerem os mesmos erros que ele cometeu. Trata-se de um tipo de história bastante diferente daquelas de reis como Lugalzagesi (e das próprias inscrições de Naram-Sin), que narravam apenas as grandes realizações dos seus reinados, as suas campanhas militares e os templos e cidades construídos por seu decreto. A literatura Naru não se interessava em relatar o que realmente aconteceu, mas sim em criar um conto sobre o que poderia ter acontecido — e o que poderia voltar a acontecer no presente — se alguém não reconhecesse o seu devido lugar no universo e não se comportasse em conformidade. Gerdien Jonker escreve:

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O que importava na literatura naru era a preservação da memória, condensada no nome imortal do «remetente». Tratava-se também de preservar a própria memória, de fazer com que a própria pessoa perdurasse na forma do seu próprio nome, que estava intimamente ligado à memória dos seus próprios feitos. Os nomes tinham de ressoar porque as pessoas desejavam que fossem invocados após a morte.

(pág. 96)

Este mesmo tema percorre toda a obra A Epopeia de Gilgamesh, na qual a personagem central fica tão traumatizada pela perda do seu amigo, Enkidu, que tem de encontrar o significado último para a condição humana, que vê caracterizada por uma permanência demasiado breve na Terra, pela certeza da morte e pelo mistério do que vem a seguir. A Epopeia de Gilgamesh afasta-se da forma da Literatura Naru, na medida em que é narrada na terceira pessoa e as personagens são muito mais bem desenvolvidas do que noutras obras Naru. Ainda assim, encaixa no padrão básico, na medida em que apresenta um rei historicamente comprovado, cuja vida é reimaginada para transmitir uma mensagem importante ao público.

Conclusão

Uma vez que a literatura naru é, em grande parte, anónima, os escritores devem ter apostado a sua imortalidade na popularidade dos seus contos, sem necessidade de associar os seus nomes às suas obras (embora seja perfeitamente possível que o tenham feito e que as tabuinhas originais se tenham simplesmente perdido). O autor da versão posterior de Gilgamesh é conhecido pelo nome (Shin-Leqi-Unninni, que escreveu por volta de 1300-1000 a.C. na Babilónia ou nas suas imediações), mas esta é a exceção, não a regra.

Todos os autores parecem, no entanto, ter tido o mesmo objetivo: preservar o passado e transmitir valores culturais essenciais através da criação de contos divertidos e memoráveis. Quando Jonker escreve acima sobre «a preservação da memória», deve-se reconhecer que não era necessariamente a memória do que tinha acontecido no passado que era importante para os autores da literatura naru, mas sim o facto de ter havido um passado que valia a pena recordar.

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Jonker afirma: «Deve ficar claro que os escritores antigos não pretendiam enganar com as suas criações literárias» (pág. 95). Em vez disso, procuravam preservar o seu passado de uma forma que consideravam poder ajudar as pessoas no presente. Uma inscrição sobre os grandes feitos de um rei que conquistou muitas cidades e massacrou muitas pessoas servia para esse rei em particular, mas não tinha grande utilidade para o povo que vivia sob o seu domínio. A literatura naru, por outro lado, proporcionava ao povo histórias divertidas com as quais podiam aprender, recordar e das quais podiam tirar partido na sua vida quotidiana.

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Perguntas & Respostas

O que é a literatura naru da Mesopotâmia?

A literatura naru da Mesopotâmia é um género literário da antiga Mesopotâmia que tem como protagonista uma figura histórica conhecida, inserida num cenário ficcional. Trata-se da primeira ficção histórica do mundo.

Qual é o significado de «naru» na literatura mesopotâmica?

Um «naru» era uma estela gravada que narrava os grandes feitos de um rei; a literatura «naru» pretendia ser o mesmo tipo de inscrição, só que era ficcional.

Quando é que a literatura naru da Mesopotâmia surge pela primeira vez?

A literatura naru da Mesopotâmia surge pela primeira vez por volta do II milénio a.C.

Qual era o objetivo da literatura naru da Mesopotâmia?

O objetivo da literatura naru da Mesopotâmia era entreter e, ao mesmo tempo, transmitir um importante valor religioso ou cultural. Servia também para preservar o nome de um grande rei do passado.

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Mark, J. J. (2026, novembro 04). Literatura Naru da Mesopotâmia: A Primeira Ficção Histórica do Mundo. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13171/literatura-naru-da-mesopotamia/

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Mark, Joshua J.. "Literatura Naru da Mesopotâmia: A Primeira Ficção Histórica do Mundo." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 04, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-13171/literatura-naru-da-mesopotamia/.

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