A Língua Etrusca

Mark Cartwright
por , traduzido por Ana Carolina de Sousa
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Etruscan Inscription Plaque (by The British Museum, Copyright)
Placa Etrusca com Inscrição The British Museum (Copyright)

A língua etrusca, assim como os próprios etruscos, permanece, de certa forma, misteriosa e ainda não totalmente compreendida. O alfabeto utilizava uma escrita grega ocidental, mas a língua tem apresentado dificuldades aos estudiosos por não ter relação com as línguas indo-europeias contemporâneas e também pelo fato de os exemplos sobreviventes se limitarem, em grande parte, a inscrições muito curtas, a maioria nomes próprios. As letras, a pronúncia, a estrutura geral das frases e muitos nomes próprios são geralmente compreendidos, mas o significado de muitas outras palavras que não pode ser inferido pelo contexto, os empréstimos linguísticos e a ocorrência em textos paralelos etc. continuam sendo alguns dos maiores obstáculos para a decifração completa da língua. O que fica mais claro a partir do vasto número de inscrições sobreviventes é que um nível limitado de alfabetização era relativamente comum, inclusive entre as mulheres, disseminada por toda a Etrúria.

Origens e Fontes

O etrusco era uma língua relativamente isolada, sem ligação com as línguas indo-europeias da Itália e com apenas duas relacionadas conhecidas, as quais se considera terem derivado de uma fonte ancestral comum. Estas são o rético, falado na região alpina ao norte de Verona, e a língua falada em Lemnos antes do grego, ambas com exemplos textuais muito limitados, sendo que a última provavelmente veio de comerciantes etruscos. Parece que o historiador Dionísio de Halicarnasso, do século I a.C., tinha total razão para afirmar que os etruscos eram "um povo muito antigo, sem semelhanças com outros, tanto na língua quanto nos costumes" (Heurgon, 1). O etrusco era falado em toda a Etrúria, ou seja, na região centro-oeste da Itália, desde Roma, ao sul, até o vale do rio Pó, ao norte, onde os etruscos fundaram colônias.

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Existem mais de 13.000 exemploS de textos etruscos, que abrangem DESDE O século VIII aTÉ o I a.C., o principal período da civilização.

Existem mais de 13.000 exemplos de textos etruscos, que vão desde o século VIII até o I a.C., o principal período da civilização. A maioria deles provém da própria Etrúria, mas também há outras fontes no sul e norte da Itália, em Córsega e no norte da África. Os textos assumem a forma de inscrições, em geral curtas e frequentemente fragmentárias, em cerâmica e em placas de metal ou pedra. Um dos exemplos mais importantes e úteis são as três placas de ouro de Pyrgi, o porto de Cerveteri, que continham a mesma informação (embora em um contexto diferente) tanto no alfabeto etrusco quanto no fenício. Descobertas nos alicerces de um templo e datadas de cerca de 500 a.C., elas descrevem a dedicação de uma área sagrada a Astarte e provavelmente estavam fixadas na parede do templo.

Obras de arte e objetos do cotidiano, como espelhos, armas e armaduras, especialmente aqueles deixados como oferendas votivas em santuários, constituem outra fonte de informação. Um exemplo típico desses pequenos trechos de texto é apresentado a seguir, encontrado em um pequeno frasco de terracota:

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Aska mi eleivana, mini mulvanike mamarce velchana

(Eu sou uma garrafa de óleo e Mamarce Velchana me doou)

Cerâmicas, urnas funerárias e murais em tumbas também costumam conter pequenas inscrições. Infelizmente, há poucos registros escritos extensos que sobreviveram e nenhum livro escrito pelos etruscos em sua própria língua, embora saiba-se que eles produziram livros feitos de páginas de linho dobradas (liber linteus), e os trechos apontam para uma rica literatura etrusca. Um exemplo, com cerca de 1.500 palavras, o texto mais longo que restou, sobreviveu indiretamente e incompleto na encadernação de uma múmia egípcia no Museu Nacional de Zagreb. Ele descreve vários procedimentos e cerimônias de rituais ditados pelo calendário usado na religião etrusca.

Etruscan & Phoenician Inscriptions
Inscrições Etruscas e Fenícias Pufacz (Public Domain)

Por vezes, os arqueólogos têm sorte e uma única descoberta revela-se inestimável – neste caso, uma pequena tabuleta de marfim do século VII a.C. de Marsiliana d'Albegna, que fora utilizada como tábua de escrita em cera e que tinha o alfabeto completo gravado na lateral, sem dúvida para servir como auxílio mnemônico para seu proprietário. Outra grande descoberta foi um galo de cerâmica bucchero de Viterbo, que também apresentava um alfabeto completo gravado na superfície.

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Uma segunda fonte indireta são os glossários de escritores gregos e latinos que traduziram listas de palavras etruscas para suas próprias línguas. Outra importante ajuda para os linguistas é o uso de palavras emprestadas numa segunda língua, e aqui o latim e o grego são novamente úteis. Por fim, o contexto arqueológico das inscrições pode fornecer informações úteis para entender seu significado geral.

Alfabeto e Estrutura

O alfabeto etrusco foi adaptado de um alfabeto grego ocidental, provavelmente introduzido por comerciantes de Euboea em algum momento antes de 700 a.C., e, por isso, sua pronúncia é geralmente conhecida. Dado esse contato com o grego, novas palavras foram necessárias para os novos objetos que chegavam ao mundo etrusco, e elas apresentam uma notável semelhança com seus originais gregos. Por exemplo, cerâmica era importada para a Etrúria em grandes quantidades, e recipientes peculiares como o jarro grego ou a taça com duas alças, o prochous e o lekythos, tornaram-se pruchum e lechtum, respectivamente. Essa assimilação é vista novamente na mitologia, em que figuras gregas recebem nomes etruscanizados, por exemplo, Aias, ou Ajax, torna-se Eivas e Hércules, ou Herakles, torna-se Ercle.

O alfabeto etrusco tinha 26 sinais, mas alguns não eram usados; eram sinais gregos sem um som correspondente no etrusco falado (por exemplo, beta, gama, delta e ômicron). De forma semelhante, algumas letras foram adicionadas para representar sons etruscos não presentes no grego (por exemplo, 8 para o som de F). Havia apenas quatro vogais (a, e, i, u) e, com ênfase predominante na primeira sílaba, as vogais internas curtas foram abandonadas a partir do século V a.C., resultando em frequentes grupos consonantais. Os textos eram lidos da direita para a esquerda, embora os mais longos pudessem ter direções alternadas em cada linha (bustrofédon).

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Etruscan Model Liver For Divination
Modelo de Fígado Etrusco para Adivinhação Jan van der Crabben (CC BY-NC-SA)

Há indícios de uso de tempos verbais, mas características como indicadores de diferenças no número de substantivos ainda não foram identificadas. A estrutura das frases permanece obscura, mas uma sequência sujeito-objeto-verbo parece prevalecer. A maior lacuna no conhecimento linguístico do etrusco reside no vocabulário, visto que apenas cerca de 200 palavras que não são nomes próprios sobreviveram. Por esse motivo, não é inconcebível que novas descobertas arqueológicas expandam esse léxico e ofereçam aos linguistas uma chance maior de compreender plenamente o etrusco.

Legado

Ao colonizarem partes do norte da Itália, os etruscos difundiram seu alfabeto entre os vênetos, récios, lepôncios, entre outros povos. Eles também comerciaram com povos do outro lado dos Alpes, transmitindo, assim, seu alfabeto e língua às tribos germânicas, o que levaria ao desenvolvimento da escrita rúnica no norte da Europa.

Os etruscos foram conquistados pelos romanos nos séculos II e I a.C., e grande parte de sua cultura foi assimilada aos novos costumes romanos. O etrusco desapareceu gradualmente como língua cotidiana, sendo substituído pelo latim, como se observa em inscrições monumentais do período. Porém, ele parece ter sobrevivido em contextos mais formais, visto que hinos tirrênicos são mencionados pelo autor latino Lucrécio, do século I d.C., e sabe-se que alguns ritos e práticas religiosas etruscas sobreviveram até o período imperial, quando provavelmente ainda se utilizavam fórmulas e frases etruscas. Além disso, assim como os romanos mantiveram algumas práticas culturais dos etruscos, o latim também adotou muitas palavras da língua da primeira grande civilização da Itália. Por fim, há quem veja o famoso sotaque toscano, ou gorgia toscana, dos italianos modernos daquela região como uma herança de seus ancestrais etruscos.

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Bibliografia

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Cartwright, M. (2026, maio 15). A Língua Etrusca. (A. C. d. Sousa, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15665/a-lingua-etrusca/

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Cartwright, Mark. "A Língua Etrusca." Traduzido por Ana Carolina de Sousa. World History Encyclopedia, maio 15, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15665/a-lingua-etrusca/.

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Cartwright, Mark. "A Língua Etrusca." Traduzido por Ana Carolina de Sousa. World History Encyclopedia, 15 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-15665/a-lingua-etrusca/.

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