A Mumificação no Egito Antigo

Joshua J. Mark
por , traduzido por Pedro Lucas
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A prática de mumificar os mortos começou no Egito Antigo por volta de 3500 a.C. A palavra inglesa mummy (múmia) vem do latim mumia, que é derivado do persa mum, que significava "cera", e refere-se a um cadáver embalsamado que tinha aparência cerosa. A ideia de mumificar os mortos pode ter sido sugerida pela forma como os cadáveres eram bem preservados nas areias áridas do país.

Os túmulos antigos do Período Badariense (cerca de 5000 a.C.) continham oferendas de alguns alimentos e alguns objetos funerários, sugerindo uma crença na vida após a morte, mas os cadáveres não eram mumificados. Essas sepulturas eram feitas em formato retangular ou oval raso, nos quais um cadáver era colocado sobre o seu lado esquerdo, frequentemente em posição fetal. Elas eram consideradas o local de descanso final para o falecido e eram frequentemente, como na Mesopotâmia, localizadas dentro ou perto da casa de uma família.

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Male Egyptian Mummy with Amulets
Múmia Egípcia Masculina com Amuletos Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

As sepulturas evoluíram ao longo das eras seguintes até que, por volta do Período Dinástico Antigo (Época Tinita) no Egito (cerca de 3150 - cerca de 2613 a.C.), a tumba de mastaba substituiu a sepultura simples, e os cemitérios tornaram-se comuns. As mastabas eram vistas não como um local de descanso final, mas como uma casa eterna para o corpo. A tumba passou a ser considerada um local de transformação no qual a alma deixaria o corpo para seguir para a vida após a morte. Acreditava-se, no entanto, que o corpo deveria permanecer intacto para que a alma continuasse sua jornada.

Uma vez fora do corpo, a alma precisaria se orientar pelo que era familiar. Por essa razão, as tumbas eram pintadas com histórias e feitiços do Livro dos Mortos, para lembrar a alma do que estava acontecendo e do que esperar, bem como com inscrições conhecidas como Textos das Pirâmides e Textos dos Sarcófagos, que relatavam eventos da vida do falecido. A morte não era o fim da vida para os egípcios, mas simplesmente uma transição de um estado para outro. Para esse fim, o corpo tinha que ser cuidadosamente preparado para ser reconhecível pela alma ao despertar na tumba e também posteriormente.

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O Mito de Osíris e a Mumificação

Por volta do tempo do Reino Antigo (Império Antigo) (cerca de 2613-2181 a.C.), a mumificação havia se tornado uma prática padrão no tratamento dos mortos, e rituais funerários surgiram em torno da morte, do processo de morrer e da mumificação. Esses rituais e seus símbolos foram amplamente derivados do culto de Osíris, que já havia se tornado um deus popular. Osíris e sua irmã-esposa Ísis foram os primeiros governantes míticos do Egito, aos quais a terra foi concedida logo após a criação do mundo. Eles governaram um reino com paz e tranquilidade, ensinando ao povo as artes da agricultura, da civilização, e concedendo direitos iguais a homens e mulheres para viverem juntos em equilíbrio e harmonia.

Stela of Neskhons Queen of Pinezem II
Estela de Neskhons, Rainha de Pinezem II Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

O irmão de Osíris, Set, no entanto, ficou com ciúmes do poder e sucesso de seu irmão e, por isso, o assassinou; primeiro selando-o em um caixão e enviando-o pelo Rio Nilo, e depois desmembrando seu corpo em pedaços e espalhando-os pelo Egito. Ísis recuperou as partes de Osíris, remontou-o e, então, com a ajuda de sua irmã Néftis, trouxe ele de volta à vida. No entanto, Osíris estava incompleto - faltava seu pênis, que havia sido comido por um peixe - e, portanto, não podia mais governar na terra. Ele desceu ao submundo, onde se tornou o Senhor dos Mortos. Antes de sua partida, porém, Ísis havia se relacionado com ele na forma de um milhafre e lhe dado um filho, Hórus, que cresceria para vingar seu pai, reclamar o reino e estabelecer novamente a ordem e o equilíbrio na terra.

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Este mito tornou-se tão incrivelmente popular que infundiu a cultura e assimilou deuses e mitos anteriores para criar uma crença central em uma vida após a morte e a possibilidade de ressurreição dos mortos. Osíris era frequentemente retratado como um governante mumificado e regularmente representado com pele verde ou preta, simbolizando tanto a morte quanto a ressurreição. A egiptóloga Margaret Bunson escreve:

O culto de Osíris começou a exercer influência sobre os rituais funerários e os ideais de contemplar a morte como um "portal para a eternidade". Esta divindade, tendo assumido os poderes cultuais e rituais de outros deuses da necrópole, ou cemitérios, oferecia aos seres humanos salvação, ressurreição e felicidade eterna. (172)

A vida eterna só era possível, no entanto, se o corpo dessa pessoa permanecesse intacto. O nome de uma pessoa, sua identidade, representava a sua alma imortal, e sua identidade estava ligada à sua forma física.

Head of a Mummy from Ptolemaic-Roman Egypt
Cabeça de Múmia do Egito Ptolemaico-Romano Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

As Partes da Alma

Acreditava-se que a alma consistia de nove partes separadas:

  1. O Khat era o corpo físico.
  2. O Ka a forma dupla (eu-astral).
  3. O Ba era um aspecto de pássaro com cabeça humana que podia deslocar-se rapidamente entre a terra e os céus (especificamente entre a vida após a morte e o corpo de uma pessoa).
  4. O Shuyet era o eu-sombra.
  5. O Akh era o eu imortal e transformado após a morte.
  6. O Sahu era um aspecto do Akh.
  7. O Sechem era outro aspecto do Akh.
  8. O Ab era o coração, a fonte do bem e do mal, detentor do caráter de uma pessoa.
  9. O Ren era o nome secreto de uma pessoa.

O Khat precisava existir para que o Ka e o Ba se reconhecessem e pudessem funcionar adequadamente. Uma vez liberados do corpo, esses diferentes aspectos ficariam confusos e a princípio precisariam se centralizar por meio de alguma forma familiar.

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Os Embalsamadores e Seus Serviços

Quando uma pessoa morria, ela era levada aos embalsamadores, que ofereciam três tipos de serviço. De acordo com Heródoto: "Diz-se que o melhor e mais caro tipo representa [Osíris], o próximo é um tanto inferior e mais barato, enquanto o terceiro é o mais barato de todos" (Nardo, 110). Pedia-se à família enlutada que escolhesse qual serviço preferia, e sua resposta era extremamente importante não apenas para o falecido, mas para eles mesmos.

As práticas de sepultamento e rituais funerários no Egito Antigo eram levados tão a sério devido à crença de que a morte não era o fim da vida.

Obviamente, o melhor serviço seria o mais caro, mas se a família pudesse pagar e ainda assim optasse por não adquiri-lo, arriscava ser assombrada. O morto saberia que havia recebido um serviço mais barato do que merecia e não seria capaz de seguir em paz para a vida após a morte; em vez disso, retornaria para tornar a vida de seus parentes miserável até que esse erro fosse corrigido. As práticas de sepultamento e rituais funerários no Egito Antigo eram levados tão a sério devido à crença de que a morte não era o fim da vida. O indivíduo que havia morrido ainda podia ver e ouvir e, se fosse prejudicado, receberia permissão dos deuses para se vingar.

O Processo de Mumificação

Parece, no entanto, que as pessoas ainda escolhiam o tipo de serviço que podiam pagar com mais facilidade. Uma vez escolhido, isso determinava o tipo de caixão, os ritos funerários disponíveis e o tratamento dado ao corpo. A egiptóloga Salima Ikram, professora de Egiptologia na Universidade Americana do Cairo, estudou profundamente a mumificação e descreve o seguinte:

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O ingrediente-chave da mumificação era o natrão, ou netjry, o "sal divino". Trata-se de uma mistura natural de bicarbonato de sódio, carbonato de sódio, sulfato de sódio e cloreto de sódio, encontrada no Egito, principalmente no Uádi Natrum, a cerca de sessenta e quatro quilômetros a noroeste do Cairo. Ele tem propriedades dessecantes e degordurantes e era o agente de secagem preferido, embora o sal comum também fosse usado em enterros mais econômicos. (55)

No tipo de serviço funerário mais caro, o corpo era estendido sobre uma mesa e lavado. Os embalsamadores então começavam o trabalho pela cabeça:

O cérebro era extraído pelas narinas com um gancho de ferro, e a parte que o gancho não alcançava era dissolvida com drogas. Em seguida, o flanco do corpo era aberto com uma faca de sílex e todo o conteúdo do abdômen era removido. A cavidade era então minuciosamente limpa e lavada, primeiro com vinho de palma e depois com uma infusão de especiarias moídas. Depois disso, era preenchida com mirra pura, cássia e todas as outras substâncias aromáticas, exceto incenso, e costurada novamente. O corpo então era colocado no natrão, completamente coberto, por setenta dias – nunca mais do que isso. Quando esse período terminava, o corpo era então lavado e envolto da cabeça aos pés em tiras de linho, untadas na parte inferior com goma, que os egípcios comumente usavam no lugar da cola. Nesse estado, o corpo era devolvido à família, que providenciava um estojo de madeira, com a forma de uma figura humana, no qual ele era colocado. (Ikram, p. 54, citando Heródoto)

No segundo tipo mais caro de enterro, menos cuidado era dedicado ao corpo:

Nenhuma incisão era feita e os intestinos não eram removidos; em vez disso, óleo de cedro era injetado com uma seringa no corpo através do ânus, que depois era tampado para evitar o vazamento do líquido. O corpo era então tratado com natrão pelo número prescrito de dias, e no último dia o óleo era drenado. O efeito é tão poderoso que, ao sair, o óleo arrasta consigo as vísceras em estado líquido e, como a carne foi dissolvida pelo natrão, nada resta do corpo além da pele e dos ossos. Após esse tratamento, o corpo era devolvido à família sem qualquer outro procedimento. (Ikram, p. 54, citando Heródoto)

O terceiro e mais barato método de embalsamamento consistia em "simplesmente lavar os intestinos e manter o corpo durante setenta dias no natrão" (Ikram, p. 54, citando Heródoto). Os órgãos internos eram removidos para preservar o cadáver, mas, como se acreditava que o falecido ainda precisaria deles, as vísceras eram colocadas em vasos canopos para serem selados no túmulo. Apenas o coração era deixado no interior do corpo, pois se acreditava que ele continha o aspecto Ib (Ab) da alma.

As Técnicas dos Embalsamadores

Os embalsamadores removiam os órgãos do abdômen por meio de uma longa incisão no lado esquerdo do corpo. Para a remoção do cérebro, como observa Ikram, eles inseriam um instrumento cirúrgico em gancho através do nariz do falecido e extraíam o cérebro em fragmentos. Há, no entanto, evidências de que também quebravam o nariz para ampliar o espaço e facilitar a extração. Quebrar o nariz não era o método preferido, pois poderia desfigurar o rosto do falecido, e o objetivo primário da mumificação era manter o corpo intacto e preservado da forma mais próxima possível da sua aparência em vida. Esse processo era seguido tanto para animais quanto para seres humanos. Os egípcios mumificavam regularmente seus animais de estimação, gatos, cães, gazelas, peixes, pássaros, babuínos, e também o touro Ápis, considerado uma encarnação do divino.

Cat Mummy
Múmia de Gato Mary Harrsch (Photographed at the Rosicrucian Egyptian Museum, Calif.) (CC BY-NC-SA)

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A remoção dos órgãos e do cérebro tinha como objetivo principal a desidratação do corpo. O único órgão que, na maioria dos períodos, era deixado em seu lugar, era o coração, por ser considerado o centro da identidade e do caráter da pessoa. O sangue era drenado e os órgãos removidos para evitar a decomposição; o corpo era então lavado novamente e aplicava-se o vestuário (o envoltório de linho).

Embora os processos descritos acima fossem o padrão observado durante a maior parte da história egípcia, houve variações em algumas épocas. Bunson observa:

Cada período do Egito Antigo testemunhou alterações nos diferentes órgãos preservados. O coração, por exemplo, era preservado em algumas eras, e durante as dinastias raméssidas os genitais eram removidos cirurgicamente e colocados em um receptáculo especial com a forma do deus Osíris. Isso era feito, talvez, em comemoração à perda dos próprios genitais pelo deus ou como parte de um cerimonial místico. Ao longo da história da nação, porém, os vasos canopos permaneceram sob a proteção dos Mesu Heru, os quatro filhos de Hórus. Esses vasos e seu conteúdo – órgãos embebidos em resina – eram armazenados próximos ao sarcófago, em recipientes especiais. (175)

Ritos Fúnebres e Sepultamento

Uma vez removidos os órgãos e lavado o corpo, o cadáver era envolto em linho – ou pelos embalsamadores, no caso do serviço mais caro (que também incluíam amuletos e talismãs mágicos de proteção entre as faixas), ou pela família – e colocado em um sarcófago ou em um caixão simples. O envoltório era conhecido como a "linhagem de ontem", porque inicialmente os pobres entregavam suas roupas velhas aos embalsamadores para envolver o cadáver. Essa prática acabou por dar o mesmo nome a qualquer tecido de linho utilizado no embalsamamento.

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Painted & Gilded Mummy Case of an Unamed Woman
Caixão Pintado e Dourado de uma Mulher Não Identificada Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

O funeral era um evento público no qual, se a família pudesse pagar, mulheres eram contratadas como pranteadoras profissionais. Essas mulheres eram conhecidas como as "Abutres de Néftis" e encorajavam os presentes a expressarem sua dor por meio de prantos e lamentações. Elas faziam referência à fragilidade da vida e à súbita chegada da morte, mas também davam a garantia do aspecto eterno da alma e a confiança de que o falecido passaria pelo julgamento da pesagem do coração, presidido por Osíris na vida após a morte, para então alcançar o paraíso no Campo dos Juncos.

Bens funerários, por mais ricos ou modestos, eram colocados no túmulo ou na sepultura. Esses bens incluíam os "ushabtis" (ou shabtis), estatuetas que, no além, poderiam ser despertadas à vida por um encantamento e assumir as tarefas do morto. Como a vida após a morte era considerada uma versão eterna e perfeita da vida na terra, acreditava-se que também haveria trabalho lá, assim como na existência mortal. O ushabti realizaria essas tarefas para que a alma pudesse descansar e desfrutar de sua eternidade. Para os arqueólogos modernos, os ushabtis são indicadores importantes da riqueza e do status do indivíduo sepultado; quanto mais estatuetas, maior a riqueza.

Shabti Box
Caixa de Ushabtis Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Além dos ushabtis, a pessoa era sepultada com objetos considerados necessários na vida após a morte: pentes, joias, cerveja, pão, roupas, suas armas, um objeto favorito e até mesmo seus animais de estimação. Todos esses itens estariam disponíveis para a alma no além, onde poderia fazer uso deles. Antes que o túmulo fosse selado, era realizado um ritual considerado vital para a continuidade da jornada da alma: a Cerimônia de Abertura da Boca. Nesse rito, um sacerdote invocava Ísis e Néftis (que haviam trazido Osíris de volta à vida) enquanto tocava a múmia em diferentes pontos com diversos instrumentos (enxós, cinzéis, facas), ungindo o corpo simultaneamente. Desse modo, ele restaurava ao falecido o uso dos ouvidos, olhos, boca e nariz.

O filho e herdeiro do falecido assumia frequentemente o papel do sacerdote, reforçando assim a conexão do ritual com a história de Hórus e seu pai, Osíris. O morto poderia agora ouvir, ver e falar, estando pronto para prosseguir em sua jornada. A múmia era então encerrada no sarcófago ou caixão, que era enterrado em uma cova ou depositado em um túmulo juntamente com os bens funerários, concluindo-se o funeral. Os vivos retomavam então suas vidas, e os mortos seguiam para a vida eterna.

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Sobre o Tradutor

Pedro Lucas
Tradutor bilingue (inglês-português) com formação acadêmica em Línguas e Literaturas: Português, Inglês e suas respectivas literaturas. Apaixonado pela literatura e pela língua inglesa, com um forte interesse na relação entre língua, cultura e tradução.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2026, abril 17). A Mumificação no Egito Antigo. (P. Lucas, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-44/a-mumificacao-no-egito-antigo/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "A Mumificação no Egito Antigo." Traduzido por Pedro Lucas. World History Encyclopedia, abril 17, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-44/a-mumificacao-no-egito-antigo/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "A Mumificação no Egito Antigo." Traduzido por Pedro Lucas. World History Encyclopedia, 17 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-44/a-mumificacao-no-egito-antigo/.

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