A Descoberta e a Conquista Europeia das Ilhas das Especiarias

Artigo

James Hancock
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em 08 Novembro 2021
Disponível noutras línguas: Inglês, espanhol
X

O Cravinho (Cravo-da-Índia), a Noz-moscada e o Macis são especiarias nativas de ilhotas do vasto arquipélago indonésio: o cravinho (Syzygium caryophyllata) provém de cinco ilhas do arquipélago das Ilhas Molucas (As Molucas) a cerca de 1250 km (778 mi) a Oeste da Nova Guiné; e da Moscadeira (Myristica fragrans) provém a noz-moscada e o macis, que crescem no pequeno arquipélago de dez ilhas das Ilhas Banda, aproximadamente a 2,000 km (1,243 mi) a Este de Java. Até ao início do século XVI, a origem das especiarias era desconhecida pelos europeus apesar da sua popularidade nas cozinhas europeias.

Return of Jacob van Neck
O regresso de Jacob van Neck
Cornelis Vroom (Public Domain)

Em 1512, o segredo foi desvendado pelos portugueses aquando do descobrimento do Caminho Marítimo para a Índia, que, erradicando a ameaça espanhola, dominou o comércio das especiarias por quase um século. Altura em que os holandeses e os ingleses lutam para conquistar o poder do comércio das especiarias, que se traduziu numa vitória de domínio mercantil holandesa até ao fim do século XVIII.

Remover publicidades
Publicidade

Os Primeiros Europeus nas Ilhas das Especiarias

Durante séculos, o comércio das especiarias do cravinho, da noz-moscada e do macis dependia dos navegadores indonésios que as traziam até à Península Malaia, a Java e a Sumatra, onde os navegadores indianos e árabes as compravam e as distribuíam por todo o Oceano Índico. Os navegadores árabes navegavam-nas, igualmente, pelo Mar Vermelho até Alexandria ou pelo Golfo Pérsico até aos portos do Levante onde os mercadores venezianos as levavam até à Europa. O segredo da localização das Ilhas das Especiarias por parte dos comerciantes árabes perante os europeus ao longo dos séculos permitiu-lhes manter o preço da venda em somas exorbitantes.

Somente no início de 1500, pouco depois da viagem do navegador Vasco da Gama (1469-1524) na rota ao longo de África para a Índia e Sudeste Asiático, é que os europeus descobriram de onde provinham as especiarias. O Governador do Estado da Índia, Afonso de Albuquerque, soube das Ilhas das Especiarias por marinheiros do porto de Malaca na Península Malaia (o ponto central durante séculos dos mercadores indianos, árabes e chineses), contratou guias locais e enviou caravelas exploratórias sob o comando dos navegadores António de Abreu e Francisco Serrão, que em 1512 chegam às Ilhas Banda onde enchem os porões das caravelas com cravinho, noz-moscada e macis.

Remover publicidades
Publicidade
a chegada da armada de fernÃo de Magalhães lançou a competição pelo controlo das ilhas das especiarias por parte dos portugueses e dos espanhóis.

O navegador António de Abreu regressou a Malaca sem problemas, contudo a caravela do navegador Francisco Serrão, que estava demasiado cheia, encalhou e partiu-se num banco de recife, tanto ele como a tripulação foram resgatados e levados até à ilha de Ternate, nas Molucas, pelo Sultão Bayan Sirrullah. Este almejava uma aliança com os poderosos portugueses de forma a mudar a balança do poder na região, dado que na altura Ternate estava em acirrada luta com Tidore. O navegador Francisco Serrão tornou-se conselheiro pessoal do Sultão Sirrullah, liderou um grupo de mercenários e permaneceu na ilha até à sua morte.

O segundo grupo de europeus a chegar às Ilhas das Especiarias foi a tripulação remanescente do navegador Fernando de Magalhães (c. 1480-1521) após a sua morte nas Filipinas. A sua chegada originou a competição entre Portugal e Espanha pelo controlo das Ilhas das Especiarias, cuja posse legal era incerta. O Tratado de Tordesilhas assinado em 1494 entre as duas nações ibéricas, que dividia a descoberta de terras do novo mundo ao longo do meridiano a Oeste das Ilhas de Cabo Verde, não abrangia este lado do mundo. Desta forma, ambos podiam clamar as Ilhas das Especiarias já que Portugal aportou vindo de Este e a Espanha vinda de Oeste.

Remover publicidades
Publicidade

Após a morte do navegador Fernando de Magalhães, duas caravelas da sua expedição continuaram a navegar numa rota aleatória chegando a Tidore a 5 de novembro de 1521. A caravela Victoria continuou a viagem a 21 de dezembro, enquanto que a caravela Trinidad ficou para reparações. Ambas encontravam-se em muito mau estado, a caravela Victoria quase naufragou à passagem do Cabo Bojador, tendo metade da sua tripulação morrido de escorbuto e de fome e, por fim, a 6 de setembro de 1522, a caravela Trinidad partiu rumo a Espanha. Da esquadra de 270 almas que saiu com o navegador Fernando de Magalhães somente 18 regressaram, contudo trouxeram especiarias suficientes culminando numa viagem bastante lucrativa.

Magellan's Ship Victoria
O Navio Victoria da frota de Fernão de Magalhães
Ortelius (Public Domain)

A caravela Trinidad, capitaneada pelo navegador Gonzalo Gómez de Espinosa, partiu somente a 16 de abril de 1522. Receando a rota pelo Cabo da Boa Esperança, navegaram para Norte à procura de uma rota mais a Leste, tendo sido colhidos por tempestades geladas, fome e escorbuto, pelo que o navegador Gonzalo Gómez de Espinosa se viu forçado a regressar às Ilhas Molucas sete meses depois. Ao chegar a Ternate, descobriu, para seu horror, que uma armada de sete caravelas comandada por António de Brito já se encontrava na ilha para controlar as Ilhas das Especiarias.

De Brito enviou uma armada para caputar a Trinidad:

Os marujos abordaram a Trinidad na esperança de dominar a tripulação, mas foram repelidos pelo lamentável espetáculo de homens à beira da morte, rodeados de um cheiro fétido e doentio, que ninguém ousou enfrentar, e uma caravela à beira de naufragar. Mesmo nestas condições, De Brito fê-los cativos e obrigou Espinosa e a sua tripulação debilitada a construir uma fortaleza em Ternate com as madeiras da nau Victoria. Mais tarde, foram enviados como trabalhadores de trabalhos forçados para vários portos no Oceano Índico. Apenas o comandante Espinosa e dois membros da tripulação regressaram a Espanha. (Bergreen, pág. 180).

Os Portugueses na Ilha Ternate

Em 1522, o Sultão de Ternate autorizou que os portugueses construíssem um forte-feitoria e estabelecessem uma colónia comercial, contudo a relação entre os portugueses e os naturais de Ternate depressa se tornou tensa. Durante os 50 anos que se seguiram, vários foram os vice-reis portugueses enviados para este distante entreposto que depressa se tornou ganacioso e violento. Durante décadas, os Sultões de Ternate continuaram a servir os desejos dos portugueses, contudo, nos meados do século XVI começaram a manifestar a sua vontade de independência. Uma das figuras mais emblemáticas foi o sultão Hairun (r. 1535-1570): iniciou o seu reinado como uma marioneta portuguesa, chegando mesmo a converter-se ao Cristianismo, contudo, a brutidão portuguesa fê-lo rebeldar-se e aliar-se aos Muçulmanos de Tidore. Em 1570 o sultão Hairun foi assassinado e substituído pelo seu filho Babullah, que conduziu uma revolta apoiada pelo sultanato de Tidore e por Muçulmanos de lugares tão distantes como Achém e Túrquia. Ambos cercaram o forte-feitoria português e após quatro anos conseguiram tomá-lo libertando-se do jugo dos portugueses. Apartir de então, Ternate tornou-se um estado forte, feveroso Muçulmano e anti-português.

Remover publicidades
Publicidade

Maluku Islands in Indonesia
As Ilhas Molucas na Indonésia
Lencer (CC BY-SA)

Os Esforços Espanhóis

Pouco tempo após a chegada da caravela Victoria a Espanha, o rei Carlos I (r. 1516-1556) enviou uma segunda expedição às Ilhas das Especiarias, comandada pelo navegador García Jofre de Loaísa, com três objectivos:

  • procurar e resgatar a caravela Trinidad, que ainda não tinha regressado,
  • colonizar as Ilhas das Especiarias,
  • e encontrar a localização da terra mítica de Ofir mencionada na Bíblia como sendo o local de onde provieram a prata, o ouro e as pedras preciosas que decoravam o Templo de Salomão.

O navegador García Jofre de Loaísa navegou em direção às Ilhas das Especiarias usando a rota ao longo da Costa Africana, depois navegou para Oeste até ao Brasil, para Sul ao longo do continente americano e cruzou o Estreito de Magalhães, onde apanhou muito mau tempo e perdeu duas caravelas. As fortes tempestades continuaram ao longo do Oceano Pacífico e quatro caravelas separaram-se da armada. Em setembro de 1526, somente o galeão Santa Maria de la Victoria, aportou nas Ilhas das Especiarias, já o navegador García Jofre de Loaísa tinha morrido. Os sobreviventes estabeleceram uma fortaleza em Tidore e viram-se forçados a abandonar a caravela devido aos estragos da mesma, tendo ficado sem forma de enviar notícias para Espanha.

Sem qualquer notícia da expedição do navegador Loaísa, em 1526, o Rei Carlos I enviou outra armanda para as Ilhas Molucas comandada pelo navegador Sebastiano Caboto, que não navegou além da costa Oeste da América do Sul, tendo desistido da expedição e decidido explorar o Rio da Prata. O Rei Carlos I ordenou o conquistador Hernán Cortés, que estava na Nova Espanha (México), que enviasse uma missão de socorro. Hernán Cortés enviou uma armada de três naus, tendo somente uma chegado a Tidore, esta apesar de ter encontrado os sobreviventes, não conseguiu apanhar os ventos favoráveis para navegar pelo Pacífico e foi capturada pelos portugueses.

Remover publicidades
Publicidade

Hernán Cortés
Hernán Cortés
Unknown Artist (Public Domain)

Por fim, após várias armadas perdidas ou desaparecidas, o soberano espanhol concluiu que as Ilhas das Especiarias não valiam o esforço e em 1529 decidiu celebrar um acordo com os portugueses: o Tratado de Saragoça. Neste acordo os espanhóis venderam os seus direitos das Ilhas Molucas por 350.000,00 ducados e traçou-se uma linha divisória entre os territórios a 17.º graus Este das Ilhas Molucas. O Tratado, contudo, tinha uma clásula que permitia aos espanhóis reaver as ilhas se reembolsasem os portugueses, o que nunca viria a acontecer. Em 1580, a União Ibérica (União Dinástica) uniu ambos os reinos e com ela todas as colónias existentes no Oceano Índico.

A Conquista Holandesa e a VOC

Durante um século, os portugueses foram soberanos no Oceano Índico, e somente em 1595, é que nove mercadores de Amsterdão se juntaram e organizaram a primeira expedição holandesa. Escolheram o navegador Cornelis de Houtman para comandar a forta e cederam-lhe quarto naus. O plano era seguir a rota tradicional dos portugueses pelo Cabo da Boa Esperança e seguir para Bantão, o príncipal porto de comércio de pimenta de Java e depois descobrir as Ilhas das Epeciarias. Foi um grande fiasco repleto de lutas sanguinárias, nunca chegaram às Ilhas das Especiarias e regressaram com muito poucas.

a primeira forta da VOC partiu a 18 de dezembro de 1603 E em poucos anos a companhia estabeleceu uma rede de centenas de entrepostos na ásia

Em 1598, partiu a Segunda Expedição Holandesa à Indonésia composta de seis naus, comandada pelo explorador Jacob van Neck, juntamente com Wybrand van Warwijck e Jacob van Heemskerk, cada um comandando uma nau. O explorador Jacob van Neck era asturo e regressou à Holanda em julho de 1599 com quatro naus repletas de especiarias. A nau comandada pelo navegador Van Warwijck navegou para a Ilha Ternate, enquanto que a nau do navegador van Heemskerk se dirigiu às Ilhas Banda. O navegador Van Warwijck chegou à Ilha Ternate sem incidentes, carregou a nau com especiarias, e em setembro de 1600 chegou a Amsterdão. O navegador Van Heemskerk teve uma receção mais fria, contudo com os presente certos e uma dose de diplomacia, ganhou a confiança do povo de Banda e conseguiu encher a nau com noz-moscada, tendo chegado à Holanda nos finais de 1600.

Após a expedição bem sucedida pelo explorador Jacob van Neck, foram efetuadas dezenas de viagens às Ilhas das Especiarias. Para consolidar os recursos, em 1602, o governo holandês formou a Companhia Holandesa das Índias Orientais (Verenigde Oost-Indische Compagnie ou VOC) a qual tinha o poder de governar o Nascente, comandar os seus próprios portos, edificar fortes e fortalezas, possuir um exército e assinar tratados. A 18 de dezembro de 1603 partiu a primeira forta da VOC e em poucos anos a Companhia Holandesa das Índias Orientais estabeleceu uma rede de centenas de entrepostos por toda a Ásia, sendo dirigida por um Governador-Geral que actuava essencialmente como um chefe de estado. Em 1605 tinha fábricas em Java, Sumatra, Bornéo, nas Ilhas das Especiarias, na Península da Malásia e na Índia continental.

A Saída Portuguesa

Em 1604, o comandante inglês Henry Middleton foi enviado para o Oceano Índico com quatro naus tendo chegado ao porto javanês de Bantão a 21 de dezembro. Duas naus foram carregadas com pimenta e enviadas para a Inglaterra e as outras duas naus navegaram até Amboíno, nas Molucas. À chegada, o comandante Henry Middleton obteve permissão de comércio por parte dos portugueses locais por lhes ter convencido que o Rei Jaime I de Inglaterra (r. 1603-1625) e o Rei Filipe III de Espanha (também conhecido como Rei Filipe II de Portugal, r. 1598-1621) tinham assinado um tratado de paz. Apesar de não o saber, um tratado de paz tinha sido realmente assinado entre ambos países cinco meses após a sua saída para o mar. Quando íam iniciar o carregamento das naus, uma visão ameaçadora apareceu no horizonte – uma armada da VOC. Os holandeses tinham enviado uma armada para desafiar o controlo português na ilha e os ingleses, apesar de terem sido apanhados desprevenidos, bateram em retirada enquanto que os portugueses sofreram uma invasão massiva. Mal sabia o comandante Henry Middleton que ía a caminho de outro confronto entre holandeses e portugueses.

Na mesma altura em que os holandeses e seus aliados atacam Tidore, chega, a 27 de março, o comandante Henry Middleton que convenceu os portugueses a encherem os porões com cravinho e a ficar fora da guerra. Dias depois, os holandeses apoderam-se do forte espanhol de Tidore e começam a intimidar aos portugueses em Ternate, culminado no termo da presença portuguesa nas Ilhas Molucas a 1663, quando se tornou perceptível que os custos de manter a possessão eram mais caros que os benefícios daí advindos.

Fort Belgica at Banda Neira
Forte Bélgica em Banda Neira
Royal Netherlands Institute of Southeast Asian and Caribbean Studies (CC BY-NC)

Em 1607, o almirante holandês Pieter Willemszoon Verhoeff foi enviado com uma armada de 13 naus para capturar os portugueses em Malaca e edificar um forte em Neira, (Ilhas Banda). Ambas missões falharam: o almirante Verhoeff atacou Malaca mas não conseguiu tomar a cidade fortemente fortificada, e partiu para Neira onde os líderes das ilhas, “Orang Kaya”, convocaram-no para uma reunião com o intuito de negociar os preços e ao invés, atacaram-no bem como dois dos seus oficiais, decapitaram-nos e mataram 46 soldados holandeses. Este tipo de emboscada seria usada vezes sem conta para justificar a opressão holandesa e conduzir quase ao extremínio a população bandesa. Um dos homens que sobreviveu ao massacre foi Jan Pieterszoon Coen, titular do modesto título de mercador assistente. Em 1610, aquando do seu regresso à Holanda, Jan Pieterszoon Coen relatou aos directores da companhia as possibilidades de comércio no Sudeste Asiático e por fim foi nomeado Director–Geral.

Confrontos entre os Ingleses e os Holandeses

Enquanto Jan Pieterszoon Coen e a VOC trabalhavam para dominar o comércio das especiarias, os ingleses tentavam a todo o custo obter uma parcela nos negócios. As primeiras decisões de Jan Pieterszoon Coen como director da VOC foram o transferir a sede da VOC de Bantão para Jacarta e converter o enterposto numa fortaleza. Em 1618, Sir Thomas Dale foi enviado para pôr fim ao crescente monopólio de Jan Pieterszoon Coen e numa feroz batalha a frota de Jan Pieterszoon Coen foi obrigada a fugir para Amboíno para solicitar reforços. Durante a ausência de Jan Pieterszoon Coen, o Sultão de Bantão decidiu entrar na batalha, obrigou os ingleses a retirarem-se e cercou o forte holandês. Em 1619, Jan Pieterszoon Coen regressa e consegue repelir as forças de Bantão de Jacarta e queima a cidade, de onde das cinzas edificou a nova cidade holandesa Batávia, a sede de VOC no Sudeste Asiático.

Ao mesmo tempo que os ingleses e os holandeses lutavam por Jacarta, outra batalha emergiu entre ambos na pequena Ilha Run (Ilhas Banda). Em 1616, o capitão Nathaniel Courthope chegou a Run, altura em que assinou um contrato com a população local que aceitou o Rei Jaime I como seu soberano, e durante 1,540 dias conseguiu aguentar um cerco holandês que culminou com a sua morte. Ironicamente, Jan Pieterszoon Coen recebeu a notícia que os holandeses e os ingleses tinham assinado um acordo de cooperação nas Índias Orientias em 1620: deveriam cada um tratar das suas possessões e cooperar contra os iminigos comums. Contudo, um Jan Pieterszoon Coen desapontado continuou com a batalha em Run e nomeou uma considerável parcela de Java como “Reino de Jacarta” de forma a afastar os ingleses.

Jan Pieterszoon Coen
Jan Pieterszonn Coen
Dutch Simba (CC BY-NC-ND)

Em janeiro de 1621, Jan Pieterszoon Coen decidiu conquistar todas as Ilhas Banda, e recorrendo a mercenários japoneses apoderou-se da Ilha Lonthor, mesmo após a brava resisitência local apoiada pelos canhões ingleses. Como resposta, Jan Pieterszoon Coen e a sua milícia massacraram centenas de habitantes, deportaram 800 habitantes locais para Batávia e repovoaram-na com escravos de outras ilhas. Dos 15,000 habitantes locais de Lonthor somente sobreviveram 1,000.

Assim, Jan Pieterszoon Coen ponderou que a melhor estratégia futura seria a completa colonização das Índias Orientais pelos holandeses de forma a controlarem o comércio da Índa Oriental. No intuito de convencer os directores da VOC regressa à Holanda em 1623 e vê-se a braços com o enorme escândalo designado “Massacre de Amboíno”, no qual um grupo de ingleses da cólonia de Cambello em Amboíno foi feito refém dos feitores holandeses, questinoados, torturados e sentenciados à morte: eram suspeitos de ajudar a população local numa revolta contra a colónia holandesa. Jan Pieterszoon Coen não estava directamente envolvido, mas foi considerado moralmente responsável dado ser o director da VOC e foi proibido temporariamente de voltar a Batávia. Regressou somente em 1627 viajando incognitamente e em 1629 morre de disenteria.

O Fim do Monopólio Holandês das Especiarias

Ao longo do século XVII e início do século XVIII, através do estrangulamento impiedoso exercido nas Ilhas Banda, a VOC possuía o monopólio quase total do comércio do cravinho. A produção de noz-moscada nas ilhas Tidore e Ternate estavam igualmente sob o controlo da VOC, ao ponto de, em 1652, os governantes de ambas as ilhas acordarem num programa de eradicação da especiaria no qual sob um pagamento anual permitiam o abate de todas as moscadeiras (Myristica fragrans) não pertencentes à VOC. Este programa foi fortemente vigiado pelos holandeses que se tornaram famosos pela sua brutalidade na constante inscrusção de vigilância.

Foram os franceses que finalmente acabaram com o monopólio dos holandeses em 1770 quando o hortoculturista e administrador Pierre Poivre contrabandadeou sementes das Ilhas das Especiarias e as plantou na Ilha de França (atualmente as Maurícias) e na Ilha Bourbon (atualmente a Reunião). Em 1812, Harmali bin Saleh transplantou cravinhos (Syzygium aromaticum) da Reunião para Zanzibar, estabelecendo plantações que acabaram por dominar a produção mundial até 1964.

Durante as Guerras Napoleónicas, os ingleses tomaram temporariamente posse das Ilhas Banda e, antes do regresso dos holandeses, arrancaram centenas de moscadeiras e levaram-nas para as colónias em Ceilão, Singapura e Índia acabando com o monopólio centenário holandês da indústria das especiarias da noz-moscada e do macis na Indonésia.

Remover publicidades
Publicidade

Bibliografia

A World History Encyclopedia é um associado da Amazon e recebe uma comissão sobre as compras de livros elegíveis.

Sobre o tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o autor

James Hancock
James F. Hancock é um escritor freelancer e professor emérito da Michigan State University. Possui especial interesse na pesquisa da evolução da cultura agrícola e história do comércio. Seus livros incluem "Spices, Scents and Silk" (CABI) e "Plantation Crops" (Routledge).

Citar este trabalho

Estilo APA

Hancock, J. (2021, Novembro 08). A Descoberta e a Conquista Europeia das Ilhas das Especiarias [European Discovery & Conquest of the Spice Islands]. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. Obtido de https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1872/a-descoberta-e-a-conquista-europeia-das-ilhas-das/

Estilo Chicago

Hancock, James. "A Descoberta e a Conquista Europeia das Ilhas das Especiarias." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia. Última modificação Novembro 08, 2021. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1872/a-descoberta-e-a-conquista-europeia-das-ilhas-das/.

Estilo MLA

Hancock, James. "A Descoberta e a Conquista Europeia das Ilhas das Especiarias." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 08 Nov 2021. Web. 27 Mai 2024.