"Guerra de Mentira"

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Anderson Shelter, London (by Imperial War Museums, CC BY-NC-SA)
Abrigo Anderson, Londres Imperial War Museums (CC BY-NC-SA)

A "Guerra de Mentira" (Phoney War) foi o período desde o início da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando a Grã-Bretanha e a França declararam guerra à Alemanha a 3 de setembro, até ao início de ações militares significativas no Ocidente na primavera de 1940. Enquanto a Polónia suportava o peso da agressão alemã, os civis da Europa Ocidental aguardavam ansiosamente a sua vez.

Hitler Invade a Polónia

Adolf Hitler (1889-1945), líder da Alemanha Nazi, tinha prosseguido uma política externa persistentemente agressiva ao longo da década de 1930, quebrando as restrições impostas pelo Tratado de Versalhes, que tinha concluído formalmente a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), formando o Anschluss, ou união, com a Áustria e ocupando os Sudetas checos em 1938. Potências como a Grã-Bretanha e a França, temendo os custos terríveis de outra guerra mundial, tinham optado por uma política de apaziguamento em relação a Hitler, mas finalmente tomaram uma posição após a ocupação da Checoslováquia por Hitler em março de 1939, quando o líder nazi ameaçou a Polónia a seguir. A Grã-Bretanha e a França prometeram proteger a Polónia no caso de um ataque e, por isso, a invasão da Polónia em 1939 resultou na declaração de guerra de ambos os países a Hitler, caso ele não se retirasse. Esta declaração foi feita a 3 de setembro, mas Hitler não respondeu e prosseguiu com o seu plano de invasão, dividindo a Polónia com a URSS, conforme tinha sido acordado no Pacto Nazi-Soviético no mês anterior.

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Na realidade prática, dadas as distâncias geográficas envolvidas, tanto a Grã-Bretanha como a França pouco podiam fazer para ajudar o governo polaco em termos de ajuda militar – uma das principais razões pelas quais Hitler acreditava que a sua invasão não levaria à Segunda Guerra Mundial. Entretanto, os EUA seguiam uma política isolacionista e a Itália, por enquanto, permanecia neutra. Talvez se a França tivesse mobilizado o seu exército e atacado a Alemanha a partir do oeste, Hitler pudesse ter recuado, mas os generais franceses já tinham depositado a sua fé não na ofensiva, mas na defesa. A Grã-Bretanha também não fez nada de prático, como notou o membro do Parlamento Robert Boothby (1900-1986): "Tínhamos entrado em guerra para a defesa da Polónia, tínhamos dado uma garantia unilateral à Polónia e, no final, não fizemos nada para ajudar a Polónia" (Holmes, pág. 74).

O termo "Guerra de Mentira" foi cunhado por um jornal dos EUA.

Enquanto os polacos suportavam o peso total das táticas de guerra de alta velocidade Blitzkrieg ("guerra-relâmpago") da Alemanha, foi apenas na primavera de 1940 que os povos da Europa Ocidental se envolveram diretamente na guerra. Este período inicial de inatividade militar no Ocidente, quando todos esperavam que as bombas, o fogo de artilharia e os tanques chegassem a qualquer momento, foi chamado de "Guerra de Mentira" (Phoney War). O termo foi cunhado por um jornal dos EUA. Parte da imprensa britânica descreveu o período como a "Guerra do Tédio" (Bore War), enquanto o Primeiro-Ministro Neville Chamberlain (1869-1940) apelidou-o de "Guerra do Crepúsculo" (Twilight War). Em França, o mesmo período foi chamado de la drôle de guerre ("Guerra Estranha"), enquanto na Alemanha foi designado por Sitzkrieg ("Guerra Sentada").

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A Europa nas Vésperas da Segunda Guerra Mundial 1939
A Europa nas Vésperas da Segunda Guerra Mundial, 1939 Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A França

O governo francês aproveitou a "Guerra de Mentira" (Phoney War) para aumentar o rearmamento:

Nos primeiros seis meses de 1940, as fábricas anglo-francesas produziram 1.412 tanques, em comparação com a produção alemã de 558. O caos na produção aeronáutica francesa estava a ser corrigido, elevando a produção de aviões anglo-francesa para 6.794, o dobro da alemã.

(Deighton, págs. 171-2)

No terreno, o exército francês fez apenas os movimentos militares mais hesitantes contra a Alemanha, apesar do facto de a artilharia francesa poder facilmente disparar para território alemão sem sair da linha defensiva Maginot. A Linha Maginot, nomeada em honra do ministro da guerra francês André Maginot, era uma linha massiva de defesas estáticas composta por bunkers, fortificações, armas pesadas e túneis subterrâneos que, esperava-se, protegeriam a fronteira da França com a Alemanha. Uma incursão em torno de Saarbrücken foi o mais longe que o exército francês chegou no que toca a qualquer envolvimento militar significativo com o inimigo. Pelo contrário, após rejeitarem planos extravagantes de combater a Alemanha em locais distantes, como os campos petrolíferos do Cáucaso, o alto comando francês contentou-se em ficar atrás do que considerava ser as inexpugnáveis defesas da Linha Maginot, que estavam agora guarnecidas por uma força formidável de 400.000 soldados bem treinados. Como se veio a verificar, os generais alemães contornaram a Linha Maginot atacando através das regiões das Ardenas e de Sedan, na fronteira belga, um terreno considerado totalmente inadequado para tanques. A aposta da França na defesa provou ser uma loucura.

A Grã-Bretanha

A Força Expedicionária Britânica (BEF - British Expeditionary Force), que consistia em cerca de 150.000 homens e 12 esquadrões da Real Força Aérea (RAF - Royal Air Force), esteve presente na Europa Continental durante a "Guerra de Mentira", mas fez pouco mais do que realizar patrulhas em torno da zona fronteiriça belga. A Força Expedicionária Britânica foi reforçada até à primavera de 1940 para cerca de 400.000 homens, mas estes ainda eram, na sua maioria, infantaria, pelo que o exército carecia dos tanques essenciais para enfrentar a força altamente mecanizada do inimigo. Tal como o exército francês, a Grã-Bretanha equipou a Força Expedicionária Britânica como uma força defensiva, e não ofensiva. Essencialmente, o governo britânico esperava que a Força Expedicionária Britânica mantivesse o status quo enquanto o exército francês e a sua Linha Maginot davam tempo para que o rearmamento continuasse a bom ritmo. Esperava-se também que um bloqueio naval à Alemanha reduzisse de tal forma os seus recursos que Hitler atrasaria ou até abandonaria um ataque no Ocidente. Mais uma vez, estas esperanças seriam, em breve, totalmente frustradas.

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British Expeditionary Force, France
Força Expedicionária Britânica, França E.A. Taylor - Imperial War Museums (CC BY-NC-SA)

O governo britânico, especialmente enquanto ainda era liderado por Neville Chamberlain (primeiro-ministro de maio de 1937 a maio de 1940), estava particularmente preocupado com ataques aéreos. Embora a Real Força Aérea pudesse atacar a Alemanha, o governo estava bem consciente de que se seguiriam ataques de vingança, talvez contra cidades britânicas, e não meramente contra alvos militares. Existiam, também, alguns escrúpulos quanto ao que constituía alvos legítimos; num relatório oficial, a fábrica de munições alemã em Essen foi considerada fora de limites, uma vez que era "propriedade privada". Houve um ataque de bombardeamento a alguns navios navais em Wilhelmshaven, uma vez que este ataque não foi considerado tão "deselegante" como atingir alvos em terra. Estas delicadezas seriam varridas assim que o conflito começasse a sério, mas, durante a "Guerra de Mentira", ainda havia muita esperança ingénua de que tudo se resolveria através da diplomacia, e antes que golpes pesados se tornassem necessários. Uma voz a favor de uma conduta mais agressiva na guerra foi a de Winston Churchill (1874-1965), então Primeiro Lorde do Almirantado. Churchill defendeu o lançamento de minas no Reno, mas o governo francês vetou o plano.

Hitler parecia igualmente cauteloso em iniciar uma guerra aérea com a Grã-Bretanha.

Pelo menos a produção de armamento estava a ganhar ritmo, como referido anteriormente, e as defesas aéreas da Grã-Bretanha e a rede de estações de radar, o que viria a ser conhecido como o Sistema Dowding, foram todas grandemente melhoradas. Fortemente dependente de voluntários, o Serviço de Guardiões de Ataque Aéreo (Air Raid Wardens' Service) tinha recrutado 750 000 guardiões até setembro de 1939. Em antecipação aos ataques de bombardeamento, o serviço de bombeiros da Grã-Bretanha foi expandido, passando a contar com 75 000 membros, 85% dos quais eram auxiliares. Da mesma forma, o Serviço Voluntário Feminino para a Defesa Civil tinha angariado 300 000 voluntários até 1939.

Hitler parecia igualmente cauteloso em iniciar uma guerra aérea com a Grã-Bretanha. A força aérea alemã (Luftwaffe) recebeu luz verde para bombardear um alvo o mais remoto possível, as Ilhas Shetland, que foram atingidas a 13 de novembro de 1939. Hitler sabia perfeitamente que as suas forças armadas ainda estavam um pouco atrás das da Grã-Bretanha e da França, pelo que qualquer atraso no envolvimento com estas era bem-vindo e permitia-lhe concentrar-se na Polónia. Por estas razões, as primeiras baixas do serviço militar britânico em França só ocorreram em dezembro de 1939.

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Retracting Gun Turret, Maginot Line
Torre de Artilharia Retrátil, Linha Maginot Association des Amis de la Ligne Maginot (CC BY-SA)

Foi no mar que a Grã-Bretanha levou a luta até à Alemanha. Um dos primeiros ataques a navios britânicos ocorreu nas águas ao largo das Hébridas Escocesas, contra o paquete Athenia. O navio de 13.500 toneladas foi atingido a 3 de setembro por um torpedo disparado por um submarino (U-boat). 128 pessoas morreram no incidente. A Marinha Real perdeu depois o couraçado HMS Royal Oak em outubro, novamente devido a um submarino. A vingança foi obtida na Batalha do Rio da Prata, na América do Sul, em dezembro, onde o capitão alemão do "couraçado de bolso" Admiral Graf Spee foi ludibriado, acabando por afundar o seu próprio navio.

A Perspetiva dos Civis

Os civis na Grã-Bretanha podiam sentir-se aliviados por permanecerem incólumes face aos combates que decorriam noutros lugares, mas havia muitos incómodos com que lidar. O governo britânico insistiu que as luzes se apagassem à noite – o blackout – para evitar que os aviões inimigos tivessem alvos fáceis. Sem iluminação pública e com os veículos obrigados a usar apenas luzes reduzidas, ocorreram milhares de acidentes durante o apagão, muitos deles fatais. Locais de entretenimento como teatros, cinemas e salas de música foram temporariamente encerrados e, quando reabriram, a lotação foi reduzida como precaução contra um impacto direto de uma bomba. As mesmas restrições foram aplicadas a estádios desportivos. Os hospitais foram esvaziados de todos, exceto dos pacientes mais necessários, para dar lugar ao que se imaginava que seria uma vaga gigantesca de baixas de guerra. Abrigos antiaéreos surgiram em todo o lado, a maioria deles mal construídos. As crianças (com idades entre os 5 e os 14 anos, a idade de saída da escola na época) foram separadas dos pais à medida que o governo incentivava um sistema de evacuação para áreas rurais mais seguras. A evacuação de crianças na Grã-Bretanha em tempo de guerra separou famílias e causou frequentemente traumas, mas o plano, apesar de uma breve reversão à medida que a "Guerra de Mentira" se prolongava e os pais se tornavam céticos quanto à sua necessidade, envolveu eventualmente 6 milhões de mulheres e crianças.

Como o governo temia a ameaça aos navios mercantes e às rotas de abastecimento vitais da nação, a "Guerra de Mentira" assistiu ao racionamento. O racionamento na Grã-Bretanha em tempo de guerra envolvia restrições à quantidade de géneros alimentícios não essenciais, combustível e vestuário que as pessoas podiam comprar. Havia muitas outras regras que as pessoas tinham de seguir, uma vez que "foram aprovadas mais leis de emergência nas primeiras duas semanas da guerra do que no primeiro ano da Primeira Guerra Mundial" (Dear, pág. 691). As janelas eram cobertas com fita adesiva para evitar que o vidro estilhaçado pelas bombas voasse para todo o lado, e os sinais de trânsito foram removidos para não ajudar os paraquedistas inimigos. As pessoas eram encorajadas a transportar máscaras de gás em todos os momentos, a cultivar os seus próprios vegetais e a aprender as silhuetas dos aviões inimigos para que pudessem reportar com precisão os avistamentos às autoridades. Os ministérios do governo começaram a emitir cartazes de propaganda demonizando o inimigo e alertando os civis para o perigo das conversas descuidadas e do desperdício de materiais vitais.

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Policeman Helping Child Evacuees
Polícia a Ajudar Crianças Evacuadas Imperial War Musuems (CC BY-NC-SA)

À medida que a "Guerra de Mentira" se prolongava e sem que nenhuma bomba caísse de facto, as pessoas começaram a ver as restrições como irritações desnecessárias. O bombardeamento chegaria em breve. A primeira vítima civil britânica foi morta durante um ataque aéreo a Scapa Flow, a base naval nas Órcades, a 16 de março de 1940. O devastador Blitz de Londres, com os seus ataques quase noturnos, começou em setembro de 1940 e durou até maio de 1941.

A Guerra Começa no Ocidente

A Segunda Guerra Mundial começou na Europa Ocidental na primavera de 1940 quando, após um período de mau tempo, que tinha atrasado ainda mais os planos de Hitler, ter passado, o exército alemão ocupou a Dinamarca e depois atacou a Noruega a 9 de abril. Seguiu-se a vez dos Países Baixos, Bélgica e França enfrentarem as táticas de Blitzkrieg da Alemanha, onde tanques, artilharia, infantaria e aeronaves foram usados em conjunto e com rapidez para subjugar o inimigo. Tão rápido foi o colapso das defesas francesas que a Força Expedicionária Britânica foi obrigada a fazer uma retirada apressada para a Grã-Bretanha com a Evacuação de Dunquerque (10 de julho a 31 de outubro de 1940). Paris foi ocupada a 14 de junho. O governo francês rendeu-se a 22 de junho. A Queda da França ocorreu em questão de semanas. O povo britânico temia agora uma invasão iminente pela Alemanha, um evento que, como se verificou, nunca se concretizou, graças ao sucesso da Real Força Aérea na Batalha da Grã-Bretanha. Para muitos, a Segunda Guerra Mundial tinha levado algum tempo a começar, mas haveria mais seis anos de dificuldades antes que os Aliados vencessem finalmente o conflito em 1945.

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Perguntas & Respostas

O que fez a Grã-Bretanha durante a «Guerra de Mentira»?

Durante a «Guerra de Mentira», a Grã-Bretanha impôs um bloqueio à Alemanha, continuou a rearmar-se e preparou a população civil para um estado de guerra através de medidas como o apagão, o racionamento e a evacuação das crianças das cidades.

Como é que os alemães e os franceses chamavam à «Guerra de Mentira»?

Na Alemanha, a «Guerra de Mentira» era conhecida como «Sitzkrieg» («Guerra Sentada»), enquanto em França era chamada de «la drôle de guerre» («Guerra Estranha»).

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Cartwright, M. (2026, junho 30). "Guerra de Mentira". (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23861/guerra-de-mentira/

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Cartwright, Mark. ""Guerra de Mentira"." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, junho 30, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23861/guerra-de-mentira/.

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Cartwright, Mark. ""Guerra de Mentira"." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 30 jun 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-23861/guerra-de-mentira/.

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