Óstia (ou Ostia Antica) fica a 15 km da cidade de Roma, tendo servido como o principal porto e ancoradouro durante a Antiguidade. O nome deriva de "os" ou "ostium", que significa "boca", e refere-se à localização da cidade na foz do rio Tibre. Embora, originalmente estivesse situado na foz do rio, devido ao assoreamento, encontra-se, neste momento, a cerca de 3 km a leste da foz atual, ainda localizado na margem sul do Tibre.
História Antiga
Óstia deve a sua existência ao pequeno povoado estabelecido para a exploração das salinas a leste, talvez no século XIV a.C.. A tradição romana diz que foi fundada como uma colónia (a primeira de Roma) pelo seu quarto rei, Anco Márcio, no final do século VII a.C., uma data apoiada por Lívio, que sugere a data da fundação do local por volta de 620 a.C.
Desde o início, tornou-se evidente a importância estratégica de Óstia para a defesa da foz do Tibre. A cidade foi fortificada (a data é controversa, mas o mais provável é em meados do século IV a.C.) com um acampamento militar ou castrum, consolidando uma posição vantajosa nos contínuos conflitos de Roma com piratas e vizinhos, e desempenhando um papel crucial no reabastecimento durante as guerras contra Cartago. Este castrum exerceu uma grande influência na disposição subsequente da cidade, e os vestígios da sua muralha podem ser vistos a leste, entre outros, a delimitar a Piazza dei Lari.
A via Decumanus Maximus divide a cidade norte e sul, com as zonas Regio I e Regio II a norte (junto ao Tibre) e as Regio IV e Regio V a sul. No limite ocidental do castrum, a Decumanus Maximus encontrava a antiga via della Foce ('estrada da foz', igualmente designada por via Laurentina), que a cruza num ângulo oblíquo, correndo de noroeste para sudeste. Por isso, a Decumanus não seguia diretamente para oeste, mas para sudoeste, criando uma secção em forma de cunha, que se estende para oeste a partir da intersecção da Decumanus Maximus com a via Laurentina: a Regio III. Além das cinco regiões, existem duas construções isoladas: um 'Palácio Imperial', a cerca de 200 m a oeste, que é conceptualmente parte da Regio I, e o complexo 'Porta Marina' ou Portão do Mar, que pertence à Regio III.
Período Republicano
As informações sobre a cidade de Óstia durante o período republicano consistem em fragmentos literários dispersos. Após a construção do castrum, no século III a.C., Óstia era principalmente uma base naval. Em 278 a.C., recebeu uma frota enviada por Cartago para ajudar os romanos contra Pirro, e em 217 a.C., foi o porto de partida para os suprimentos destinados ao exército que combatia Aníbal na Espanha. Em 204 a.C., a embarcação que transportava a imagem de Cibele chegou a Óstia, onde foi recebida por uma grande multidão de nobres e outras personalidades. Durante a guerra civil do século I a.C., a cidade foi alvo e saqueada por Gaio Mário. Em 67 d.C., teve um papel importante no esforço para controlar os piratas cilícios, que, de facto, atacaram o porto e destruíram a maior parte da frota romana destinada à sua repressão.
Período Imperial
A importância de Óstia como cidade portuária aumentou drasticamente depois que Cláudio empreendeu a construção de dois grandes molhes em Portus, a cerca de 3 km a noroeste de Óstia. Esta grande obra (iniciada em 42 d.C.) levou cerca de 20 anos a ser concluída, com o novo porto a ser finalmente inaugurado sob o governo de Nero em 64 (embora pareça ter sido usado já em 62). O crescimento de Óstia como um grande centro urbano inicia-se nesta época; no seu auge, a população era de 50.000 a 70.000 pessoas. Até então, a ancoragem na foz do Tibre era incerta, e devido ao vento a costa era perigosa. Antes da construção do porto as embarcações de grande porte não conseguiam navegar pela foz do Tibre pelo que era necessário usar barcas para trazer a carga para terra. O novo porto de Cláudio resolveu todos estes problemas que haviam limitado o crescimento da cidade. Óstia tornou-se numa cidade portuária, residência dos estivadores e ademais funcionários portuários, e dos negociantes que organizavam o transbordo das cargas para o interior. Um desenvolvimento que coincidiu com o período em que os carregamentos de cereal do Egipto (a Annonaria) atingiam a sua capacidade máxima, e estas enormes remessas anuais deram um novo impulso ao crescimento da cidade.
Entre os anos 106 e 113, sob o governo de Trajano, concluiu-se uma ambiciosa expansão do complexo de Portus, a obra consistiu num grande porto hexagonal, localizado a leste e ligado ao porto exterior de Cláudio. A partir de então, a frota de cereal do Egito passou a chegar a Portus em vez de Puteoli, como acontecia até então.
Edifícios e Estruturas Notáveis
O Capitolium (construído por Adriano) é um templo localizado no extremo norte do Fórum. É uma estrutura de tijolos revestidos de mármore, assente num pódio alto, e é acedido por sul através de uma ampla escadaria de mármore. O conjunto mede 35 x 17 metros e teria cerca de 20 metros de altura. Delimita a sul do Cardo, que bloqueia, tendo esta extremidade do Cardo sido transformada no Fórum. Foi dedicado à tríade Capitolina de Júpiter, Juno e Minerva.
O teatro de Óstia (escavado entre 1880-1881 e extensivamente restaurado) está localizado no lado norte da Decumanus Maximus e a leste do Fórum. Inicialmente, foi construído por Marco Agripa entre 18 e 12 a.C. Era menor na sua primeira versão: a cavea (cávea) tinha 63 metros de diâmetro e 21 filas de assentos, divididas em duas secções. Foi reconstruído e ampliado (principalmente em tijolo) sob o imperador Cómodo (concluído sob Septímio Severo). O diâmetro da cavea foi alargando para 88 metros, aumentado a capacidade de assentos de 3.000 para cerca de 6.000 pessoas. Para suportar este alargamento, o anel exterior estendeu-se parcialmente sobre a Decumanus Maximus; para não impedir o fluxo de passagem, o anel exterior foi projetado com uma série de arcos abertos. No final do século IV d.C., o teatro foi restaurado, tendo sido feitas alterações que permitiam inundar a orquestra (palco) para espetáculos aquáticos.
A Piazzale delle Corporazioni — na verdade um porticus post scaenam (entrada) para o teatro — está no mesmo eixo que o teatro: projetada pela primeira vez na época de Augusto; o tamanho original era de 107 x 78 metros e murada. Na época de Adriano, foi elevada cerca de 40 cm e duplicada em tamanho. Durante o século II (talvez sob Septímio Severo), foram adicionadas paredes de separação que resultaram na criação de cerca de 60 espaços menores, todos construídos depois dos famosos mosaicos. Além do interesse arquitetónico, a importância da Piazzale reside precisamente nestes mosaicos tão admirados; neles, temos um testemunho pictórico da vida económica da cidade: os transportadores e comerciantes de cereais, animais selvagens, marfim; cordoarias e vendedores de cordas e outros artigos náuticos.
Os Horrea
Os hórreos do latim horrea (horreum no singular), embora arquitetonicamente não passem de grandes celeiros, eram essenciais para suprir a necessidade alimentícia de Roma e merecem a atenção de qualquer pessoa interessada na vida da cidade. Existiam, talvez, cerca de 20 celeiros importantes na cidade. A maioria era dedicada principalmente ao armazenamento do cereal, contudo, através de Óstia chegavam muitos tipos de bens valiosos e eram certamente guardados em armazéns como o Epagathiana.
O Grandi Horrea começou a ser construído sob o governo de Cláudio e a sua função corresponde claramente aos carregamentos de cereais que chegavam através do novo porto que tinha mandado edificar, e quase de imediato, ampliado por Nero. Consistia num grande retângulo de 78 por 91 metros, com compartimentos de armazenamento ao longo das paredes. No centro, uma outra fila dupla de compartimentos aumentava o espaço de armazenamento. Já na época de Nero, construíu-se um segundo andar no lado leste. A capacidade de armazenamento apenas do rés-do-chão foi estimada entre 5.660 e 6.960 toneladas métricas. Estima-se que eram necessárias anualmente 150.000 toneladas (20 milhões de modii) de cereal para alimentar o povo romano. Se estimarmos a capacidade de armazenamento deste horreum (apenas o rés-do-chão) em aproximadamente 5.500 toneladas métricas, chegamos a um número que representa cerca de 4% do requisito mínimo anual para Roma (cerca de 150.000 toneladas métricas). Portanto, só este celeiro era um componente importante no sistema de abastecimento de Roma e devia ser reabastecido várias vezes ao longo do ano, à medida que o seu conteúdo era transferido para embarcações mais leves que subiam o Tibre até Roma.
O Horrea Epagathiana era um grande armazém pertencente a dois ex-escravos, Epagathus e Epaphroditus, construído em meados do século II e é possível, devido às muitas fechaduras encontradas, que este armazém se destinasse ao armazenamento de bens de valor. O Piccolo Mercato (Mercado Pequeno), apesar do nome, era um celerio muito grande, provavelmente para guardar cereal. Por fim, o Horrea Antoniniani era um grande celeiro em frente ao que era então a margem do Tibre; quase certamente imperial e o seu uso principal era para armazenar cereal, tendo sido apenas parcialmente escavado.
Os Templos
O Templo de Roma e Augusto foi construído no início do reinado de Tibério, pouco depois do ano 14. Localizado no extremo sul do Fórum, em que apenas permanece a subestrutura. As suas dimensões são de 24,4 x 13,7 metros (80 x 45 pés). Hoje, nada é visível exceto uma série de pequenos corredores e câmaras, a maioria em opus reticulatum (tijolos em forma de losango).
O Templo de Héracles fica na Área dos Templos Republicanos e data de cerca de 225 a 150 a.C. Héracles (ou Hércules) era, talvez, venerado aqui como o deus da Guerra pelos comandantes militares destacados em Óstia. A estátua encontrada na plataforma é de C. Cartilius Poplicola, um membro da proeminente família de Óstia, e cujo pai pode, na verdade, ter sido responsável pela construção do templo.
O Tempio Rotondo é um grande templo circular com um pátio retangular em frente. Não resta muito do templo nem do pátio, mas tanto o seu tamanho quanto a sua localização central fazem dele um dos templos mais importantes da cidade. A sua forma circular sugere paralelos com o Panteão de Roma; assim como aquele templo, pode ter sido dedicado a todos os deuses, mas a descoberta de grandes bustos de imperadores em outras partes de Óstia sugere que foi dedicado aos imperadores divinizados.
Termas
Na cidade existem importantes termas e entre as mais conhecidas estão as Termas de Neptuno. Estas grandes termas estão localizadas na zona leste do Teatro e cobrem uma área de cerca de 67 m². Os vestígios visíveis atualmente datam do século II e foram financiados por Adriano e Antonino Pio. A construção é a de umas termas romanas clássicas e são notáveis pelos seus extensos mosaicos a preto e branco que representam cenas do Nilo e do oceano, com tritões, hipocampos e golfinhos. Também é de interesse o pequeno mosaico com símbolos cristãos, feito após o ano de 250.
Mithraea
Existem 17 mithraea (mitreus) identificados no local (incluindo um no Palácio Imperial) — locais para o culto da religião de mistério do mitraísmo. A maioria está uniformemente espalhada pela cidade. Entre os mithraea mais notáveis em Óstia está o Mitreo delle Terme del Mitra, instalado num corredor por baixo das chamadas Termas de Mitras, cujas paredes estão revestidas por longos pódios, e a estátua da tauroctonia (agora no Museo Ostiense (Museu de Óstia), mas substituída in situ por uma cópia), que representa Mitras a matar um touro, é dramaticamente iluminada por uma claraboia.
