O Mito de Adapa (incipit: uznu rēštītu; também conhecido como Adapa e o Alimento da Vida) é a história mesopotâmica da Queda do Homem, na medida em que explica a razão pela qual os seres humanos são mortais. O deus da sabedoria, Ea, cria o primeiro homem, Adapa, e dota-o de grande inteligência e sabedoria, mas não de imortalidade; e, quando a imortalidade é oferecida a Adapa pelo grande deus Anu, Ea engana Adapa para que este recuse o presente.
Embora não seja expresso diretamente no mito, o raciocínio de Ea parece semelhante ao de Javé na história do Génesis, na Bíblia, onde, depois de Adão e Eva serem amaldiçoados por comerem da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, Javé expulsa-os antes que possam também comer da Árvore da Vida:
O Senhor Deus disse: «Aqui está o homem que, pelo conhecimento do bem e do mal, se tornou como um de nós. Agora é preciso que ele não estenda a mão para se apoderar também do fruto da árvore da vida, comendo do qual, viva eternamente». O Senhor Deus explusou-o do jardim do Éden (...) (Génesis 3:22-23 – Villapadierna, Carlos de (†) et al.. Bíblia Sagrada. 3.ª Ed. Lx: Dif Bíblica (MC), 1968, pág. 21)
Se Adão e Eva fossem imortais, estariam ao mesmo nível de Javé e haveria uma perda de estatuto por parte da divindade; e este é o mesmo raciocínio de Ea no mito de Adapa. No mito do Génesis, o homem apodera-se do conhecimento ao comer da árvore; no mito mesopotâmico, o deus Ea concede o conhecimento ao homem no processo da criação. Sabendo que Adapa é já sábio, Ea (tal como Javé na história posterior do Génesis) precisa de manter o homem no seu devido lugar.
O Resumo
Adapa era o rei da cidade de Eridu e, segundo o mito, saiu um dia para pescar no Golfo Pérsico quando o vento sul, subitamente, virou o seu barco e atirou-o para o mar. Furioso com o sucedido, Adapa partiu a asa do vento sul e, durante sete dias, o vento não pôde soprar. O deus do céu, Anu, irrita-se com este acontecimento e manda chamar Adapa para se justificar. Adapa recebe conselhos de Ea sobre como se deve comportar na corte dos deuses. Sendo Ea o deus-pai e criador de Adapa, este confia que ele lhe dirá a verdade. Contudo, Ea teme que Anu esteja disposto a oferecer a Adapa o alimento e a bebida da vida eterna, e Ea está determinado a garantir que Adapa não aceite a oferta.
Primeiro, Ea diz-lhe que deve adular os guardiões dos portões, Tammuz e Gishida (duas divindades que morrem e ressuscitam), fazendo-os saber que se lembra deles, que sabe quem são. Se Adapa o fizer, os guardiões deixá-lo-ão passar sem dificuldade e falarão favoravelmente dele a Anu. Uma vez na presença de Anu, Ea diz-lhe ainda que deve recusar qualquer alimento ou bebida que lhe seja oferecido, porque se tratará do alimento e da bebida da morte, oferecidos como punição por Adapa ter partido a asa do vento sul. Contudo, diz Ea, Adapa pode aceitar óleo para se ungir e aceitar qualquer vestimenta que lhe seja oferecida.
Adapa faz exatamente como Ea sugere, honrando respeitosamente Tammuz e Gishida e recusando o alimento e a bebida oferecidos por Anu (embora se unja e aceite uma túnica). Anu, intrigado pelo facto de o homem recusar o alimento e a bebida da vida e o dom da imortalidade, envia Adapa de volta para a terra, onde terá de viver o resto da sua vida como mortal. O conto pareceria terminar com Anu a punir Ea por ter enganado Adapa, mas, como a terceira tábua está fragmentada, é difícil afirmar com certeza.
Uma interpretação alternativa do mito sustenta que Ea age sinceramente no melhor interesse de Adapa quando o avisa para não aceitar comida ou bebida de Anu, pois Ea acredita seriamente que Anu punirá Adapa com a morte por ter partido a asa do vento sul. Esta interpretação defende que a punição de Ea no final do poema não é por ter enganado Adapa, mas por o ter avisado contra os planos de Anu. Em parte alguma do poema, contudo, se afirma que Anu planeava matar Adapa; apenas que estava aborrecido pelo facto de o vento sul não soprar (ou seja, de a vida na terra não estar a funcionar como deveria) e que queria que Adapa se explicasse.
O poema faz mais sentido quando interpretado como Ea a enganar Adapa para negar a imortalidade aos seres humanos, e Anu a punir Ea por tal engano. Anu, ao ouvir a explicação de Adapa para o seu ato, pergunta: "Por que revelou Ea à humanidade impura / O coração do céu e da terra?". Esta resposta parece indicar que Anu respeita a explicação de Adapa e está impressionado com ela, mas interroga-se sobre a razão pela qual Ea teria tornado Adapa tão inteligente, ao mesmo tempo que lhe negava a vida eterna. É precisamente após Anu colocar esta questão e perguntar "Que podemos fazer com ele?" que ordena que o alimento e a água da vida eterna sejam trazidos para Adapa. Anu deseja corrigir o erro de Ea e conceder a imortalidade a Adapa, mostrando-se genuinamente intrigado quando este recusa a sua hospitalidade. Anu tenta antecipar a questão fundamental que os seres humanos colocam através dos tempos — "Por que nasço para morrer e, sabendo que morrerei, qual é o sentido da vida?" — concedendo a imortalidade; mas o destino dita que não será assim.
O mito provém do período cassita babilónico do século XIV a.C. (quando a tribo cassita governava a Babilónia). O escritor Berosso, do século III a.C., chamou a Adapa "Oannes" e descreveu-o como um homem-peixe que vivia no Golfo Pérsico e ensinava sabedoria e civilização aos seres humanos. Berosso seguia a tradição de Adapa como um dos Abgal (ou Apkallu), os sete semideuses sábios que entregaram a civilização aos seres humanos nos tempos antigos, antes do Grande Dilúvio. Em o Mito de Adapa, contudo, a personagem central é retratada como um rei sábio que é enganado por um deus, e não como um semideus propriamente dito.
O Texto
A tradução do mito que se segue é da autoria de Robert W. Rogers, da sua obra de 1912, Cuneiform Parallels to the Old Testament (Paralelos Cuneiformes ao Antigo Testamento):
A PRIMEIRA TÁBUA:
Ele [Adapa] era inteligente...
Comandava, como Anu comandava...
Ele [o deus Ea] concedeu-lhe um ouvido atento para revelar o destino da terra,
Concedeu-lhe sabedoria, mas não lhe concedeu a vida eterna.
Naqueles dias, naqueles anos, o sábio de Eridu,
Ea tinha-o criado como chefe entre os homens,
Um homem sábio cujo comando ninguém deveria opor,
O prudente, o mais sábio entre os Anunnaki era ele,
Imaculado, de mãos limpas, ungido, observador dos estatutos divinos,
Com os padeiros fazia pão,
Com os padeiros de Eridu, fazia pão,
O alimento e a água para Eridu ele preparava diariamente,
Com as suas mãos limpas ele preparava a mesa,
E sem ele a mesa não era limpa.
O barco ele conduzia; pescar e caçar para Eridu, ele fazia.
Então, Adapa de Eridu,
Enquanto Ea... na câmara, sobre o leito.
Diariamente, ocupava-se do fecho de Eridu.
Sobre a represa pura (a represa da lua nova), ele embarcou no navio,
O vento soprou e o seu navio partiu,
Com o remo, ele conduziu o seu navio
Sobre o mar vasto...
A SEGUNDA TÁBUA:
O vento sul... quando
Ele me conduziu à casa do meu senhor, eu disse:
"Ó Vento Sul, no caminho eu farei a ti... tudo que,
A tua asa, eu quebrarei." Enquanto ele falava com a sua boca,
A asa do Vento Sul foi quebrada, sete dias
O Vento Sul não soprou sobre a terra. Anu
Chamou o seu mensageiro Ilabrat:
"Por que o Vento Sul não soprou sobre a terra durante sete dias?"
O seu mensageiro Ilabrat respondeu-lhe: "Meu senhor,
Adapa, o filho de Ea, a asa do Vento Sul
Quebrou."
Quando Anu ouviu estas palavras,
Ele gritou: "Socorro!" Ele ascendeu ao seu trono,
"Que alguém o traga,"
Igualmente Ea, que conhece o céu. Ele despertou-o
... ele fê-lo vestir. Com uma veste de luto
Ele vestiu-o, e deu-lhe conselho
Dizendo: "Adapa, perante a face de Anu, o Rei, tu vais
... para o céu.
Quando subires, e quando te aproximares da porta de Anu,
À porta de Anu, Tammuz e Gishzida estão de pé,
Eles ver-te-ão, eles perguntar-te-ão: 'Senhor,'
Por causa de quem apareces assim, Adapa? Por quem
Estás vestido com uma veste de luto?' 'No nosso país, dois deuses desapareceram, portanto
Estou assim.' 'Quem são os dois deuses, que na terra
Desapareceram?' 'Tammuz e Gishzida.' Eles olhar-se-ão um ao outro e
Ficarão espantados. Boas palavras
Eles dirão a Anu. Uma boa expressão de Anu
Eles mostrar-te-ão. Quando estiveres perante Anu
Alimento de morte eles colocarão perante ti,
Não comas. Água de morte eles colocarão perante ti,
Não bebas. Vestes eles colocarão perante ti,
Põe-nas. Óleo eles colocarão perante ti, unge-te.
O conselho que te dei, não esqueças. As palavras
Que falei, guarda-as firmemente." O mensageiro
De Anu chegou: "Adapa quebrou
A asa do Vento Sul. Trazei-o perante mim."
A estrada para o Céu ele fê-lo tomar, e ao Céu ele ascendeu.
Quando ele veio ao Céu, quando se aproximou da porta de Anu,
À porta de Anu, Tammuz e Gishzida estão de pé.
Quando eles o viram, Adapa, eles gritaram: "Socorro,
Senhor, por causa de quem apareces assim? Adapa,
Por quem estás vestido com uma veste de luto?"
"No país, dois deuses desapareceram; portanto estou vestido
Com vestes de luto." "Quem são os dois deuses, que
Desapareceram da terra?"
"Tammuz e Gishzida." Eles olharam um para o outro e
Ficaram espantados. Quando Adapa, perante Anu, o Rei,
Se aproximou, e Anu viu-o, ele gritou:
"Vem aqui, Adapa. Por que quebraste as asas
Do Vento Sul?" Adapa respondeu a Anu: "Meu senhor,
Pela casa do meu senhor no meio do mar,
Eu estava a pescar. O mar estava como um espelho,
O Vento Sul soprou, e virou-me.
Para a casa do meu senhor fui conduzido. Na ira do meu coração,
Eu agi." Tammuz e Gishzida
Responderam... "tu és." A Anu
Eles falam. Ele acalmou-se, o seu coração estava...
"Por que revelou Ea à humanidade impura
O coração do céu e da terra? Um coração
... criou dentro dele, fez dele um nome?
O que podemos fazer com ele? Alimento de vida
Trazei-lhe, para que ele possa comer." Alimento de vida
Trazeram-lhe, mas ele não comeu. Água de vida
Trazeram-lhe, mas ele não bebeu. Vestes
Trazeram-lhe. Ele vestiu-se. Óleo
Trazeram-lhe. Ele ungiu-se.
Anu olhou para ele; ele maravilhou-se com ele.
"Vem, Adapa, por que não comeste, não bebeste?
Agora tu não viverás." ... homens ... Ea, meu senhor
Disse: "Não comas, não bebas."
Levai-o e trazei-o de volta para a sua terra.
... olhou para ele.
A TERCEIRA TÁBUA
Quando [Anu] ouviu isso,
Na ira do seu coração,
O seu mensageiro ele enviou.
Aquele que conhece o coração dos grandes deuses,
...
Para o Rei Ea vir,
A ele, fez com que palavras fossem levadas.
... a ele, ao Rei Ea.
Ele enviou um mensageiro
Com um ouvido atento, conhecendo o coração dos grandes deuses,
... dos céus seja fixado.
Uma veste suja ele fê-lo usar,
Com uma veste de luto ele vestiu-o,
Uma palavra ele falou-lhe.
"Adapa, perante o Rei Anu tu irás,
Não falhes na ordem, guarda a minha palavra.
Quando subires ao céu, e te aproximares da porta de Anu,
Tammuz e Gishzida à porta de Anu estão de pé.
