Os «Dez Imortais» eram um grupo de abolicionistas do Território do Kansas (onde a escravatura era alvo de acesa controvérsia) que atravessaram clandestinamente o rio Missouri até St. Joseph, no Missouri (um estado escravista) e, a 23 de julho de 1859, libertaram o seu amigo e colega abolicionista, o Dr. John Doy, da prisão, pouco antes do seu transporte previsto para a Penitenciária Estadual do Missouri, onde iria cumprir cinco anos de trabalhos forçados por «roubo de escravos».
Os «Dez Imortais» eram:
- Major James B. Abbott
- Capitão Joshua A. Pike
- Jacob Senix
- Joseph Gardener
- Thomas Simmons
- S. J. Willis
- Charles Doy
- Capitão John E. Stuart (Stewart)
- Silas Soule
- George R. Hay
O resgate de Doy, um condutor da Ferrovia Subterrânea (Underground Railroad), foi visto como uma grande vitória pelos abolicionistas de Lawrence, no Kansas — que deram aos homens o nome de os «Dez Imortais» —, mas para os proprietários de escravos do Missouri e os defensores da escravatura do Kansas, a fuga de Doy da «justiça» consolidou a sua convicção, já de si firme, de que os abolicionistas eram antiamericanos, rebeldes e causadores de problemas.
A fuga de Doy aumentou as tensões já elevadas no Território do Kansas entre os abolicionistas defensores de um estado livre e os defensores da escravatura, levando à designação da região como Bleeding Kansas (Kansas Sangrante), devido ao constante derramamento de sangue entre 1854 e 1859. O Bleeding Kansas é visto como um prelúdio da Guerra Civil Americana (1861-1865), uma vez que tanto as facções pró-escravatura como as anti-escravatura compreenderam que as suas divergências não podiam ser resolvidas pacificamente.
Bleeding Kansas
Em maio de 1854, a Lei do Kansas-Nebraska criou dois novos territórios dos Estados Unidos em terras retiradas aos povos indígenas da América do Norte. A lei foi controversa porque, em 1854, o número de estados escravistas e de estados livres estava equilibrado, mas se o Kansas e o Nebraska fossem admitidos como estados livres, os estados livres teriam maior poder no Congresso do que os estados escravistas.
De acordo com o Compromisso do Missouri de 1820, a escravatura era proibida a norte da latitude 36°30' e a oeste do rio Mississippi, com exceção do estado do Missouri. Como tanto o Kansas como o Nebraska se situavam a norte da latitude 36°30′ e a oeste do Mississippi, seriam admitidos na União como estados livres. No entanto, a lei incluía a cláusula da soberania popular, que permitiria aos estados escolherem por si próprios se seriam livres ou escravistas. O Nebraska rejeitou a escravatura e esperava-se que o Kansas, tão próximo do Missouri, optasse pela escravatura.
Os abolicionistas dos estados livres, no entanto, já se tinham estabelecido no Kansas e exigiam a sua admissão como estado livre. Os defensores da escravatura também se tinham estabelecido ali e defendiam a admissão como estado escravista. A certa altura, o Kansas teve duas capitais diferentes — Lecompton (pró-escravatura) e Lawrence (anti-escravatura) —, duas legislaturas diferentes e duas constituições diferentes.
Os defensores da escravatura atacavam os abolicionistas, que, por sua vez, retaliavam. John Brown (1800-1859) está entre os abolicionistas militantes mais famosos do período do Bleeding Kansas e liderou os seus filhos no Massacre de Pottawatomie, em maio de 1856, no qual os defensores da escravatura foram massacrados. Em retaliação, os defensores da escravatura assassinaram abolicionistas que, mais uma vez, retaliaram, e o número de mortos continuou a aumentar.
O Missouri, naturalmente, alinhou-se com os habitantes do Kansas favoráveis à escravatura e, especialmente após a aprovação pelo Congresso da Lei dos Escravos Fugitivos de 1850 (que permitia aos caçadores de escravos perseguir e trazer de volta a «propriedade» dos proprietários de escravos em qualquer parte dos Estados Unidos), realizou incursões no Kansas para capturar escravos fugitivos (ou negros livres que pudessem vender como escravos) e causar o máximo de problemas possível aos abolicionistas.
O Sequestro do Dr. Doy e dos «Dez Imortais»
A 25 de janeiro de 1859, o Dr. John Doy e o seu filho Charles (ambos condutores da «Ferrovia Subterrânea») transportavam 13 pessoas em busca da liberdade (escravos fugitivos) de Lawrence, no Kansas, para o norte, na primeira etapa da sua viagem rumo à liberdade no Canadá. A doze milhas de Lawrence, foram interpelados por um grupo armado do Missouri, detidos e levados de volta para o estado escravocrata.
Doy protestou, alegando que os negros na sua carroça — homens, mulheres e crianças — eram seres humanos, não bens, mas esta alegação foi recebida com risos, e todos foram levados para serem vendidos. John e Charles Doy ficaram presos numa pequena cela durante quase dois meses — de 25 de janeiro a 20 de março de 1859 — até serem transferidos para outra prisão em St. Joseph, no Missouri, para serem julgados. Charles foi absolvido, mas o Dr. Doy foi condenado por «roubo de escravos» — apesar de não haver provas de que qualquer um dos negros na sua carroça fosse do Missouri — e sentenciado a cinco anos de trabalhos forçados na Penitenciária Estadual do Missouri. A sua transferência de St. Joseph estava marcada para 25 de julho.
James B. Abbott, do Kansas, um abolicionista e amigo de Doy, compreendeu que, assim que Doy estivesse na penitenciária, haveria poucas esperanças de ele alguma vez sair de lá com vida; por isso, reuniu nove homens em quem sabia que podia confiar e partiu para resgatar o Dr. Doy. Chegaram e fizeram um reconhecimento de St. Joseph, planeando invadir a prisão à meia-noite do dia 23 de julho, mas descobriram que o teatro iria encerrar por volta das 23h, e, se conseguissem entrar na prisão discretamente e tirar Doy de lá sem dar o alarme, poderiam misturar-se com a multidão do teatro na rua, chegar ao rio Missouri e voltar para o Kansas sem que ninguém soubesse que lá tinham estado.
O plano de Abbott funcionou na perfeição. Alguns dos «Dez Imortais» vigiavam a rua, enquanto outros conseguiam entrar na prisão fingindo que um deles era um ladrão de cavalos que precisava de passar a noite detido. Doy descreve o seu resgate no último capítulo do seu relato sobre o rapto, a prisão e o julgamento, intitulado The Narrative of John Doy, of Lawrence, Kansas: «A plain, unvarnished tale» (A Narrativa de John Doy, de Lawrence, Kansas: «Uma história simples e sem artifícios»; 1860), que se apresenta abaixo.
Foi oferecida uma recompensa de 100 dólares pela cabeça de Doy, e este deixou o Kansas, estabelecendo-se com a sua família em Rochester, Nova Iorque, no seio de uma comunidade de abolicionistas, onde escreveu o seu livro. Charles Doy permaneceu no Kansas e foi morto a tiro, juntamente com um companheiro, em julho de 1860, acusado de ser ladrão de cavalos — embora a sua morte possa ter tido mais a ver com a sua participação no resgate do pai.
Dos outros nove, todos serviram com distinção no Exército da União durante a Guerra Civil Americana. Silas Soule (1838-1865) tornou-se famoso por se recusar a participar no Massacre de Sand Creek (29 de novembro de 1864), no Colorado, contra as nações Arapaho e Cheyenne. Testemunhou contra o seu comandante, defendeu os nativos americanos e foi assassinado em Denver a 23 de abril de 1865. Desconhece-se o que aconteceu ao Dr. John Doy após a publicação do seu livro.
O Texto
A tradução infra é do texto extraído do Capítulo XIX de The Narrative of John Doy, of Lawrence, Kansas (1860), reeditado pela Biblioteca da Universidade de Michigan, em 2015. O relato do resgate pelo Major James B. Abbott encontra-se na bibliografia e nos Links Externos abaixo do artigo.
Por volta das doze horas, no meio da tempestade, enquanto ainda estávamos a observar pela janela com grades, ouvimos uma batida forte na porta da prisão, que não conseguíamos ver, e, passado algum tempo, a voz do carcereiro vinda da sua janela, a perguntar: «Quem está aí? O que querem?»
«Somos do condado de Andrew e temos um prisioneiro que queremos colocar na prisão para que fique em segurança. Desça depressa», foi a resposta.
«Quem é ele?»
«Um ladrão de cavalos notório.»
«Têm um mandado?»
«Não; mas não há problema.»
«Não posso deter um homem sem autorização.»
«Se não o fizer, será uma pena; pois ele é um tipo perigoso e tivemos muito trabalho para o apanhar. Amanhã de manhã vamos provar-lhe que está tudo em ordem.»
O carcereiro desceu então e deixou-os entrar e — como me contaram mais tarde —, quando já estavam lá dentro, disse novamente: «Não gosto de prender um homem sem um mandado», e, voltando-se para o suposto ladrão de cavalos: «O que dizes? Achas que vão conseguir condenar-te?»
«Não, não vão», respondeu o ladrão, «é verdade que encontraram o cavalo na minha posse, mas não conseguem provar que o roubei.»
«Bem», disse o carcereiro, «se encontraram o cavalo na tua posse, acho que têm razão, e vou prender-te.»
Logo ouvimos passos nas escadas e apressámo-nos a deitar-nos, vestidos como estávamos, cobrindo-nos com os lençóis. A porta exterior da nossa cela foi aberta e, olhando pelo canto do olho, sem mover a cabeça, pude ver o carcereiro e o ladrão de cavalos com as mãos amarradas e firmemente segurado por dois homens, enquanto outro era visível um pouco mais atrás.
Houve uma longa discussão à porta, e o ladrão de cavalos pareceu recuar. Depois, o carcereiro destrancou e abriu a grade de ferro e ordenou-lhe que entrasse. O ladrão continuou a recuar e disse: «Não vou ficar preso com negros.»
«Oh! Não mantemos os nossos negros aqui», respondeu o carcereiro, «eles estão lá em baixo.»
«Tem aqui o velho Doy, o abolicionista?», perguntou um dos homens, ainda a segurar o ladrão de cavalos e a avançar para a entrada, como se estivesse curioso para me ver.
«O doutor Doy está aqui», respondeu o carcereiro.
«É esse o homem que viemos buscar», exclamou um deles.
O outro disse: «Amigo, enganámo-te até agora, mas era necessário para o nosso propósito. Não viemos para colocar um homem na prisão, mas para tirar de lá alguém que está injustamente detido.»
Ao mesmo tempo, o ladrão de cavalos libertou os pulsos das amarras, que se transformaram subitamente numa funda, cuja bola ele tinha escondido na mão, e lançou-se para a frente. O carcereiro, completamente apanhado de surpresa, tentou fechar a porta, mas um revólver de dez polegadas foi apontado ao seu peito.
«É tarde demais, Sr. Brown. Se resistir ou tentar dar o alarme, é um homem morto. A porta de baixo está vigiada e a prisão cercada por uma força armada. Viemos levar o Dr. Doy para casa, no Kansas, e tencionamos fazê-lo; por isso, é melhor ficar calado.»
Então, o ladrão de cavalos aproximou-se da minha cama, apertou-me a mão e ajudou-me a levantar-me. Quando saí da cama, o carcereiro disse:
«Senhores, estou nas vossas mãos e tenho de me submeter. Deixo isso a cargo do doutor»; e, dirigindo-se a mim: «Doutor, não acha que seria melhor ficar e ser legalmente absolvido pelo Supremo Tribunal, em vez de fugir desta forma e correr o risco de ser recapturado?»
«Sr. Brown», respondi, «fui raptado da minha casa e considero-me perfeitamente justificado em recuperar a minha liberdade da forma que for possível. Quanto ao Supremo Tribunal, não confio em nenhum tribunal do Missouri. Os meus documentos nunca chegarão lá. Por isso, irei com os meus amigos e assumirei o risco.»
A essa altura, já estava pronto. Apertei a mão do carcereiro e disse aos meus amigos: «Rapazes, o Sr. Brown e a sua família trataram-me como um cavalheiro. Ele tem sido muito gentil comigo, especialmente quando comparado com o carcereiro de Platte City.»
Foi então dito ao carcereiro, de forma impressionante, que havia uma forte guarda posicionada à volta da prisão, que o abateria a ele ou a qualquer pessoa que tentasse dar o alarme ou sair do edifício antes do amanhecer.
Os outros prisioneiros tentaram sair connosco, mas o carcereiro apelou à magnanimidade dos homens do Kansas, que imediatamente os fizeram recuar com as suas pistolas, dizendo: «Se violaram as leis do Missouri, têm de sofrer a pena. Não viemos para interferir com a justiça, mas para corrigir aquilo que sabíamos estar errado»; e o carcereiro trancou-lhes a porta na cara.
Quando chegámos ao piso inferior, encontrámos lá o Sr. Slayback, que, tendo chegado recentemente de comboio e não conseguindo encontrar o seu irmão, um advogado da cidade, tinha pedido ao carcereiro alojamento para passar a noite, e o Sr. Brown disse: «Senhores, isto vai manchar a minha reputação. Podem explicar ao Sr. Slayback como tudo aconteceu?»
«Certamente», respondeu um dos meus salvadores. «Sr. Slayback, por favor, compreenda e informe os cidadãos de St. Joseph que viemos em força do Kansas para resgatar o Dr. Doy. Surpreendemos e dominámos o carcereiro, e ele não deve sofrer por isso, pois teria sido necessário um homem muito mais forte do que ele para nos resistir.»
À porta da prisão, fomos recebidos pelos outros, que tinham estado a vigiar todas as janelas e portas da prisão. Quando chegámos à rua, caí, incapaz de me manter de pé, devido à fraqueza e à doença causadas pelo meu longo confinamento. Dois dos homens pegaram-me pelos braços e carregaram-me.
Estava tão escuro que eu não conseguia ver nada e fui obrigado a perguntar os nomes dos meus salvadores. Incapazes de orientar bem os nossos passos, íamos caindo nas sarjetas das ruas e, por vezes, um clarão de relâmpago mostrava-nos que estávamos a colidir contra as casas. Por fim, mantendo-nos juntos o melhor que pudemos, chegámos à margem do rio e vimos que vários bares ainda estavam abertos, sendo sábado à noite.
Mas, na escuridão densa, não conseguimos encontrar o local onde os barcos tinham sido deixados e não sabíamos exatamente onde procurá-los, quando dois polícias noturnos, provavelmente ao ouvirem as nossas vozes e perceberem um grupo de pessoas reunidas, vieram na nossa direção com grandes lanternas, que erguiam no ar para melhor verem o que se passava.
À luz dessas lanternas, avistámos os nossos barcos um pouco mais a montante; apressámo-nos até eles, saltámos para dentro e desamarrámo-los. Estavam parcialmente cheios de água, e alguns dos rapazes esvaziavam-nos com os chapéus, enquanto outros remavam. A força dos remos, pois a corrente do Missouri é muito forte naquele local, logo atracámos na margem do Kansas, para a qual eu tantas vezes olhara com saudade da janela da minha cela.
Ajudaram-me a entrar numa carroça coberta e deitaram-me sobre um pouco de feno no fundo, quando se ouviram dois tiros de pistola, tal como combinado, para avisar os nossos amigos do Kansas em St. Joseph de que eu estava em segurança e pronto para viajar. Partimos — alguns dos meus salvadores, que eram dez no total, a pé e outros a cavalo — e percorremos doze milhas antes de pararmos para tomar o pequeno-almoço.
Não só as senhoras da casa onde parámos competiram em atenções para com o condenado do Missouri e receberam-nos a todos com a maior hospitalidade, como o próprio anfitrião me levou mais doze milhas com a sua própria parelha e recusou aceitar qualquer recompensa além dos nossos sinceros agradecimentos.
Fiquei surpreendido ao ver tantas pessoas a sair para nos receber, evidentemente cientes do que se pretendia, e apenas lamentei que não lhes tivesse sido permitido participar na missão. Fomos seguidos por vários homens durante boa parte do dia, mas não sentimos qualquer apreensão, pois os dez eram perfeitamente capazes de dar conta de qualquer número que pudesse ser enviado atrás de nós, enquanto amigos ao longo do caminho estariam à disposição para nos avisar e ajudar a resistir a qualquer tentativa séria de recaptura.
Por volta das 3 horas da tarde, quatro dos nossos homens ficaram para trás para avaliar os nossos perseguidores, altura em que estes desapareceram e não os voltámos a ver. Continuámos até às 12 horas daquela noite e partimos novamente de manhã cedo no dia seguinte, que era segunda-feira. Às 5 horas da tarde desse dia, depois de percorrermos noventa milhas e de termos sido recebidos com entusiasmo e acolhidos com hospitalidade ao longo de todo o caminho, chegámos ao rio em frente a Lawrence e atravessámos para aquela cidade de refúgio.
Ao entrarmos na cidade, foi disparada uma salva tripla e os nobres Dez foram aclamados e recebidos com entusiasmo, por terem levado a bom termo a mais ousada tentativa de resgate alguma vez planeada e levada a cabo, e por terem apagado a mancha de, pelo menos, um dos insultos infligidos ao Kansas pelo seu vizinho mais poderoso.
Assim, graças à ingenuidade, à coragem e à perseverança daqueles dez nobres exemplares de homens livres do Kansas, eu, embora aleijado e doente devido aos maus-tratos e ao longo período de prisão, voltei a ser um homem livre, devolvido ao meu lar, à minha família e aos meus amigos, e à terra que tanto amo.
Aqui posso encerrar adequadamente a minha narrativa, atestando a verdade absoluta de cada palavra que escrevi, e pedindo aos meus concidadãos destes Estados Unidos que a ponderem bem e respondam perante as suas próprias consciências — tal como terão de responder perante o Deus da Justiça — caso tais atrocidades como as que relatei continuem a ser praticadas, caso tais sofrimentos como os que descrevi continuem a ser infligidos aos indefesos e aos inocentes, neste nosso país comum, que deveria ser verdadeiramente «A terra dos livres e o lar dos corajosos».
