Ciro, o Grande

Daan Nijssen
por , traduzido por Victor Fraga
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Cyrus the Great (by Siamax, CC BY-SA)
Ciro, o Grande Siamax (CC BY-SA)

Ciro II (falecido em 530 a.C.), também conhecido como Ciro, o Grande, foi o quarto rei de Anshan e o primeiro rei do Império Aquemênida. Ciro liderou diversas campanhas militares contra os reinos mais poderosos da época, incluindo Média, Lídia e Babilônia. Através dessas campanhas, ele unificou grande parte do Oriente Médio sob a hegemonia persa, mantendo a administração local praticamente intacta. Ao garantir certa continuidade e, assim, conquistar a lealdade da elite, ele estabeleceu os alicerces para o Império Aquemênida.

JUVENTUDE

Pouco se sabe sobre a juventude de Ciro. As muitas tradições orais ligadas ao seu nascimento e juventude são preservadas apenas nas obras de autores gregos como Heródoto, Ctésias e Xenofonte, que apresentam relatos contraditórios de natureza predominantemente lendária. De acordo com o relato mais conhecido de Heródoto, Ciro era filho do rei persa Cambises (cerca de 580-559 a.C.) e da princesa meda Mandane, filha do rei medo Astíages (585-550 a.C.). Ctésias, no entanto, explicitamente contradiz Heródoto, afirmando que Ciro era filho de um bandido persa chamado Artadates e de sua esposa Argoste, uma pastora de cabras. Segundo Ctésias, Ciro serviu na corte de Astíages como copeiro-chefe antes de depô-lo. Após o golpe, Ciro adotou Astíages como pai e casou-se com sua filha, Amitis.

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Conforme inscrições aquemênidas contemporâneas, como o Cilindro de Ciro e a Inscrição de Bisitun, Ciro era rei de Anshan (um reino em Fars com uma população mista de elamitas e persas) e filho de Cambises. Porém, é importante destacar que as inscrições aquemênidas nunca mencionaram qualquer relação genética entre Ciro e Astíages. Embora o casamento entre famílias reais iranianas seja certamente uma possibilidade, também é possível que Ciro só tenha alegado ser neto de Astíages com intuito de ganhar legitimidade (conforme Heródoto) e que tenha se casado com a filha de Astíages, Amitis., pelo mesmo motivo (conforme Ctésias). Finalmente, Heródoto, Ctésias e Xenofonte estão de acordo que Ciro passou parte de sua juventude na corte de Astíages. Isso pode ter fundamento histórico, bem como também pode ser apenas por causa lendária.

Childhood of King Cyrus
Infância do Rei Ciro Lgtrapp (Public Domain)

CONQUISTA DE ECBÁTANA

O primeiro grande feito de Ciro foi a conquista de Ecbátana, a capital mediana governada por Astíages. Este evento é mencionado primeiramente em duas fontes babilônicas contemporâneas: o Cilindro de Nabonido de Sipar e a Crônica de Nabonido. Heródoto também nos relata detalhadamente este evento. De acordo com o Cilindro de Nabonido de Sipar, Ciro, rei de Anshan, rebelou-se contra seu suserano, o rei medo Astíages, em 553 a.C. Após derrotar as "vastas hordas medas" com seu "pequeno exército", ele capturou Astíages e o trouxe de volta para sua terra natal. A Crônica de Nabonido afirma, em contrapartida, que Astíages marchou contra Ciro em 550 a.C., mas seu exército se rebelou, fazendo-o de refém e entregando-o a Ciro. Ciro então capturou Ecbátana e levou os espólios. A discrepância nas datas entre essas duas fontes pode ser explicada ao assumir que Ciro iniciou sua rebelião em 553 a.C., que Astíages marchou contra Ciro em 550 a.C. e que a rebelião no exército medo aconteceu durante essa campanha.

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Ciro poupou a vida de Astíages &, segundo Ctésias, ele até se casou com a filha de Astíages, Amitis, apresentando-se como o legítimo sucessor de Astíages como rei dos medos.

O relato de Heródoto concorda em grande parte com a Crônica de Nabonido. Heródoto afirma que Hárpago, um nobre medo, encorajou Ciro a se rebelar contra Astíages, que o havia injustiçado no passado. Hárpago buscou apoio entre os outros nobres medos que também estavam descontentes com o governo de Astíages. Astíages, ao saber da rebelião de Ciro, apontou o mesmo Hárpago para liderar o exército medo contra Ciro. Quando os exércitos medo e persa se encontraram, Hárpago e os outros nobres se juntaram a Ciro como planejado. Todas as fontes concordam que Ciro poupou a vida de Astíages. Se acreditarmos em Ctésias, Ciro inclusive adotou Astíages como pai e casou-se com sua filha, Amitis, apresentando-se como o legítimo sucessor de Astíages como rei dos medos. Costuma-se presumir que Ciro tomou todas as terras que foram conquistadas pelos medos, as quais, de acordo com Heródoto, abrangiam toda a Ásia, exceto pela Assíria. Porém, pesquisas recentes concluem que o território dos medos era muito menor ou até mesmo que não havia Império Medo. Ainda assim, é plausível que o poder e o prestígio de Ciro no planalto iraniano tenham aumentado consideravelmente depois dessa vitória.

CONSTRUÇÃO DE PASÁRGADA

Depois de sua vitória sobre Astíages, Ciro fundou a cidade de Pasárgada no local da batalha. Pasárgada serviu como uma capital cerimonial nos primórdios do Império Aquemênida e nunca foi destinada a abrigar uma grande população. A cidade é composta de várias construções monumentais espalhadas pela planície de Murghab, com destaque para Tall-e Takht (uma cidadela de pedra no topo de um monte íngreme), Palácio P (um edifício residencial), Palácio S (um salão de audiências colunado) e, por fim, os túmulos de Ciro e seu filho Cambises.

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Pasargadae Palace
Palácio de Pasárgada dynamosquito (CC BY-SA)

Os monumentos de Pasárgada contêm influência de toda parte, incluindo esculturas em estilo assírio e alvenaria em estilo jônico. Acredita-se que o Túmulo de Ciro represente um zigurate mesopotâmico ou elamita com uma câmara em estilo urartiano no topo. Pasárgada floresceu apenas por um breve período, com Persépolis assumindo seu papel como capital cerimonial em 515 a.C.

CONQUISTA DE LÍDIA

Ciro conquistou a Lídia em algum momento entre a queda de Ecbátana (550 a.C.) e a queda da Babilônia (539 a.C.). A Crônica de Nabonido relata que Ciro conduziu uma campanha a oeste do Tigre em 547 a.C., porém, a maioria dos estudiosos concorda que essa campanha tinha um objetivo diferente. Heródoto afirma que foi Creso (560-547 a.C.), rei da Lídia, que iniciou a guerra ao cruzar o Rio Hális e saquear Pteria, uma cidade da Capadócia dentro da esfera de influência dos medos. Creso era aliado e cunhado de Astíages e, após saber que Ciro o havia deposto, jurou vingá-lo. Os dois exércitos se encontraram próximo de Pteria, mas a batalha acabou em impasse. Quando Creso decidiu retornar com seu exército para casa devido ao inverno, Ciro o perseguiu até Lídia e o confrontou uma segunda vez perto de Timbra. Ciro enviou dromedários para dispersar a cavalaria lídia, forçando Creso a recuar para dentro de sua capital, Sardes, que caiu depois de 14 dias de cerco.

Empire of Cyrus the Great
Império de Ciro, o Grande SG (CC BY-SA)

Não é consenso o que aconteceu com Creso após sua última derrota. Heródoto, Ctésias e Xenofonte concordam que Ciro ameaçou punir Creso primeiro, mas ao se apiedar dele, teria o nomeado seu conselheiro pessoal. Até agora, parece plausível que Creso tenha sobrevivido à queda de Sardes. No entanto, alguns estudiosos consideram esses relatos lendários e acreditam que Ciro tenha executado Creso. Após a queda de Sardes, Ciro colocou um lídio chamado Pactyes no comando do tesouro de Creso. A tarefa de Pactyes era enviar os tesouros para a Pérsia, contudo, em vez disso, ele organizou uma revolta, contratando mercenários. Ciro enviou seu general Mazares para reprimir a rebelião, mas devido à sua morte prematura, foi Hárpago quem completou a conquista da Ásia Menor, capturando as cidades de Lícia, Cilícia e Fenícia por meio de terraplanagem.

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OUTRAS CAMPANHAS

Por volta da década de 540 a.C., Ciro deve ter conquistado os báctrios e sacas. Segundo Ctésias, quando os báctrios souberam que Ciro havia tratado Astíages com respeito, eles voluntariamente se renderam, implicando que os báctrios haviam sido súditos ou aliados de Astíages. Depois de consolidar sua influência sobre a parte oriental do planalto iraniano, Ciro voltou-se para os nómadas Sacas. Ele capturou o rei saca Amorges, mas sua esposa Sparethra (Esparetra,) reuniu um exército de 300.000 homens e 200.000 mulheres e derrotou Ciro em batalha. Ciro libertou Amorges e os dois reis tornaram-se aliados, atacando a Lídia juntos. Se este relato for verdadeiro, Ciro pode ter conquistado os báctrios e os sacas antes da conquista da Lídia. Enfim, Ciro deve ter conquistado a região da Armênia em meados do século VI a.C., possivelmente nomeando seu aliado Tigranes Orontid como rei da Armênia.

CONQUISTA DA BABILÔNIA

Em 539 a.C., Ciro invadiu o Império Babilônico, seguindo as margens do Gyndes (Diyala/Diiala) a caminho da Babilônia. Ele teria cavado canais para desviar o curso do rio, facilitando sua travessia. Ciro confrontou e derrotou o exército babilônico próximo a Ópis, onde o Diyala deságua no Tigre. Em seguida, o povo de Sipar abriu os portões para ele sem resistência. O rei babilônico Nabonido fugiu e Ciro enviou seu servo Ugbaru, governador de Gútio, para capturar a Babilônia. Ugbaru capturou as zonas periféricas da Babilônia, com apenas o distrito do templo de Esagila permanecendo sob controle babilônico. Depois de duas semanas, Ciro foi recebido na Babilônia com festividades.

Com a Babilônia sob controle persa, Ciro pôde acrescentar o título de "rei da Babilônia" ao seu nome. Ele herdou todos os territórios que pertenceram ao Império Babilônico e aparentemente não teve problemas em pacificar essas regiões. Na verdade, Hárpago já teria conquistado grande parte da costa do Mediterrâneo antes de Ciro atacar a Babilônia. Ciro agora não só governava a rica costa do Mediterrâneo como também os vales férteis da Mesopotâmia.

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CILINDRO DE CIRO

Não muito depois da conquista da Babilônia, Ciro encomendou uma inscrição em pedra em seu nome. Essa inscrição, mais conhecida como Cilindro de Ciro, serviu para explicar e justificar a conquista da Babilônia por Ciro ao público babilônico. O documento apela fortemente aos ideais babilônicos de realeza. Nabonido é descrito como um rei incompetente e ímpio, enquanto Ciro é apontado como um salvador divinamente escolhido.

Cyrus Cylinder
Cilindro de Ciro kourosh e kabir (CC BY-SA)

O Cilindro de Ciro começa afirmando que Nabonido negligenciou o culto a Marduk, o deus patrono da Babilônia. Nabonido de fato preferia o deus da lua Sin ao deus nacional Marduk, então pode haver alguma verdade aqui. Ainda assim, é provável que a negligência ao culto de Marduk fosse fortemente exagerada. Nabonido também impôs trabalhos forçados ao seu povo, talvez em preparação para a invasão persa. Marduk, sentindo pena do povo da Babilônia, percorre todas as terras por um rei verdadeiramente justo, finalmente escolhendo Ciro de Anshan. Marduk leva Ciro à vitória contra os medos e o ajuda a capturar a Babilônia sem necessidade de luta.

Ciro então se apresenta como rei da Babilônia, rei de Anshan, descendente de Teispes e favorito de Marduk. Ele afirma que não saqueou a cidade, que não assustou ninguém, que adorava Marduk diariamente e que libertou o povo da Babilônia dos trabalhos forçados impostos por Nabonido. Ciro também afirma ter devolvido os ídolos que Nabonido havia trazido para a Babilônia de templos por toda a Mesopotâmia, juntamente com seus funcionários. Ciro encerra seu discurso com uma oração a Marduk e uma descrição de suas atividades de construção.

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RELIGIÃO DE CIRO

Embora seja frequentemente presumido que Ciro era um zoroastriano, não há fontes contemporâneas que o descrevam como um seguidor de Zaratustra ou mesmo um adorador de Ahura Mazda. Na verdade, o Zoroastrismo, como conhecemos hoje, pode nem sequer ter existido durante a vida dele. As crenças e práticas associadas com o Zoroastrismo não foram padronizadas até o final do período Sassânida. Antes disso, não havia ortodoxia e os iranianos aderiam a uma ampla gama de crenças e práticas vagamente relacionadas. Ahura Mazda era apenas um dentre muitos deuses iranianos e Zaratustra era só um profeta que por acaso favorecia Ahura Mazda acima de todo o resto. Levando isso em conta, é provável que Ciro fosse um politeísta, tendo crescido cultuando os deuses iranianos tradicionais. Xenofonte o descreve prestando juramento a Mitra, o deus iraniano dos pactos, mas ele pode ter recorrido a outros deuses para outros fins. Portanto, não é de se surpreender que Ciro ofereça sacrifícios aos deuses babilônicos Marduk e Nabu. Esse era o método que encontrava de aplacar os deuses das terras que conquistava.

MORTE

Assim como seu nascimento e juventude, pouco se sabe sobre os últimos nove anos da vida de Ciro. Heródoto relata que Ciro morreu enfrentando os Masságetas, povo nómada que vivia para além do Iaxartes. Rainha Tômiris dos Masságetas supostamente teria decapitado Ciro para se vingar da morte de seu filho por suas mãos. Ctésias afirma, por sua vez, que Ciro morreu tentando reprimir uma revolta dos Derbices, outro povo nómada da Ásia Central, enquanto Berossus relata que Ciro morreu lutando contra os nómadas Dahae. É provável que Ciro de fato tenha morrido na Ásia Central tentando expandir sua influência pela região. A partir de cartas babilônicas, sabe-se que Ciro morreu antes de dezembro de 530 a.C. Ele foi enterrado em seu túmulo em Pasárgada, junto com seu manto, suas armas e suas joias. Após sua morte, Ciro foi sucedido por seu filho Cambises II.

Tomb of Cyrus
Tumba de Ciro Sebastià Giralt (CC BY-SA)

LEGADO

Entre o início de sua revolta contra Astíages em 553 a.C. e sua morte em 530 a.C., Ciro uniu sob seu domínio todas as terras entre o Mar Egeu e o Iaxartes. Por meio de várias campanhas rápidas, ele destronou muitos reis poderosos, substituindo-os por sátrapas persas ou reivindicando o título de "rei" para si. Dessa forma, estabeleceu o domínio persa sobre todo o Oriente Médio. Após conquistar um reino, Ciro normalmente permitia que as autoridades locais mantivessem suas posições. Dessa maneira, a infraestrutura administrativa permanecia intacta. Ele também se adaptou às práticas culturais e religiosas dos territórios que conquistava, ganhando assim o respeito de seus súditos e assegurando a lealdade das tradicionais elites dos reinos subjugados, como a nobreza meda e o sacerdócio babilônico.

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Cyrus the Great (Artist's Impression)
Ciro, o Grande (Representação Artística) Mohawk Games (Copyright)

Para compreendermos verdadeiramente a importância da política de Ciro em relação à população subjugada, é fundamental lembrar que o Império Aquemênida, na época, era essencialmente uma coleção de reinos conquistados por Ciro. Esse império se mantinha unido principalmente pela lealdade pessoal ao rei. Com o tempo, a "estrutura imperial" do Império Aquemênida se tornou mais padronizada, especialmente depois das reformas de Dário, mas foi Ciro, através de suas conquistas e habilidade em inspirar lealdade entre seus súditos, quem estabeleceu os alicerces do Império Aquemênida.

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Bibliografia

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Sobre o Tradutor

Victor Fraga
Victor Fraga, tradutor iniciante em busca de contribuir com trabalho voluntário para disseminação da história. Formado em relações internacionais.

Sobre o Autor

Daan Nijssen
Daan Nijssen é graduado em Estudos Antigos (mestrado) pela Universidade VU, com especialização em Língua e Cultura Neobabilônica/Assíria. Após a graduação, continuou a ler e escrever sobre diversos tópicos relacionados à sua área de pesquisa.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Nijssen, D. (2026, março 06). Ciro, o Grande. (V. Fraga, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-306/ciro-o-grande/

Estilo Chicago

Nijssen, Daan. "Ciro, o Grande." Traduzido por Victor Fraga. World History Encyclopedia, março 06, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-306/ciro-o-grande/.

Estilo MLA

Nijssen, Daan. "Ciro, o Grande." Traduzido por Victor Fraga. World History Encyclopedia, 06 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-306/ciro-o-grande/.

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