A Viagem na Grécia Antiga

Artigo

Mark Cartwright
por , traduzido por Wesley G P Gomes
publicado em 23 Setembro 2013
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Texto original em inglês: Travel in the Ancient Greek World

As oportunidades para se viajar na Grécia Antiga dependiam principalmente do status e da profissão; ainda assim, uma significante porção da população podia, e iria, viajar através do Mediterrâneo para vender suas mercadorias e habilidades, ir em peregrinações religiosas, assistir a eventos esportivos ou simplesmente viajar pela vontade de ver as magníficas paisagens do mundo antigo. Porém, viajar não era sempre charmosa, e três outros significantes grupos também viajariam para longe de suas terras natais, normalmente contra a vontade deles, e esses eram enviados políticos, escravos e soldados (principalmente mercenários).

Greek Harbour Scene
Cenário de um porto grego
CA (Copyright)

Celebrando a Viagem em Si

O ato de viajar sempre pareceu ter um grande apreço pelos Gregos, o que não é nenhuma surpresa para uma civilização famosa pela sua curiosidade e inovação. Nas primeiras tradições orais da mitologia Grega, vários mitos, como Jasão e o Velocino de Ouro, celebram os benefícios a serem ganhos durante uma viagem, enquanto que outros, como o mito de Caríbdis, avisavam sobre os possíveis riscos de viajar em direção ao desconhecido. Nas primeiras obras da literatura Grega no século 8 a.C., tanto Homero quanto Hesíodo descrevem os comerciantes como incansáveis viajantes. Obras como a Odisseia ilustram que os próprios autores tinham viajado ou ao menos conversado com aqueles que o fizeram, e pode-se dizer que a épica jornada de Ulisses de volta para Ítaca era em si uma celebração das aventuras inerentes à viagem.

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Artefatos e a própria literatura indicam que ao menos uma porção da população se movimentava pelo mundo Grego

A ideia de que os Gregos viajavam extensamente é evidenciada em registros arqueológicos que mostram com claro e mensurável indicadores esse nível de contato entre as diferentes pessoas, como achados de mercadorias e moedas, a uniformidade em estilo artísticos e práticas culturais e até na propagação de doenças. Na literatura também são encontradas evidências, como em trabalhos acadêmicos, peças teatrais e histórias, de que pelo menos uma parte da população viajava pelo mundo Grego. Além disso, novas tendências e ideias trazidas nesse contato podiam influenciar as cidades e regiões de origem; um importante exemplo dessa mão-dupla era a influência oriental nas roupas, comidas e arquiteturas na vida e cidades gregas.

Como ilustra a citação abaixo, feita por Platão em seu diálogo Críton (ou o Dever), o ato de viajar era popularmente tida como uma atividade útil, e o filósofo ateniense Sócrates é criticado por não concordar com essa ideia:

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Tu nunca saíste da cidade para ir à um festival, ou qualquer outro lugar, exceto durante teu serviço militar e tu nunca fizeste nenhuma outra viagem, como outras pessoas a fazem e tu não tens nenhum desejo de conhecer outra cidade ou lei, mas tu estás contente conosco e nossa cidade. (52b)

Praticidades

Viagens terrestres significavam utilizar carruagens e cavalos para os ricos ou bestas de cargas e simplesmente andar para todo o resto. A Grécia tinha uma extensa rede de estradas que conectava até mesmo o mais remoto assentamento; contudo, a forma mais fácil e mais confortável de viajar era por mar, principalmente quando a grande maioria dos mais importantes centros urbanos se encontravam ou na costa ou muito próximo dela. No entanto, não existiam barcos dedicados para viajantes e o futuro turista tinha que persuadir algum capitão de um navio a permiti-lo embarcar junto da carga.

Greek Clay Passport Tokens
Fichas de “passaportes” gregos feitos de argila
Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

Os mapas, pelo menos os que cobriam largas áreas, pareciam ser reservados para os estudiosos ao invés dos viajantes. Mas não há dúvidas de que estradas de terra, marcos naturais (como montanhas, rios e nascentes) e assentamentos eram usados para guiar novos visitantes à alguma área em particular. Quanto à viagem marítima, os capitães dos navios costumavam manter registros (periploi) descrevendo pontos de referências ao longo do litoral e, às vezes, até mesmo registros sobre a distância terrestre e rotas (stadiasmoi) relevantes para seus portos de escala.

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No entanto, viajar podia ser dispendioso e, se realizada por distâncias muito longas, precisaria de carregadores de bagagem e outros atendentes. A hospitalidade era normalmente garantida de graça entre pares da mesma posição social (ou pelo menos era entra os mais abastados), mas existiam negócios especificamente criados para fornecer serviços básicos como comida e alojamento, especialmente nas cidades grandes e nos santuários religiosos pan-helênicos que costumavam ser grandes “atrações”. Em portos como o de Pireu, diversos negócios locais surgiram para extrair dinheiro dos viajantes de passagem como, por exemplo, barbeiros, lojas, lavanderias e prostitutas.

Contudo, viajar durante o período Arcaico incluía diversos problemas como, por exemplo, os problemas jurídicos de se estar no territórios de outro estado sem permissão enquanto tentava-se chegar no local de destino desejado, incertezas sobre o meio de transporte [qual e quando ele vai partir ou se tem espaço], assaltos e até mesmo sequestros; sendo os dois últimos particularmente mais propensos quando se viajava pelo mar, por conta de piratas. E mesmo a partir do período Clássico, com melhoras nos sistemas de comunicações e na regularidade das relações entre estados, viajar continuava sendo arriscado. Além disso, com o incessante crescimento tanto em tamanho quanto em complexidade dos centros urbanos, a necessidade por recursos, pessoas qualificadas e escravos normalmente significava que as guerras forçariam o movimento de pessoas ou até mesmo de populações inteiras.

Viajantes Comerciais

Comerciantes (emporos), artesãos habilidosos (especialmente ferreiros, entalhadores de gemas, oleiros/ceramistas, pedreiros e vidreiros) e especialistas técnicos como atores, escritores, filósofos e praticantes de medicina, normalmente viajavam por todo o Mediterrâneo oferecendo seus serviços e mercadorias para todos aqueles que pudessem pagar. Exemplos famosos incluem os doutores Demócedes de Crotona e Apolônio de Cós (ambos serviram na corte real persa), o arquiteto Mandrocles de Samos e o escultor Telephanes¹. Muitos desses especialistas e artesãos mudavam-se permanentemente e criavam oficinas para difundir seus conhecimentos e estilos artísticos em regiões muito distantes de seu local de origem.

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Os comerciantes também se reuniam nos movimentados centros comerciais como Pireu para venderem suas mercadorias que, por sua vez, iriam atravessar todo o Mediterrâneo. Colonos (apoikoi) estabeleciam centenas de novas cidades pelo Mediterrâneo, que normalmente desenvolviam-se de entrepostos comerciais básicos. Além disso, haviam centros que eram criados especificamente para o comércio como, por exemplo, o Náucratis no Delta do Nilo e Al-Mina no sul da atual Turquia. Consequentemente, durante o verão, comerciantes constantemente cruzavam o Mediterrâneo em busca de mercadorias e novas oportunidades, e dessa forma acabavam por dar aos viajantes uma forma de alcançar destinos distantes.

Map of the Mediterranean 550 BC
Mapa do Mediterrâneo em 550 AEC
Javierfv1212 (Public Domain)

Os Gregos, assim como qualquer outra civilização, também tinham seus viajantes mais ousados, os exploradores. Motivados mais por oportunidades comerciais do que pelo puro desejo de desbravar o desconhecido, os Gregos ocasionalmente iam além dos confins do Mediterrâneo em direção às costas Atlânticas da Europa e do Norte da África. Talvez os exploradores mais famosos fossem Heródoto de Halicarnasso e Píteas, que foram tão longe quanto o sudoeste inglês e, possivelmente, até mesmo a Islândia e a costa Báltica por volta de 340 a.C.

Peregrinos

Peregrinações religiosas também eram um motivo comum para se viajar, com os destinos mais populares sendo os santuários de Delos e Delfos. Nessas cidades, os viajantes podiam não só apreciar algumas das maravilhas da arquitetura grega, mas como também belas obras de artes em forma de estátuas, esculturas em relevo e fontes. Eles também podiam fazer oferendas dedicatórias de todo tipo que iam desde simples figuras de argila a imensas estátuas de bronze ou mesmo edifícios inteiros, oferecidos em honra aos deuses e normalmente na esperança de uma intervenção divina em suas vidas. Aqueles que procurassem por tratamentos médicos podiam viajar para centros como Epidauro onde Asclépio, deus da medicina, podia dar conselhos sobre qual o melhor tratamento. Junto dos peregrinos religiosos, pode-se também agrupar aqueles que viajavam para ver locais famosos por causa de contos mitológicos como, por exemplo, cavernas ditas como o local de nascimento de um deus ou um templo construído no mesmo local onde é dito que um deus interveio diretamente nos assuntos terrenos.

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Festivais como a Panateneias e Dionísias Urbanas na cidade de Atenas e os festivais que incluíssem as primeiras exibições de peças escritas por famosos dramaturgos, atraiam diversos visitantes de todos os cantos. Naturalmente, as cidades viam com bons olhos os benefícios financeiros e de relações públicas em receber esses visitantes, como dito pelo estadista ateniense Péricles em seu famoso discurso fúnebre:

Nós abrimos as portas de nossa cidade para o mundo, e nunca excluir através de leis os estrangeiros de qualquer oportunidade de observar ou aprender... (Boys-Stones, 394)

Viagens Culturais

Os fãs de esportes também viajavam bastante, especialmente aqueles que desejassem assistir aos grandes eventos atléticos dos jogos pan-helênicos em Olímpia, Delfos, Isthima e Nemeia. Devido à natureza sagrada desses jogos, havia até mesmo períodos de tréguas declaradas por toda a Grécia para permitir que os viajantes que quisessem assistir aos jogos pudessem viajar com segurança.

E da mesma forma que pessoas viajavam de áreas rurais para participar da vida nas cidades e das oportunidades oferecidas nela, elas também viajavam para estudar em famosos centros educacionais como a Academia de Platão em Atenas ou as escolas científicas na Ásia Menor, um fenômeno que somente aumentou durante o período Helênico e foi expandido para escolas de dramaturgia e esculturas, por exemplo. De maneira similar, estudiosos e sofistas viajavam em busca de alunos e pessoas que estivessem dispostas a pagar por suas aulas, como de música, filosofia e/ou oratória.

E quanto aqueles que viajavam pelo simples desejo de ver as atrações culturais feitos famosos pela literatura, teatro, contos de histórias, guerras ou mesmo moedas eram os simples e familiares turistas. Grandes centros urbanos como Atenas e Esparta, assim como o Egito com seus impressionantes monumentos antigos, eram particularmente populares. Como dito por um cômico poeta do século 5 a.C.:

Se você nunca viu Atenas, seu cérebro é um pântano

Se você viu e não se encantou, você é um idiota,

Se você partiu sem arrependimentos, sua cabeça é uma lata!

(Boys-Stones, 395)²

A partir do século 3 a.C., começou a surgir a literatura que descrevia os principais pontos turísticos a serem visitados, com alguns dos textos mais antigos sendo Quanto as Cidades Gregas (sendo que somente alguns fragmentos sobreviveram) por Heraclides Criticus e Epidēmiai pelo poeta Íon de Quios, um dos mais célebres viajantes do século 5 a.C. Esses textos costumavam se restringir a descrição de famosas obras de artes e monumentos, raramente era mencionada a topografia e nunca as praticidades da viagem. Eles, às vezes, podiam ser extremamente seletivos, subjetivos e tendenciosos a exageros, mas, ainda sim, todos eles ilustravam a sede que os Gregos tinham sobre conhecer mais sobre o resto do mundo.

Portanto, viajar na Grécia Antiga era, como ainda hoje o é, considerada uma forma de “expandir os horizontes”, conhecer e aprender sobre outras e antigas civilizações ou então sobre culturas contemporâneas e ver por si mesmo os mesmo lugares de famosas peças da literatura; e, por fim, ver com os próprios olhos as fascinantes e exóticas paisagens sobre os quais tanto se leu e ouviu falar desde a infância.

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Sobre o tradutor

Wesley G P Gomes
Um programador que acabou de sair da faculdade e que tem interesse na história, particularmente, do comércio e da viagem durante o mundo medieval e antigo. Sinceramente, não se tem muito mais do que falar.

Sobre o autor

Mark Cartwright
Mark é um historiador que vive na Itália. Seus interesses incluem cerâmica, arquitetura, mitologia e a descoberta das ideias que todas as civilizações partilham entre si. Tem Mestrado em Filosofia Política e é o Diretor de Publicação na Enciclopédia da História Mundial.

Cite este trabalho

Estilo APA

Cartwright, M. (2013, Setembro 23). A Viagem na Grécia Antiga [Travel in the Ancient Greek World]. (W. G. P. Gomes, Tradutor). World History Encyclopedia. Recuperado de https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-605/a-viagem-na-grecia-antiga/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "A Viagem na Grécia Antiga." Traduzido por Wesley G P Gomes. World History Encyclopedia. Última modificação Setembro 23, 2013. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-605/a-viagem-na-grecia-antiga/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "A Viagem na Grécia Antiga." Traduzido por Wesley G P Gomes. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 23 Set 2013. Web. 17 Out 2021.