A Mulher-Texugo é uma história da nação Arapaho sobre um jovem caçador nobre que recusa as investidas da cunhada e acaba por ser traído por ela. O conto é semelhante a outros de outras civilizações, nomeadamente Os Dois Irmãos (O Destino de uma Esposa Infiel), do antigo Egito, e a história de José e da Mulher de Potifar, da Bíblia.
Como se desconhece a data da sua composição, não é claro se o conto Arapaho se inspirou na história bíblica de Génesis 39, após a introdução do cristianismo entre os índios das Planícies no século XIX. A história surge pela primeira vez em inglês em Traditions of the Arapaho (As Tradições dos Arapaho, 1903), de George A. Dorsey e Alfred L. Kroeber, que recolheram contos, lendas e mitos dos Arapaho do Sul, de Oklahoma, e dos Arapaho do Norte, do Wyoming, durante uma expedição patrocinada pelo Museu Americano de História Natural (American Museum of Natural History). Dorsey e Kroeber inserem periodicamente comentários editoriais ao longo da obra, mas não fazem qualquer tentativa de datar nenhuma das histórias da coletânea.
A história poderia facilmente ter sido composta sem qualquer conhecimento do conto bíblico, uma vez que mitos e lendas semelhantes aparecem nas obras de outras civilizações. Para além dos contos egípcios e bíblicos, A Mulher-Texugo também é tematicamente semelhante ao mito de Belerofonte e Anteia (ou Belerofonte e Esteneboia) da Grécia antiga, no qual a princesa tenta, sem sucesso, seduzir o herói e depois alega que foi ele quem lhe fez a corte. O conto dos Arapaho também lembra a história de Ning Caicheng e Nie Xiaoqian, da China, na qual o fantasma da donzela Nie tenta seduzir o herói Ning, que resiste às suas investidas. No conto chinês, contudo, a sedutora não é punida, mas passa a admirar a virtude de Ning e acaba por ser salva por ele e trazida de volta à vida.
Tal como estes outros contos, A Mulher-Texugo era um conto popular entre os Arapaho e continua a ser contado hoje nas comunidades Arapaho, Cheyenne e Sioux. A história encaixa na definição de um mito didático — destinado a ensinar ou instruir — e de um mito moral que enfatiza a importância dos valores culturais numa determinada civilização.
As Semelhanças e o Simbolismo
A figura da sedutora rejeitada surge pela primeira vez na literatura mundial n'A Epopeia de Gilgamesh, quando as investidas da deusa Inanna/Ishtar são rejeitadas pelo herói, levando-a a vingar-se. Esta história é bem conhecida, mas o conto mais obscuro de Os Dois Irmãos (O Destino de uma Esposa Infiel), do Novo Império egípcio (cerca de 1570 a cerca de 1069 a.C.), é semelhante em tema e enredo.
Nesta história, há dois irmãos divinos, Anúbis e Bata, que vivem com a esposa de Anúbis. Ela tenta seduzir Bata, que a rejeita, alegando que não pode trair o irmão, mas promete que não contará a ninguém sobre as investidas dela. A esposa, no entanto, não acredita nele e, quando Anubis regressa a casa, conta-lhe que Bata tentou seduzi-la. Anubis jura vingança contra Bata, mas este, avisado pelos deuses, foge. Mais tarde, Anubis descobre a verdade e rejeita-a — que é castigada — e reencontra-se com Bata.
Este mito é por vezes comparado com a história de José e da mulher de Potifar, tal como relatada em Génesis 39:6-20. Potifar, um funcionário egípcio, acolhe o escravo hebreu José na sua casa e nomeia-o mordomo. A mulher de Potifar faz avanços a José, que a rejeita e foge de casa, mas deixa para trás o seu manto. A mulher alega então que ele a atacou, mas que, quando ela gritou, ele fugiu, deixando o seu manto nas mãos dela. José é então preso e preso, mas, guiado por Deus, acaba por ser absolvido e libertado.
A Mulher-Texugo insere-se neste contexto, explorando o mesmo tema. Dois irmãos estão numa expedição de caça, acompanhados pela mulher de um deles, que tenta seduzir o cunhado, é rejeitada e jura vingança. A história apresenta simbolismo utilizado na literatura nativa americana em geral e na literatura Arapaho em particular, incluindo o número quatro, o número três e vários animais.
O número quatro surge frequentemente nos mitos e lendas dos nativos americanos como representação dos quatro pontos cardeais da bússola e dos espíritos dos quatro ventos, sendo, por isso, considerado sagrado. O número três é por vezes utilizado nas histórias para sugerir equilíbrio ou desequilíbrio. O lobo é frequentemente retratado, tal como aqui, como um poderoso guia espiritual e ajudante, que deve ser respeitado, não temido. Todos estes símbolos são utilizados de acordo com o entendimento tradicional, mas o simbolismo tradicional do texugo é invertido.
Tradicionalmente, o texugo também é visto como um guia espiritual potente. O estudioso Bobby Lake-Thom escreve:
O texugo é um bom presságio, significando proteção, mas também pode alertar para o perigo quando se está a viajar… A medicina do texugo [poder espiritual] pode ser medicina de guerreiro, poder de curandeiro e poder protetor. É corajoso, tenaz e defensivo.
(pág. 77)
COntudo, nesta história a Mulher-Texugo é dissimulada, lasciva e traiçoeira. Em vez de defender e proteger a sua família, procura destruí-la para satisfazer os seus próprios fins quando não consegue o que quer. A esposa da história passou a ser associada ao animal e, para os Arapaho, alterou o simbolismo do animal. A história era tão popular que, segundo Dorsey, a palavra Arapaho para «texugo» e para «assassino» era a mesma (pág. 192). Outros povos indígenas da América do Norte parecem ter mantido o simbolismo tradicional do texugo, embora alguns contos dos Cheyenne e dos Sioux pareçam sugerir que tinham, pelo menos em certa medida, adotado a interpretação dos Arapaho.
O Texto
A tradução infra é do texto extraído de Traditions of the Arapaho (1903), de George A. Dorsey e Alfred L. Kroeber, reeditado pela University of Nebraska Press, em 1997. Existem outras versões do conto, com o mesmo enredo mas com detalhes diferentes, que se seguem a esta em Traditions of the Arapaho, págs. 192-203.
Havia um homem, a sua mulher e o seu irmão numa expedição de caça, acampados sozinhos. Quando o marido saía para caçar, o irmão dirigia-se a uma colina e passava lá o tempo até ao pôr-do-sol, para evitar a cunhada.
Um dia, depois de o marido ter saído à procura de caça, a mulher tentou seduzir o cunhado para que ele tivesse relações com ela, mas ele disse-lhe: «Oh, cunhada! Não posso fazer isso, pois amo o meu irmão e não é correto eu fazer isso. Não me parece certo», disse ele. «Se o fizesses, nem eu nem mais ninguém contaria o sucedido», disse a mulher. «Mas, cunhada, não conseguiria olhar o meu irmão nos olhos. Sentiria vergonha na presença dele; por isso, é melhor isto acabar aqui», disse o jovem.
Na manhã seguinte, o marido foi caçar e deixou a mulher e o irmão em casa. Assim que ele se afastou bastante do local de acampamento, a mulher voltou a procurar o cunhado e implorou-lhe. «Não poderia fazê-lo de forma alguma. O meu irmão está fora e terei de ir embora», disse ele. Assim, voltou à colina e passou um dia maravilhoso.
Este irmão mais novo costumava sentar-se no topo da colina para procurar caça ou ficar atento a recém-chegados. Passava a maior parte do tempo a cantar. Quando via o irmão a regressar a casa, descia a colina, dirigia-se à tenda e passava algum tempo em casa. Então, a cunhada tentava persuadi-lo. «Se o fizeres», disse ela, «será pelo nosso próprio amor, e ninguém ficará a saber.» «Não, não posso», respondeu ele, «por favor, esquece isso.» Assim, o irmão saiu e ficou na colina o dia inteiro para a evitar. Muitas vezes, ficava triste e chorava por causa do comportamento da cunhada.
A noite caiu e o marido regressou a casa. Depois de conversarem sobre os acontecimentos do dia, todos se retiraram. De manhã, o marido partiu novamente à caça. Depois de ter percorrido alguma distância, o irmão saiu da tenda e dirigiu-se para a colina, chorando enquanto caminhava.
«Agora vou dar uma lição a este jovem que me desagrada. Sou uma mulher bonita e não posso tolerar tal tratamento», disse a mulher para si mesma. Assim, cavou um buraco debaixo da cama, suficientemente grande para o jovem cair, e deixou cerca de quatro polegadas de terra por cima do buraco. O seu cunhado veio à tenda para almoçar e sentou-se na cama. Ao fazê-lo, caiu no buraco profundo e foi rapidamente coberto de terra pela Mulher-Texugo.
Ao anoitecer, o marido regressou a casa e reparou na ausência do irmão. A mulher disse-lhe que o irmão ainda não tinha regressado. Ele ficou muito preocupado com ele.
De manhã, foi à procura do irmão, mas não conseguiu encontrar nem ver quaisquer pegadas recentes a sair da tenda. Assim, regressou a casa, muito triste. «Normalmente, quando vai à colina, ele volta para casa cedo e mais ou menos à mesma hora. Quando saí da tenda, não o vi na colina, como vejo sempre», disse o marido. «Ele deve ter voltado para casa ou então algo lhe aconteceu na pradaria», disse a Mulher-Texugo. Na quarta vez, o marido regressou com um ar triste, tendo concluído que animais selvagens o tinham morto. Assim, chorou a sua morte, juntamente com a sua mulher. Quando ela chorava amargamente, murmurava baixinho: «Deixei-o cair e enterrei-o.»
No dia seguinte, desmontaram o acampamento e regressaram ao acampamento principal angustiados, demonstrando sinais de luto. Contaram ao resto da família que o irmão tinha desaparecido misteriosamente e que, por isso, tinham voltado para casa imediatamente, mas que havia caça em abundância. A família chorou a morte durante vários dias, incluindo a Mulher-Texugo, que chorava alto, dizendo: «Deixei-o cair e enterrei-o.» O tempo passou e as tristezas foram-se dissipando gradualmente, mas o marido continuava a sair e a chorar pelo irmão, a quem amava profundamente.
Depois de o irmão ter ficado enterrado na cova durante sete a dez dias, ainda vivo, chegou um lobo cinzento ao acampamento abandonado. Vendo que o homem estava em grande apuro, o Lobo teve pena dele e, voltando-se para as quatro direções, uivou para que os restantes lobos e coiotes viessem. Todos correram para aquele local e, imediatamente, desenterraram o homem da cova. Ele estava mais morte que vivo, estava muito magro e exausto de ficar tanto tempo deitado na sepultura e estava à beira da morte quando o Lobo Cinzento chegou até ele. Ele seguiu com os lobos, e estes deram-lhe carne para que recuperasse as forças.
Passado algum tempo, ele recuperou a sua força habitual, mas não sabia onde ficava a sua própria casa. Os lobos cinzentos partiram para a localizar e encontraram-na junto ao rio. Assim, acompanharam-no e deixaram-no no acampamento, para surpresa dos seus próprios familiares. Todos ficaram contentes por vê-lo.
Ele contou às pessoas o motivo da sua ausência e do seu resgate. Mandou imediatamente preparar um grande pemmican (mistura concentrada de carne e gordura), pois o Lobo-Cinzento, juntamente com os outros lobos, o tinha pedido. Estavam à espera, sentados num círculo em forma de meia-lua, a alguma distância do acampamento. Assim, o pemmican foi preparado. A cunhada (Mulher-Texugo) embalou-o então e recebeu ordens para o levar ao irmão. Assim, ambos foram dar de comer aos lobos e coiotes. Chegaram ao local. «Agora, Mulher-Texugo, leva a tua carga até ao centro, onde estão aqueles velhos lobos cinzentos, e deixa-a aí», disse o irmão. Ela foi e descarregou-a das costas. Assim que o deixou cair no chão, o irmão disse aos animais: «Aqui está o vosso pemmican, juntamente com a mulher.» Ela foi devorada num instante.
O irmão foi salvo, mas ela foi destruída pelo seu ato perverso, e deixou de fazer parte do povo, passando a ser colocada junto com o resto dos animais [na memória e nos rituais]. Ela (ou seja, a pele de texugo) é chamada pelos anciãos de «Aquela-que-deixou-cair-o-cunhado» quando se prepara o corpo do texugo para a cabana da Dança do Sol.
