A arquitetura inca inclui algumas das estruturas de pedra mais refinadamente trabalhadas de entre todas as civilizações antigas. Os edifícios incas eram quase sempre práticos e visualmente apelativos. Apresentam também uma uniformidade de estilo assinalável, com as grandes estruturas imperiais a assumirem um aspeto semelhante ao de edifícios mais humildes, sendo as únicas diferenças significativas a sua escala muito superior e a qualidade do acabamento.
Apreciadora da dualidade em muitas outras áreas, uma característica particular da arquitetura inca é o facto de esta incorporar tipicamente a paisagem natural, conseguindo, ao mesmo tempo, dominá-la para criar uma mistura, frequentemente espetacular, de formas geométricas e naturais.
Os Materiais
A pedra era o material de eleição, sendo refinadamente trabalhada para produzir um arranjo preciso de blocos de encaixe nos edifícios mais nobres. A pedra usada era de três tipos: calcário de Yucay, porfírio de diorito verde de Sacsayhuaman e andesito negro. Cada bloco de pedra podia pesar muitas toneladas, sendo extraído em pedreiras e moldado utilizando apenas pedras mais duras e ferramentas de bronze. As marcas nos blocos indicam que estes foram, na sua maioria, moldados por percussão e não por corte.
Os blocos eram movidos com o auxílio de cordas, troncos, postes, alavancas e rampas (ainda percetível nos vestígios deixados nalguns blocos) e algumas pedras conservam protuberâncias ou entalhes que eram utilizados para ajudar os trabalhadores a manusear a rocha. O corte minucioso e o assentamento dos blocos no local eram tão precisos que era desnecessário o uso da argamassa. Por fim, o acabamento da superfície era frequentemente obtido através do uso de pedras de moagem e areia. O facto das rochas serem desbastadas de forma grosseira nas pedreiras e, posteriormente, trabalhadas novamente no seu destino final, é claramente indicado por exemplares inacabados deixados nas pedreiras e em diversas rotas para os locais de construção. O meticuloso processo de assentar, remover, retalhar e, em seguida, voltar a assentar os blocos para que encaixassem com exatidão era moroso; contudo, diversas experiências demonstraram que era muito mais célere do que os estudiosos tinham anteriormente suposto. Ainda assim, a produção de um só muro teria levado muitos meses. Os blocos de encaixe e as paredes inclinadas tornam os edifícios incas extremamente resistentes, embora não imunes, aos danos provocados por sismos. Quinhentos anos de terramotos causaram danos notavelmente reduzidos às estruturas incas que se encontram no seu estado completo.
As estruturas mais humildes utilizavam pedras de campo não trabalhadas, assentes com argamassa de lama, ou utilizavam tijolos de lama seca (adobe) em zonas de clima mais árido. Ambos os tipos de estrutura eram tipicamente revestidos por uma camada de reboco de lama ou argila e, posteriormente, pintados com cores vibrantes. As paredes de Puka Tampu, por exemplo, ainda conservam vestígios de pintura vermelha, negra, amarela e branca.
Os telhados eram geralmente fabricados em colmo, utilizando ervas secas ou juncos dispostos sobre varas de madeira ou cana. Estas varas eram atadas entre si com cordas e fixadas às paredes de pedra através de cravos de pedra que delas sobressaíam. Estes cravos podiam ser inseridos na parede ou esculpidos a partir de um dos blocos; podiam ser circulares ou quadrados e, por vezes, surgiam em paredes interiores para funcionarem como cabides, possivelmente para suportar tapeçarias têxteis. Ocasionalmente, o topo da empena apresentava um anel de pedra, também ele destinado à fixação do telhado. A inclinação das coberturas era mais acentuada nas regiões mais chuvosas do império, atingindo frequentemente os 60 graus.
As Características
A vasta maioria dos edifícios incas era retangular; a maior parte possuía uma entrada única e era composta por apenas uma divisão, uma vez que as paredes divisórias não são comuns no estilo inca. Existem alguns exemplos raros de estruturas retangulares longas com múltiplas portas e até edifícios circulares ou em forma de "U", mas a norma recaía em estruturas de paredes retas. A maioria dos edifícios possuía apenas um piso, embora existam algumas estruturas com dois (especialmente as construídas em encostas) e as mais impressionantes estruturas imperiais na capital, Cusco, onde surgem por vezes exemplos de edifícios de três pisos.
As paredes exteriores incas inclinam-se frequentemente para dentro à medida que se elevam (tipicamente cerca de 5 graus), conferindo ao edifício uma forma trapezoidal distintiva. A forma trapezoidal é mais comum no norte e no centro do império e um dos seus efeitos óticos é fazer com que as paredes pareçam mais altas e espessas do que realmente são. O motivo trapezoidal era repetido em vãos de portas, janelas e nichos de paredes interiores. Os vãos de portas e janelas apresentam também, frequentemente, umbral duplo (ou dupla ombreira), sendo os primeiros usualmente rematados por um grande lintel de pedra única.
A arquitetura na capital e os edifícios imperiais disseminados por todo o império eram extraordinariamente semelhantes, no seu estilo, a outras estruturas mais mundanas. Eram, naturalmente, amiúde muito superiores em escala e a qualidade da sua cantaria era bastante mais elevada. Podiam também ser mais ambiciosos no traçado, empregando paredes curvas, e podiam ser decorados de forma mais luxuosa — como, por exemplo, com revestimentos de ouro, tal como sucedia no recinto sagrado do Coricancha, em Cusco, cuja secção de parede curva sobrevive em parte até aos dias de hoje. Esta dualidade de edifícios de classe inferior e superior serem iguais, e simultaneamente diferentes, era em grande medida um traço da cultura inca em geral.
Os edifícios incas podem ter sido uniformes nos seus princípios básicos de estilo e podem aparentar uma falta de individualidade, mas sobreviveram no registo histórico os nomes de diversos arquitetos: Huallpa Rimichi Inca, Inca Maricanchi, Acahuana, Sinchi Roca e Calla Cunchuy; o que sugere que era permitida alguma individualidade no estilo arquitetónico.
As Estruturas
Os edifícios retangulares podiam ser agrupados em conjuntos de três (ou mais) e dispostos em torno de um pátio aberto, mas amuralhado; este era, possivelmente, o arranjo de edifícios mais comum entre os Incas. Este minicomplexo é conhecido como kancha e funcionava como edifício administrativo, oficina, templo, alojamento ou uma mistura de todos estes. Edifícios de dimensões muito vastas são conhecidos como kallanka, tipicamente com diversas portas e estão voltados para um grande espaço aberto, frequentemente (mais uma vez) de traçado trapezoidal. Eram provavelmente utilizados para reuniões públicas e como alojamento para representantes da administração inca, constituindo símbolos públicos claros do controlo imperial. Os palácios eram semelhantes, em estilo, aos edifícios mais pequenos, apenas a uma escala superior, com uma cantaria mais refinada e, muito frequentemente, amuralhados para restringir o acesso e a visualização das figuras reais.
Cada povoação inca de relevo possuía um ushnu, que simbolizava o controlo imperial inca por todo o império. O ushnu era um tipo de plataforma de observação para procissões, cerimónias importantes patrocinadas pelo Estado e processos judiciais, situando-se num dos lados da praça principal. Outra característica das cidades eram os portais, que frequentemente constituíam entradas monumentais para as povoações; um dos mais impressionantes terá sido o portão principal de Quispiguanca, com a sua torre de dois pisos e o umbral de porta triplo.
As Collcas (ou Qollqas) eram armazéns frequentemente construídos em grupos ou blocos de forma circular ou retangular, mas com apenas uma divisão. Estão frequentemente situadas em encostas, o que lhes conferia tanto uma boa ventilação como sombra, preservando, por conseguinte, melhor o seu conteúdo perecível. Um pavimento inferior de cascalho e canais de drenagem eram auxílios adicionais para manter a atmosfera interior seca, permitindo o armazenamento de bens como cereais e batatas por dois anos ou mais.
Os colonatos incas raramente eram fortificados, uma vez que a guerra era geralmente conduzida através de batalhas campais; a submissão dos povos conquistados era assegurada através de meios políticos, económicos e culturais, em detrimento dos militares, sendo a imposição da arquitetura imperial uma parte fundamental do processo colonial. Contudo, existem exceções. Alguns autores consideram Machu Picchu como um local fortificado, enquanto os colonatos de última resistência contra os espanhóis, como Ollantaytambo, foram fortificados com grandes muralhas de socalcos em blocos.
O terraceamento de encostas, tal como os edifícios, utilizava quer rochas soltas fixadas com argamassa de lama, quer grandes blocos de corte minucioso. Estes podiam expandir a terra disponível para cultivo e proporcionar melhor irrigação e drenagem para as colheitas, mas eram também, por vezes, meramente decorativos e plantados com flores. Os socalcos de Pisac e Ollantaytambo estão entre os mais impressionantes, e o seu formato possui um efeito estético definido e planeado.
Até os afloramentos rochosos eram esculpidos em formas funcionais pelos Incas. Por exemplo, em Sacsayhuaman, foi talhado numa colina de pedra um entalhe semelhante a um trono com degraus. As secções de afloramentos menores podiam ser talhadas em formas geométricas ou desenhos, tais como ziguezagues e retângulos esculpidos na rocha, desconhecendo-se o seu concreto propósito. Tais obras exploravam também, propositadamente, o jogo de luz e sombra para conferir uma dimensão geométrica adicional à paisagem natural. Por exemplo, as muralhas em ziguezague de Sacsayhuaman criam sombras triangulares que parecem espelhar as sombras criadas pelos picos das montanhas em pano de fundo. Foram também talhados recintos em fendas naturais na rocha, sendo um dos mais famosos o santuário do templo do deus sol, Inti, sob a torre do Torreón em Machu Picchu.
O Planeamento
O planeamento urbano era um ponto de consideração fundamental para os arquitetos incas. As estradas principais atravessavam frequentemente as povoações em ângulo, sendo Huánuco Pampa um excelente exemplo. Zonas inteiras de uma cidade eram construídas em alinhamento com a praça central e o ushnu, e as residências reais estavam tipicamente voltadas para o nascer do sol. De um modo mais geral, os lados longos dos edifícios incas eram habitualmente colocados paralelamente às praças. Os quarteirões de edifícios nunca eram totalmente quadrados e eram intersetados por ruas estreitas e retas, construídas apenas para peões. Por vezes, até a cidade inteira possuía uma forma planeada própria; o exemplo mais célebre foi a intenção de que o traçado de Cusco criasse a figura de uma puma quando vista de cima.
Outra consideração importante para os arquitetos incas era o posicionamento de edifícios, portas e janelas de forma a que as vistas fossem aproveitadas ao máximo e que os corpos e eventos astronómicos — certas estrelas ou o sol durante os solstícios, por exemplo — fossem visíveis através dos portais. É raro que os portais de um edifício inca não considerem o ambiente em que foram construídos.
A outro nível, os arquitetos incas procuravam também, muito frequentemente, fundir harmoniosamente as suas estruturas na paisagem circundante. Talvez o exemplo mais famoso seja Machu Picchu, que segue os contornos da encosta e até incorpora elementos naturais, como grandes rochas, nos próprios edifícios. Por vezes, o contorno de uma pedra sagrada ou de um edifício era inclusivamente desenhado para imitar os contornos de um elemento natural, como uma montanha distante. Outros exemplos célebres de muralhas que incorporam perfeitamente rochas subjacentes são o pavilhão de caça de Tambo Machay e o sítio da fortaleza sagrada de Sacsayhuaman, em Cusco. O resultado desta integração é uma fusão de algum modo harmoniosa do orgânico e do geométrico, transmitindo-se uma mensagem clara de que, tal como os governantes podem dominar um povo súbdito, também a humanidade pode respeitar, mas em última análise dominar, a natureza.
