As 167 janelas de vitral da Catedral de Chartres, construída entre 1190 e 1220, perfazem o grupo sobrevivente mais completo de toda a Idade Média. Vários vitrais datam de meados do século XII, enquanto cerca de 150 sobreviveram do início do século XIII. Há cenas religiosas para contar a fé, as histórias chaves da Bíblia, bem como incontáveis representações de santos, reis, rainhas, nobres, cavaleiros e padres. Os comerciantes doaram 42 vitrais à catedral, e aparecem em várias cenas menores mostrando todo o alcance das profissões medievais, dos fabricantes de barris aos açougueiros.
O Vitral Medieval
A técnica de colorir vitrais usando óxidos metálicos datam, ao menos, do século VII e às igrejas do Império Bizantino. Entretanto, a confecção se tornou, realmente, em arte refinada nos séculos XII e XIII. As 5 cores principais usadas para colorir o vidro eram vermelho rubi brilhante, que vem do óxido de cobre, azul safira do óxido de cobalto, verde do óxido de ferro, amarelo do enxofre ou da foligem, e o roxo do óxido de manganês. Estes materiais eram adicionados ao vidro enquanto ainda estavam esquentando, mas, como o resultado se provou muito opaco e não permitia a entrada de muita luz, muitas vezes uma fina camada de vitral era posta sob um grosso painel de vidro transparente ou branco. Pintados do lado interior do vidro, detalhes de cenas eram geradas usando uma mistura de vidro, óxidos de metais e vinagre ou urina. A tinta era permanentemente fundida ao vidro ao ir para o forno.
Peças individuais de vitral e vidro pintado eram cortados de acordo com um desenho feito previamente de giz em um tábua de madeira, e então eram inseridos em bordas de chumbo para compor um único painel. O painel concluído era, então, montado na armadura de metal da estrutura da janela usando cavilhas e tiras de metal. Uma única janela ogival de Chartres pode incluir mais de 50 desses painéis de todos os formatos e tamanhos.
Não eram somente decorações, os vitrais eram entendidos como ilustrações da mensagem do Evangelho em uma era em que poucos podiam ler. Consequentemente, o preço do pecado, os benefícios da salvação e as vidas dos santos mais importantes e figuras bíblicas são mostradas como lições para todos. A maioria dos vitrais, quando contavam as narrtaivas de vida de um apóstolo ou uma parábola bíblica, deve ser lida da esquerda para a direita começando pela base. Os painéis de rosetas de 4 folhas ou quadrifólios são lidos primeiramente pela folha de baixo, seguindo para a esquerda, centro, direita e, finalmente, a folha de cima. A seguir há descrições de algunss dos mais importantes e impressionantes vitrais da Catedral de Chartres.
A Janela da Rosácea Norte
Essa janela, com 10.15 metros de diâmetro, data de cerca de 1231 e contém o tema de profecias do Velho Testamento sendo cumpridas com Maria como seu instrumento, por isso, o painel central retrata Jesus Cristo enquanto criança com Maria. Esta peça central é circundada por 12 painéis elípticos retratando 4 pombas e 8 anjos. E, então, um círculo de 12 painéis com formato de diamante retratam os 12 reis de Judá, ancestrais de Cristo. O anel externo de painéis semicirculares representam os 12 profetas menores. Entre os quadrados e semicírculos há painéis quadrifólios com flor-de-lis, o brasão da realeza francesa lembrando que a janela foi doada pela rainha Branca de Castela, mãe do rei Luis IX (reinou de 1226-1270) e que foi regente do filho de 1226 a 1236. Os painéis entre a rosácea e os vitrais ogivais abaixo repetem o tema de flor-de-lis e adiciona o brasão de Castela, um castelo amarelo com um fundo vermelho.
As janelas ogivais abaixo da rosácea retratam Santa Ana ao centro e vários reis mencionados no Velho Testamento como Saul (se apunhalando com a própria espada), e Salomão, bem como as tradicionais vilanias de Nabucodonosor II, o idólatra da Babilônia, e o Faraó egípcio que imprudentemente perseguiu Moisés através do Mar Vermelho.
A Rosácea Sul
Essa janela, com 10,56 metros de diâmetro data de cerca de 1224 e o painel central retrata Jesus Cristo como o juiz do Apocalipse. Rodeando este painel há 12 painéis elípticos, dos quais 8 têm um anjo e os outros 4 contém os símbolos dos 4 evangelistas. O anel seguinte de painéis circulares e o anel externo de 12 painéis semicirculares, retratam os 24 anciãos do Apocalipse, todos segurando vários instrumentos musicais medievais. O pequeno painel quadrifólio mostra o brasão azul e amarelo de Dreux e Bretanha, casa dos doadores do vitral, Conde Pedro Mauclerc e sua esposa Alix da Bretanha.
O brasão de Dreux e Bretanha são repetidos no vitral central dos 5 vitrais ogivais abaixo da rosácea. Esses vitrais ogivais mostram Maria segurando o menino Jesus ao centro e ladeado por 2 profetas do Velho Testamento, cada um deles carregando em seus ombros os evangelistas do Novo Testamento (da esquerda para a direita: Jeremias e São Lucas, Isaías e São Mateus, Ezequiel e São João, e Daniel e São Marcos). A imagética talvez lembre que os evangelistas, tendo conhecido Cristo pessoalmente, podiam ver melhor o futuro do que os velhos profetas.
A Rosácea Oeste
A rosácea oeste é a maior das três rosáceas, medindo 15.42 metros de diâmetro. É datada cerca de 1215 e retrata cenas do Juízo Final com Jesus Cristo, representado como o juiz da humanidade, dominando o painel central. A posição do vitral, por si só, é simbólica; situada na fachada oeste, é banhada pela suave luz do sol poente ao final do dia, e assim, representa o fim dos tempos, assunto da cena no vitral.
Irradiando do painel central têm 3 anéis de painéis circulares. O primeiro anel mostra 8 anjos e 4 animais apocalípticos, cada um representando um dos 4 apóstolos: um leão para São Marcos, um boi para São Lucas, uma águia para São João e um homem alado para São Mateus. O segundo anel de painéis, ligado ao primeiro por formas elípticas, e contando 12, mostram pares de apóstolos e as 12 tribos. O terceiro e mais externo anel de painéis circulares, novamente contando 12, exibem instrumentos da Paixão de Cristo, anjos tocando trombetas para anunciar o Dia do Julgamento e corpos ressucitados usando mortalhas, que esperam a decisão de seus destinos. Dois painéis revelam o que acontecem aos pecadores impenitentes com São Miguel pesando bons feitos contra os maus na sua balança e demônios empunhando um forcado empurrando as pessoas em direção ao inferno, incluindo um avarento ainda com um saco de dinheiro pendurado ao pescoço.
O Vitral da Virgem Azul
Um dos vitrais mais antigo da catedral (ou pelo menos os 4 painéis centrais são), é o vitral da Virgem Azul, também conhecida como vitral de Nossa Senhora de la Belle Verrière. Este vitral, localizado abaixo da rosácea oeste, pertence à versão da catedral anterior ao devastador incêndio de 1194. Os painéis centrais mostram Maria sentada com Jesus bebê ao colo, ela está sentada em um trono, usando uma coroa e manto azul, e tem um halo azul. Os painéis circundantes retratam 6 anjos e datam do século XIII. A parte mais baixa do vitral mostra cenas do milagre de Jesus onde Ele transforma água em vinho no banquete de casamento de Caná e as 3 tentações de Cristo.
O Vitral da Encarnação
O vitral é uma das 3 janelas ogivais colocadas a cima da Porta Real ou Pórtico Oeste da catedral, Datando de meados do século XII, tem 27 painéis principais com cenas alternadas dentro de um quadrado ou círculo. A primeira cena (de baixo) mostra o nascimento de Cristo e a chegada dos magos e pastores. Há cenas impressionantes do massacre dos inocentes ordenado pelo Rei Herodes e a fuga de Maria, José e Jesus para o Egito. O ciclo acaba com Jesus entrando em Jerusalém no domingo de ramos.
O Vitral da Paixão e Ressurreição
Este lance de vitral está ao lado do vitral da Encarnação, cuja história continua. É, também, datado de 1150. O vitral ostenta 14 cenas circulares dos momentos finais da vida de Jesus Cristo, como o banhar os pés dos discípulos, a Última Ceia, a Crucificação e a Ressurreição. O painel mais baixo esquerdo com a mandala e feixes de luz revelam a influência da arte bizantina.
O Vitral de Noé
Datado de 1210, este vitral, está localizado imediatamente à esquerda ao adentrar a Porta Real, tem 42 painéis com cenas da história de Noé. Os painéis retratam os animais chegando para serem colocados na Arca, o grande Dilúvio e a própria Arca, aqui com carcterísticas arquiteturais como as colunas, capitéis e arcos mantendo o seu papel como um símbolo da própria Igreja e a sua função salvadora e lugar de refúgio. Numa extenção mais aprofundada da analogia, 6 painéis mostram pessoas se afogando que representam as almas perdidas no seu caminho para o inferno. Um painel retrata Noé e São Leobino, bispo de Chartres no século VI e santo padroeiro de hospedeiros e mercadores de vinho, que estavam dentre os doadores aos vitrais, juntamente com os carpinteiros, tanoeiros e fabricante de carroças da cidade. Os 5 painéis mais baixos mostram cenas desses artesãos trabalhando.
O Vitral do Bom Samaritano
Com cenas da parábola do Bom Samaritano, este vitral, localizado à direita depois da entrada do Portal Real, tem 24 painéis narrativos, 10 puramente decorativos, e 29 painéis de borda. Ladrões são mostrados atacando um viajante solitário, representativo da queda da humanidade e, assim como Adão e Eva tiveram que deixar o paraíso (um painel é dedicado ao casal), assim também, o viajante deixa Jerusálem e imediatamente devem enfrentar os desafios do mundo e o pecado (os ladrões). O Bom Samaritano que vem em seu resgate representa Jesus, que leva o homem a uma estalagem e promete retornar para pagar a conta, uma referência a Segunda Vinda no Dia do Julgamento.
O Vitral do Zodíaco
O vitral do zodíaco, localizado logo após o pórtico sul em direção à sacristia, tem cenas agrícolas e os 12 signos do zodíaco para representar o tempo, cada trabalho sendo associado com o período típico do ano em que ocorre, por exemplo, Virgem (Agosto - Setembro) é próximo à prensa da uva. Janeiro é representado com 3 cabeças, simbólico do mês atravessando o ano passado, o presente e o ano novo.
O painel do topo mostra Jesus Cristo entre as letras gregas alfa e ômega, a primeira e a última do alfabeto representando seu papel como criador e último juíz da humanidade. O vitral foi doado pelo Conde Teobaldo VI de Champagne a pedido de Tomas, conde de Perche. Este último foi morto na Batalha de Lincoln em 1217, então sabemos que o vitral foi requisitado antes desse tempo.
O Vitral de Carlos Magno
Exibindo cenas da vida de Carlos Magno, Imperador do Sacro Império Romano-Germânico (reinou 800-814), este vitral, localizado à esquerda da sacristia entre as capelas absidiais, foi doado pelos peleiros (peliças) de Chartres que aparecem no painel mais baixo esquerdo. Há várias cenas de batalha com cavaleiros em armaduras e um mostrando o imperador duelando. O inimigo está nos infiéis da Espanha mourisca, que têm escudos redondos em oposição aos de formato de pipa dos cavaleios ocidentais.
