Tiglath-Pileser I

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Tiglath Pileser I (by Carl Friedrich Lehmann-Haupt, Public Domain)
Tiglath Pileser I Carl Friedrich Lehmann-Haupt (Public Domain)

Tiglath-Pileser I (que reinou entre 1115 e 1076 a.C.), um rei assírio do período conhecido como Império Médio, revitalizou a economia e as forças armadas, que vinham a sofrer, em maior ou menor grau, desde a morte do rei Tukulti-Ninurta I (1244-1208 a.C.). Os antigos reis, como Adad-Nirari I, Salmanasar I e Tukulti-Ninurta I, tinham expandido o império a partir da cidade de Assur e enchido os tesouros reais com as riquezas provenientes das suas conquistas. Os reis que se seguiram a Tukulti-Ninurta I, no entanto, contentaram-se em manter o império tal como o herdaram, sem melhorar nem expandir a sua herança, e assim perderam progressivamente território para tribos invasoras ou facções rebeldes dentro do próprio império. A historiadora Susan Wise Bauer comenta sobre este período: «Tiglath-Pileser queria mais. Foi o primeiro rei belicoso desde Salmanasar, oito gerações e cem anos antes. Ele voltou-se contra os invasores e aproveitou os seus ataques para conquistar mais terras para si próprio. E, durante um breve período — pouco menos de quarenta anos —, a Assíria recuperou algo semelhante ao seu antigo esplendor» (pág. 287). Ao longo do seu reinado, realizou extensas campanhas militares com o seu exército, iniciou grandes projetos de construção e impulsionou o processo de constituição de uma coleção de livros na biblioteca de Assur, reunindo tabuinhas cuneiformes de todo o império.

Era um homem letrado que redigiu os primeiros anais reais e é mais conhecido como o rei que expandiu o território dos assírios a tal ponto que este podia verdadeiramente ser chamado de império. Antes do seu reinado, como observa o historiador Paul Kriwaczek, «a Assíria cresceu em território, pedaço a pedaço, embora com frequentes reveses, até atingir um primeiro ponto alto na década de 1120, quando o rei Tiglate-Pileser I atravessou o Eufrates, capturou a grande cidade de Carquêmis e chegou tanto ao Mar Negro como ao Mediterrâneo, criando pela primeira vez um Império Assírio» (pág. 223). O seu reinado foi, no entanto, um único ponto brilhante na história do império nesta época, e as suas conquistas seriam perdidas pelos seus sucessores, que voltaram às políticas de contenção que os seus antecessores tinham seguido.

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Em todos os aspetos do seu reinado, Tiglate-Pileser I centrou-se numa política que foi melhor expressa pelo poeta latino Lúcio Accius: «Oderint dum Metuant» — Que odeiem, desde que temam.

O Reinado e campanhas militares

Tiglath-Pileser I iniciou o seu reinado restaurando os templos que tinham sido negligenciados e conquistando o apoio do povo através da construção de novos templos. Nas suas inscrições, escreve que se dedicou, em primeiro lugar, aos deuses e à sua vontade. Escreve:

No início do meu reinado, Anu e Vul, os grandes deuses, meus Senhores, guardiões dos meus passos, convidaram-me a restaurar este seu santuário. Assim, fabriquei tijolos; nivelei o solo, medi as suas dimensões; lancei as suas fundações sobre uma massa de rocha sólida. Pavimentei este local em toda a sua extensão com tijolos dispostos em ordem, preparei o solo a 50 pés de profundidade e, sobre esta subestrutura, lancei as fundações inferiores do templo de Anu e Vul. Desde as fundações até aos telhados, construí-o, melhor do que era antes. Construí também duas cúpulas elevadas em honra das suas nobres divindades e consagrei o lugar sagrado, um salão espaçoso, para comodidade dos seus fiéis e para acolher os seus devotos, que eram numerosos como as estrelas do céu e se derramavam em grande quantidade como rajadas de flechas. Reparei, construí e concluí a minha obra. No exterior do templo, modelei tudo com o mesmo cuidado que no interior. O monte de terra sobre o qual foi construído, ampliei-o como o firmamento das estrelas nascentes e embelezei todo o edifício. As suas cúpulas ergui até ao céu e os seus telhados construí inteiramente em tijolo. Um santuário inviolável para as suas nobres divindades erigi bem próximo. Anu e Vul, os grandes deuses, glorifiquei no interior, coloquei-os na sua honrada pureza e deliciei os corações das suas nobres divindades. Bit-Khamri, o templo do meu Senhor Vul, que Shansi-Vul, sumo-sacerdote de Assur, filho de Ismi-Dagan, sumo-sacerdote de Assur, tinha fundado, ficou em ruínas. Nivelou o seu terreno e, desde os alicerces até aos telhados, reconstruí-o em tijolo, ampliei-o para além do seu estado anterior e embelezei-o. No seu interior, ofereci vítimas preciosas ao meu Senhor Vul.

Embora o sacrifício humano não fosse praticado pelos assírios, a referência acima (e outras semelhantes nas suas inscrições) parece indicar que Tiglate-Pileser I instituiu o sacrifício humano ritual como parte da sua política de incutir terror nos seus inimigos e reverência nos seus súbditos. Depois de ter tratado dos templos e encomendado outros projetos de construção, lançou a sua primeira campanha, por volta de 1112 a.C., contra o povo dos Mushku, que tinham reivindicado território assírio para si próprios. Conquistou então o país de Comukha (Anatólia), derrotando o povo dos Nairi, e marchou em seguida para a região de Eber Nari (atual Síria e Levante), conquistando-a também. Ele escreve:

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No início do meu reinado, 20 000 dos Muskayanos e os seus 5 reis, que durante 50 anos tinham ocupado os países de Alza e Perukhuz, sem pagar tributos nem oferendas a Ashur, meu Senhor, e a quem nenhum rei da Assíria se tinha jamais atrevido a enfrentar em batalha, recorreram à sua força e foram conquistar o país de Comukha. Ao serviço de Ashur, meu Senhor, reuni as minhas carruagens e guerreiros à minha volta... atravessei o país de Kasiyaia, um país difícil. Enfrentei os seus 20 000 combatentes e os seus 5 reis no país de Comukha. Derrotei-os. As fileiras dos seus guerreiros na batalha foram arrasadas como se por uma tempestade. Os seus cadáveres cobriram os vales e os cumes das montanhas. Cortei-lhes as cabeças. Transformei as muralhas das suas cidades em montes, como montículos de terra; saqueei os seus bens móveis, a sua riqueza e os seus objetos de valor numa quantidade incontável. Capturei 6 000 dos seus soldados rasos que fugiram perante os meus servos e aceitaram o meu jugo, e entreguei-os aos homens do meu próprio território. Depois, entrei no país de Comukha, que se mostrou desobediente e reteve o tributo e as oferendas devidas a Ashur, meu Senhor: conquistei todo o país de Comukha. Saqueei os seus bens móveis, a sua riqueza e os seus objetos de valor. Incendiei as suas cidades, destruí-as e arruinei-as.

Tendo derrotado os arameus de Eber Nari (embora estes continuassem a representar um problema para ele e, mais tarde, para os seus sucessores) e conquistado a Anatólia, o rei babilónico Nabucodonosor I fez incursões no território assírio e afirmou ter conquistado a terra dos amorreus (a terra de Eber Nari). Este cenário era muito semelhante ao de séculos antes, quando o rei babilónico Kashtiliash tinha tomado territórios fronteiriços assírios e atraído sobre si a ira de Tukulti Ninurta I. Tiglate-Pileser I reagiu da mesma forma e conduziu o seu exército contra as cidades da Babilónia, capturando a Babilónia e destruindo o palácio central. No entanto, não cometeu o mesmo erro que Tukulti Ninurta I e poupou os templos dos deuses.

Segundo a historiadora Gwendolyn Leick, Tiglate-Pileser I «foi um dos reis assírios mais importantes deste período, em grande parte devido às suas campanhas militares de grande alcance, ao seu entusiasmo por projetos de construção e ao seu interesse por coleções de tabuinhas cuneiformes… Emitiu também um decreto legal, as chamadas Leis da Assíria Média» (pág. 171). Estas leis apresentavam o rei como o administrador da vontade dos deuses — o que não diferia de códigos legais anteriores, como o Código de Hamurabi —, mas a severidade das suas penas era muito maior. Nestas leis, tal como em todos os aspetos do seu reinado, Tiglate-Pileser I centrou-se numa política melhor expressa pela frase do poeta latino posterior Lúcio Accius: «Oderint dum Metuant» — Que odeiem, desde que temam (uma frase que se tornou infame pelo imperador romano Calígula). No entanto, não só as penas eram severas, como pareciam sê-lo especialmente para as mulheres.

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Assyrian Warriors Relief
Relevo de Guerreiros Assírios Osama Shukir Muhammed Amin (CC BY)

As Leis e a Misoginia

As leis estão inscritas em tabuinhas descobertas no sítio da antiga cidade de Assur. Kriwaczek observa que:

Os aspetos que mais saltam à vista nestas leis são o quão severas e cruéis parecem, mesmo quando comparadas com o código «olho por olho» de Hamurabi, e o quão profunda é a misoginia que expressam. As punições incluem espancamentos severos, mutilações horríveis e métodos medonhos de pena capital — esfolamento vivo ou empalamento numa estaca, por exemplo, o modelo original das crucificações romanas. Esta é a punição prevista para uma mulher que provoque um aborto: «Se uma mulher tiver provocado um aborto espontâneo por sua própria ação, depois de a terem julgado e condenado, empalarão-a em estacas sem a enterrar. Se ela morrer ao provocar o aborto, empalá-la-ão numa estaca sem a enterrar.» Por prejudicar a fertilidade de um homem, a pena é a mutilação: «Se uma mulher esmagar o testículo de um cavalheiro numa briga, cortar-lhe-ão um dedo. Se o outro testículo tiver sido afetado juntamente com o primeiro por ter contraído a infeção, mesmo que um médico o tenha enfaixado, ou se ela tiver esmagado o outro testículo numa briga, arrancar-lhe-ão ambos os olhos.» O adultério [por parte de uma mulher] é um crime capital ou punível com desfiguração.

(pág. 224).

Kriwaczek e outros estudiosos observaram que não é claro com que frequência estas penas eram aplicadas, mas, tendo em conta a estrutura social do período do Império Médio, especialmente no que diz respeito às mulheres, é bastante provável que fossem impostas com bastante regularidade. As mulheres tinham muito poucos direitos no Império Médio. Eram responsáveis pelas ações dos maridos, pelas suas dívidas e pelos seus crimes, mas não podiam reivindicar qualquer mérito pelas honras ou conquistas destes; os maridos, por outro lado, não assumiam qualquer responsabilidade pelas ações, dívidas ou crimes das suas esposas. Kriwaczek escreve: «Embora nenhuma sociedade antiga de que tenhamos conhecimento possa ser verdadeiramente descrita como um paraíso feminista, os regulamentos da Assíria Média foram muito mais longe na opressão das mulheres do que qualquer outra anterior» (pág. 225). Esta supressão dos direitos das mulheres parece corresponder ao desenvolvimento do monoteísmo na teologia assíria. À medida que o império crescia, a divindade central dos assírios, Ashur, já não podia ser adorada apenas no seu templo na cidade de Ashur. Teve de se tornar portátil e assim o fez através do reconhecimento de que os deuses de todos os territórios conquistados eram, na verdade, apenas Ashur com outros nomes. Em vez de um deus local que era venerado no seu templo, Ashur tornou-se o deus supremo que podia ser venerado em qualquer lugar, porque era transcendente. À medida que o conceito de Deus se afastava cada vez mais do mundo natural, o estatuto das mulheres deteriorou-se. A razão para tal tem sido debatida há anos, mas pode ser tão simples quanto o que Kriwaczek sugere:

Enquanto os homens podem iludir-se a si próprios e uns aos outros, acreditando que estão fora, acima e são superiores à natureza, as mulheres não conseguem distanciar-se dessa forma, pois a sua fisiologia torna-as clara e obviamente parte do mundo natural. Elas dão à luz crianças a partir dos seus úteros e produzem alimento para os seus bebés a partir dos seus seios. Os seus ciclos menstruais ligam-nas à lua. Na sociedade atual, a noção de que, para as mulheres, a biologia é destino é, com razão, considerada abominável. Na época assíria, era um facto evidente que as privava da plena humanidade

(pág. 230).

A desigualdade de estatuto das mulheres na sociedade assíria desta época era mais plenamente ilustrada nas leis e, como referido, elas eram responsáveis não só pelo seu próprio comportamento, mas também pelo dos seus maridos. No entanto, os homens também seriam punidos se testemunhassem uma mulher a comportar-se mal, ou a sair em público vestida de forma inadequada, e não fizessem nada para a denunciar às autoridades. Muitas destas leis diziam respeito ao uso — ou não uso — de véus pelas mulheres. Esposas, viúvas, prostitutas sagradas, concubinas e filhas da nobreza tinham de aparecer em público com o rosto coberto. As mulheres escravas, as filhas de escravos e as prostitutas comuns não deviam cobrir o rosto. Uma mulher que saísse à rua usando um véu ao qual não tinha direito teria as orelhas cortadas. Um homem que visse uma mulher a usar um véu que não devia usar — ou a comportar-se de qualquer outra forma considerada inaceitável — tinha de denunciar essa mulher às autoridades imediatamente, sob pena de 50 chicotadas, mutilação e escravidão durante um mês.

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Mapa da Assíria no Período Mesoassírio
Mapa do Império Assírio Médio Simeon Netchev (CC BY-NC-ND)

A Morte e a Dissolução do Império

Tiglath-Pileser I morreu provavelmente na velhice, de causas naturais. Embora haja historiadores que defendam a hipótese de que ele possa ter sido assassinado, parecem existir poucas provas disso nas fontes primárias. Durante o seu reinado, expandiu o império e importou animais de diferentes terras para a região em torno de Assur, tendo possivelmente criado um dos primeiros jardins zoológicos da cidade. Leick observa que «foi também um dos primeiros reis assírios a mandar construir parques e jardins repletos de árvores e plantas estrangeiras e nativas» (pág. 171). Era um caçador notável que afirmava ter abatido 920 leões e um narval, entre outros animais. Os seus códigos legais eram tidos em alta estima pelos seus súbditos e os seus anais reais destacavam o seu poder e destreza em batalha. Além disso, compilou uma biblioteca de dimensão e alcance significativos em Assur. Todas estas realizações elevaram o seu nome nas obras dos escribas assírios posteriores, e ficou conhecido como um rei verdadeiramente grande. Governantes posteriores, como Tiglate-Pileser II e Tiglate-Pileser III, adotaram o seu nome numa tentativa de se associarem ao grande monarca do passado.

Mesmo assim, as conquistas de Tiglate-Pileser I não sobreviveriam ao próprio rei. Embora as suas campanhas fossem de grande alcance e tivessem trazido grande riqueza, ele nunca estabeleceu firmemente o domínio assírio nos territórios conquistados. Foi a força da sua própria personalidade que manteve o império unido e, com a sua morte, este começou a desintegrar-se. Foi sucedido pelo seu filho, Asharid-apal-ekur, que continuou as suas políticas, mas não fez quaisquer avanços. Quando este morreu, dois anos depois, o trono foi assumido pelo seu irmão, Ashur-bel-kala, que foi desafiado por um usurpador e mergulhou a região numa guerra civil. Esta agitação permitiu que as regiões que ainda não tinham abandonado o império se separassem e declarassem a sua autonomia. Os arameus, que nunca tinham sido completamente conquistados, levantaram-se agora contra os assírios e reconquistaram as terras do oeste. A Assíria entrou num período de estagnação, em que os governantes mantinham os territórios que conseguiam, mas pouco mais faziam. O império foi-se reduzindo e permaneceu estagnado até à ascensão do rei Adad-Nirari II (912-891 a.C.), que revitalizou novamente a Assíria e deu início ao Império Neo-Assírio, que se tornaria a maior entidade política e militar do Próximo Oriente durante os três séculos seguintes.

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Mark, J. J. (2026, agosto 22). Tiglath-Pileser I. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12871/tiglath-pileser-i/

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Mark, Joshua J.. "Tiglath-Pileser I." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 22, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12871/tiglath-pileser-i/.

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Mark, Joshua J.. "Tiglath-Pileser I." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 22 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/1-12871/tiglath-pileser-i/.

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