O Chá na Antiga China e no Antigo Japão

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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O chá foi inicialmente consumido por monges chineses para auxiliar a meditação e por aqueles que valorizavam as suas qualidades medicinais e continua a ser provavelmente a bebida preparada mais popular do mundo. Contudo, a sua popularidade cresceu rapidamente, espalhando-se por outras culturas da Ásia Oriental, especialmente o Japão. Desenvolveu-se uma cerimónia elaborada para a sua preparação e consumo, que procurava fomentar a apreciação e a beleza dos luxos simples da vida. Além disso, os apreciadores de chá podiam exibir discretamente o seu bom gosto e riqueza, não só ao servirem o que era uma mercadoria relativamente cara, mas também ao reservarem a sua melhor porcelana para o beber.

Com livros escritos por especialistas sobre como se comportar e apreciar plenamente o chá, a par de poemas que elogiam a bebida, o ato de beber chá transformou-se numa forma de arte. Assim, a cerimónia do chá tornou-se uma forma simples de escapar por um momento às tribulações de um quotidiano frequentemente agitado — uma função que o consumo de chá ainda desempenha para muitas pessoas hoje em dia.

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Japanese Tea Ceremony
Cerimónia de Chá Japonesa mrhayata (CC BY-SA)

O Chá na Mitologia

Tanto na tradição chinesa como na japonesa, a descoberta do chá é atribuída ao sábio indiano Bodhidharma (também conhecido como Daruma), o fundador do Budismo Chan, percursor do Budismo Zen. Bodhidharma, viajando para difundir a palavra da sua nova doutrina, fundou o templo Shaolin no sul da China (Shorinji para os japoneses). Ali, meditou sentado em frente a uma parede durante nove longos anos. No final desse período, as suas pernas tinham atrofiado e, precisamente no momento em que estava prestes a atingir a iluminação, adormeceu. Enfurecido por ter falhado este último passo, arrancou as suas próprias pálpebras e atirou-as ao chão. Delas brotou um arbusto: a planta do chá.

Uma Bebida Medicinal, um Estimulante e uma Mercadoria

O chá é conhecido por vários nomes: cha em chinês e japonês, ou chai em hindi e urdu. O nome inglês (tea) deriva provavelmente da pronúncia da bebida (the) na província de Fujian, no sudeste da China. A bebida é preparada adicionando água quente às folhas jovens, pontas das folhas e gomos da planta Camellia sinensis, que é nativa do sudoeste da China.

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Acreditava-se também que o chá possuía qualidades medicinais, sendo a cura da ressaca uma delas.

A bebida foi utilizada pela primeira vez por monges budistas por volta do século II a.C., para os auxiliar durante a meditação e para afastar o sono. Acreditava-se também que o chá possuía qualidades medicinais, sendo a cura da ressaca uma delas. Por volta da Dinastia Tang (618-907 d.C.), o chá tinha-se espalhado para além dos mosteiros, tornando-se uma bebida popular entre a fidalguia, os únicos com meios económicos para adquirir uma bebida tão dispendiosa. O chá tornou-se um elemento importante da economia, com grandes propriedades no sudeste do país a cultivarem a planta e a proporcionarem ao governo valiosas receitas fiscais sobre a venda. Entre os homens de negócios mais ricos da China estavam os mercadores de chá, que por esta altura já o exportavam para outros países asiáticos.

O Impacto na Cultura

A moda do consumo de chá gerou também um enorme crescimento na produção de cerâmicas finas, que as pessoas preferiam utilizar para a infusão, para misturar e consumir a bebida, bem como nos elegantes boiões usados para armazenar as folhas de chá. Um dos produtores de bules mais conceituados era Yixing, na província de Jiangsu. Numa cultura onde as exibições ostensivas de riqueza eram vistas com desdém e consideradas vulgares, o uso de uma taça de chá de cerâmica, simples mas dispendiosa, era tudo o que bastava para demonstrar a prosperidade de alguém.

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Chinese Tea Bowl & Stand
Taça de Chã e Suporte de Chá Chineses The British Museum (Copyright)

O consumo de chá tornou-se uma parte tão integrante da cultura chinesa que começou a surgir na arte e na literatura. Um poema célebre de Lu Yu apareceu no seu tratado do século VIII sobre as formas e convenções que deveriam ser aplicadas ao beber chá. O poema é uma nota de agradecimento pelo presente recebido e escrita por Yu sobre um pacote de chá acabado de colher.

Para honrar o chá, fechei o meu portão de giesta,

Para que o vulgo não me interrompa,

E pus o meu barrete de gaze

Para, a sós, o preparar e saborear.

A primeira taça humedeceu suavemente lábios e garganta;

A segunda baniu toda a minha solidão;

A terceira expeliu o torpor da minha mente,

Aguçando a inspiração colhida em todos os livros que li.

A quarta provocou uma leve transpiração,

Dispersando pelos poros as mágoas de uma vida.

A quinta taça purificou cada átomo do meu ser.

A sexta tornou-me semelhante aos Imortais.

A sétima é o limite do que consigo beber -

Sinto uma brisa suave a brotar das minhas axilas.

(in Ebey, pág. 95)

A Difusão

A par de outras práticas culturais, o consumo de chá foi transmitido pela China aos países vizinhos da Ásia Oriental, como o reino de Silla, na Coreia; contudo, em nenhum lugar se tornou tão popular como no Japão, a partir do século VIII. Igualmente, no Japão os primeiros a beber chá foram os monges budistas, e só se tornou moda bebê-lo por volta de 1200. Como a China cultivava as melhores variedades da planta do que as disponíveis no Japão, estas também foram importadas, e não apenas as folhas colhidas.

No Japão, o chá era geralmente preparado ao pisarem-se as folhas e moldando uma bola com amazura (um adoçante extraído de videiras) ou gengibre, que era depois deixada em infusão em água quente. Eventualmente, de novo a partir de 1200, foram abertas escolas de chá especializadas e as pessoas passaram a reservar a sua melhor porcelana para o consumo da bebida.

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A Cerimónia do Chá

Apesar de ter nascido na China o ritual e a cerimónia de servir o chá, foram os japoneses que os tornaram sinónimos da sua própria cultura. A Cerimónia do Chá japonesa é designada por chanoyu, que significa 'água quente para o chá', ou chado ou sado, que significa 'o caminho do chá'. Os convívios em torno do chá começaram por ser eventos algo barulhentos, nos quais os convidados tentavam adivinhar o tipo de chá que estavam a beber; contudo, no século XV, o xogum Ashikaga Yoshimasa pôs fim à prática, tornando todo o evento muito mais sóbrio e contido, oferecendo à classe dominante o cenário perfeito para conversas discretas sobre temas sensíveis.

A cerimónia tipifica o princípio estético japonês de wabi, que é o valor atribuído à apreciação da beleza e da simplicidade nas coisas quotidianas. A aplicação do wabi à cerimónia do chá é creditada ao mestre de chá do século XVI, Sen no Rikyu (1522-1591). Rikyu foi mestre das cerimónias de chá dos senhores da guerra Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi, tendo também promovido o uso dos arranjos florais cuidadosamente elaborados (ikebana) para criar a atmosfera ideal de calma ao beber o chá. Parece que os mestres de Rikyu nem sempre o ouviam, pois Hideyoshi deu uma célebre festa de chá para 800 convidados para celebrar a sua vitória em Kyushu, em 1587. Ainda assim, o monge teve mais sucesso com as gerações subsequentes, à medida que a cerimónia do chá se tornava gradualmente mais distinta e íntima.

Tea House at Koishikawa by Hokusai
Casa de Chá em Koishikawa, Ilustrado por Hokusai Katsushika Hokusai (Public Domain)

O primeiro passo para beber o chá consistia em fazê-lo no local adequado; para os japoneses era no chashitsu ou numa sala de chá dedicada, também conhecida como sukiya ou 'casa do imperfeito', numa alusão à arquitetura originalmente simples da estrutura e aos seus materiais básicos. Os telhados eram de bambu e colmo, as colunas de suporte eram simples e as paredes eram feitas de terra. Este edifício rústico situava-se bastante separado da residência principal (imprimindo imediatamente um requisito aristocrático à cerimónia, pois, como é óbvio, apenas quem tinha posses podia suportar tal luxo). Assim, o provador ou provadores ficavam imediatamente destacados do espaço habitacional quotidiano e, por extensão, das suas vidas comuns. Nos dias de hoje, ainda existem três destas salas de chá originais e estão classificadas como Tesouros Nacionais do Japão. Podem ser encontradas no Myoki-an de Yamazaki, no santuário xintoísta de Minase-gu e no mosteiro Saiho-ji, em Quioto.

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As ombreiras das salas de chá eram habitualmente pequenas, o que pretendia demonstrar que, uma vez lá dentro, todos gozavam de um estatuto de igualdade.

A sala de chá era pequena, geralmente com apenas três metros quadrados; atribui-se a Rikyu a redução do tamanho das divisões anteriormente mais amplas. Tinha uma decoração e serviços mínimos: um sanitário e um tsukubai, que consiste num lavatório de pedra (chozu-bachi) no exterior para a purificação das mãos antes de entrar, acompanhado por várias pedras irregulares dispostas nas proximidades de forma esteticamente agradável. Igualmente no exterior, outro elemento característico é uma lanterna de pedra isolada. De preferência, a sala de chá situar-se-ia no seu próprio pequeno jardim (cha-niwa), com por um caminho de pedras (tobi-ishi) a partir da casa principal. A vegetação consistia de plantas de folha persistente, em vez de flores; com musgo ou relva sob os pés para iniciar o efeito calmante da cerimónia antes mesmo de se entrar na sala.

As ombreiras das portas das salas de chá eram habitualmente baixas, com apenas cerca de 90 cm (3 pés) de altura, o que pretendia demonstrar que, uma vez lá dentro, todos gozavam de um estatuto de igualdade. Alguns historiadores acreditam que a porta impedia a entrada de espadas na sala de chá, sendo esta outra forma de demonstrar que o posto e a ocupação deviam ser abandonados enquanto se bebia o chá. As janelas e os biombos de papel conferiam a luminosidade ao interior.

Map of the Movement of "Tea" & "Cha" Around the Globe
Mapa da Circulação do Chá pelo Mundo Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

Uma vez que existiam muitas escolas de cerimónia do chá, variava igualmente o ensino dos detalhes e da etiqueta de como o chá era preparado e servido utilizando uma concha especial, ou os gestos contidos que se deveriam empregar. A água era geralmente fervida sobre o carvão numa chaleira de ferro, e o chá era forte, verde e amargo. Comum a todas as cerimónias era, também, a exigência de utilizar a melhor porcelana possível, especialmente a taça de chá ou chawan, usada para beber.

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A História Posterior

O chá era consumido de forma tão generalizada e tornara-se um negócio de tal envergadura no século XVI que acabou por suscitar o interesse dos mercadores europeus, nomeadamente os de Portugal e dos Países Baixos. O chá foi introduzido na Europa em 1607 e, por volta do século XIX, a bebida tornara-se tão popular no continente que os consumidores podiam escolher entre o chá chinês, o indiano e o de Ceilão (presentemente o Sri Lanka). O chá destes dois últimos países era mais forte e, por isso, o preferido — especialmente pelos britânicos, que tinham incentivado o seu cultivo na Índia colonial. Ainda assim, o chá representava 80% das exportações totais da China para a Europa no início do século XIX.

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Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
A tradução faz parte do meu ser, desde interpretar o mundo até dominar a arte da transferência linguística. Cursos em turismo, literatura e história culminaram no meu papel como autora independente e coautora de coleções de contos literários.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
O Mark é o Diretor Editorial da WHE e é mestre em Filosofia Política pela Universidade de York. Investigador a tempo inteiro, é também escritor, historiador e editor. Os seus interesses particulares incluem a arte, a arquitetura e a descoberta das ideias partilhadas por todas as civilizações.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2026, março 30). O Chá na Antiga China e no Antigo Japão. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1093/o-cha-na-antiga-china-e-no-antigo-japao/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "O Chá na Antiga China e no Antigo Japão." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, março 30, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1093/o-cha-na-antiga-china-e-no-antigo-japao/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "O Chá na Antiga China e no Antigo Japão." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 30 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1093/o-cha-na-antiga-china-e-no-antigo-japao/.

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