As Admoestações de Ipuwer (também conhecidas como O Papiro Ipuwer e As Admoestações de um Sábio Egípcio) é um texto literário datado do Império Médio do Egipto (2040-1782 a.C.). A única cópia sobrevivente da obra, preservada no Papiro Leiden 344, data do Império Novo (aproximadamente entre 1570 e 1069 a.C.).
O manuscrito é considerado o derradeiro exemplar sobrevivente do género literário de 'desastre nacional', tão recorrente durante o Império Médio. Nele, descreve-se um cenário onde reina o caos e a ordem foi negligenciada; as hierarquias tradicionais e o respeito institucional foram subvertidos, tornando a morte e a destruição ameaças iminentes. De entre as diversas obras classificadas como literatura didática (ou Sebayt), As Admoestações de Ipuwer distinguem-se como a obra mais rigorosa, contrastando ordem e caos e defendendo a importância de um governo central forte para manter a ordem e preservar a paz.
Literatura Didática no Egipto Antigo
A literatura didática, por definição, procura transmitir ao leitor uma lição fundamental. Os escritos didáticos do Império Médio enfatizavam sistematicamente a dicotomia entre a ordem e o caos, explorando a memória coletiva do Primeiro Período Intermédio (2181-2040 a.C.). Esta era anterior caracterizou-se pela ausência de um governo centralizado, num tempo em que os governadores regionais impunham as suas próprias normas e valores. A realidade histórica contrastava com a visão desastrosa que os escribas do Império Médio tendiam a perpetuar.
Estes escritos do Império Médio eram frequentemente classificados pelos egípcios como 'Literatura Sapiencial', uma vez que instruíam o público sobre valores culturais fundamentais, tendo como alicerce a estrutura do Império Antigo (cerca de 2613 a 2181 a.C.). Estas obras recebiam habitualmente o título de Instruções ou Admoestações, pois apresentavam-se sob a forma de conselhos de um pai para um filho, de um rei para o seu sucessor ou, ainda, de advertências proferidas por um sábio ao seu soberano. A egiptóloga Miriam Lichtheim escreve:
[Estas obras] formulam e ponderam os problemas da vida e da morte, procurando soluções. O Egipto e a Mesopotâmia foram os primeiros a praticar esta classe de escritos, à qual foi dado o nome de 'Literatura Sapiencial'. O seu exemplo contribuiu significativamente para o posterior florescimento deste género entre os Hebreus.
(pág. 134)
A influência da literatura sapiencial egípcia sobre os escribas que redigiram os livros que viriam a compor a Bíblia é manifesta. As Admoestações de Ipuwer, entre outros textos, ecoam conceitos análogos aos que se encontram nos livros bíblicos de Eclesiastes, Provérbios, Salmos e no Cântico dos Cânticos. Esta influência estende-se igualmente a obras não estritamente classificadas como 'literatura sapiencial', tais como as Lamentações, Jeremias, Isaías e o Livro de Job, entre outros. Em muitas destas narrativas bíblicas, observam-se passagens que lamentam a perda de uma era de ordem e paz, contrastando-a com um presente de desordem, caos e miséria, expressas de formas literárias semelhantes.
Embora o tema de uma 'era de ouro' de felicidade plena, em contraste com uma era sombria contemporânea, seja recorrente na literatura de diversas culturas ao longo da história, neste caso específico, é inteiramente plausível que estes textos egípcios tenham influenciado diretamente as obras hebraicas. O Livro do Êxodo, com a sua tónica na crueldade egípcia para com os escravos hebreus, pode, de facto, ser interpretado como um 'divórcio' literário em relação à cultura que inspirou algumas das mais insignes obras que viriam a integrar na Bíblia.
A Natureza dos Textos de Literatura Sapiencial Egípcios
O tema da instrução na Literatura Sapiencial encontrou expressão em várias obras, entre elas, além de As Admoestações de Ipuwer, estão As Profecias de Neferti, As Queixas de Khakheperreseneb, A Disputa entre um Homem e seu Ba, O Camponês Eloquente, A Instrução do Rei Amenemhat para seu Filho Sesóstris I e A Sátira dos Ofícios. As Admoestações são mais semelhantes às Profecias de Neferti e à obra As Queixas de Khakheperreseneb ao evocar um tempo passado de grandeza agora perdido. As Queixas resumem o problema numa linha: "Mudanças acontecem, não é como no ano passado" (Idem, pág. 147). O passado é glorificado e o presente condenado na maioria das obras, pois os autores afirmam que os costumes antigos foram esquecidos, o que conduziu ao caos em escala nacional.
É difícil datar com precisão o texto de As Admoestações de Ipuwer, porque a única cópia vem do Império Novo do Egipto, mas acredita-se que tenha sido composto um pouco mais tarde no Império Médio do que as outras obras. O autor parece ter acreditado que, para provar o seu argumento, era necessária uma profusão de exemplos de depravação e caos muito superior à utilizada em obras anteriores, mais concisas; estes exemplos são repetidos com urgência ao longo das dezassete páginas do manuscrito.
As Admoestações enquadram-se perfeitamente no género de 'angústia nacional' do Império Médio, embora amplifiquem as misérias que este género literário habitualmente enfatizava. O tom de urgência do texto, aliado ao contexto em que foi traduzido pela primeira vez, levou diversos estudiosos do século XX a concluir que se tratava de uma reportagem histórica e não de uma obra de ficção; esta teoria, contudo, foi entretanto descartada.
História da Interpretação de As Admoestações
O texto recebeu a primeira interpretação e publicação pelo egiptólogo A. H. Gardiner em 1909. Um momento muito interessante para a arqueologia, pois, a partir de meados do século XIX, cada vez mais arqueólogos europeus trabalhavam no Oriente Próximo a pedido de instituições, na senda de provas históricas e físicas para corroborar as histórias da Bíblia. O que os estudiosos encontraram, porém, foi exatamente o oposto do que esperavam. Antes desta época, a Bíblia era considerada o livro mais antigo do mundo, composto inteiramente por literatura original. O trabalho realizado pelos estudiosos entre 1840 e 1900 trouxe à luz a literatura da antiga Mesopotâmia e do Egipto e mudou a maneira como a Bíblia e a história mundial eram entendidas.
As narrativas da Bíblia, que por tanto tempo se pensou terem sido escritas por Deus ou por escribas inspirados por Deus, passaram a ser entendidas como tendo precedentes em obras anteriores de outras culturas. A história da Queda do Homem, o Grande Dilúvio, as observações existenciais de Eclesiastes e o conceito de um Deus moribundo e ressuscitado, cuja ressurreição traz vida ao mundo, foram todos registrados mesmo antes dos escribas hebreus terem iniciado a escrita dos livros que acabariam por compor a Bíblia. Mesmo assim, a egiptologia e os estudos do Oriente Próximo ainda tinham um longo caminho a percorrer antes de amadurecerem, e muitos textos foram mal interpretados pelos primeiros estudiosos.
Por volta de 1900, época em que Gardiner estudava As Admoestações, a literatura do Império Médio que descrevia o Primeiro Período Intermédio era interpretada como historicamente fidedigna. Este período anterior era comummente entendido como uma era de caos, decorrente do colapso do Império Antigo. Na realidade, o Primeiro Período Intermédio foi um tempo de assinalável progresso cultural e de afirmação das várias regiões do Egipto; carecia, simplesmente, de um governo centralizado.
Todavia, para os escribas do Império Médio esta descentralização representava um problema gravíssimo, sobre o qual sentiam o dever de alertar os seus contemporâneos. De acordo com a crença tradicional, o monarca era o mediador entre os deuses e o povo; por conseguinte, um país privado de um rei forte era uma terra isolada das divindades que a nutriam e lhe conferiam vida. As Profecias de Neferti baseiam explicitamente a sua premissa nesta crença, ao passo que as Queixas de Khakheperreseneb apenas a sugerem e As Admoestações a proclamam de forma veemente.
Os académicos que trabalharam com estes textos nos séculos XIX e XX operavam a partir do antigo paradigma da Bíblia como história e, por conseguinte, excepto nos casos de textos com temas e personagens mitológicos óbvios, as obras literárias eram consideradas históricas. De acordo com Lichtheim, foi apenas em 1929 que As Admoestações de Ipuwer foram reconhecidas pela primeira vez como literatura pelo investigador S. Luria, que "assinalou a natureza ficcional e mitológico-messiânica destas obras, bem como os clichés fixos através dos quais o tema do 'caos social' era expresso" (pág. 150). Embora, de novo segundo Lichtheim, o trabalho de Luria não tenha recebido grande atenção na época, outros especialistas chegaram mais tarde à mesma conclusão: a de que As Admoestações são uma obra de literatura do Império Médio, e não História.
Esta compreensão do texto enquanto literatura de género não era amplamente difundida fora do campo da egiptologia; contudo, o trabalho inicial de Gardiner recebeu uma atenção considerável, tanto por parte de académicos como de leigos. As Admoestações de Ipuwer foram novamente, e de forma errónea, interpretadas como história, sobretudo pelo investigador independente Velikovsky, nas décadas de 1950 e 1960, que utilizou o texto para sustentar a sua tese de que a influência planetária teria causado eventos catastróficos na história mundial. As teorias de Velikovsky foram repetidamente desmascaradas e refutadas por especialistas de diversas áreas, mas tal pouco contribuiu para corrigir este equívoco no imaginário popular.
Recentemente, em 2014, o documentário Patterns of Evidence: Exodus (Padrões de Evidência: O Êxodo ou Evidências do Êxodo) afirmou que As Admoestações de Ipuwer constituíam um relato histórico, uma perspetiva egípcia dos eventos relatados no livro bíblico do Êxodo, provando que a obra era historicamente rigorosa. O livro homónimo reafirma estas alegações, tal como a obra de David Rohl, cujas teorias fundamentam e sustentam o filme e o livro Exodus: Myth or History? (Êxodo: Mito ou História?), que perpetua este equívoco. Independentemente da integridade das intenções que lhes presidem, estas obras revelam-se intelectualmente e historicamente desonestas na forma como manipulam as evidências que alegam apresentar com imparcialidade. Aqueles que defendem visões opostas são descartados como ateus ou cegos pela erudição oficial, enquanto as provas literárias e físicas são manipuladas para corroborar as afirmações dos produtores e escritores.
Através da popularidade das obras de Rohl, este equívoco sobre a natureza do texto egípcio continua a ser perpetuado, embora não exista uma base sólida para tal na obra em si. Só é possível aceitar As Admoestações de Ipuwer como História se se possuir pouco ou nenhum conhecimento da História e da literatura egípcias. Sendo Rohl um egiptólogo, poder-se-á questionar por que razão defende uma interpretação da obra tão diametralmente oposta à academia estabelecida. A resposta torna-se evidente quando se conhecem os repetidos apelos de Rohl para uma revisão da cronologia egípcia, o seu estatuto «marginal» entre os especialistas e a sua insistência na veracidade histórica de narrativas bíblicas como o Livro do Êxodo; a perpetuação de uma interpretação errada do texto sustenta as teses que apresenta em livros que alcançaram boas vendas e lhe conferiram um certo grau de celebridade.
As Admoestações de Ipuwer: O Texto
Se estiver familiarizado com a literatura do "angústia nacional" do Império Médio, é bastante evidente que As Admoestações de Ipuwer se enquadram perfeitamente no género. A tradução inglesa é do académico Andre Dollinger, baseada na tradução padrão de R. O. Faulkner de 1965.
Os parênteses e as reticências indicam texto omisso ou pouco claro, que é, por vezes, sugerido. Aqueles que estão familiarizados com o trabalho de Rohl reconhecerão que o que é geralmente apresentado são excertos da obra com "provas textuais", os quais excluem partes que poderiam contradizer certas afirmações:
[. . .] Os porteiros dizem: 'Vamos saquear'.
Os pasteleiros [. . .].
O lavadeiro recusa-se a carregar o seu fardo [. . .].
Os caçadores de aves perfilaram-se em ordem de batalha [. . . os habitantes] do Delta carregam escudos.
Os cervejeiros [. . .] tristes.
Um homem encara o seu próprio filho como um inimigo.
A confusão [. . .] outrem. Vem e conquista; julga [. . .] o que te foi destinado no tempo de Hórus, na era [da Enéade . . .].
O homem virtuoso está de luto devido ao que aconteceu na terra [. . .] as tribos do deserto tornaram-se egípcios em toda a parte.
Na verdade, os rostos estão pálidos; [. . .] o que os antepassados previram concretizou-se [. . .] a terra está repleta de conspiradores e o homem vai lavrar com o seu escudo.
Na verdade, os mansos dizem: ['Aquele que é . . .] de rosto é como um homem de berço'.
Na verdade, [o rosto] está pálido; o arqueiro está pronto, a iniquidade está em todo o lado e não há homem que recorde o ontem.
Na verdade, o saqueador [. . .] por todo o lado e o servo apodera-se do que encontra. Na verdade, o Nilo transborda, contudo ninguém lavra a terra.
Todos dizem: 'Não sabemos o que acontecerá em todo o país'.
Na verdade, as mulheres são estéreis e nenhuma concebe. Khnum já não molda [os homens] devido ao estado da terra.
Na verdade, os pobres tornaram-se donos de riquezas e aquele que não conseguia fazer umas sandálias para si próprio é agora possuidor de tesouros.
Na verdade, os corações dos escravos estão tristes e os magistrados não confraternizam com o seu povo quando este clama.
Na verdade, [os corações] são violentos, a peste alastra pela terra, há sangue em todo o lado, a morte não escasseia e as ligaduras das múmias falam mesmo antes de alguém se aproximar delas.
Na verdade, muitos mortos são sepultados no rio; a corrente é um sepulcro e o local de embalsamamento tornou-se um caudal.
Na verdade, os nobres estão em agonia, enquanto o pobre transborda de alegria. Cada cidade diz: 'Expulsemos os poderosos de entre nós'.
Na verdade, os homens são como íbis. A sujidade grassa pela terra e, nestes tempos, não há ninguém cujas vestes sejam brancas.
Na verdade, a terra gira como a roda de um oleiro; o salteador é possuidor de riquezas e [o rico tornou-se] um saqueador.
Na verdade, os servos fiéis são [. . .]; o pobre [queixa-se]: 'Que terrível! O que hei de fazer?'"
Na verdade, o rio é sangue, contudo os homens bebem dele. Os homens afastam-se dos seus semelhantes e anseiam por água.
Na verdade, portões, colunas e paredes são consumidos pelo fogo, enquanto a sala do palácio permanece firme e resiste.
Na verdade, o navio [dos do Sul] despedaçou-se; as cidades estão destruídas e o Alto Egipto tornou-se um deserto vazio.
Na verdade, os crocodilos [estão saciados] com os peixes que capturaram, pois os homens vão até eles de livre vontade; é a destruição da terra. Os homens dizem: 'Não caminhes aqui; vê, é uma armadilha'. Vê, os homens agitam-se [na água] como peixes, e o homem aterrorizado não a consegue distinguir devido ao pânico.
Na verdade, os homens são poucos, e aquele que enterra o seu irmão encontra-se em todo o lado. Quando o sábio fala, [foge sem demora].
Na verdade, o homem de nobre linhagem [. . .] por falta de reconhecimento, e o filho da senhora tornou-se o filho da sua serva.
Na verdade, o deserto estende-se por toda a terra, os nomos estão devastados e bárbaros do estrangeiro chegaram ao Egipto.
Na verdade, os homens chegam [. . .] e, na verdade, não há egípcios em parte alguma.
Na verdade, ouro e lápis-lazúli, prata e turquesa, cornalina e ametista, pedra de Ibhet e [. . .] estão pendurados ao pescoço das servas. Coisas boas existem por toda a terra, (contudo) as donas de casa dizem: 'Oxalá tivéssemos algo para comer!'
Na verdade, [. . .] mulheres nobres. Os seus corpos estão em triste estado devido aos seus trapos, e os seus corações desfalecem ao saudarem-[se umas às outras]. Na verdade, arcas de ébano são despedaçadas e a preciosa madeira-ssndjem é fendida para servir de leitos [. . .]."
Na verdade, os construtores [de pirâmides tornaram-se] agricultores, e aqueles que estavam na barca sagrada são agora atrelados [a ela]. Na verdade, hoje ninguém navegará para norte, rumo a Biblos; o que faremos para obter cedros para as nossas múmias, com cujos produtos os sacerdotes são sepultados e com cujo óleo os [chefes] são embalsamados até chegar a Keftiu? Eles já não vêm; o ouro escasseia [. . .] e os materiais para todo o tipo de ofícios acabaram. O [. . .] do palácio foi despojado. Quão raramente vêm agora as gentes dos oásis com as suas especiarias festivas, esteiras e peles, com plantas-rdmt frescas e gordura de aves... ?
Na verdade, Elefantina e Tinis [. . .] do Alto Egipto, (mas) sem pagar impostos devido à guerra civil. Escasseiam o grão, o carvão, os frutos-irtyw, a madeira-m'w, a madeira-nwt e a lenha. O trabalho dos artesãos e [. . .] são o lucro do palácio. Com que propósito serve um tesouro sem as suas receitas? Feliz seria, na verdade, o coração do rei se a verdade chegasse até ele! E se todas as terras estrangeiras [viessem]! Esse é o nosso destino e essa é a nossa felicidade! O que podemos fazer quanto a isso? Tudo é ruína!
Na verdade, o riso pereceu e [já não] se ouve; é o gemido que ecoa por toda a terra, misturado com lamentos.
Na verdade, cada morto é como um homem de nobre linhagem. Aqueles que eram egípcios [tornaram-se] estrangeiros e são postos de parte. Na verdade, o cabelo [caiu] a todos, e o homem de estatuto já não se distingue daquele que não é ninguém.
Na verdade, [. . .] devido ao ruído; o ruído não [cessa] em anos de barulho, e o barulho não tem fim.
Na verdade, grandes e pequenos [dizem]: 'Quem me dera morrer'. As crianças pequenas dizem: 'Ele não me deveria ter dado a vida'.
Na verdade, os filhos dos príncipes são despedaçados contra as paredes, e os bebés de peito são abandonados nos terrenos elevados.
Na verdade, aqueles que estavam no local de embalsamamento são expostos nos terrenos elevados, e os segredos dos embalsamadores são por isso profanados.
Na verdade, pereceu aquilo que ontem se via, e a terra foi entregue à sua fraqueza como o corte do linho.
Na verdade, o Delta na sua totalidade não ficará escondido, e o Baixo Egipto confia em estradas trilhadas. O que se pode fazer? Não existem [. . .] em parte alguma, e os homens dizem: 'Perdição para o lugar secreto!' Vede, está nas mãos daqueles que o desconhecem, tal como daqueles que o conhecem. Os habitantes do deserto tornaram-se peritos nos ofícios do Delta.
Na verdade, cidadãos são postos a moer grão, e aqueles que costumavam vestir o linho fino são espancados com... Aqueles que nunca viam a luz do dia saíram sem impedimentos; aquelas que repousavam nas camas dos seus maridos, que jazem agora sobre balsas. Eu digo: 'É pesado demais para mim', referindo-me às balsas que carregam mirra. Carregai-as com vasos cheios de [... Que] elas conheçam o palanquim. Quanto ao mordomo, ele está arruinado. Não há remédio para isto; as nobres sofrem como servas, os músicos estão nos teares dentro das salas de tecelagem, e o que cantam à Deusa-Cantora é um lamento. Tagarelas [...] moinhos de grão.
Na verdade, todas as escravas são livres de língua e, quando a sua senhora fala, é irritante para as servas.
Na verdade, as árvores são abatidas e os ramos despojados.
Separei-o a ele e aos seus escravos domésticos, e os homens dirão quando o ouvirem: 'Faltam bolos para a maioria das crianças; não há comida [...]. Qual é o seu sabor hoje?'
Na verdade, os magnatas passam fome e perecem, os seguidores são seguidos [...] devido às queixas.
Na verdade, o homem impetuoso diz: 'Se eu soubesse onde está Deus, servi-lo-ia'. Na verdade, a Justiça (Maat) percorre a terra apenas de nome, mas o que os homens fazem, ao confiar nela, é a Iniquidade (Isfet).
Na verdade, os mensageiros lutam pelo despojo do salteador, e todos os seus bens são levados.
Na verdade, todos os animais, os seus corações choram; o gado muge devido ao estado da terra.
Na verdade, os filhos dos príncipes são despedaçados contra as paredes, e os bebés de peito são abandonados nos terrenos elevados. Khnum geme devido ao seu cansaço.
Na verdade, o terror mata; o homem amedrontado opõe-se ao que é feito contra os vossos inimigos. Além disso, os poucos estão satisfeitos, enquanto os restantes estão [...]. Será perseguindo o crocodilo e despedaçando-o? Será matando o leão assado no fogo? [Será] fazendo aspersões para Ptah e tomando [...]? Por que lhe dás a ele? Não há forma de o alcançar. É miséria o que lhe dás.
Na verdade, escravos [...] por toda a terra, e o homem forte envia para todos; um homem golpeia o seu irmão materno. O que foi que se fez? Falo a um homem arruinado. Na verdade, os caminhos estão [...], as estradas são vigiadas; os homens sentam-se nos arbustos até que o viajante tardio chegue para saquear a sua carga, e o que ele traz consigo é levado. Ele é fustigado com golpes de bastão e assassinado.
Na verdade, pereceu aquilo que ontem se via, e a terra foi entregue à sua fraqueza como o corte do linho, com o povo comum vindo e indo em dissolução [...] Quem me dera que houvesse um fim para os homens, sem conceção, sem nascimento! Então a terra estaria em sossego, sem ruído, e o tumulto não existiria mais.
Na verdade, [os homens comem] ervas e lavam-[nas] com água; não se encontra fruto nem erva [para] as aves, e [...] é tirado da boca do porco. Nenhum rosto brilha daqueles que tu tens [...] para mim através da fome."
Na verdade, por todo o lado a cevada pereceu e os homens estão despojados de vestes, de especiarias e de óleo; todos dizem: 'Não há nada'. O armazém está vazio e o seu guardião jaz estendido no chão; um belo estado de coisas!
Oxalá tivesse eu erguido a minha voz naquele momento, para que ela me pudesse ter salvo da dor em que me encontro.
Na verdade, a câmara do conselho privado — os seus escritos foram levados e os mistérios que [nela] existiam foram postos a nu.
Na verdade, os encantamentos mágicos foram divulgados; os feitiços-smw e shnw tornaram-se inúteis porque agora são recordados por homens [comuns].
Na verdade, as repartições públicas foram escancaradas e os seus inventários levados; o servo tornou-se senhor de servos.
Na verdade, [os escribas] são mortos e os seus escritos roubados. Ai de mim devido à miséria deste tempo!
Na verdade, os escritos dos escribas do cadastro foram destruídos, e o trigo do Egipto é agora propriedade comum.
Na verdade, as leis da câmara do conselho foram deitadas fora; os homens caminham sobre elas em locais públicos e os pobres despedaçam-nas nas ruas.
Na verdade, o pobre atingiu o estado dos Nove Deuses (a Enéade), e os antigos procedimentos da Casa dos Trinta foram divulgados.
Na verdade, a grande câmara do conselho é agora um refúgio popular, e os pobres entram e saem das Grandes Mansões.
Na verdade, os filhos dos magnatas são expulsos para as ruas; o sábio consente e o tolo diz 'não', e isto agrada aos olhos daquele que nada sabe sobre o assunto.
Na verdade, aqueles que estavam no local de embalsamamento foram expostos nos terrenos elevados, e os segredos dos embalsamadores foram, por causa disso, profanados.
Vede, o fogo subiu às alturas e as suas chamas avançam contra os inimigos da terra.
Vede, foram feitas coisas que não aconteciam há muito tempo; o rei foi deposto pela plebe.
Vede, aquele que foi sepultado como um falcão [está desprovido] de esquifes, e o que a pirâmide ocultava tornou-se um vazio.
Vede, sucedeu que a terra foi privada da realeza por alguns homens sem lei.
Vede, os homens caíram em rebelião contra o Uraeus, o [. . .] de Rá, aquela que traz o contentamento às Duas Terras.
Vede, o segredo da terra, cujos limites eram desconhecidos, foi divulgado, e a Residência Real foi derrubada num instante.
Vede, o Egipto caiu na oferta da água; aquele que derramava água no chão levou consigo o homem forte em miséria.
Vede, a Serpente é tirada do seu buraco, e os segredos dos Reis do Alto e Baixo Egipto são divulgados.
Vede, a Residência teme a penúria, e [os homens circulam] sem oposição para semear a discórdia.
Vede, a terra enredou-se em conspirações, e o cobarde apodera-se dos bens do homem corajoso.
Vede, a Serpente [. . .] os mortos: aquele que não conseguia fazer um sarcófago para si é agora o possuidor de um túmulo.
Vede, os detentores de túmulos são expulsos para os terrenos elevados, enquanto aquele que não conseguia fabricar um caixão para si é agora [o dono] de um tesouro.
Vede, isto aconteceu aos homens; aquele que não conseguia construir um quarto para si é agora possuidor de muralhas.
Vede, os magistrados da terra são expulsos por todo o país: [. . .] são expulsos dos palácios.
Vede, damas nobres estão agora em balsas e os magnatas estão em campos de trabalhos forçados, enquanto aquele que nem sequer conseguia dormir encostado a uma parede é agora possuidor de um leito.
Vede, o detentor de riquezas passa agora a noite sedento, enquanto aquele que outrora mendigava as borras para si é agora possuidor de taças transbordantes.
Vede, os possuidores de mantos estão agora em trapos, enquanto aquele que não conseguia tecer para si é agora possuidor de linho fino.
Vede, aquele que não conseguia construir um barco para si é agora possuidor de uma frota; o seu antigo dono olha para eles, mas já não são seus.
Vede, aquele que não tinha sombra é agora possuidor de sombra, enquanto os antigos detentores de sombra estão agora sob o pleno açoite da tempestade.
Vede, aquele que ignorava a lira é agora possuidor de uma harpa, enquanto aquele que nunca cantou para si próprio gaba-se agora perante a Deusa-Cantora.
Vede, aqueles que possuíam suportes de cobre para vasos [. . .] nem um só dos seus jarros foi adornado.
Vede, aquele que dormia sem esposa devido à miséria [encontra] riquezas, enquanto aquele que ele nunca viu permanece a distribuir esmolas.
Vede, aquele que não tinha bens é agora possuidor de fortuna, e o magnata louva-o.
Vede, os pobres da terra tornaram-se ricos, e o [antigo proprietário] de bens é aquele que nada tem.
Vede, os servos tornaram-se mestres de mordomos, e aquele que outrora era um mensageiro agora envia outrem.
Vede, aquele que não tinha um pão é agora dono de um celeiro, e o seu armazém está provido com os bens de outrem.
Vede, aquele cujo cabelo caiu e que não tinha óleo tornou-se agora possuidor de jarros de doce mirra.
Vede, aquela que não tinha uma caixa é agora dona de um cofre, e aquela que tinha de olhar para o seu rosto na água é agora dona de um espelho.
Vede, [. . .].
Vede, um homem é feliz comendo a sua comida. Consome os teus bens com alegria e sem impedimentos, pois é bom para um homem comer a sua comida; Deus ordena-o para aquele que Ele favoreceu [. . .].
[Vede, aquele que não conhecia] o seu deus, oferece-lhe agora incenso de outrem [que lhe é] desconhecido.
[Vede,] grandes damas, outrora detentoras de riquezas, dão agora os seus filhos em troca de leitos.
Vede, a um homem [a quem é dada] uma dama nobre como esposa, o pai dela protege-o, e aquele que não tem [. . .] matando-o.
Vede, os filhos dos magistrados são [ . . . as crias] do gado [são entregues] aos saqueadores.
Vede, os sacerdotes transgridem com o gado dos pobres [. . .].
Vede, aquele que não conseguia abater para si próprio, abate agora touros, e aquele que não sabia trinchar, vê agora [. . .].
Vede, os sacerdotes cometem transgressões com gansos, que são oferecidos aos deuses em vez de bois.
Vede, as servas [. . .] oferecem patos; as nobres [. . .].
Vede, as nobres fogem; os capatazes de [. . .] e os seus [filhos] são derrubados pelo medo da morte.
[Vede,] os chefes da terra fogem; não há propósito para eles devido à penúria. O senhor de [. . .].
[Vede,] aqueles que outrora possuíam leitos estão agora no chão, enquanto aquele que outrora dormia na imundície estende agora uma esteira de pele para si próprio.
Vede, as nobres passam fome, enquanto os sacerdotes estão saciados com o que lhes foi preparado.
Vede, nenhum cargo está no seu devido lugar, como um rebanho que corre ao acaso sem pastor.
Vede, o gado anda errante e não há ninguém para o recolher, mas cada um vai buscar para si aqueles que estão marcados com o seu nome.
Vede, um homem é morto ao lado do seu irmão, que foge e o abandona para salvar a sua própria pele.
Vede, aquele que não tinha uma parelha de bois é agora dono de um rebanho, e aquele que não conseguia encontrar um lavrador para si é agora dono de gado.
Vede, aquele que não tinha grão é agora dono de celeiros, e aquele que tinha de pedir grão emprestado para si é agora quem o fornece.
Vede, aquele que não tinha dependentes é agora dono de servos, e aquele que era [um magnate] faz agora os seus próprios recados.
Vede, os homens fortes da terra — a condição do povo não lhes é relatada. Tudo é ruína!
Vede, nenhum artesão trabalha, pois os inimigos da terra empobreceram os seus artífices.
[Vede, aquele que outrora registava] a colheita, nada sabe agora sobre ela, enquanto aquele que nunca lavrou [para si é agora o dono do trigo; a ceifa] realiza-se, mas não é comunicada. O escriba [senta-se no seu gabinete], mas as suas mãos [estão ociosas] nele.
Destruído está [. . .] naquele tempo, e um homem olha [para o seu amigo como] um adversário. O homem enfermo traz frescura [ao que está quente . . .] medo [. . .. . .]. Os pobres [. . . a terra] não brilha por causa disso.
Destruído está [. . .] a sua comida é-lhes tirada [. . . por] medo do seu terror. O homem comum implora [. . .] mensageiro, mas não [. . .] tempo. Ele é capturado carregado de bens e [toda a sua propriedade] é levada. [. . .] homens passam pela sua porta [. . .] o exterior da muralha, um barracão e salas contendo falcões. É o homem comum que estará vigilante, tendo o dia amanhecido sobre ele sem que ele o tema. Os homens correm por causa de [. . . para] o templo da cabeça, filtrado através de um pano tecido dentro de casa. O que eles fazem são tendas, tal como o povo do deserto.
Destruída está a execução daquilo para que os homens são enviados pelos retentores ao serviço dos seus senhores; eles não têm prontidão.
Vede, são cinco homens e dizem: 'Segue pelo caminho que conheces, pois nós chegámos'.
O Baixo Egipto chora; o armazém do rei é agora propriedade comum de todos, e o palácio inteiro está privado das suas receitas. A ele pertenciam o trigo e a cevada, as aves e o peixe; a ele pertenciam o pano branco e o linho fino, o cobre e o óleo; a ele pertenciam o tapete e a esteira, [. . .] flores, feixes de trigo e todas as boas receitas... Se o [. . .] no palácio fosse atrasado, os homens ficariam desprovidos [de . . .].
Destruí os inimigos da augusta Residência, esplêndida em magistrados [. . .] nela como [. . .]; na verdade, o Governador da Cidade caminha sem escolta.
Destruí [os inimigos da augusta Residência,] esplêndida [. . .]. [Destruí os inimigos de] outrora daquela augusta Residência, múltipla em leis [. . .]. [Destruí os inimigos de] outrora daquela augusta [Residência . . .].
Destruí os inimigos daquela outrora augusta Residência [. . .] ninguém pode resistir [. . .].
Destruí os inimigos daquela outrora augusta Residência, múltipla em cargos; na verdade [. . .].
Lembrai-vos de imergir [. . .] aquele que sofre quando está doente no seu corpo; mostrai respeito [. . .] por causa do seu deus, para que ele guarde a palavra [. . .] os seus filhos, que são testemunhas do surgimento da inundação.
Lembrai-vos de [. . .] o santuário, de fumigar com incenso e de oferecer água num jarro ao amanhecer.
Lembrai-vos [de trazer] gansos-r, gansos-trp e patos, e de apresentar as oferendas divinas aos deuses.
Lembrai-vos de mastigar natrão e de preparar pão branco; um homem [deve fazê-lo] no dia da purificação da cabeça.
Lembrai-vos de erguer mastros e de esculpir pedras de oferenda, com o sacerdote a purificar as capelas e o templo a ser caiado de branco como o leite; de tornar agradável o odor do horizonte e de providenciar oferendas de pão.
Lembrai-vos de observar os regulamentos, de fixar as datas corretamente e de remover aquele que entra no cargo sacerdotal com o corpo impuro, pois fazê-lo é agir erradamente; é a destruição do coração [. . .] o dia que precede a eternidade, os meses [. . .] os anos são conhecidos.
Lembrai-vos de abater bois [. . .].
Lembrai-vos de sair purificados [. . .] quem vos chama; de pôr gansos-r no fogo [. . .] de abrir o jarro [. . .] a margem das águas [. . .] de mulheres [. . .] vestuário [. . .] de dar louvores... a fim de vos apaziguar.
[. . .] falta de gente; vinde [. . .] Rá que ordena [. . .] adorando-o [. . .] Ocidente até que [. . .] diminuam [. . .]. Vede, por que procura ele moldar [os homens...]? O homem amedrontado não se distingue do violento.
Ele traz o frescor ao calor; os homens dizem: 'Ele é o pastor da humanidade, e não há mal no seu coração'. Embora os seus rebanhos sejam poucos, ele dedica o dia a reuni-los, estando os seus corações em chamas.
Oxalá ele tivesse percebido a sua natureza na primeira geração; então teria imposto obstáculos, teria estendido o seu braço contra eles, teria destruído os seus rebanhos e a sua herança. Os homens desejam o nascimento, mas a tristeza sobrepõe-se, com gente necessitada por todos os lados. Assim é, e não passará enquanto existirem os deuses que estão no meio disto. A semente sai para as mulheres mortais, mas nada se encontra no caminho.
O combate avançou, e aquele que deveria ser um reparador de males é quem os comete; nem os homens agem como pilotos na sua hora de dever. Onde está ele hoje? Estará a dormir? Vede, o seu poder não se manifesta. Se tivéssemos sido alimentados, eu não te teria encontrado, não teria sido convocado em vão; 'Agressão contra isso significa dor no coração' é um dito na boca de todos. Hoje, aquele que teme... uma miríade de pessoas; [. . .] não viu [. . .] contra os inimigos de [. . .] na sua câmara exterior; os que entram no templo [. . .] chorando por ele [. . .] aquele que confunde o que ele disse... A terra não caiu [. . .] as estátuas são queimadas e os seus túmulos destruídos [. . .] ele vê o dia de [. . .]. Aquele que não conseguia fazer para si próprio [. . .] entre o céu e o chão tem medo de toda a gente.
. . . se ele o faz . . . o que tu detestas levar. A autoridade, o conhecimento e a verdade estão contigo, contudo a confusão é o que espalhas pela terra, juntamente com o ruído do tumulto. Vede, um causa dano a outro, pois os homens conformam-se com o que tu ordenaste. Se três homens viajam pela estrada, descobrem que são apenas dois, pois os muitos matam os poucos.
Acaso um pastor deseja a morte? Então que ordenes que se responda, porque isso significa que um ama e outro detesta; significa que as suas existências são poucas em toda a parte; significa que agiste de modo a que tais coisas acontecessem. Tu disseste mentiras, e a terra é uma erva daninha que destrói os homens, e ninguém pode contar com a vida. Todos estes anos são de conflito, e um homem é assassinado no telhado da sua casa, embora estivesse vigilante na sua guarita. Se ele for bravo e se salvar, significa que viverá.
Quando os homens enviam um servo aos humildes, ele segue caminho até ver a inundação; a estrada foi levada pelas águas e ele permanece preocupado. O que traz consigo é-lhe tirado, ele é fustigado com golpes de bastão e morto injustamente. Oxalá pudesses provar um pouco desta miséria! Então dirias [. . .] de outrem como uma muralha,
para além de [. . .] quente... anos... [. . .].
[É de facto bom] quando os navios navegam rio acima [. . .] roubando-os.
É de facto bom [. . .]. [É de facto] bom quando a rede é puxada e as aves são atadas [. . .].
É [de facto] bom [. . .] dignidades para eles, e as estradas são passáveis. É de facto bom quando as mãos dos homens constroem pirâmides, quando se cavam tanques e se fazem plantações das árvores dos deuses.
É de facto bom quando os homens estão ébrios; bebem myt e os seus corações estão felizes.
É de facto bom quando o clamor está na boca dos homens, quando os magnatas dos distritos observam o clamor nas suas casas, trajando um manto, purificados por fora e providos por dentro.
É de facto bom quando as camas são preparadas e os apoios de cabeça dos magistrados estão bem seguros. A necessidade de cada homem é satisfeita com um leito à sombra, e a porta está agora fechada para aquele que outrora dormia nos arbustos.
É de facto bom quando o linho fino é estendido no Dia de Ano Novo [. . .] na margem; quando o linho fino é estendido e os mantos estão no chão. O capataz de [. . .] as árvores, os pobres [. . .] no meio deles como asiáticos [. . .]. Os homens [. . .] o estado disso; chegaram ao seu próprio fim; ninguém se encontra para se erguer e se proteger [. . .].
Cada um luta pela sua irmã e salva a sua própria pele. Serão Núbios? Então guardar-nos-emos; multiplicam-se os guerreiros para afastar os estrangeiros. Serão Líbios? Então os repeliremos. Os Medjay estão satisfeitos com o Egipto. Como acontece que cada homem mata o seu irmão? As tropas que recrutámos para nós mesmos tornaram-se estrangeiras e entregaram-se à pilhagem. O que daí resultou foi informar os Asiáticos sobre o estado da terra; todo o povo do deserto está possuído pelo medo disso. O que a plebe provou [. . .] sem entregar o Egipto [à] areia. É forte [. . .] falar sobre ti passados anos [. . .] devastar-se a si mesma, é a eira que nutre as suas casas [. . .] para nutrir os seus filhos [. . .] dito pelas tropas [. . .] peixe [. . .] goma, folhas de lótus [. . .] excesso de comida.
O que Ipuwer disse quando se dirigiu à Majestade do Senhor de Tudo: [. . .] todos os rebanhos. Significa que a ignorância disso é o que agrada ao coração. Fizeste o que era bom nos seus corações e nutriste o povo com isso. Eles cobrem os seus rostos por medo do amanhã. É assim que um homem envelhece antes de morrer, enquanto o seu filho é um jovem de entendimento; ele não abre a [sua] boca para te falar, mas tu agarras o seu destino na morte [. . .] chora [. . .] vai [. . .] atrás de ti, para que a terra possa estar [. . .] em todos os lados.
Se os homens chamam por [. . .] choram [. . .] eles, que invadem os túmulos e queimam as estátuas [. . .] os cadáveres dos nobres [. . .] de dirigir o trabalho."
Conclusão
As Admoestações de Ipuwer constituem uma obra complexa e incompleta da literatura egípcia. A beleza da peça reside no reconhecimento, por parte do leitor, de que as desgraças actuais nada têm de novo. Ao longo do tempo, a humanidade experienciou as mesmas dúvidas, frustrações e medos que conhecemos hoje. Este conceito poderá não parecer particularmente reconfortante, mas há consolo em saber que aquilo que um indivíduo foi capaz de sobreviver há mais de 3.000 anos é igualmente sobrevivível no presente. Os tempos podem ter mudado, mas os seres humanos permaneceram notavelmente os mesmos, para o melhor e para o pior, ao longo de milénios.
Afirmar que a literatura, ou as escrituras, devem ser "verdadeiras" para serem relevantes diminui o valor coletivo destas obras. Moby Dick, A Divina Comédia ou o Mahabharata não são obras factuais, mas nem por isso são menos relevantes. Além disso, seria um mau serviço a qualquer uma dessas obras — ou a qualquer obra literária — instrumentalizá-la para promover uma agenda pessoal, desconsiderando o seu propósito original.
As Admoestações de Ipuwer são uma expressão comovente da experiência de vida de um escritor num determinado momento. Entendida desta forma, como literatura, a obra continua a falar através dos séculos; mal interpretada e propagandeada como história, a obra carece de sentido, porque a «história» que representa nunca aconteceu tal como é descrita.
