Miguel Ângelo

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
publicado em
Translations
Versão Áudio Imprimir PDF
Michelangelo by Daniele da Volterra (by Metropolitan Museum of Art, Copyright)
Miguel Ângelo por Daniela da Volterra Metropolitan Museum of Art (Copyright)

Miguel Ângelo (1475-1564) foi um artista, arquiteto e poeta italiano, considerado uma das figuras mais importantes e influentes do Renascimento. Entre as suas obras mais famosas, de um portfólio impressionante de obras-primas, estão o tecto da Capela Sistina, em Roma, e a gigantesca estátua de mármore de David, que se encontra na Galleria dell'Accademia, em Florença.

Estimado pelos seus contemporâneos como o maior artista vivo, Miguel Ângelo teve uma enorme influência nos estilos artísticos do Alto Renascimento, Maneirismo e Barroco. Ainda hoje, as obras deste grande artista continuam a despertar nos amantes da arte de todo o mundo os sentimentos que pretendia expressamente produzir em toda a sua arte, independentemente do meio: admiração pela forma e pelo movimento, surpresa e reverência.

Remover publicidades
Publicidade

Primeiros Anos

Miguel Ângelo di Lodovico Buonarroti nasceu em 1475, em Caprese, uma pequena cidade perto de Florença, Itália, e ao contrário de muitos outros artistas famosos, nasceu numa família próspera. Quando completou 13 anos, foi enviado para estudar em Florença com o célebre pintor de frescos Domenico Ghirlandaio (cerca de 1449-1494). O jovem artista passou dois anos como aprendiz de Ghirlandaio, mas também visitou muitas igrejas na cidade, estudando as obras de arte e fazendo esboços. A sua grande oportunidade surgiu quando o seu trabalho foi notado por Lorenzo de Medici (1449-1492), chefe da grande família florentina e um generoso patrono das artes. Foi no impressionante jardim de esculturas de Lorenzo que o jovem artista pôde estudar em primeira mão as obras dos grandes escultores da antiguidade, especialmente os sarcófagos romanos decorados em alto relevo, e aprender com o curador artístico do jardim e notável escultor Bertoldo di Giovanni (cerca de 1420-1491). Mais tarde, Miguel Ângelo criaria o túmulo de mármore de Lorenzo de Medici na igreja da família Medici, San Lorenzo, em Florença.

Miguel Ângelo esforçou-se por criar um mundo mais belo do que o que realmente existia na realidade.

É evidente a influência que as obras clássicas tiveram sobre Miguel Ângelo nas figuras contorcidas de uma de suas primeiras grandes obras-primas, a escultura em relevo conhecida como A Batalha dos Centauros e Lapitas, que hoje está em exibição na Casa Buonarroti, em Florença. A preocupação do artista com a antiguidade na primeira metade da sua carreira é amplamente comprovada no seu trabalho, mas também nas suas inúmeras tentativas deliberadas de que as mesmas passassem por esculturas realmente antigas. Em 1496, por exemplo, esculpiu o Cupido Adormecido (agora perdido), onde propositadamente envelheceu para fazer parecer uma obra antiga autêntica e que vendeu com sucesso ao cardeal Raffaele Riario.

Remover publicidades
Publicidade
The Creation of Adam by Michelangelo
A Criação de Adão por Miguel Ângelo Alonso de Mendoza (Public Domain)

Miguel Ângelo já se concentrava, então, na técnica conhecida como disegno, em que o artista se concentrava acima de tudo em tentar capturar a forma, a musculatura e as poses do corpo humano através de esboços em papel de obras clássicas, que eram então transformadas numa escultura ou pintura inteiramente nova. Também acrescentou a esta herança artística uma paixão por retratar as suas figuras com poses dramáticas e em escala monumental, o que talvez explique a sua preferência pela escultura em detrimento das outras artes. A combinação de execução realista, grandiosidade e dinamismo se tornaria a marca registrada das obras do mestre em todas as áreas, enquanto se esforçava para criar um mundo mais bonito do que o que realmente existia.

O Principal Artista Renascentista

As grandes obras de Miguel Ângelo falavam por si mesmas e aqueles que não podiam vê-las pessoalmente podiam admirá-las ou estudá-las nas muitas gravuras existentes.

Em 1496, Miguel Ângelo mudou-se para Roma, o que lhe deu ainda mais oportunidades de estudar exemplos de arte e arquitetura clássicas. Foi nesta altura que criou outra obra-prima, a Pietà ( veja abaixo). Regressa a Florença por volta de 1500, estando já bem estabelecido e foi contratado para criar uma figura para nada menos que a Catedral de Florença. Miguel Ângelo recebeu um enorme bloco do muito apreciado mármore de Carrara, que ninguém sabia bem o que fazer. O resultado foi outra obra-prima, provavelmente a escultura mais famosa do artista: David (veja abaixo). A seguir, veio a obra-prima usando tintas, demonstrando que não se limitava de forma alguma à escultura. A Sagrada Família foi pintada em 1503 e a obra está agora na Galeria Uffizi, em Florença. Em seguida, ocorreu um encontro intrigante entre duas grandes mentes, quando Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci (1452-1519) trabalharam juntos em afrescos no Salão do Conselho de Florença. O tema da obra de Miguel Ângelo era a Batalha de Cascina, mas, tal como o trabalho de Leonardo, ficou inacabada. Só podemos especular o que cada grande artista pode ter aprendido com o outro nesta época.

Remover publicidades
Publicidade

Miguel Ângelo regressou a Roma para trabalhar no túmulo do Papa Júlio II (Papa de 1503 a 1513) e, em seguida, recebeu o que talvez tenha sido o seu trabalho mais desafiante: pintar o tecto da Capela Sistina, na Cidade do Vaticano (veja abaixo). Apesar de trabalhar sozinho na maior parte do tempo e muitas vezes numa posição desconfortável no topo de um andaime, o tecto foi concluído com notável rapidez. Concluída em 1512, a obra pode não ter agradado a todos na Igreja, mas a sua visão central de Deus entre as nuvens estendendo a mão para tocar o dedo de Adão tornou-se uma das imagens mais reproduzidas de todos os tempos.

David by Michelangelo
David, de Michelangelo Joe Hunt (CC BY)

Miguel Ângelo continuaria a esculpir e, muito mais raramente, a pintar pelo resto da sua vida; continuou a escrever os seus muito admirados sonetos, que eram frequentemente dedicados à poetisa Vittoria Colonna (1490-1547), embora muitos fossem rabiscados no verso de esboços e contas. Neste exemplo, o Soneto 151 (cerca de 1538-1544), o artista compara a incapacidade da arte de evitar a morte com a busca pelo amor verdadeiro:

Nem mesmo o melhor dos artistas tem qualquer noção

de que um único bloco de mármore não contém

o seu excesso, e que isso só é alcançado

pela mão que obedece ao intelecto.

A dor de que fujo e a alegria que espero

estão igualmente escondidas em ti, adorável senhora,

nobre e divina; mas, para meu mal mortal,

a minha arte produz resultados opostos aos que desejo.

O amor, portanto, não pode ser culpado pela minha dor,

nem a tua beleza, a tua dureza ou o teu desprezo,

nem a sorte, nem o meu destino, nem o acaso,

se tu guardas tanto a morte como a misericórdia no teu coração

ao mesmo tempo, e a minha humilde inteligência, embora ardente,

não consegue extrair nada além da morte.

(Paoletti, pág. 404)

Houve também muitos projetos arquitetónicos importantes, como a Biblioteca Laurentiana, San Lorenzo, Florença (1525), com uma sala de leitura de 46 metros (150 pés) de comprimento, uma combinação triunfal de estética e funcionalidade. Outros projetos incluíram a nova aparência do Monte Capitolino em Roma (iniciado em 1544), a cúpula imponente da Basílica de São Pedro em Roma (a partir de 1547, mas concluída apenas em 1590), pela qual se recusou a aceitar um salário, e a capela sepulcral dos Médici em Florença. Apropriadamente, ao longo do século XVI, a capela dos Médici tornou-se um local frequentemente visitado por aspirantes a artistas que vinham admirar e aprender com a combinação única e visionária de arquitetura e escultura deste mestre das artes. Michelangelo morreu a 18 de fevereiro de 1564 em Roma e foi sepultado com grande cerimónia na Basílica de Santa Croce, em Florença.

Remover publicidades
Publicidade
Bust of Michelangelo
Busto de Miguel Ângelo Sailko (CC BY-SA)

Reputação e Legado

O grande artista foi retratado em várias obras de arte que chegaram até nós: um exemplo marcante é o busto de bronze feito por seu compatriota Daniele da Volterra (1509-1566), criado por volta de 1564, que se encontra no Bargello, em Florença. A escultura é realista e mostra um Miguel Ângelo barbudo, com muitas rugas e o nariz ligeiramente achatado que carregava desde que o artista Pietro Torrigiano (1472-1528) o quebrou quando os dois eram jovens (resultando no exílio de Torrigiano de Florença).

Um registo mais detalhado de Miguel Ângelo sobrevive em duas biografias escritas durante a vida do artista por Giorgio Vasari (1511-1574) e Ascanio Condivi (1525-1574). O artista toscano Vasari concluiu a sua obra As Vidas dos Mais Excelentes Arquitetos, Pintores e Escultores Italianos em 1550, mas depois revisou e expandiu extensivamente o trabalho em 1568. A história é um registo monumental dos artistas renascentistas, das suas obras e das histórias a eles associadas, e por tal Vasari é considerado um dos pioneiros da história da arte. O colega artista italiano Condivi, por sua vez, foi aluno de Miguel Ângelo em Roma e escreveu a Vida de Miguel Ângelo em 1553, uma obra supervisionada pelo próprio grande mestre (o que talvez explique uma série de elementos fictícios ou exagerados).

Pieta by Michelangelo
Pietà por Miguel Ângelo Stanislav Traykov (CC BY-SA)

Estas duas biografias ajudaram a estabelecer a reputação de Miguel Ângelo como uma lenda viva, à medida que os outros artistas reconheciam seu génio e a sua contribuição para o renascimento da arte durante o Renascimento. Naturalmente, as grandes obras de Miguel Ângelo falavam por si mesmas, e aqueles que não podiam vê-las pessoalmente podiam admirá-las ou estudá-las nas muitas gravuras feitas e distribuídas por toda a Europa. A sua fama também ultrapassou as fronteiras da Europa. O sultão do Império Otomano Bayezid II (reinou 1481-1512) ouviu falar das habilidades do artista e convidou-o, sem sucesso, para sua corte; e as suas obras estavam a ser colecionadas, especialmente na França. Em suma, Miguel Ângelo era considerado nada menos que divino — um termo frequentemente usado para o artista durante a sua vida — e possuidor de um poder artístico impressionante, o que os seus contemporâneos chamavam de terribilità. A luz que o grande homem lançou sobre a arte e a arquitetura ocidentais continuou a brilhar muito depois da sua morte, e o seu trabalho foi especialmente influente no desenvolvimento do maneirismo e do estilo barroco subsequente.

Remover publicidades
Publicidade

Obras-Primas

Pietà

A Pietà é uma representação em mármore da Virgem Maria a chorar sobre o corpo de Jesus Cristo, que repousa no seu colo. Concluída entre 1497 e 1500, a obra foi encomendada por um cardeal francês para o seu túmulo numa capela em Roma. Com 1,74 metros (5 pés e 8 polegadas) de altura, encontra-se atualmente na Basílica de São Pedro. A obra combina todos os aspetos da arte do escultor: uma representação hiper-realista do corpo humano, dobras complexas de tecidos, o rosto sereno e contemplativo de Maria, o corpo lânguido de Jesus e uma composição que lembra as estátuas devocionais do norte, mas oferece algo nunca antes visto na arte italiana. O facto de Miguel Ângelo estar muito satisfeito com o resultado é evidenciado pela anedota de que posteriormente acrescentou a sua assinatura depois de um artista rival ter afirmado ser o seu criador.

Michelangelo's David
David de MIguel Ângelo David Michalczuk (CC BY)

David

Como mencionado acima, a oferta de Miguel Ângelo à Catedral de Florença foi a escultura em mármore do rei bíblico David, que, na sua juventude, matou o problemático gigante Golias. A figura é muito maior do que o tamanho real — cerca de 5,20 metros (17 pés) de altura — e tão grande que não pôde ser colocada no telhado da catedral, como pretendido, mas sim na praça em frente. Miguel Ângelo recebeu cerca de 400 florins por uma obra que começou em 1501 e concluiu em 1504. David está agora na Galeria Accademia de Florença, enquanto uma réplica em tamanho real está ao ar livre no Palazzo della Signoria.

A figura é agora toda branca, mas originalmente tinha três elementos dourados: o suporte em forma de tronco de árvore, um cinto de folhas e uma coroa de flores na cabeça. A única identificação de que se trata de uma figura de David é a funda sobre o ombro esquerdo da figura. Além disso, a maturidade do corpo para o que deveria ser realmente um jovem, juntamente com a nudez da figura, lembram fortemente as estátuas colossais da antiguidade, especialmente as de Hércules. Não pode ser coincidência que Hércules também aparecesse no selo oficial da cidade de Florença. Aqui estava uma mensagem na arte de que a cidade se considerava igual, talvez até melhor do que qualquer cidade da antiguidade. Miguel Ângelo claramente ultrapassou as restrições da escultura clássica e criou uma figura que é palpavelmente tensa, um efeito apenas acentuado pela testa franzida e o olhar determinado de David.

Remover publicidades
Publicidade

A Capela Sistina

Como mencionado, Miguel Ângelo foi contratado para pintar o tecto da Capela Sistina, um edifício que havia sido concluído em 1480. O tecto rachou gravemente em 1504 e foi reparado, abrindo, então, uma oportunidade para complementar a já impressionante decoração interior da capela. Miguel Ângelo estava longe de estar entusiasmado com o projeto, que o ocuparia de 1508 a 1512 — e houve frequentes discussões acaloradas com o papa —, mas hoje é considerado uma das suas obras mais emblemáticas. Os afrescos estão pintados com cores muito vivas e, para ajudar o espectador que deve ficar alguns metros abaixo, usou a técnica de contrastar cores próximas umas das outras.

The Last Judgement by Michelangelo
O Juízo Final por Miguel Ângelo Alonso de Mendoza (Public Domain)

Todo o teto cobre uma área de 39 x 13,7 metros (128 x 45 pés). Os painéis separados mostram um ciclo de episódios da Bíblia, narrando a Criação até ao tempo de Noé. Curiosamente, a criação de Eva é o painel central, e não a criação de Adão, embora tal possa ser simplesmente porque as cenas são cronológicas, começando pela parede do altar. Há também sete profetas, cinco sibilas e quatro ignudi que não têm nada a ver com a narrativa religiosa, mas que mostram o seu amor por figuras ousadas em poses dramáticas.

A obra foi um sucesso imediato entre quase todos que a viram, mas houve alguns rumores de descontentamento; a principal objeção era a quantidade de nudez e a representação de órgãos genitais em algumas figuras. Além disso, a secção do Juízo Final da capela, que foi adicionada ao altar muito mais tarde por Miguel Ângelo entre 1536 e 1541, também não foi bem recebida por alguns membros do clero. O facto de Jesus não ter a barba convencional e parecer um pouco mais jovem do que o habitual foram pontos particularmente controversos. O domínio do artista sobre a teologia essencial, ou talvez a sua falta de preocupação com ela, pois era conhecido pela sua piedade, e a aparência de ainda mais órgãos genitais levaram alguns clérigos a declarar a obra como heresia. Houve até apelos para destruí-la. Felizmente para a posteridade, foi adotada uma estratégia mais moderada, que consistiu em cobrir os elementos nus ofensivos. A tarefa de retocar os afrescos foi confiada a Daniele da Volterra, e o artista ganhou, consequentemente, o apelido bastante infeliz de Il Braghettone, ou «o fabricante de calças».

Remover publicidades
Publicidade
Moses by Michelangelo
Moisés por Miguel Ângelo Jörg Bittner Unna (CC BY)

Moisés

Como mencionado, Miguel Ângelo foi contratado por Júlio II em 1505 para projetar um túmulo imponente para o líder da Igreja Romana. Começando no papel como um monumento grandioso, o túmulo foi finalmente concluído em 1547, após o abandono de muitas das extravagâncias planeadas. Uma das peças que sobreviveram é a estátua de Moisés sentado, esculpida por Miguel Ângelo, que mostra a figura bíblica segurando o seu cajado e puxando a sua barba impressionantemente longa, aparentemente para demonstrar o seu temor a Deus. A estátua foi concebida para ser vista de baixo e, por tal, Miguel Ângelo incorporou várias correções óticas. A figura, com 2,35 metros (7 pés e 9 polegadas) de altura, foi concluída por volta de 1520 e encontra-se na igreja de San Pietro in Vincoli, em Roma.

Remover publicidades
Publicidade

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Jornalista brasileiro que vive no Rio de Janeiro. Seus principais interesses são a República Romana e os povos da Mesoamérica, entre outros temas.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
Mark é escritor, pesquisador, historiador e editor. Tem grande interesse por arte, arquitetura e por descobrir as ideias compartilhadas por todas as civilizações. Possui mestrado em Filosofia Política e é Diretor Editorial da WHE.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2025, novembro 11). Miguel Ângelo. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19089/miguel-angelo/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Miguel Ângelo." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, novembro 11, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19089/miguel-angelo/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Miguel Ângelo." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 11 nov 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-19089/miguel-angelo/.

Remover publicidades