O Reino da Nortúmbria (cerca de 604-954 d.C.) foi uma entidade política no norte da atual Grã-Bretanha, com a Mércia diretamente ao sul, os Reinos Galeses a oeste e a terra dos Pictos ao norte; a linha oriental do reino era limitada pelo mar. A região foi originalmente dividida entre os dois reinos de Bernícia (ao norte) e Deira (ao sul), mas o povo era chamado de nortumbrianos (significando "aqueles ao norte do rio Humber"). Esses dois reinos frequentemente lutaram entre si até serem unificados sob o reinado de Etelfrido (Aethelfrith; reinou 593-616), mas sua rivalidade desestabilizaria continuamente a região ao longo de sua história.
Houve conflitos frequentes entre a Nortúmbria e o Reino da Mércia ao longo dos anos, com um ou outro mantendo a supremacia em algum momento. Ambos se tornaram súditos do Reino de Wessex entre 825 e 829, durante o reinado de Egbert de Wessex (reinou 802-839). A Nortúmbria foi posteriormente dominada pelos nórdicos após a invasão do Grande Exército Pagão dos Vikings, em 865, e foi finalmente absorvida pelo Reino da Inglaterra por Édredo de Wessex (Eadred; reinou 946-955), em 954.
As datas para o Reino da Nortúmbria são frequentemente citadas como 654-954; o ano de 654 seria a data em que Oswiu (reinou 642-670) uniu Bernícia e Deira, e 954 seria a data em que Édredo derrotou o último rei nórdico da Nortúmbria, Eirico Machado de Sangue (Eric Bloodaxe; reinou 947-948, 952-954), subjugando a Nortúmbria ao domínio inglês. Datação mais precisa seria 547-954, visto que o reino foi fundado por Ida, o Portador da Chama (Ida Flamebearer; reino 547-599), ou, mais precisamente, entre 604-954, já que Bernícia e Deira foram unificadas sob o reinado de Etelfrido (Aethelfrith), e não de Oswiu.
Unificação sob Etelfrido
Ida foi o primeiro rei da Bernícia; ele pode ter iniciado o conflito com Deira ao expandir seu reino para o sul. Etelfrido, neto de Ida, expandiu o reino por meio de conquistas militares e repovoando regiões anteriormente britânicas com cidadãos da Bernícia. Por volta de 600, ele derrotou os bretões decisivamente na Batalha de Catraeth (derrota trágica para as forças britânicas, comemorada no poema galês do século XIII, Y Gododdin) e, em 604, controlava Deira e a uniu à Bernícia.
Ao sul, o Reino da Mércia também estava se expandindo e, por volta de 616, isso pode ter provocado reação de Etelfrido. As circunstâncias que envolvem a Batalha de Chester não são claras, mas Etelfrido derrotou as forças combinadas dos reinos galeses de Powys e Rhos, que podem ter sido apoiadas pelo rei Cearl da Mércia (reinou 606-c. 625). Etelfrido morreu pouco depois desse conflito, na Batalha de Bawtry, às margens do rio Idle, contra a Ânglia Oriental.
Colapso da Nortúmbria
Quando Etelfrido uniu Bernícia e Deira, ele deserdou a casa reinante de Deira, notadamente o Príncipe Eduíno (Edwin; reinou 616-633), filho do Rei Aelle de Deira (reinou 560). Etelfrido incentivou a união dos dois reinos casando-se com Acha, irmã de Eduíno, mas Eduíno reconheceu que ele representava ameaça ao reinado de Etelfrido e, sabiamente, fugiu da Nortúmbria. Etelfrido, de fato, queria Eduíno morto, mas o príncipe recebeu refúgio nos reinos da Ânglia Oriental, dos Galeses e da Mércia. É possível, inclusive, que as batalhas de Chester e Bawtry tenham tido relação com esses reinos protegendo seu rival.
O estudioso Roger Collins observou como poucos registros históricos sobreviveram do Reino da Mércia devido às guerras com Wessex e às invasões vikings, e prossegue observando que “os conflitos dos séculos IX e X provaram ser, em muitos aspectos, igualmente destrutivos na Nortúmbria, cuja estabilidade política nunca fora muito segura” (194). Devido à perda desses registros, muitos eventos da história da Nortúmbria estão obscurecidos, e o último ano do reinado de Etelfrido está entre eles.
Quando Etelfrido morreu, Eduíno retornou do exílio e reivindicou o trono, governando a partir de Deira. Ele capitalizou os ganhos obtidos por Etelfrido e expandiu ainda mais o reino, provocando reações da Mércia e de Wessex. Em Wessex, o rei Cinegils (reinou 611-643) dividiu seu reino ao meio, dando o norte a seu filho Cwichelm († 636) para criar um estado-tampão caso a Nortúmbria atacasse. Em 626, Cwichelm enviou um assassino para matar Eduíno, mas o plano falhou.
A resposta de Eduíno à tentativa de assassinato ainda é debatida por estudiosos, pois não há registros que sustentem a afirmação posterior de que ele marchou sobre Wessex. Segundo a lenda, as forças de Eduíno encontraram os exércitos de Cynegils e Cwichelm, aliados aos da Mércia sob o comando de seu rei Penda (reinou 625-655), em 626, na “Batalha de Win-and-Lose Hill” (Batalha da Colina dos Vencedores e da Colina dos Vencidos). Embora alguns estudiosos modernos continuem a insistir que essa batalha é uma ficção posterior, as evidências arqueológicas do local (situado no Peak District) apoiam a historicidade da batalha, que Eduíno venceu.
Os nortumbrianos repeliram Cynegils e Cwichelm para o sul, e Penda rompeu sua aliança com Wessex e os atacou, em 628, derrotando Cynegils na Batalha de Cirencester e conquistando grandes extensões de terra. Penda então voltou sua atenção para a Nortúmbria, aliou-se ao rei galês Cadwallon ap Cadfan (reinou 625-634) e atacou. Em 633, derrotou a Nortúmbria na “Batalha de Hatfield Chase” (Batalha de Perseguição à Hatfield); Eduíno e seu filho Osfrith foram mortos e o poder da Nortúmbria desmoronou.
Reunificação sob Oswiu
Eduíno converteu-se ao cristianismo em 627, sendo o primeiro rei da Nortúmbria a fazê-lo, e todos os reis que o sucederam seriam cristãos. Após sua morte, ele foi considerado mártir e depois um santo que lutou pela fé contra os mercianos pagãos sob o comando de Penda. Seu sucessor, Osvaldo (Oswald; filho de Etelfrido, reinou 634-642), também seria considerado um santo após sua morte em batalha contra Penda, em 642.
Osvaldo defendeu a forma celta do cristianismo. O que exatamente era o "cristianismo celta" não está claro, e os detalhes – e até mesmo a existência – de um tipo diferente de cristianismo que divergia marcadamente do catolicismo romano ainda são debatidos. Tudo o que se sabe com certeza é que os seguidores do chamado cristianismo celta celebravam a Páscoa em data diferente e os monges eram tonsurados (o cabelo era cortado) de maneira diferente, mas, certamente, havia diferenças mais significativas do que essas.
Osvaldo escolheu um monge irlandês devoto, Aidan (mais tarde Santo Aidano de Lindisfarne, falecido em 651), como missionário para o povo da Nortúmbria, e Aidan começou seu trabalho construindo o famoso mosteiro em Lindisfarne. Eduíno tinha adotado a versão romana do Cristianismo que, embora diferisse da celta, era considerada por Osvaldo um erro suficiente para que o povo tivesse de ser reconduzido à verdade do Cristianismo celta..
Essas diferenças na prática do cristianismo podem ter desempenhado papel na unificação de Bernícia e Deira sob o sucessor de Osvaldo, Osvio (Oswiu). Embora unidas sob Etelfrido, Bernícia e Deira mantiveram sua antiga rivalidade e essas diferenças parecem ter piorado após a morte de Eduíno. Depois que Osvaldo foi morto na Batalha de Maserfield, o reino foi dividido entre seu irmão Osvio, em Bernícia, e Osvino (Oswine f ilho de Osrico, primo de Eduíno, reinou 633-634), em Deira.
Por volta de 651, Osvio declarou guerra a Osvino, embora o motivo seja incerto. É possível, no entanto, que as diferenças na prática do cristianismo tenham contribuído para o conflito. Osvio era um cristão celta, enquanto Osvino era provavelmente católico romano. Beda atribui a culpa pelo conflito a Osvio, mas não especifica o motivo. Osvino recusou-se a lutar, dissolveu seu exército e buscou refúgio com um de seus condes, que o traiu e entregou-o a Osvio, sendo executado. Osvio, então, reivindicou Deira e unificou os dois reinos, formando a Nortúmbria, em 654. A ligação cristã a essa unificação, naturalmente, é especulativa devido à escassez de registros nortumbrianos.
Outra teoria sobre a unificação é que Osvio considerava Osvino fraco demais para defender a região contra Penda da Mércia. Osvaldo havia repelido uma ofensiva de Penda durante seu reinado, mas, durante o reinado de Osvino, Penda tomou partes do reino do sul sem qualquer oposição. Depois de assassinar Osvino e unificar os reinos, Osvio fortaleceu seu exército e, em 655, derrotou e matou Penda na Batalha de Winwaed. Ele então dividiu a Mércia ao meio; Osvio governou o norte e deixou o sul para o filho de Penda, Peada (reinou 655-656).
A Nortúmbria era novamente o reino mais poderoso da Grã-Bretanha (como havia sido sob Eduíno) e Osvio tomou o resto da Mércia, em 656, após a morte de Peada. Ele foi expulso por Wulfhere (um dos filhos de Penda, einou. 658-675), em 658, mas ainda controlava a Nortúmbria. Em 664, ele presidiu o Sínodo de Whitby, que foi convocado para resolver as diferenças entre o cristianismo católico romano e o cristianismo celta; Ele decidiu a favor do catolicismo romano como religião oficial da Nortúmbria.
Quaisquer que sejam as outras consequências que possam ter resultado de Whitby, uma delas foi o aumento de igrejas, abadias e mosteiros dedicados aos santos de Roma (especialmente São Pedro), com scriptoriums e bibliotecas anexos; estes não só produziram os Manuscritos Iluminados, como também incentivaram o conhecimento acadêmico.
Alfabetização e Ascensão de Wessex
O foco da Nortúmbria na prática do cristianismo – muito mais intenso nessa época do que em Wessex ou Mércia – produziu dois dos melhores estudiosos da época: Beda (cefca de 672-735) e Alcuíno (c. 735-804). Beda é mais conhecido por sua História Eclesiástica do Povo Inglês (cerca de 731), considerada a primeira obra séria sobre a história da Grã-Bretanha e que lhe rendeu o epíteto de "Pai da História Inglesa".
A obra de Beda não apenas forneceria ao povo da região a história de seu passado, mas também teria efeitos de longo alcance sobre como a história como um todo era compreendida no Ocidente. Ele popularizou o uso do sistema de datação a.C. (Antes de Cristo) e d.C. (Anno Domini, em latim para "No Ano do Senhor"), que havia sido inventado por volta de 525, pelo monge Dionísio Exíguo (cerca de 470-544), em um esforço para universalizar a data da celebração da Páscoa para todas as igrejas.
O mosteiro de Monkwermouth-Jarrow, onde Beda viveu e escreveu, era o centro de aprendizado mais importante da época e continuou sendo até as incursões vikings do século IX. Um monge de York, Ecgbert (mais tarde Arcebispo Ecgberto de Iorque, falecido em 766), foi ensinado pessoalmente por Beda em Monkwermouth-Jarrow ou aprendeu com ele por meio de correspondência. De qualquer forma, Beda foi fundamental na fundação do arcebispado de York, que produziu o grande erudito Alcuíno.
Alcuíno de York ainda é considerado um gigante intelectual de sua época e influenciaria gerações futuras de estudiosos como professor na corte de Carlos Magno (Rei dos Francos, 768-814, posteriormente Sacro Imperador Romano, 800-814). Ele inventou o conceito de problema de palavras em matemática e o uso do ponto de interrogação na escrita, mas, mais importante, enfatizou a importância da alfabetização como aspecto da piedade pessoal; esse conceito influenciaria posteriormente as reformas educacionais de Alfredo, o Grande, de Wessex (reinou 871-899).
Embora os mosteiros tenham florescido durante esse período, o governo foi quase continuamente instável. Entre cerca de 735 e c. 802, a Nortúmbria teve mais de dez reis em rápida sucessão, a maioria dos quais foi deposta por rivais. Os grandes avanços feitos pelos reis anteriores na expansão do reino e em projetos de construção foram prejudicados pela rivalidade ressurgente entre Bernícia e Deira. Em 829, a Nortúmbria se submeteu a Egberto de Wessex como suserano e Egberto, que havia derrotado a Mércia em 825, agora governava os três maiores reinos da região.
As Invasões Vikings e o Domínio Nórdico
A supremacia de Egberto foi logo desafiada, no entanto, à medida que os ataques vikings aumentavam na Grã-Bretanha. O primeiro ataque viking atingiu a Nortúmbria em 793, em Lindisfarne, onde saquearam o mosteiro e assassinaram os monges. No ano seguinte, retornaram para saquear o mosteiro de Jarrow e, no ano seguinte, Iona caiu em suas mãos. Egberto foi derrotado por um exército viking em Charmouth em 836 d.C., mas venceu uma coalizão de vikings e dumnonianos em 838. Seu filho, Etelvulfo (reinou 839-858), também sofreria ataques vikings durante seu reinado.
Em 865, os vikings interromperam sua prática de ataques periódicos de guerrilha e invadiram a Grã-Bretanha com força total. O Grande Exército Pagão, como era chamado pelos escribas medievais, desembarcou na Ânglia Oriental e a subjugou, depois marchou para a Nortúmbria, conquistou-a e, em seguida, tomou a maior parte da Mércia. A Nortúmbria parece ter sido conquistada facilmente devido ao conflito entre dois reis, cujas datas de reinado são desconhecidas: Osberto e Ela (Osberht e Aelle).
É provável que esses dois representassem, respectivamente, os interesses de Bernícia e Deira, mas isso não está claro. Osberto foi deposto por Ela por volta de 865; historiadores posteriores afirmaram que ele usurpou o trono. Ela é uma figura presente na saga islandesa "O Conto dos Filhos de Ragnar" (final do século XIII/início do século XIV), que é uma sequência da epopeia islandesa "A Saga de Ragnar Lothbrok" (século XIII), que apresenta o lendário chefe viking. Em "O Conto dos Filhos de Ragnar", Ela derrota e mata Ragnar, jogando-o em um poço de serpentes. Seus filhos, então, vingam a morte do pai derrotando o exército de Ela e infligindo-lhe a tortura da águia de sangue. Após sua morte, Ivar, o Desossado, reina como rei da Nortúmbria.
Os registros da época do histórico Ela são quase inexistentes, mas parece que ele e Osberto deixaram de lado suas diferenças e enfrentaram a invasão viking com suas forças combinadas em março de 867 em York. Os reis da Nortúmbria foram mortos na batalha e seus exércitos se dispersaram. Os vikings instalaram um rei fantoche, Ecgberto I (reinou 867-873), que foi deposto em 873 pelos nortumbrianos, que então escolheram Ricsige (r. 873-876) como rei.
Ricsige foi deposto por Halfdan Ragnarson (reinou 876-877), um dos líderes do Grande Exército Pagão e, depois dele, a Nortúmbria foi governada pelos nórdicos até 954, quando Eirico Machado de Sangue foi deposto por Edredo. telstão de Wessex, o primeiro Rei dos Ingleses (reinou 927-939), governou a Nortúmbria durante seu reinado, mas após sua morte, a região retornou ao domínio nórdico sob Olavo Guthfrithson (reinou 839-841), o rei viking de Dublin e neto do infame chefe viking Bárr mac Imair (ou possivelmente um de seus irmãos). A deposição de Eirico Machado Sangrento por Edredo pôs fim ao domínio nórdico na Nortúmbria e uniu a região ao resto da Grã-Bretanha.
Nortúmbria em Vikings e Legado
A Nortúmbria é apresentada na série de TV Vikings por meio do personagem Rei Ela (interpretado pelo ator Ivan Kaye) e sua filha Judite (interpretada por Jennie Jacques). Na série, Ela forja aliança com Egberto de Wessex mediante casamento entre Judite e o filho de Egberto, Etelvulfo. Judite trai Etelvulfo tendo caso com o ex-viking que se tornou clérigo, Atelstão, resultando no nascimento de Alfredo, o Grande. Egberto recruta a ajuda de Ragnar Lothbrok como mercenário em sua tentativa de dominar a Mércia, e Ragnar é posteriormente capturado e morto por Ela, que por sua vez é morto pelos filhos de Ragnar.
Nenhum desses eventos é de forma alguma histórico. Como observado, quase nada se sabe sobre o reinado de Ela na Nortúmbria e ele provavelmente nem seria lembrado se não fosse pelo papel que desempenha em O Conto dos Filhos de Ragnar. A esposa de Etelvulfo e mãe de Alfredo, o Grande, foi Osburga de Wessex, que morreu por volta de 854 Judite, a segunda esposa de Etelvulfof, era filha de Carlos, o Calvo (reinou 843-877), Rei da Frância Ocidental, e era adolescente quando se casaram por volta de 855; eles nunca tiveram filhos.
A Nortúmbria desempenha papel relativamente menor em Vikings, mas, na história, suas contribuições foram significativas. O reino experimentou apenas alguns períodos de verdadeira estabilidade, mas, apesar disso, ainda fez avanços significativos na religião, o que resultou em desenvolvimentos na educação, arquitetura e arte, entre outras disciplinas.
Pelo menos quatro dos maiores Manuscritos Iluminados – o Livro de Durrow, o Codex Amiatinus, os Evangelhos de Lindisfarne e o Bestiário da Abadia de Westminster – são todos da Nortúmbria, assim como dois dos maiores estudiosos do mundo medieval. Embora o reino tenha despendido enormes esforços em conflitos militares internos e externos, suas maiores contribuições não tiveram nada a ver com a guerra, mas sim com a elevação do espírito humano.
