Malaca Portuguesa

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
Versão Áudio Imprimir PDF
Map of the Strait of Malacca (by US Department of Defense, Public Domain)
Mapa do Estreito de Málaca US Department of Defense (Public Domain)

Os portugueses colonizaram Malaca (atual Melaka) na costa sudoeste da península malaia de 1511 a 1641, quando os holandeses assumiram o controlo. O porto controlava o Estreito da Malásia, que vai do Oceano Índico (Mar de Andamão) ao Mar da China Meridional e, portanto, Malaca era tanto um entreposto comercial regional como inter-regional.

Geografia e História Antiga

Malaca foi fundada por volta de 1400 pelo governante de Singapura Paramesvara (1344-1424) conjuntamente com os seus seguidores, com os colonos de Sumatra (de onde provinha) e com a população indígena que vivia no que era então apenas um local piscatório. A sua localização geográfica entre o Oceano Índico e o Mar da China Meridional permitiu-lhe filtrar o comércio entre a Índia e a China. Os comerciantes navegavam entre a península malaia e a ilha de Sumatra através do estreito de Malaca, a rota marítima mais curta entre as duas áreas, mas era perigosa, com muitos baixios e bancos de areia instáveis. Malaca está localizada na foz do rio Melaka e fica a cerca de 150 km (93 mi) ao norte de Singapura.

Remover publicidades
Publicidade
UMA FROTA NAVAL LIDERADA POR AFONSO DE ALBUQUERQUE CONQUISTOU MALACA E ESTABELECEU O DOMÍNIO PORTUGUÊS EM 1511.

O Islão chegou à região e o governante de Malaca, que se tinha convertido, encorajou os comerciantes muçulmanos, tendo-se tornado o entreposto comercial mais importante da região por onde passavam mercadorias tão procuradas como o ouro, as especiarias, a seda e o chá. Comerciantes da Dinastia Ming China (1368-1644) visitavam-na regularmente, incluindo o célebre comerciante-explorador Zheng He (1371-1433). A riqueza e o poder do porto permitiram-lhe obter o controlo da maior parte das regiões da Malásia e de Sumatra, embora fosse necessária uma defesa naval para manter sob controlo o vizinho a norte, o Sião (Tailândia). No final do século XV, menos de cem anos após a sua fundação, o Sultanato de Malaca ostentava uma comunidade internacional de 15.000 comerciantes.

[imagem:14360]

O Império Português

Os portugueses estiveram ocupados na construção de um império, desde 1497-1499, quando Vasco da Gama (1469-1524) contornou o Cabo da Boa Esperança e mostrou as possibilidades de uma rota marítima entre a Europa e a Ásia, Cochim portuguesa foi fundada em 1503 e Goa portuguesa foi fundada em 1510, ambas na Índia. A partir da costa oeste da Índia, os portugueses começaram a procurar uma base na Malásia, que pudesse servir de trampolim para novos portos no Sudeste Asiático e no Leste Asiático.

Remover publicidades
Publicidade

Os portugueses chegaram a Malaca em 1509 e foram atraídos pelo belo porto natural, e regressam dois anos depois, em força, com uma frota liderada por Afonso de Albuquerque (1453-1515) que capturou o porto disparando os canhões superiores e queimando pelo menos 12 navios fundeados no porto. Um grupo de desembarque fez bom uso das armas de fogo e eliminou o pequeno exército do sultão, que incluía elefantes de guerra. Os portugueses foram auxiliados por mercadores hindus de Coromandel, interessados ​​em aumentar o seu próprio comércio no arquipélago malaio. O último sultão de Malaca fugiu da cidade.

As vantagens geográficas e fiscais de Malaca eram óbvias, como observou um funcionário português (Tomé Pires): "Quem for senhor de Malaca tem a mão na garganta de Veneza", (Cliff, pág. 367), uma vez que os venezianos eram os grandes rivais dos portugueses como principais importadores de especiarias para a Europa. Afonso de Albuquerque consolidou os ganhos ao enviar um embaixador para a Tailândia num junco chinês, a fim de selar um acordo de não-interferência mútua. Num outro exemplo de diplomacia eficaz, os primeiros navios portugueses a navegar de Malaca para as Ilhas das Especiarias (cf. infra), incluíam representantes muçulmanos que já estavam familiarizados com o comércio regional entre a Malásia e a Indonésia.

Remover publicidades
Publicidade
Map of the Portuguese Colonial Empire
O Império Colonial Português na Era das Grandes Navegações Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A pequena presença militar portuguesa na região significava que Malaca estava sob constante ameaça das cidades-estado rivais, particularmente do Sultanato de Acheh, no norte de Sumatra. As relações entre os muitos sultanatos desta parte da Malásia foram outra fonte de instabilidade; portos como Sarawak, Brunei, Johor, Selangor e Kedah lutaram para controlar o comércio que só poderia ser acedido através dos rios interiores, cujos estuários somente eles os controlavam. No entanto, os portugueses foram tão implacáveis ​​como noutras partes do mundo na sua tentativa de monopolizar o comércio, favorecendo navios aprovados (portadores do Cartaz emitidos) pela Coroa, cobrando direitos aduaneiros e taxas portuárias de comerciantes não europeus, e até afundando navios e confiscando mercadorias de mercadores rivais.

AS NAUS SAÍAM REGULARMENTE DE MALACA PARA LISBOA, TRANSPORTANDO BENS PRECIOSOS ADQUIRIDOS POR TODO O IMPÉRIO, COMO OURO, PORCELANA E SEDA.

Os portugueses conseguiram dominar as rotas mais longas e de águas azuis entre os continentes e subcontinentes, mas tal era a densidade e o âmbito das redes comerciais locais que nunca chegaram sequer perto de ser o principal interveniente no comércio das especiarias asiáticas. Na verdade, havia muita corrupção entre os próprios portugueses e os dois comércios paralelos continuavam a decorrer: o comércio privado e o comércio da Coroa, sendo que o primeiro nem sempre pagava os devidos impostos.

O Comércio das Especiarias

Após a conquista portuguesa de Malaca, o Império Português continuou a crescer. Seguiu-se em 1515 Ormuz, na foz do Golfo Pérsico, e em 1518 edificou-se uma fortaleza em Colombo, no Sri Lanka. Os portugueses navegaram incansavelmente para o leste, e por volta de 1557 estabeleceu-se a Macau Portuguesa na costa do sul da China, perto de Guangzhou (Cantão). Por volta de 1571, os portugueses ganharam o controlo do pequeno porto pesqueiro de Nagasaki, no Japão, um importante acesso ao mercado japonês. Assim, Malaca tornou-se o entreposto central que fazia a ponte de ligação entre as várias colónias portuguesas de África à Índia, à China e ao Japão. As mercadorias que chegavam a Malaca incluíam especiarias, arroz, têxteis, cobre, tecidos de algodão, madeiras aromáticas, peles e ópio. Além disso, no século XVI, centenas de naus comerciais partiram de Malaca com destino a Lisboa, transportando bens preciosos adquiridos por todo o império, como ouro, porcelana Ming e seda.

Remover publicidades
Publicidade
Afonso de Albuquerque
Afonso de Albuquerque Unknown Artist (Public Domain)

Malaca era particularmente rica, sobretudo graças ao comércio de especiarias. Especiarias valiosas usadas na preparação de alimentos em toda a Europa que incluíam a pimenta, o gengibre, o cravinho, a noz moscada, o macis, a canela, o açafrão, a erva-doce, a zedoária e o cominho; sendo igualmente adicionadas a bebidas como o vinho; cristalizadas com açúcar e consumidas como doces; queimadas como incenso e usadas como remédios. A pimenta veio da Índia e a canela do Sri Lanka; contudo outros, como o cravinho, a noz moscada e o macis, vieram de fontes muito limitadas, mais especificamente, de um arquipélago de pequenas ilhas na Indonésia conhecidas como as Ilhas das Especiarias, hoje Ilhas Maluku ou as Molucas. Os ilhéus não traziam as valiosas mercadorias para o exterior, mas vendiam-nas a comerciantes, que pelas ilhas aportavam, por produtos de valor relativamente baixo, como tecidos de algodão, alimentos secos e cobre. Os comerciantes, então, enviavam as especiarias para todo o mundo, onde poderiam ser trocadas por ouro, prata, pérolas, pedras preciosas e seda. Um dos mais importantes entrepostos comerciais para o comércio global de especiarias era Malaca, e as frotas portuguesas de juncos - muitas vezes com pilotos javaneses - navegavam anualmente de Malaca para serem carregados nas Ilhas das Especiarias.

Sociedade e Cristianismo

A população de Malaca era cosmopolita, misturando-se malaios e indígenas. Havia uma forte presença chinesa, principalmente comerciantes chineses que viviam num bairro da cidade conhecido como a Colina Chinesa. Havia também muitos comerciantes da Índia, de Java, da Pérsia e da Arábia. A estes acrescentava-se a comunidade portuguesa de mercadores, residentes permanentes e temporários, e dos seus descendentes mestiços, portugueses de Malaca. Havia também uma mistura de religiões: muçulmanos, hindus, judeus e cristãos.

Tal como nas outras colónias portuguesas e mesmo que ficasse atrás da obtenção de lucros, a difusão do cristianismo era um objectivo importante. Malaca recebeu um bispo que era membro da arquidiocese chefiada por Goa, oficializado por uma bula papal em 1557 e ajudou a estabelecer a nova identidade da colónia, juntamente com factores mais comerciais, como a casa da moeda de Malaca, que produzia moedas de ouro e prata, uma característica não habitual nas colónias portuguesas. A comunidade europeia centrava-se na Igreja de São Paulo, construída em 1521, hoje em ruínas, mas já foi o último local de descanso de São Francisco Xavier (também conhecido como Francisco de Javier, 1505-1552), o célebre missionário jesuíta espanhol que viajou pelo Leste Asiático a partir de 1549, e cujo corpo foi transferido para Goa em 1553.

Remover publicidades
Publicidade
Portuguese Carrack Ships
Carracas Portuguesas Unknown Artist (Public Domain)

Os Rivais Europeus

Tal como aconteceu noutras partes do Império Português, as riquezas disponíveis através do comércio foram rapidamente olhadas com cobiça por outras potências europeias. Entre 1577 e 1580, o inglês Francis Drake (1540-1596) na sua circunavegação, incluiu uma escala nas Ilhas das Especiarias para obter um carregamento de cravinho. Os holandeses chegaram ao Sudeste Asiático no final do século XVI e logo estabeleceram uma empresa comercial altamente eficiente, a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC), sediada na sua sede regional em Batávia (atual Jacarta).

Os holandeses atacaram a cidade de Malaca em 1616 e 1629, depois, em 1641, e à terceira vez com sorte, pois tomaram Malaca permanentemente, acabando com o domínio português. A este prémio seguiram-se muitos outros como as colónias portuguesas de Colombo e Cochin. A dimensão do Império Português, a falta de mão-de-obra e de manutenção das fortalezas fizeram com que muitas colónias fossem presas fáceis nas mãos das potências europeias rivais.

No século XVIII, os britânicos desevajam controlar a origem dos bens comerciais do Sudeste Asiático de que necessitavam para o mercado chinês. A Companhia Britânica das Índias Orientais, o equivalente à VOC holandesa, representava os interesses da Coroa Britânica e assumiu o controlo da pequena ilha de Penang, na outra extremidade do Estreito de Malaca, em 1786. Em 1819, os britânicos assumiram o controlo de Singapura, que substituiu Malaca como o grande entreposto comercial da região. No século XIX, a economia de Malaca era impulsionada principalmente pelo acesso às plantações de borracha no interior. Em 1824, os britânicos adquiriram formalmente Malaca dos holandeses e passaram a dominar toda a região com o controlo do que ficou conhecido como Assentamentos do Estreito: Malaca, Penang e Singapura.

Remover publicidades
Publicidade

História Posterior

Embora o assoreamento do rio tenha garantido que Malaca nunca recuperasse a sua antiga glória, o Estreito de Malaca continua a ser uma das extensões de água mais movimentadas do mundo, à medida que os modernos navios-tanque e porta-contentores continuam a transportar mercadorias de Leste para Oeste e vice-versa. Singapura, localizada no final do estreito, é hoje um dos maiores centros comerciais do mundo, estando a ocorrer perfurações exploratórias petrolíferas. Melaka, como é conhecida hoje, faz, agora, parte do estado da Malásia com capital em Kuala Lumpur, e ainda tem alguns vestígios visíveis do seu passado colonial, nomeadamente a primeira fortaleza construída por Afonso de Albuquerque, as ruínas da Igreja de São Paulo, e vários exemplos de arquitetura colonial pública e doméstica portuguesa e holandesa. A UNESCO listou Melaka como Património Mundial.

Remover publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
A tradução faz parte do meu ser, desde interpretar o mundo até dominar a arte da transferência linguística. Cursos em turismo, literatura e história culminaram no meu papel como autora independente e coautora de coleções de contos literários.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2025, maio 13). Malaca Portuguesa. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19899/malaca-portuguesa/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Malaca Portuguesa." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 13, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19899/malaca-portuguesa/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Malaca Portuguesa." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 13 mai 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19899/malaca-portuguesa/.

Remover publicidades