O Hino ao Templo de Kesh (incipit: kur-gal {d}en-lil2-ra e2-kur-ra ki us2-sa-ni e2 ke3{ki} im-ma-an-gub sag an-še3 i3-il2-il2; cerca de 2600 a.C.) é a obra mais antiga de literatura religiosa do mundo, sendo por vezes referida como o poema religioso mais antigo que se conhece. Trata-se de um cântico de louvor sumério dedicado à deusa Ninhursag e ao seu templo na cidade de Kesh, composto em oito secções ou "casas" que progridem desde a fundação do templo até a uma recepção cautelosa.
A obra é frequentemente referenciada em ligação com As Instruções de Shuruppag, habitualmente datadas de cerca de 2000 a.C., mas possivelmente tão antigas quanto cerca de 2600 a.C., o que a torna contemporânea do hino. Shuruppag, dependendo da sua datação, é a obra de literatura filosófica mais antiga ou uma das mais antigas existentes e, juntamente com o hino, oferece um retrato da vida religiosa e filosófica da antiga Suméria.
A tabuleta cuneiforme do hino foi descoberta nas ruínas de Nipur (no atual Iraque) no século XIX e traduzida pela primeira vez em 1909. Nipur era um conhecido centro religioso e intelectual que albergava várias escolas de escribas, e o Hino ao Templo de Kesh foi incluído no currículo educativo como parte da Década, o plano de estudos para estudantes avançados que se aproximavam da graduação.
O hino evolui desde a fundação de Kesh e do seu templo pelo deus Enlil, passando por descrições das divindades envolvidas no seu funcionamento e manutenção, até aos rituais observados, concluindo com louvores à cidade e a Ninhursag (apresentada aqui como Nintud), a grande deusa-mãe mesopotâmica.
Pensa-se que o hino tenha influenciado várias passagens e livros da Bíblia através do imaginário e do simbolismo, bem como da sua forma de louvor, especialmente o Livro do Génesis. O hino conta-se entre as obras mais famosas da literatura mesopotâmica.
O Comentário e o Resumo
Embora alguns estudiosos tenham afirmado que "Kesh" é simplesmente uma forma alternativa do nome da cidade de Quis (Kish), a maioria compreende-a como uma cidade separada cuja localização ainda não foi identificada.
Quis foi uma das cidades mais antigas da Suméria, datando do período de Ubaide (cerca de 6500–4000 a.C.), mas estava associada a Inanna, e não a Ninhursag, como a sua deusa protetora. Inanna, nos primórdios, fazia par com Enki, o deus da sabedoria, que mais tarde se tornou o consorte de Ninhursag; por conseguinte, é possível que o culto de Inanna tenha sido substituído pela devoção a Ninhursag e que Kesh faça referência a Quis, embora esta alegação não seja aceite de forma geral, especialmente porque a veneração de Inanna em Quis continuou durante o período acádio (2350/2334–2154 a.C.).
O hino descreve a majestade e o funcionamento do templo de Kesh, desde o seu estabelecimento pelo deus Enlil através de oito "casas", terminando cada uma com uma tríade de perguntas retóricas:
Haverá alguém capaz de trazer algo tão grandioso como Kesh? Alguma outra mãe dará à luz alguém tão grandioso como o seu herói Acgi? Quem alguma vez viu alguém tão grandioso quanto a sua senhora Nintud?
Acgi (também grafado como Asgi e Ashgi) era filho de Ninhursag e do deus astral/do submundo Sul-pa-e, antes de a deusa se tornar a consorte de Enki. Acgi era um deus da guerra e parece ter sido o patrono de Kesh antes de Ninhursag assumir esse papel. O Hino ao Templo de Kesh poderá, de facto, ter sido uma celebração da ascensão do culto de Ninhursag sobre o de Acgi, embora este último deus tenha continuado a ser honrado.
A primeira "casa" descreve a fundação de Kesh por Enlil e a sua organização por Nisaba, deusa da escrita e, anteriormente, da agricultura. Diz-se que o templo está "enraizado no abzu", as águas primordiais habitualmente associadas à cidade de Eridu e ao estabelecimento da ordem. A segunda e a terceira casas descrevem o templo, incluindo a estatuária ("10 car" e "5 bur", bisontes, veados, ovelhas); a quarta, as suas oferendas.
A quinta descreve como Acgi ("o herói") embeleceu o templo e vive ali com os seus pais Nintud e Sul-pa-e (aqui grafado como Cul-pa-ed) e Urumac, a divindade das planícies abertas (possivelmente outro nome para o deus Sakkan). A sexta casa volta a louvar a aparência do templo, e a sétima descreve o seu funcionamento.
O poema termina com a admoestação para "aproximar-se — mas não se aproximar" — compreendida como uma expressão de temor reverente na presença do divino, semelhante àquelas que se encontram na Bíblia relativamente a solo sagrado, lugares santos e à devida deferência ao entrar na presença de uma divindade.
O Texto
O texto infra foi extraído The Literature of Ancient Sumer, (A Literatura da Antiga Suméria) traduzido para inglês pelo estudioso Jeremy Black et al. As elipses indicam palavras ou linhas ausentes, enquanto os pontos de interrogação sugerem traduções alternativas para uma palavra.
1–9: O principezinho, o principezinho saiu da casa. Enlil, o principezinho, saiu da casa. O principezinho saiu com majestade real da casa. Enlil ergueu o seu olhar sobre todas as terras, e as terras ergueram-se para Enlil. Os quatro cantos do céu tornaram-se verdes para Enlil como um jardim. Kesh foi posicionada ali para ele com a cabeça erguida, e enquanto Kesh erguia a sua cabeça entre todas as terras, Enlil proferiu os louvores de Kesh.
10–20: Nisaba era a sua tomadora de decisões (?); com as suas palavras, ela teceu-a intrincadamente como uma rede. Escrita em tabuletas, ela era mantida nas suas mãos: Casa, plataforma da Terra, importante touro feroz! Casa Kesh, plataforma da Terra, importante touro feroz! Crescendo tão alto quanto as colinas, abraçando os céus, crescendo tão alto quanto o E-kur, erguendo a sua cabeça entre as montanhas! Enraizada no abzu (2 manuscritos têm em vez disso: Colorida como o abzu), verdejante como as montanhas! Haverá alguém capaz de trazer algo tão grandioso como Kesh? Alguma outra mãe dará à luz alguém tão grandioso como o seu herói Acgi? Quem alguma vez viu alguém tão grandioso quanto a sua senhora Nintud?
21: A primeira casa.
22–30: Boa casa, construída num bom local, casa Kesh, (alguns manuscritos acrescentam aqui: boa casa,) construída num bom local, flutuando nos céus como uma barca principesca, como uma barca sagrada provida de uma porta..., como a barca do céu, a plataforma de todas as terras! ... a partir da margem do rio como uma cabine de barco...! Casa rugindo como um boi, bramindo alto como um touro reprodutor! Casa em cujo interior está o poder da Terra, e por trás da qual está a vida da Suméria!
31–43: Casa, grande recinto, que chega aos céus, grande e verdadeira casa, que chega aos céus! Casa, grande coroa que chega aos céus, casa, arco-íris que chega aos céus! Casa cuja plataforma se estende até ao meio dos céus, cujas fundações estão fixadas no abzu, cuja sombra cobre todas as terras! Casa fundada por An, louvada por Enlil, dotada de um oráculo pela mãe Nintud! Casa Kesh, verde no seu fruto! Haverá alguém capaz de trazer algo tão grandioso como Kesh? Alguma outra mãe dará à luz alguém tão grandioso como o seu herói Acgi? Quem alguma vez viu alguém tão grandioso quanto a sua senhora Nintud?
44: A segunda casa.
45–57: Casa, 10 car na sua extremidade superior, 5 car na sua extremidade inferior; casa, 10 bur na sua extremidade superior, 5 bur na sua extremidade inferior! Casa, na sua extremidade superior um bisonte, na sua extremidade inferior um veado; casa, na sua extremidade superior uma ovelha selvagem, na sua extremidade inferior um cervo; casa, na sua extremidade superior uma ovelha selvagem malhada, na sua extremidade inferior um belo cervo! Casa, na sua extremidade superior verde como uma víbora, na sua extremidade inferior flutuando na água como um pelicano! Casa, na sua extremidade superior erguendo-se como o sol, na sua extremidade inferior espalhando-se como a luz da lua; casa, na sua extremidade superior uma clava de guerreiro, na sua extremidade inferior um machado de batalha; casa, na sua extremidade superior uma montanha, na sua extremidade inferior uma nascente! Casa, na sua extremidade superior verdadeiramente tríplice: Haverá alguém capaz de trazer algo tão grandioso como Kesh? Alguma outra mãe dará à luz alguém tão grandioso como o seu herói Acgi? Quem alguma vez viu alguém tão grandioso quanto a sua senhora Nintud?
58: A terceira casa.
58A–58Q: (um manuscrito acrescenta aqui as seguintes linhas: Casa... inspirando grande temor, chamada com um nome poderoso por An; casa... cujo destino é grandiosamente determinado pela Grande Montanha Enlil! Casa dos deuses Anuna possuindo grande poder, que dá sabedoria ao povo; casa, morada repousante dos deuses maiores! Casa, que foi planeada juntamente com os planos do céu e da terra, ... com os puros poderes divinos; casa que sustenta a Terra e apoia os santuários! Casa, montanha de abundância que passa os dias em glória; casa de Ninhursag que estabelece a vida da Terra! Casa, grande encosta digna dos ritos de purificação, alterando (?) todas as coisas; casa sem a qual nenhuma decisão é tomada! Casa, boa... carregando nas mãos a vasta Terra; casa que dá à luz povos inumeráveis, semente que tem rebentos! Casa que dá à luz reis, que determina os destinos da Terra; casa cujas figuras reais devem ser veneradas! Haverá alguém capaz de trazer algo tão grandioso como Kesh? Alguma outra mãe dará à luz alguém tão grandioso como o seu herói Acgi? Quem alguma vez viu alguém tão grandioso quanto a sua senhora Nintud?
58R: A ... casa.)
59–73: É verdadeiramente uma cidade; é verdadeiramente uma cidade! Quem conhece o seu interior? A casa Kesh é verdadeiramente uma cidade! Quem conhece o seu interior? Os heróis abrem caminho diretamente para o seu interior e executam perfeitamente os seus rituais oraculares. O gado saltitante é reunido em manadas na casa. A casa consome muito gado; a casa consome muitas ovelhas.
1 linha ilegível
Aqueles que se sentam em estrados curvam os pescoços perante ela. Usa uma coroa para competir com a árvore de buxo, estende-se para competir com o choupo...; está (um manuscrito acrescenta aqui: a crescer) tão verde quanto as colinas! Haverá alguém capaz de trazer algo tão grandioso como Kesh? Alguma outra mãe dará à luz alguém tão grandioso como o seu herói Acgi? Quem alguma vez viu alguém tão grandioso quanto a sua senhora Nintud?
74: A quarta casa.
75–86: Casa dada à luz por um leão, cujo interior o herói embeleceu (?); Casa Kesh, dada à luz por um leão, cujo interior o herói embeleceu (?); Os heróis abrem caminho diretamente para o seu interior. Ninhursag senta-se no seu interior como um grande dragão. Nintud, a grande mãe, assiste a partos ali. Cul-pa-ed, o governante, age como senhor. Acgi, o herói, consome o conteúdo dos recipientes (?). Urumac, o grande arauto das planícies, habita ali também. Os veados são reunidos em manadas na casa. Haverá alguém capaz de trazer algo tão grandioso como Kesh? Alguma outra mãe dará à luz alguém tão grandioso como o seu herói Acgi? Quem alguma vez viu alguém tão grandioso quanto a sua senhora Nintud?
87: A quinta casa.
88–102: Casa posicionada sobre as suas fundações como uma tempestade, como touros brancos dispersos pela planície; casa fundada pelo príncipe, em louvor ao som do instrumento tigi! Casa em cujo interior está o poder da Terra, e por trás da qual está a vida da Suméria (alguns manuscritos têm em vez disso: está cheia de vida); à cuja porta está um leão reclinado sobre as suas patas, à cuja porta está o governante que decide os casos (?); Casa à cuja porta está a Grande Montanha sem adversário; à cuja tranca (alguns manuscritos têm aqui em vez disso: à cuja barra) está um grande touro selvagem saltitante (alguns manuscritos acrescentam aqui a linha: , à cuja tranca está uma besta... um homem [um manuscrito acrescenta aqui em vez disso a linha: , à cujo... está um leão inspirador de temor]); Cujo celeiro bem fundamentado é um canto do céu, um canto da terra (um manuscrito tem aqui em vez disso: Cujo celeiro estabelecido como um lar...); cujo terraço é apoiado por divindades lahama; cuja muralha principesca (um manuscrito acrescenta: grande)... o santuário de Urim! Haverá alguém capaz de trazer algo tão grandioso como Kesh? Alguma outra mãe dará à luz alguém tão grandioso como o seu herói Acgi? Quem alguma vez viu alguém tão grandioso quanto a sua senhora Nintud?
103: A sexta casa.
103A–103K: (um manuscrito [que usa uma numeração diferente das secções] acrescenta aqui as seguintes linhas: Casa imbuída de brilho, ... excelência! Casa...! O senhor Nudimmud no céu e na terra... a alvenaria da Terra, a alvenaria... grandiosamente no abzu. Terraço, morada relaxante, ... esplendor sagrado... do povo! Casa que é conveniente para as terras estrangeiras! Haverá alguém capaz de trazer algo tão grandioso como Kesh? Alguma outra mãe dará à luz alguém tão grandioso como o seu herói Acgi? Quem alguma vez viu alguém tão grandioso quanto a sua senhora Nintud?
103L: A oitava casa.)
116–126: O chifre do touro é feito para rosnar; as baquetas são feitas para tinir. O cantor clama (um manuscrito tem em vez disso: declama) para o tambor ala; o grande e harmonioso tigi é tocado para ele (alguns manuscritos têm em vez disso: o harmonioso tigi está bem afinado). A casa está construída; a sua nobreza é boa! A casa Kesh está construída; a sua nobreza é boa! A sua senhora tomou assento no seu... Ninhursag, a sua senhora, tomou o seu assento no seu... Haverá alguém capaz de trazer algo tão grandioso como Kesh? Alguma outra mãe dará à luz alguém tão grandioso como o seu herói Acgi? Quem alguma vez viu alguém tão grandioso quanto a sua senhora Nintud?
127: A sétima casa.
128–133: Aproxima-te, homem, da cidade, da cidade — mas não te aproximes! Aproxima-te, homem, da casa Kesh, da cidade — mas não te aproximes! Aproxima-te, homem, do seu herói Acgi — mas não te aproximes! Aproxima-te, homem, da sua senhora Nintud — mas não te aproximes! Louvores sejam dados a Kesh, bem construída, ó Acgi! Louvores sejam dados à querida Kesh e a Nintud!
134: A oitava casa.
Conclusão
É possível que o hino tenha sido utilizado em celebrações formais no templo — tal como o hino Enlil no E-kur (incipit: en-lil2 kur-gal2 an ki-ta ba-ni-in-gar; cerca de 2000 a.C.) o foi em Nipur — ou para comemorar o evento da sua fundação, do mesmo modo que o poema Shulgi e a Barca de Ninlil (incipit: e2-a nam tar-ra-zu kur-gal {d}en-lil2-ra), escrito durante o reinado de Shulgi de Ur (2094–cerca de 2046 a.C.), celebrou a viagem fluvial e o banquete que este realizou para o casal divino Ninlil e Enlil no oitavo ano do seu reinado. Os festivais na antiga Mesopotâmia incluíam sempre a leitura de algum texto pertinente, e o Hino ao Templo de Kesh poderia ter funcionado com essa mesma finalidade.
É certo, no entanto, que o hino era utilizado na edubba ("Casa das Tabuletas"), a escola de escribas suméria, como parte da Década. Depois de um aluno dominar os rudimentos do cuneiforme, a fase seguinte do currículo consistia em composições simples e, em seguida, na Tríade (um conjunto de quatro obras a dominar) e na Década (um conjunto de dez).
As obras da Década eram as mais difíceis antes das composições finais que conduziam à graduação. O Hino ao Templo de Kesh serviria como um teste às capacidades do aluno, incutindo-lhe simultaneamente a majestade dos deuses e das moradas que estes escolheram para habitar entre o seu povo.
