Saladino (cerca de 1137 – 1193), o governante muçulmano que derrotou o poderoso exército cruzado nos Cornos de Hatim (ou Cornos de Hattin) (1187) e reconquistou Jerusalémapós 88 anos de domínio cruzado, nasceu num mundo onde a desunião dos muçulmanos tinha permitido que invasores estrangeiros se apoderassem do seu território. A frente islâmica encontrava-se dividida entre o Califado Abássida sunita de Bagdade e o Califado Fatímida xiita do Egito. Para além disto, o outrora poderoso Sultanato Seljúcida (que exercia a autoridade suprema sobre os Abássidas) estava agora fragmentado em pequenos Estados, cada um governado por um líder distinto. Estavam assim dadas as condições para a ocupação estrangeira e, no final da Primeira Cruzada (1095 – 1102), Jerusalém — cidade sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos — tinha caído em mãos ocidentais. A população local foi brutalmente massacrada e, para cúmulo da afronta, a Mesquita de Al-Aqsa foi profanada. Sem qualquer oposição por parte dos muçulmanos desunidos, os europeus ocupantes (ou francos, como eram conhecidos) estabeleceram quatro reinos latinos, conhecidos coletivamente como os Estados Cruzados: o Condado de Edessa, o Condado de Trípoli, o Principado de Antioquia e o Reino de Jerusalém.
Lenta e firmemente, os «sarracenos» (o termo utilizado pelos francos para se referirem aos muçulmanos) preparavam-se para contra-atacar sob a liderança de um líder implacável: Imad ad-Din Zengi, o atabeg (representante regional do Sultão Seljúcida) da cidade mesopotâmica de Mossul. Após colocar Alepo sob o seu controlo, Zengi desferiu o primeiro grande golpe nos europeus ao reconquistar Edessa, em 1144. Contudo, foi assassinado dois anos mais tarde, e a missão de expulsar os francos passou para o seu filho mais novo, Nur ad-Din (por vezes grafado como Nur al-Din), o seu sucessor em Alepo. A família de Saladino trabalhava para os zânguidas nessa altura; o seu tio, Asad ad-Din Shirkuh, era um dos generais mais corajosos de Nur ad-Din. Nur ad-Din era como um mestre para Saladino e, com o tempo (após a sua morte em 1174 d.C.), seria Saladino, e não os próprios parentes e descendentes de Nur ad-Din, a dar continuidade à sua missão. Harold Lamb escreve no seu livro A Chama do Islamismo (tít. original: The Flame of Islam): «Sem dúvida, ele era o homem mais apto para suceder a Nur ad-Din.» (pág. 38)
A primeira e mais importante parte dessa missão seria unir os muçulmanos sob uma única bandeira: a Jihad (significado literal – luta; contextualmente – guerra santa), por todos os meios necessários.
O Vizir do Egito
Saladino ascendeu ao protagonismo em 1169 d.C., quando foi escolhido para vizir do Egito pelo califa fatímida Al-Adid após a morte do seu tio Shirkuh, o antigo vizir (cargo que conquistara após uma luta de seis anos ao lado de Saladino, o seu segundo no comando, para expulsar os Cruzados do Egito e estender a autoridade zânguida sobre o território). Todas as probabilidades jogavam contra este jovem e inexperiente curdo sunita, que era um completo estranho para o Egito de maioria xiita. Mas Saladino provou que todos estavam errados; foi célere a nomear os seus próprios familiares para cargos de relevo no Egito, visto serem as únicas pessoas em quem podia confiar no hostil reino do Nilo. Quanto a todos os que se atravessaram no seu caminho ou o ameaçaram, digamos apenas que todos se «afastaram» sob circunstâncias misteriosas e com uma regularidade impressionante. Stanley Lane-Poole descreve os motivos de Saladino do seguinte modo:
Dedicou, a partir de então, todas as suas energias a um único grande objetivo — fundar um império muçulmano suficientemente forte para expulsar os infiéis da terra (referindo-se aos Reinos Latinos ou ao Outremer). «Quando Deus me deu a terra do Egito», disse ele, «tive a certeza de que Ele também me destinava a Palestina.»… Tinha-se consagrado à Guerra Santa.
(pág. 99)
Saladino não perdeu tempo para expandir o domínio a partir da sua base de poder no Egito:
- 1170: Em dezembro, Saladino capturou a fortaleza de Eilate, na cabeceira do Golfo de Aqaba, assegurando assim a rota do Mar Vermelho para os peregrinos a caminho de Meca (a cidade mais sagrada do Islão).
- 1171: Sob as ordens de Nur ad-Din e por insistência do seu próprio pai, Saladino aboliu o Califado Xiita Fatímida e reconduziu o Egito ao seio do Califado Sunita Abássida. O califa Al-Adid nunca chegou a saber deste ato, uma vez que se encontrava gravemente doente e Saladino preferiu deixá-lo morrer em paz — o que veio a acontecer escassos dias depois. A partir desse momento, Saladino passou a deter o controlo absoluto sobre o Egito.
- 1172: Saladino enviou um dos seus generais para conquistar as províncias da costa norte-africana — Barca e Trípoli (não confundir com o Condado Cruzado de Trípoli, no atual Líbano) — até Gabès, feito alcançado no ano seguinte. Embora não pudesse realmente.
- 1173: Enviou o seu irmão Turan Shah para conquistar o Sudão com um duplo objetivo: a expansão do poder e a repressão dos rebeldes negros que ameaçavam juntar-se aos Cruzados. Shah conseguiu concretizar ambos os objetivos quando conquistou a cidade sudanesa de Ibrim.
- 1174: Turan Shah liderou então uma expedição a Meca, onde se lhe juntou um poderoso senhor árabe, com o objetivo de conquistar o Iémen. Uma após outra, as fortalezas iemenitas — tais como Zabid, Janad, Áden, Saná, entre outras — caíram em mãos dos aiúbidas. Esta expedição concedeu ainda ao Sultão acesso livre às rotas comerciais do Mar Vermelho, das quais se serviu para fortalecer ainda mais a sua base de poder no Egito.
A Conquista da Síria
Nur ad-Din morreu em 1174 e foi sucedido pelo seu filho de onze anos, As-Salih. Contudo, por ser menor, um eunuco chamado Gumushtigin tornou-se seu regente e transferiu-o para Alepo. O governador de Damasco, sentindo-se ameaçado tanto por Gumushtigin como pelo Rei de Jerusalém, Amalrico I (que tinha avançado sobre a Síria para explorar a morte de Nur ad-Din), pediu ajuda a Saif ad-Din II (o governante de Mossul e neto de Imad ad-Din Zengi); este, no entanto, mostrou-se desinteressado, ocupado que estava a anexar os territórios de Nur ad-Din. Apelou então a Saladino por socorro — este último não estivera disposto a anexar a Síria a menos que fosse pelo Islão, e agora era esse o caso. A Síria encontrava-se sem um líder e vulnerável aos ataques dos Cruzados, e ainda mais às ambições pessoais gananciosas de homens como Gumushtigin. Saladino partiu do Egito com 700 cavaleiros escolhidos a dedo e assumiu o controlo de Damasco (que se tornaria a sua capital), onde foi amplamente aclamado por distribuir uma fortuna do tesouro de As-Salih pelo povo. Stanley Lane-Poole descreve a relutância inicial de Saladino em marchar sobre a Síria do seguinte modo:
A mera ambição pessoal teria levado a maioria dos homens na posição de Saladino a tirar partido da fraqueza dos seus vizinhos, mas atribuir-lhe qualquer motivo consciente desse tipo seria interpretar mal o seu caráter. A menos que conseguisse convencer-se de que os interesses gerais dos sarracenos, e especialmente da fé muçulmana, exigiam a sua intervenção, hesitaria em ampliar o seu poder à custa de alguém cuja (referindo-se a As-Salih) irmã era a sua própria esposa e cujo pai tinha sido o seu senhor e benfeitor.
(pág. 134)
Saladino deixou o seu irmão Tughtigin em Damasco como governador e partiu para conquistar as cidades sírias de Emesa e Hama; virou-se depois para Alepo, que lhe fechou as portas na cara. O vizir aliou-se a uma ordem conhecida como os «Hashashins» (os Assassinos) e exigiu a morte do Sultão, mas, como o destino era o seu melhor amigo, Saladino escapou com vida das mãos desta ordem, famosa por nunca falhar o seu alvo. Chegou então a notícia de que Raimundo, o Conde de Trípoli (do Reino Latino), tinha atacado Emesa (a pedido do vizir, como manobra de diversão); Saladino acorreu imediatamente em resposta, mas os Cruzados retiraram-se antes da sua chegada. Saladino conquistou depois Baalbek, onde o seu próprio pai fora em tempos governador sob o comando de Imad ad-Din Zengi.
Saladino marchou então para os territórios vizinhos de Alepo e conquistou-os, incluindo o forte estratégico de Azaz, após um cerco perigoso. Em 1176, foi assinado um tratado entre Saladino e As-Salih, tendo este último reconhecido a soberania do primeiro. A irmã de As-Salih dirigiu-se a Saladino para implorar pela devolução de Azaz; o sultão não só acedeu ao seu pedido como também a acompanhou de volta até aos portões de Aleppo com inúmeros presentes (é de salientar que Saladino quase perdeu a vida enquanto sitiava Azaz, o que demonstra a sua generosidade e a sua devoção à família de Nur ad-Din). Saladino também se aliou aos Assassinos depois de perceber que os destruir era extremamente arriscado, mas que uma aliança seria mutuamente benéfica. Deixou Turan Shah a cargo da Síria e regressou ao Cairo, onde supervisionou o desenvolvimento das suas infraestruturas, especialmente da sua cidadela.
A Corrida por Alepo
Primeiro Saif ad-Din e depois As-Salih faleceram no ano de 1181. O irmão de Saif ad-Din, Izz ad-Din, sucedeu-lhe em Mossul e colocou o seu irmão Imad ad-Din (que recebeu o nome do seu avô) no comando de Alepo. Imad ad-Din era, originalmente, governador da cidade mesopotâmica de Sinjar e não era apreciado pelo povo de Alepo; na verdade, numa ocasião, o povo de Alepo desfilou com uma tina de lavar roupa diante dele, dizendo: «Nunca foste feito para ser rei! Tenta lavar roupa!» (Poole, pág. 173).
A Síria estava mais uma vez vulnerável e tinha de ser colocada sob controlo. Saladino marchou sobre a região de Jezira, no norte da Mesopotâmia, em 1182, onde conquistou cidade após cidade, incluindo Edessa. Depois, dirigiu-se para Sinjar e sitiou-a durante 15 dias, após os quais a cidade caiu. Com a queda da cidade, em dezembro, o exército de Saladino perdeu todo o controlo, invadindo e saqueando a cidade; no entanto, ele conseguiu salvar o governador e os seus oficiais, mandando-os para Mossul de forma segura e honrosa. Saladino voltou-se então para Alepo; nenhum dos lados estava disposto a travar uma batalha (embora Saladino pudesse ter esmagado Imad ad-Din, parece que não quis fazê-lo) e foi acordada uma troca: Alepo em troca de Sinjar e dos seus territórios dependentes (em condições de vassalagem). Imad ad-Din aceitou de bom grado e, em 1183, Saladino entrou na cidade.
A Defesa de Meca e Medina
Depois de conquistar Alepo, Saladino tornou-se a figura mais poderosa do mundo islâmico. Para horror dos cruzados, ele tinha conseguido unir todos os principais estados islâmicos que rodeavam os reinos latinos sob a sua bandeira. Contudo, em 1183, um cruzado chamado Reinaldo de Châtillon atreveu-se a enviar uma frota através da rota do Mar Vermelho para atacar as cidades sagradas muçulmanas de Meca e Medina (com a intenção de destruir a Caaba e profanar o túmulo do Santo Profeta do Islão — que a paz esteja com ele). No entanto, esta frota foi travada a tempo pelos navios aiúbidas vindos do Egito, e os soldados cruzados foram capturados e mortos como gado por blasfémia.
John Davenport escreve sobre a reação de Saladino:
Tão atípica foi essa retaliação que, a princípio, os seus comandantes não cumpriram a ordem de Saladino. O próprio irmão do sultão, Saif al-Din al-Adil, questionou a sua decisão, levando Saladino a escrever-lhe uma carta explicativa. Os homens devem morrer, escreveu Saladino, por duas razões: uma prática e outra pessoal. Em primeiro lugar, os invasores quase tinham conseguido chegar até uma das cidades mais sagradas do Islão sem serem detetados. Se os deixasse viver, regressariam certamente pela mesma rota com uma força maior e mais determinada… Em segundo lugar, a honra do Islão clamava por vingança, por sangue.
(pág. 46)
Saladino ficou furioso com este ato e, em resposta, cercou por duas vezes o baluarte de Reinaldo — a inexpugnável fortaleza de Kerak —, mas teve de retirar em ambas as ocasiões devido ao auxílio prestado pelas forças do Reino de Jerusalém. Em 1185, o Rei de Jerusalém, Balduíno IV, o Leproso (filho e sucessor de Amalrico I), morreu, e a paz foi declarada entre os francos e os muçulmanos, visto que os Cruzados não se encontravam em condições de travar quaisquer guerras santas.
A Frente Islâmica Unificada e a Jihad
Mossul, o único obstáculo no caminho de Saladino, também passou a estar sob a sua soberania em 1186, quando Izz ad-Din se ofereceu para ser vassalo de Saladino. O sultão concordou e Izz ad-Din foi autorizado a manter e governar as terras. Nessa altura, Saladino tinha dominado os cruzados e irritá-lo ou tentar quebrar a paz teria sido a pior ideia possível. No entanto, foi exatamente isso que Reynauld fez em 1187, quando atacou uma caravana comercial muçulmana, desafiando o tratado. O Reino de Jerusalém apoiou-o neste ato ultrajante e pagou o preço quando Saladino aniquilou o maior exército cruzado de sempre (até então, mas ainda assim menor do que o exército de Saladino) nos Chifres de Hattin, em julho de 1187, onde também cumpriu o seu juramento de matar Reynauld com as próprias mãos.
Esta grande vitória, que abriu caminho para a reconquista sem derramamento de sangue de Jerusalém (embora muitos cristãos fossem reduzidos à escravidão) mais tarde nesse mesmo ano, só foi alcançada graças aos 17 longos anos de esforço de Saladino para unir os estados islâmicos sob a sua liderança eficaz. Mais tarde na sua vida, quando foi forçado a defender as suas conquistas contra a Terceira Cruzada, apesar de estar velho, fraco e gravemente doente, comentou sobre esta frágil unidade: «Se eu morresse, seria difícil reunir novamente um exército como este.» (Lamb, pág. 166). E, tendo em conta os acontecimentos subsequentes, provou-se que ele tinha toda a razão.


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