O Legado de Viena: O Império dos Habsburgos no Mapa Intelectual

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Ambika Natarajan
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Embora Viena surja muito raramente nos debates atuais — em contraste com a influência amplamente reconhecida de Londres, Paris e Nova Iorque no pensamento moderno —, a cidade e figuras como Sigmund Freud e Robert Musil exerceram um impacto profundo nessa mesma corrente de pensamento. O panorama intelectual de Viena, a capital do Império dos Habsburgos na Europa Central, na segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX, foi influenciado pela aceção das ciências modernas e pela receção do irracionalismo filosófico.

A tradição do irracionalismo filosófico que se desenvolveu nos territórios dos Habsburgos e germânicos é influenciada pelas diversas identidades culturais e linguísticas destas regiões. A historiografia desta região tem esbarrado repetidamente no problema de escrever sobre a tradição intelectual de uma zona cujos limites territoriais mudaram drasticamente ao longo do tempo. No entanto, os historiadores encontraram formas de lidar com este problema. O historiador Karl Dietrich Erdmann, por exemplo, no seu livro Die Spur Österreichs in der deutschen Geschichte: drei Staaten, zwei Nationen, ein Volk? (O Vestígio da Áustria na História Alemã: Três Estados, Duas Nações, um Povo?), argumenta que a divisão e redivisão política dos territórios germânicos não erradicou as continuidades intelectuais e culturais das pessoas que viviam nos seus territórios. As ideias eram transmitidas dentro de um enquadramento cultural comum, e não através de fronteiras que foram redesenhadas várias vezes.

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Café Griensteidl, Vienna
Café Griensteidl, Viena Reinhold Völkel (Public Domain)

Da mesma forma, o proeminente historiador austríaco Robert Kann argumenta que as correntes intelectuais, como o liberalismo austríaco, foram o produto da mistura entre a tradição conservadora alemã e o movimento romântico austríaco. No início do século XIX, uma nação alemã unificada não passava de uma noção e as lealdades regionais eram a forma dominante de patriotismo. O Império Austríaco, por outro lado, era uma sociedade multilingue, multiétnica e multicultural sob o domínio dos soberanos dos Habsburgos. A extensão dos territórios alemães sob o controlo dos Habsburgos garantiu aos alemães uma posição dominante nos campos cultural e intelectual, e Viena era a capital intelectual e política deste fermento.

O Género e a Sexualidade

Os intelectuais vieneses da viragem do século XIX estavam profundamente enraizados em formas de pensar o género e a sexualidade distintas do resto da Europa. Aqueles que escreveram sobre sexualidade e erotismo na Viena do século XX tinham o irracional em mente. O irracional tornou-se relevante com a "redescoberta" das divindades femininas Afrodite e Atena e uma interpretação moderna daquilo que representavam: a sexualidade feminina e a sabedoria e agressividade femininas, respetivamente. O famoso historiador Carl Schorske fornece um exemplo desta fascinação pelo feminino na sua discussão sobre o projeto da Ringstraße, que consistiu num programa de embelezamento e expressão estética e não numa visão utilitária de Viena:

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Em 1860, o primeiro folheto que apresentou o plano de urbanização ao público registou iconograficamente a ideologia dos novos mecenas. O significado das figuras femininas que flanqueiam o mapa é claramente expresso nas legendas: à direita, "Forte através da Lei e da Paz" (ou seja, não através da força militar); à esquerda (onde o espírito da arte está literalmente a vestir a sua senhora, Viena), "Embelezamento através da Arte."

(Schorske, pág. 31)

Sigmund Freud, c. 1921
Sigmund Freud, cerca de 1921 Max Halberstadt (Public Domain)

O mundialmente famoso criador da técnica da psicanálise, o neurologista Sigmund Freud (1856-1939), encarava a experiência sexual como subjetiva e irracional; argumentava que essas experiências subjetivas e irracionais influenciavam o comportamento muito mais do que os processos de pensamento racional. Da mesma forma, o pensador e romancista austríaco Robert Musil (1880-1942) tentou compreender a condição humana no mundo moderno do século XX. Musil procurou equilibrar a importância do racional e do irracional, tentando integrá-los. Debateu-se com formas criativas de escrever sobre os sentimentos sexuais e a experiência sexual. Mas o foco de Freud e Musil no irracional não era único. O irracionalismo era, de facto, um legado filosófico que se infiltrou em todos os campos das ciências e das artes na Viena do fin-de-siècle e cujas origens remontam ao filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860).

Freud fazia parte de uma história bem definida do irracionalismo filosófico.

Ligados pelo legado do irracionalismo filosófico, Schopenhauer, Freud e Musil argumentavam que os seres humanos são constituídos por impulsos e motivações irracionais que governam as suas ações. Embora a maioria das pessoas sinta que é perfeitamente racional e capaz de controlar os seus atos através do pensamento racional e da avaliação lógica, a realidade é que os seres humanos são simplesmente um conjunto de organismos sensoriais e experienciais cujas ações não se enquadram em categorias racionais e não são controláveis. Assim, em essência, o ser humano inteligente não é diferente de um ser humano com perturbações mentais no que diz respeito ao controlo sobre as suas próprias ações. As obras de Freud têm sido extensivamente analisadas e estudadas tanto por psicólogos como por teóricos literários, mas um facto menos conhecido é o de que ele integrou uma história bem definida do irracionalismo filosófico, que emergiu como um padrão intelectual distinto nos territórios germânicos dos Habsburgos.

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Freud sobre a Sociedade

Em O Mal-Estar na Civilização (tít. original: Das Unbehagen in der Kultur), por exemplo, Freud tenta escrever uma narrativa sobre a história da humanidade. Esta história é escrita a partir de uma perspetiva psicanalítica e não de um ponto de vista religioso. Freud argumenta que a fonte da infelicidade das pessoas é a própria civilização humana. A civilização humana é criada de tal forma que inibe os desejos dos membros individuais da sociedade. O resultado para a maioria das pessoas é um sentimento de culpa associado aos seus desejos, que são reprimidos ou expressos através de canais que não são aceites nas sociedades civilizadas. A culpa é a emoção predominante que corrói as sociedades civilizadas, criando essencialmente cidadãos que, como o título da sua obra sugere, estão insatisfeitos.

Freud sugere que existe uma luta contínua entre o desejo individual e as forças repressivas na sociedade.

Freud argumenta ainda que, para se tornarem parte da civilização, os membros tinham de se submeter à autoridade do líder masculino, que desfrutava de privilégios exclusivos de procriação e de acesso primário aos alimentos. Sob este sistema, os restantes membros tinham de reprimir os seus desejos, uma vez que a expressão desinibida dos mesmos significava castigo. A supressão, imposta primeiro por uma autoridade externa e mais tarde pela internalização dessa autoridade sob a forma de consciência, provoca infelicidade entre os membros das sociedades civilizadas. O resultado é uma luta contínua entre o desejo individual e as forças repressivas que servem para o conter, sendo esta a causa da agitação nas sociedades.

As obras de Freud forneceram uma perspetiva valiosa sobre as forças por detrás das duas guerras mundiais do século XX. No entanto, o contributo único de Freud para os campos da literatura, da psicologia e da sociologia decorre do facto de ter criado um enquadramento para falar, pensar e escrever sobre forças e instintos inconscientes que até então não tinham articulação. Por outras palavras, Freud ofereceu uma forma de conversar sobre aspetos das sociedades humanas como a sexualidade, os sentimentos e os desejos que até aí não tinham encontrado expressão adequada na literatura. Tem-se escrito muito sobre Freud nos campos da psicologia, literatura, sociologia, história e filosofia, e muito mais continuará sem dúvida a ser escrito.

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Robert Musil, 1930
Robert Musil, 1930 Unknown Photographer (Public Domain)

Musil e a Ambiguidade

No entanto, os estudos sobre Musil limitam-se a especialistas focados na literatura austríaca. O seu romance em três volumes, que permanece inacabado, O Homem Sem Qualidades (tít. original: Der Mann ohne Eigenschaften), é considerado uma obra-prima modernista a par das do modernista irlandês James Joyce (1882–1941), do romancista francês Marcel Proust (1871–1922) e da escritora feminista inglesa Virginia Woolf (1882–1941). Outras obras de ficção de Musil incluem O Jovem Törless (tít. original: Die Verwirrungen des Zöglings Törless; 1906), uma história sobre intimidação brutal numa escola militar austríaca de alta classe; A Perfeição do Amor (tít. original: Die Vollendung der Liebe), uma novela que explora a interioridade de uma mulher (1911); e Três Mulheres: Grigia, A Dama Portuguesa e Tonka (tít. original: Drei Frauen: Grigia, Die Portugiesin, Tonka; 1924), contos que exploram três relações heterossexuais com desfechos diferentes. Através da representação de personagens constantemente empenhadas numa busca, as obras de ficção de Musil sugerem que as soluções, caso existam, encontram-se no domínio do ambíguo e não no domínio da moralidade.

Musil foi mais do que um romancista. Foi filósofo, ensaísta e engenheiro. E foi , igualmente, moldado pelo irracionalismo filosófico de Schopenhauer. Tanto o conjunto dos escritos de Musil como o próprio Musil foram produtos culturais da Viena do fin-de-siècle, e as suas obras foram únicas na sua capacidade de apreender as tendências irracionalistas do período. Tendo vivido entre 1880 e 1942 em Viena, Musil testemunhou a culminação de uma Guerra Mundial e a aceleração em direção a outra. A sua vida e obra foram profundamente afetadas pela Primeira Guerra Mundial (1914–1918), bem como pela ascensão do nazismo. Quando os nazistas tomaram a Áustria em 1938 com o Anschluß, Musil e a sua mulher judia, Martha Marcovaldi, fugiram para a Suíça.

As obras de Musil revelam uma perspetiva notável, quase profética, sobre a corrente subterrânea violenta e a atrofia decadente da cultura europeia. A sua crítica às dicotomias desterra a sua preocupação com a dominância de ideologias petrificadas e irracionais. As formas como Musil se envolve com estas dicotomias — ciência e arte, homem e mulher, possível e provável, racionalidade e emoção, ética e moralidade, passividade e ação — na sua ficção revelam uma tentativa meticulosa de as negociar num plano intelectual. Consequentemente, a singularidade do meio intelectual de Viena, um meio que permitiu o desenvolvimento da estirpe peculiar de irracionalismo que, através de Freud, se tornou tão influente na civilização ocidental do século XX, não pode ser contestada.

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Natarajan, A. (2026, agosto 17). O Legado de Viena: O Império dos Habsburgos no Mapa Intelectual. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2961/o-legado-de-viena-o-imperio-dos-habsburgos-no-mapa/

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Natarajan, Ambika. "O Legado de Viena: O Império dos Habsburgos no Mapa Intelectual." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, agosto 17, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2961/o-legado-de-viena-o-imperio-dos-habsburgos-no-mapa/.

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Natarajan, Ambika. "O Legado de Viena: O Império dos Habsburgos no Mapa Intelectual." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 17 ago 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2961/o-legado-de-viena-o-imperio-dos-habsburgos-no-mapa/.

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