A Descida de Inanna: Uma Lenda Suméria Sobre a Injustiça

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
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O poema sumério, A Descida de Inanna (cerca de 1900-1600 a.C.), narra a jornada de Inanna, a grande deusa e Rainha do Céu, desde o seu reino no céu até à terra e, em seguida, ao submundo, para visitar a sua irmã recém-viúva, Ereshkigal, Rainha dos Mortos. O poema começa com as famosas linhas:

Do Grande Acima, ela abriu seus ouvidos para o Grande Abaixo
Do Grande Acima, a deusa abriu seus ouvidos para o Grande Abaixo
Do Grande Acima, Inanna abriu seus ouvidos para o Grande Abaixo.
(Wolkstein e Kramer, pág. 52)

A obra continua a descrever a descida de Inanna ao submundo, acompanhada, durante uma parte do caminho, pela sua fiel serva e conselheira Ninshubur.

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Marriage of Inanna and Dumuzi
Casamento de Inanna e Dumuzi TangLung (Public Domain)

Resumo

Inanna está vestida com as suas melhores roupas e usa a coroa do céu na cabeça, colares no pescoço, peitoral, anel de ouro e carrega o seu cetro, o bastão do poder. Pouco antes de entrar no submundo, dá instruções a Ninsubur sobre como ajudá-la caso não consiga regressar quando esperado. Ao chegar aos portões do submundo, Inanna bate forte e exige entrar. Neti, o guardião-chefe, pergunta quem é e, quando Inanna responde: "Eu sou Inanna, Rainha do Céu", Neti pergunta por que deseja entrar na terra "da qual nenhum viajante retorna". Inanna responde:

Por causa da minha irmã mais velha, Ereshkigal
Seu marido, Gugalanna, o Touro do Céu, morreu
Eu vim para testemunhar os rituais fúnebres.
(Idem, pág. 55)

Neti então diz-lhe para ficar onde está enquanto vai falar com Ereshkigal.

Quando Neti dá a notícia a Ereshkigal, de que Inanna está nos portões, a Rainha dos Mortos responde de uma forma que parece estranha: "Ela bateu na coxa e mordeu o lábio. Ela levou o assunto a sério e ponderou nele" (Ibid., pág. 56). Ela não parece satisfeita ao saber que a irmã está no portão, e o seu descontentamento fica ainda mais evidente quando ela diz a Neti para trancar os sete portões do submundo contra Inanna e, em seguida, deixá-la entrar, um portão de cada vez, exigindo que ela dispa uma das vestes reais em cada portão. Neti faz o que lhe é ordenado e, portão por portão, Inanna é despojada da sua coroa, colares, anel, cetro e até mesmo das roupas e, quando pergunta o significado desta indignidade, Neti diz-lhe:

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Cale-se, Inanna, os caminhos do submundo são perfeitos
Eles não podem ser questionados.
(Ibid. pág. 58-60)

Inanna entra na sala do trono de Ereshkigal "nua e curvada" e começa a caminhar em direção ao trono quando:

Os annuna, os juízes do submundo, a cercam
Eles proferiram julgamento contra ela.
Então Ereshkigal lançou sobre Inanna o olhar da morte
Ela proferiu-lhe palavras de ira
Ela proferiu-lhe o grito de culpa
Ela a golpeou.
Inanna foi transformada em cadáver
Um pedaço de carne podre
E foi pendurada num gancho na parede.
(Wolkstein e Kramer, pág. 60)

Após três dias e três noites à espera pela sua senhora, Ninshubur segue as ordens que Inanna lhe havia dado, vai até ao pai-deus de Inanna, Enki, para pedir ajuda e recebe dois "galla", dois seres transgéneros criados "nem masculinos nem femininos", para ajudá-la a trazer Inanna de volta à Terra. Os galla entram no submundo "como moscas" e, seguindo as instruções específicas de Enki, prendem-se intimamente a Ereshkigal. A Rainha dos Mortos é vista em angústia:

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Nenhum lençol foi estendido sobre o seu corpo
Seus seios estavam descobertos
Seu cabelo rodopiava em torno da sua cabeça como alho-poró.
(Idem, pág. 63-66)

O poema continua a descrever a rainha a sofrer as dores do parto. Os galla simpatizam com as dores da rainha e ela, em gratidão, oferece-lhes qualquer presente que eles peçam. Conforme ordenado por Enki, os galla respondem: "Desejamos apenas o cadáver que está pendurado no gancho na parede" (Ibid., pág. 67) e Ereshkigal dás-lho. Os galla reavivem Inanna com o alimento e a água da vida, e ela ressuscita dos mortos.

Inanna Prefers the Farmer
Inanna Prefere o Fazendendo Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

No entanto, tal como no mito grego de Deméter e Perséfone, quem permaneceu no submundo não pode simplesmente abandoná-lo tão facilmente. É necessário encontrar alguém para substituir Inanna e, por isso, os demónios galla do submundo acompanham-na até à superfície da Terra para reclamar a substituta. Os demónios tentam levar primeiro Ninshubur, depois os filhos de Inanna, Shara e Lulal, e até mesmo a esteticista de Inanna, Cara, mas, em todos estes casos, Inanna os impede, porque Ninshubur, Shara, Lulal e Cara estão todos vestidos com sacos e estão de luto pela sua aparente morte.

No entanto, quando Inanna encontra o seu amante Dumuzi e o vê "vestido com as suas roupas brilhantes... no seu trono magnífico", ela fica furiosa porque ele, ao contrário dos outros, não está de luto por ela e ordena que os demónios o capturem. Dumuzi pede ajuda ao deus do sol Utu e é transformado em cobra para escapar, mas acaba sendo capturado e levado para o submundo. A irmã de Dumuzi, Geshtinanna, oferece-se para ir em seu lugar e assim é decretado que Dumuzi passará metade do ano no submundo e Geshtinanna a outra metade. Desta forma, assim como no mito de Deméter e Perséfone, se explicam ass estações do ano. Mas para quê um mito tão elaborado simplesmente para explicar as estações do ano? O conto grego de Perséfone (embora também seja sobre muito mais do que a mudança das estações) alcança o mesmo objetivo de forma mais sucinta.

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Interpretação Moderna

Os leitores modernos deste poema têm à sua disposição uma riqueza de interpretações da obra por meio de escritores que aplicam uma visão psicológica, especificamente junguiana, ao poema como um mito arquetípico da jornada que cada indivíduo deve percorrer para alcançar a plenitude. Inanna nesta obra, segundo a interpretação, não é uma "pessoa completa" até que ela se mostre vulnerável diante da sua "metade mais sombria", morra e regesse à vida. No final do poema, afirma esta interpretação, Inanna, por meio da descida às trevas, do abandono das armadilhas do antigo eu, do confronto com a sua "sombra", da morte de quem era e do renascimento final, é agora um indivíduo completo, totalmente consciente. Os escritores que popularizaram esta interpretação são tão numerosos que seria inútil nomeá-los todos; qualquer leitor familiarizado com A Descida de Inanna já se deparou, ou eventualmente se deparará, com uma versão ou outra desta interpretação.

Os arquétipos de Carl Jung provaram ser ferramentas esclarecedoras para compreender e explicar mitos antigos para um público moderno (principalmente através das obras de Joseph Campbell). Tal interpretação de um texto, no entanto, deve sempre ter em mente o próprio texto; as palavras na página, a disposição das palavras, a caracterização e o diálogo. Por mais interessante e até esclarecedora que seja a visão moderna "junguiana" de A Descida de Inanna, ela não é corroborada pelo texto. Entre outras omissões evidentes, a interpretação moderna da história antiga não leva em conta as últimas linhas do poema, que elogiam não Inanna, mas Ereshkigal:

Santa Ereshkigal! Grande é a tua fama!
Santa Ereshkigal! Eu canto os teus louvores!
(Wolkstein e Kramer, 89)

O texto do poema afirma claramente a intenção de Inanna de viajar ao submundo para assistir ao funeral do cunhado, especifica o descontentamento da irmã com a visita, especifica ainda como os Annuna dos mortos julgam Inanna e como, depois disto, ela é morta por Ereshkigal através da "palavra da ira" e do "grito de culpa" e um golpe, após o qual Inanna é pendurada num gancho, "um pedaço de carne podre". A história continua detalhando como Inanna é salva pelo pai-deus Enki e como, finalmente, duas pessoas, Dumuzi e Geshtinanna, que não tiveram nada a ver com a decisão de Inanna de visitar o submundo, acabam por pagar o preço pela sua decisão.

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História por Trás da Obra

Se o leitor estiver familiarizado com a história de Gilgamesh, então A Descida de Inanna será mais facilmente compreendida dentro do contexto e da cultura da antiga Mesopotâmia.

Uma compreensão mais clara de A Descida de Inanna está disponível para qualquer leitor familiarizado com a obra suméria A Epopeia de Gilgamesh (cerca de 2150-1400 a.C.), que, mesmo que não existisse na forma escrita na época da composição de A Descida de Inanna, era certamente conhecida por transmissão oral.

Na epopeia, depois que os grandes heróis Gilgamesh e Enkidu matam o demónio Humbaba na Floresta de Cedros, a fama é grande e Gilgamesh, depois de se lavar e vestir as vestes reais, atrai a atenção de Inanna (que, na epopeia, é conhecida pelo seu nome acádio/babilónico, Ishtar). Inanna tenta seduzir Gilgamesh para que se torne seu amante, prometendo-lhe todas as coisas boas, mas Gilgamesh rejeita-a, citando os muitos amantes que ela teve no passado, os quais descartou quando deixaram de lhe interessar e que tiveram todos um fim trágico. Ele diz-lhe:

Os teus amantes encontraram-te como um braseiro que fumega no frio, uma porta traseira que não impede a entrada da rajada de vento nem da tempestade, um castelo que esmaga a guarnição, piche que enegrece quem o carrega, um odre de água que quemia quem o transporta. (Sandars, págs. 85-87)

Então, depois de detalhar o sofrimento que os amantes passaram por causa dela, Gilgamesh conclui dizendo: "E se nós formos amantes, não devo ser tratado da mesma forma que todos os outros que amou um dia?" (Idem, págs. 85-87). Ao ouvir isto, Inanna entra numa "raiva amarga" e apela ao pai-deus Anu (como faz com Ninshubur para Enki na Descida) em lágrimas pelos insultos que Gilgamesh lhe dirigiu. A resposta de Anu é que ela apenas recebeu o que merecia pelo seu "comportamento abominável" (Ibid., 87).

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Inanna, de forma alguma apaziguada com esta resposta, exige que Anu lhe dê Gugalanna, o Touro do Céu, para que se possa vingar de Gilgamesh e ameaça que, se não conseguir o que quer, ela arrombará as portas do submundo, “haverá confusão entre as pessoas, as que estão acima e com as que estão nas profundezas. Eu trarei os mortos para comerem comida como os vivos; e as hostes dos mortos superarão em número os vivos" (Ibid.). Gugalanna, o Touro do Céu, é o marido da irmã de Inanna, Ereshkigal.

Quando Anu concorda e lhe dá o Touro do Céu, ela traz Gugalanna para a cidade de Uruque (Uruk) para destruir Gilgamesh. O touro bufa e a terra se abre e "cem jovens caem mortos. Com o segundo bufo, rachaduras se abrem e duzentos caem mortos" (Sandars, pág. 88).

Então, Gilgamesh e Enkidu unem-se na batalha contra o Touro do Céu e matam-no. Ainda mais enfurecida, Inanna aparece nas muralhas de Uruque e amaldiçoa os heróis, levando Enkidu a arrancar a coxa direita do touro atirando-a sobre ela. Esta presunção, por parte de um mortal, não pode ser tolerada pelos deuses, e decretam que Enkidu deve morrer para que os outros mortais não se considerem superiores ao que realmente são. Enkidu é acometido por uma doença e sofre por dias antes de finalmente morrer (Idem, prág. 88-95).

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Flood Tablet of the Epic of Gilgamesh
Tabuinha do Dilúvio da Epopeia de Gilgamesh Osama Shukir Muhammed Amin (Copyright)

Uma Interpretação Mais Clara

Se o leitor estiver familiarizado com a história de Gilgamesh, então A Descida de Inanna será mais facilmente compreendida dentro do contexto e da cultura da antiga Mesopotâmia. Inanna, sem demonstrar mais consideração pelos sentimentos da irmã do que demonstrou pelos trezentos jovens inocentes que matou com o Touro do Céu, decide que irá ao funeral do cunhado cuja morte ela é a responsável.

Uma vez que o leitor compreende que Inanna causou a morte do marido de Ereshkigal, Gugalanna, a resposta da Rainha dos Mortos ao saber da chegada é completamente compreensível, assim como o julgamento subsequente de Inanna pelos Annuna e a morte às mãos de Ereshkigal. A "palavra de ira" e o "grito de culpa" fazem todo o sentido neste contexto, pois Ereshkigal está a confrontar a responsável pela sua dor atual; uma dor ainda maior devido à sua gravidez e ao nascimento iminente de uma criança que não terá pai.

Como na Epopeia de Gilgamesh, porém, Inanna é capaz de manipular a figura do deus-pai para conseguir o que deseja; naquele caso, o Touro do Céu e, neste, o retorno à vida. Inanna é ressuscitada e, da mesma forma que Enkidu e os trezentos jovens pagaram o preço pela indignação de Inanna, Dumuzi e Geshtinnana pagam pela sua insensibilidade e imprudência ao decidirem comparecer ao funeral de Gugalanna.

A moral que um antigo ouvinte d'A Descida de Inanna poderia tirar disto, longe de ser uma "jornada simbólica do eu para a plenitude", é a lição de que há consequências para as ações de cada um e, além disso, também pode ser consolado pelo fato de que, se as coisas más aconteceram a deuses e heróis devido à imprevisibilidade da vida, por que é que um mortal deveria lamentar um destino infeliz?

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Conclusão

Na antiga Mesopotâmia, os humanos consideravam-se colegas de trabalho dos deuses, e os deuses viviam entre eles; Inanna vivia na cidade de Uruque, Enki em Eridu e assim por diante. Os deuses não eram seres distantes, mas estavam intimamente ligados à vida quotidiana do povo da terra e o que afetava um deus, invariavelmente, afetava diretamente as pessoas.

Embora um dos deuses pudesse ter apenas as melhores intenções, outro deus poderia frustrar qualquer bem que se esperasse. Ereshkigal é elogiada no final do poema porque procurou justiça ao matar Inanna. O fato de a justiça ter sido negada, mesmo a uma deusa com tanto poder quanto a Rainha dos Mortos, teria amenizado a dor das injustiças e decepções diárias sofridas pelas pessoas que ouviam a história.

Então A Descida de Inanna relata o mau comportamento de um dos deuses e como outros deuses e mortais sofreram com esse comportamento, teria dado a um ouvinte antigo o mesmo preceito básico que qualquer pessoa hoje tiraria de um relato sobre um trágico acidente causado pela negligência ou mau julgamento de alguém: que, às vezes, a vida simplesmente não é justa.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2025, dezembro 15). A Descida de Inanna: Uma Lenda Suméria Sobre a Injustiça. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-215/a-descida-de-inanna-uma-lenda-sumeria-sobre-a-inju/

Estilo Chicago

Mark, Joshua J.. "A Descida de Inanna: Uma Lenda Suméria Sobre a Injustiça." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, dezembro 15, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-215/a-descida-de-inanna-uma-lenda-sumeria-sobre-a-inju/.

Estilo MLA

Mark, Joshua J.. "A Descida de Inanna: Uma Lenda Suméria Sobre a Injustiça." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 15 dez 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-215/a-descida-de-inanna-uma-lenda-sumeria-sobre-a-inju/.

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