O Cântico da Enxada (incipit: en-e ni-du-e pa na-an-ga-mi-in-e) é um poema de louvor sumério que celebra a enxada pelas suas muitas utilidades e a relaciona com a criação do mundo pelo grande deus Enlil. Dado a economia da Mesopotâmia se basear quase inteiramente na agricultura, não surpreende encontrar um instrumento agrícola como tema de um hino de louvor.
O poema é datado de cerca de 2000 a.C., e foram encontradas cópias em Nipur (também conhecida como Nibru), bem como em muitos outros locais, desde o século XIX até meados do século XX. Os estudiosos discordam sobre se o poema pode ser definido como um mito de criação, embora contenha decerto elementos ao longo do texto que o sugerem, com alguns a defenderem que era provavelmente entoado por trabalhadores agrícolas e camponeses da mesma forma que as pessoas cantam enquanto executam tarefas repetitivas hoje em dia: para passar o tempo e, em simultâneo, estabelecer um ritmo para o trabalho.
Tal é sugerido pela repetição da palavra para «enxada» — al — ao longo do poema, bem como de outras palavras e nomes que contêm al. A constante reiteração de al na língua original tornaria a canção um trava-línguas e, portanto, uma forma de entretenimento, produzindo ao mesmo tempo uma batida rítmica. Alguns estudiosos, incluindo Jeremy Black, sustentam que muito provavelmente não era cantada nos campos, mas sim nas salas de aula como parte do processo educativo, durante o qual um estudante copiava primeiro e depois recitava uma obra literária.
Independentemente da finalidade que a canção servia, era claramente popular, uma vez que foram encontradas muitas cópias, algumas com diferenças ligeiras ou significativas nalguns versos, mas todas constituindo manifestamente a mesma obra. O Cântico da Enxada continua a ser um favorito nos estudos mesopotâmicos nos dias de hoje, figurando entre as obras mais frequentemente antologiadas; tal como parecia sê-lo há mais de 2000 anos.
O Enquadramento
Tal como acontece com quase toda a literatura mesopotâmica, desconhece-se o autor da obra, assim como a ocasião da sua composição. A sua datação aponta para o final do terceiro milénio a.C., sendo 2000 a.C. a data mais frequentemente citada. Embora os estudiosos discordem quanto ao motivo ou ao momento exato em que a peça foi escrita, está firmemente estabelecido que era utilizada na edubba («Casa das Tabuletas»), as escolas de escribas que formavam os membros letrados da sociedade mesopotâmica.
Os estudantes iniciavam a sua educação dominando a arte da escrita cuneiforme e passavam depois a copiar obras relativamente simples conhecidas como a Tetrada (grupos de quatro composições), antes de lhes ser atribuído trabalho sobre a Década (grupos de dez composições), que revestia maior grau de dificuldade. O Cântico da Enxada estava incluído na Década, que um estudante precisava de dominar antes de avançar para as composições mais intrincadas que conduziam à graduação.
O académico Jeremy Black sugere que a repetição de al constituía um jogo de palavras intencional para os estudantes, a quem seria pedido que o recitassem após copiarem a peça. Black comenta:
A enxada mesopotâmica assemelhava-se mais a uma picareta do que a uma enxada de jardim moderna. A sua lâmina larga formava um ângulo reto com o cabo, o que significava que podia ser usada como picareta para romper a terra, bem como para a arar e alisar. Dado que os estudantes de escribas em Nibru eram, na sua maioria, habitantes urbanos afluentes destinados a carreiras na administração dos templos, é improvável que algum deles alguma vez tivesse visto a extremidade útil de uma enxada.
A composição deve talvez ser vista como lembrando simultaneamente aos jovens que os fundações da prosperidade institucional assentam no trabalho manual, ao mesmo tempo que os afastava dele através de elaborados jogos de palavras intelectuais e de engenhosos mitos de origem.
(pág. 312)
Em vez de uma rima repetitiva destinada a um trabalhador agrícola, Black sugere que o poema era um indicador intrincado de quão bem um estudante conseguia dominar os diferentes usos dados a al ao longo do texto, servindo também como uma forma de entretenimento enquanto tentavam recitá-lo.
O académico Samuel Noah Kramer sustenta que a obra constitui um mito de criação, embora não tanto do mundo, mas sim do instrumento primordial que possibilitou a plantação de culturas e a construção de cidades. De facto, Kramer traduz o título como A Criação da Picareta, uma vez que o foco da peça não recai sobre a criação em si, mas sim sobre os usos e as maravilhas da própria enxada. Kramer não nega que a peça tenha sido utilizada na edubba e provavelmente concordaria com a conclusão de Black quanto ao seu propósito. Contudo, ao considerar a obra como um mito de criação, salienta que a «personagem» central do texto é a enxada, e não Enlil ou as muitas outras divindades mencionadas.
O Resumo
O poema começa com Enlil a separar a terra dos céus com a sua grande enxada, descrita como sendo feita de ouro e lápis-lazúli, criando assim um lugar para a humanidade. Os antigos deuses Anuna reconhecem o seu trabalho como bom, e Ninmena (Ninhursag, a deusa mãe) decreta a reprodução (versos 1-27). No verso 28, Enlil é referido por um dos seus outros nomes, Nunamnir, e Enki, o deus da sabedoria, louva a enxada de Enlil, e não o próprio Enlil, tal como os Anuna tinham elogiado a sua obra, e não ele próprio.
A deusa Nisaba, outrora uma divindade dos cereais mas aqui associada ao seu papel posterior como deusa da escrita e dos registos, recebe a tarefa de manter os registos, o que se liga ao verso 34, onde as pessoas pegam nas suas próprias enxadas e emulam Enlil no ato da criação. Nisaba é, por conseguinte, vista como uma deusa que regista os atos das pessoas, e não apenas a quantidade de cereal produzido ou de dinheiro gerado.
A partir do verso 35, todos louvam a enxada e as suas utilidades. O E-kur, o templo de Enlil, é construído pela enxada, e Ninlil (deusa do ar e consorte de Enlil) e Ninisina (Gula, deusa da saúde e da cura) trazem oferendas para o senhor da enxada. A Enki, referido por um dos seus outros nomes (Nudimmud), é atribuído o epíteto de «portador da enxada» ao criar o reino de água doce do Abzu, e, nos versos 46-48, Ninhursag faz com que Ninurta, o deus da guerra (aqui designado por Cul-pa-eda), a ajude na construção do altar do templo.
A deusa Inanna, por sua vez, trabalha na sua própria cidade juntamente com Utu, o deus do sol, enquanto Nisaba faz o mesmo noutros locais (versos 52-58). Nos versos 59-70, o filho de Inanna, Sara (também conhecido como Cara), solicita as ferramentas que trarão ordem e, entre outros implementos, é-lhe entregue uma enxada.
Os seres humanos eram compreendidos como colaboradores dos deuses na manutenção da ordem, conceito este que é ilustrado ao longo do poema à medida que os deuses criam e, sugere-se, os humanos cuidam da sua criação.
Até o submundo e a justiça divina se envolvem no trabalho da enxada, conforme evidenciado pela referência a Dumuzid (Dumuzi, uma divindade do submundo) e Gibil, deus do fogo e da lareira, mas também da justiça. Nos versos 71-82, o templo de Jectin-ana (Gestiana, filha de Enlil e deusa do canto) ressoa enquanto Enlil chama pela sua enxada enquanto trabalha.
Os usos da enxada na construção, no sepultamento dos mortos, como ferramenta agrícola e como arma são elogiados através da referência a Nergal, também deus da guerra e do submundo, e ao herói Gilgamesh, que, «com a enxada, ele é o grande barbeiro dos cursos de água» (verso 81), uma referência à enxada na criação de valas de irrigação.
Os versos 83-109 descrevem a ordem das coisas, como tudo tem o seu lugar e como isto é tornado possível pela enxada, cujo destino foi fixado para este propósito por Enlil, o deus criador. A obra termina, em conformidade com a tradição, com o louvor a Nisaba por inspirar e guiar a mão do poeta.
O Texto
O texto infra foi extraído The Literature of Ancient Sumer (A Literatura da Antiga Suméria) e de The Electronic Corpus of Sumerian Literature (ETCSL O Corpus Eletrónico da Literatura Suméria) traduzido para inglês pelo estudioso Jeremy Black et al. As elipses indicam palavras ou linhas ausentes, enquanto os pontos de interrogação sugerem traduções alternativas para uma palavra. As palavras sumérias relacionadas com al seguem-se à palavra portuguesa, como é habitual nas traduções desta peça em particular.
1-7: Não só o senhor fez aparecer o mundo na sua forma correta — o senhor que nunca altera os destinos que determina: Enlil, que fará a semente humana da Terra brotar da terra —, como não só se apressou a separar o céu da terra, e se apressou a separar a terra do céu, mas, para tornar possível que os humanos crescessem em «Onde a Carne Brotou» [o nome de um local cósmico], suspendeu primeiro o eixo do mundo em Dur-an-ki.
8-17: Ele fê-lo com a ajuda da enxada (al) — e assim irrompeu a luz do dia (aled). Distribuindo (altare) as quotas de dever, estabeleceu as tarefas diárias, e para a enxada (al) e para o cesto de transporte foram mesmo estabelecidos salários. Depois, Enlil louvou a sua enxada (al), a sua enxada (al) forjada em ouro, o seu topo incrustado com lápis-lazúli, a sua enxada (al) cuja lâmina estava atada com um cordel, que era adornada com prata e ouro, a sua enxada (al), o gume de cuja ponta (?) era um arado de lápis-lazúli, cuja lâmina era como um aríete erguido contra uma muralha grande (gal). O senhor avaliou a enxada (al), determinou o seu destino futuro e colocou-lhe uma coroa sagrada na cabeça...
18-27: Aqui, em Onde a Carne Brotou, pôs esta mesma enxada (al) a trabalhar; fez com que ela colocasse o primeiro modelo da humanidade no molde de tijolo. A sua Terra começou a romper através do solo em direção a Enlil. Ele olhou com favor para o seu povo de cabeças negras. Agora, os deuses Anuna avançaram para ele e prestaram-lhe continência (jal). Acalmaram Enlil com uma prece, pois queriam exigir-lhe (al-dug) o povo de cabeças negras. Ninmena, a senhora que dera à luz o governante, que dera à luz o rei, pôs então em marcha (aljaja) a reprodução humana.
28-34: O líder do céu e da terra, o senhor Nunamnir, nomeou as pessoas importantes e as pessoas de valor (kal). Ele ...... estas pessoas e recrutou-as para prover aos deuses. Agora, Enki louvava a enxada de Enlil (al), e a donzela Nisaba foi encarregada de manter os registos das decisões. E assim as pessoas tomaram (jal) as enxadas brilhantes (al), as enxadas sagradas (al), para as suas mãos.
35-42: O E-kur, o templo de Enlil, foi fundado pela enxada (al). De dia construía-o (aldue), de noite fazia o templo crescer (almumu). Em Nibru bem-fundada, o herói Ninurta entrou na presença de Enlil na câmara interior do Tummal — o Tummal, o cesto de pão (?) da mãe Ninlil —, a câmara mais interior do Tummal, com entregas regulares de alimentos. A sagrada Ninisina entrou na presença de Enlil com cabritos pretos e oferendas de frutos para o senhor.
43-45: Segue-se o Abzu, com os leões perante ele, onde os poderes divinos não podem ser solicitados (al-dug): o portador da enxada (?) (altar), o homem bom, o senhor Nudimmud estava a construir (aldue) o Abzu, tendo Eridu sido escolhida como o local de construção (altar).
46-48: A mãe dos deuses, Ninhursaja, fez com que a luz poderosa (?) (altar) do senhor vivesse com ela em Kec; fez com que o próprio Cul-pa-eda a ajudasse com os trabalhos de construção (altar).
49-51: O santuário E-ana foi limpo por meio da enxada (al) para a dama de E-ana, a boa vaca (immal). A enxada (al) lida com os montes de ruínas, a enxada (al) lida com as ervas daninhas.
52-55: Na cidade de Zabalam, a enxada (al) é a operária (?) de Inana. Ela determinou o destino da enxada (al), com a sua barba saliente de lápis-lazúli. Utu estava pronto para a ajudar no seu projeto de construção (altar); é o projeto de construção (altar) reomado (?) do jovem Utu.
56-58: A dama de inteligência ampla (dajal), Nisaba, ordenou a medição do E-ana para um projeto de construção (altar) e, em seguida, desenhou o seu próprio E-hamun para construção (altar).
59-70: O rei que avaliou a enxada (al) e que passa (zal) o seu tempo nos seus rastos, o herói Ninurta, introduziu o trabalho com a enxada (altar) nas terras rebeldes (bal). Ele subjuga (aljaja) qualquer cidade que não obedeça ao seu senhor. Ruge contra o céu (algigi) como uma tempestade, atinge a terra (aljaja) como um dragão (ucumgal). Sara sentou-se nos joelhos de Enlil, e Enlil deu-lhe o que ele tinha desejado (al-dug): ele mencionara a clava, o bastão, as setas e a aljava, e a enxada (al). Dumuzid é aquele que torna a terra alta fértil (allumlum). Gibil fez com que a sua enxada (al) erguesse a cabeça em direção aos céus — fez com que a enxada (al), deveras sagrada, fosse purificada com fogo. Os Anuna rejubilavam (alhulhuledec).
71-82: O templo de Jectin-ana assemelhava-se a um instrumento aljarsur, o aljarsur da mãe Jectin-ana que produz um som agradável. O senhor [Enlil] mugiu para a sua enxada (al) como um touro. Quanto à sepultura (irigal): a enxada (al) enterra as pessoas, mas os mortos também são trazidos de volta do solo pela enxada (al). Com a enxada (al), o herói honrado por An, o irmão mais novo de Nergal, o guerreiro Gilgamesh, é tão poderoso quanto uma rede de caça. O filho de Ninsumun [Gilgamesh] destaca-se com os remos (jisal). Com a enxada (al), ele é o grande barbeiro (kindajal) dos cursos de água. Na câmara do santuário, com a enxada (al), ele é o vizir (sukkal). Os ímpios (huljal) ... são filhos da enxada (al); nascem no sono vindos do céu.
83-93: No céu há o pássaro altirigu, o pássaro do deus. Na terra há a enxada (al): um cão nos todais, um dragão (ucumgal) na floresta. No campo de batalha, há o machado de combate dur-allub. Junto à muralha da cidade, há a rede de combate (alluhab). Na mesa de jantar, há a tigela (maltum). No alpendre das carruagens, há o trenó (mayaltum). Na estrebaria dos burros, há o armário (argibil). A enxada (al)! — o som da palavra é doce: ela também ocorre (munjal) nas encostas: a árvore das encostas é o carvalho allanum. A fragrância das encostas é o bálsamo arganum. A pedra preciosa das encostas é o esteatito algamec.
94-106: A enxada (al) faz prosperar todas as coisas; a enxada faz florescer todas as coisas. A enxada (al) é boa cevada, a enxada (al) é uma rede de caça. A enxada (al) são moldes de tijolo, a enxada (al) fez existir as pessoas (jal). É a enxada (al) que constitui a força da juventude. A enxada (al) e o cesto são as ferramentas para construir cidades. Constrói (aldue) o tipo certo de casa, cultiva (aljaja) o tipo certo de campos. És tu, enxada, que expandes (dajal) a boa terra agrícola! A enxada (al) subjuga para o seu proprietário (lugal) quaisquer terras agrícolas que tenham sido recalcitrantes (bal) contra o seu proprietário (lugal), quaisquer terras agrícolas que não se tenham submetido ao seu proprietário (lugal). Corta a cabeça às vil mesmas espartas, arranca-as pelas raízes e rasga-lhes os caules. A enxada (al) também subjuga (aljaja) as ervas daninhas hirin.
107-109: A enxada (al), o instrumento cujo destino foi fixado pelo Pai Enlil — a enxada reomada (al)! Louvada seja Nisaba!
Conclusão
A enxada mesopotâmica seria uma posse preciosa, uma vez que era utilizada diariamente pela maior parte da população como a ferramenta principal na agricultura e na construção. Um cântico de louvor a um implemento tão vital, por mais estranho que isto possa parecer a um público moderno, seria comparável a qualquer hino de agradecimento entoado hoje em dia em gratidão pelo que nos foi dado na vida.
O Cântico da Enxada liga o próprio instrumento àquele que foi empunhado na criação do mundo e, ao fazê-lo, torna sagrado o trabalho de cada um. É por isso possível, senão provável, que a canção fosse entoada pelos trabalhadores agrícolas — ou pelo menos conhecida por eles —, os quais, ao realizarem as suas tarefas diárias, seriam encorajados pela sugestão de que estavam a executar com as suas enxadas a mesma tarefa que os deuses tinham feito com as suas próprias.
