Dez Factos sobre os Nativos Norte-Americanos que Precisa de Saber

Joshua J. Mark
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A história e a cultura dos povos nativos da América do Norte são frequentemente negligenciadas, uma vez que foram largamente eclipsadas pela história dos colonos europeus que colonizaram a região a partir do século XVII. No entanto, os habitantes originais da terra têm um passado longo que merece um reconhecimento e um respeito mais amplos.

Encampment of Crow Indians
Acampamento de Índios Crow Joseph Henry Sharp (Public Domain)

De acordo com os académicos contemporâneos não nativos, aqueles que hoje são conhecidos como indígenas americanos migraram para a América do Norte entre há 40.000 e 14.000 anos; contudo, nos sistemas de crenças dos próprios povos, eles vieram da terra — conhecida por muitas nações nativas como Ilha da Tartaruga — e sempre fizeram parte dela. As nações nativas americanas desenvolveram culturas altamente sofisticadas e diversas, que foram mantidas durante milhares de anos antes da colonização europeia das Américas. Esta colonização reduziu significativamente a população indígena através de doenças e guerras, e privou os sobreviventes das suas terras ancestrais por intermédio de legislação, deslocações forçadas e tratados que, posteriormente, não foram honrados pelo governo dos Estados Unidos.

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A cultura nativa americana era tão desenvolvida e muito mais inclusiva do que a dos colonos europeus.

A Doutrina da Descoberta sustentava que quaisquer terras não reivindicadas por um soberano cristão estavam livres para serem tomadas por qualquer outro, sem considerar aqueles que já viviam nas regiões. Desde a fundação da Colónia de Jamestown, na Virgínia, em 1607, o espírito desta doutrina ditou a forma como os colonos tratariam os povos indígenas da América do Norte, incluindo as tentativas de apagar a sua história, cultura e língua, uma vez que eram considerados "selvagens incivilizados". Na verdade, a cultura nativa americana era tão desenvolvida e muito mais inclusiva do que a dos colonos europeus.

As nações nativas americanas, antes da colonização, travaram guerras, conquistaram terras, tiveram escravos, esgotaram recursos naturais e não eram mais o "nobre selvagem" da literatura americana dos séculos XVIII e XIX do que a sua caracterização como o "bruto selvagem". À medida que os euro-americanos passaram a dominar a América do Norte, os colonos tenderam a demonizar ou a idealizar os povos indígenas, mas eles eram apenas pessoas — com os mesmos desejos básicos que todas as pessoas têm — apenas expressando-os de forma diferente do que era aceitável para os europeus e, mais tarde, para os euro-americanos, que silenciosamente, e muitas vezes nem por isso, tentaram apagar as culturas indígenas e os próprios povos.

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No entanto, os povos nativos da América do Norte sobreviveram e ainda formam comunidades vitais que observam ritos tradicionais, contam histórias antigas e ensinam a sua língua e costumes aos seus jovens. Os dez factos seguintes são apenas uma pequena amostra da sua vasta cultura, história e contribuições, mas os livros listados na bibliografia após o artigo fornecerão aos leitores muitos outros.

Watson Brake é anterior à Grande Pirâmide de Gizé

A Grande Pirâmide de Gizé é datada de 2589-2566 a.C., o reinado do rei Khufu (Quéops) da IV Dinastia do Egito, mas o local agora conhecido como Watson Brake, na atual Louisiana, data de cerca de 3500 a.C. Composto por onze montículos, o propósito original do local continua a desafiar os arqueólogos e os historiadores, pois não parece ter sido construído como um centro residencial, comercial ou religioso. As peças de cerâmicas e as ferramentas encontradas em Watson Brake atestam a atividade humana que remonta a, pelo menos, cerca de 3500 a.C., mas desconhece-se o que ali faziam. No entanto, o local foi descoberto apenas recentemente, na década de 1980, pelo que os arqueólogos parecem confiantes de que as futuras escavações esclarecerão ao propósito do lugar. Watson Brake é apenas um dos muitos locais nativos americanos antigos por todos os EUA — incluindo Cactus Hill, Poverty Point, Serpent Mound, Etowah Mounds, Moundville e Cahokia, entre outros — mas, até agora, é o complexo de montículos mais antigo descoberto até à data.

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Artist's Conception of Watson Brake Mounds, Louisiana
Conceção Artística dos Montículos de Watson Brake, Louisiana Herb Roe (CC BY-SA)

Cahokia foi a Maior Cidade da América do Norte

Cahokia, no atual Illinois, data de cerca do ano 600 a cerca de 1350 e foi outrora o maior centro urbano da América do Norte. A cidade era um importante local religioso e um centro comercial, florescendo através de rotas que seguiam em todas as direções. O sítio abrange 890 hectares (2,200 acres) e incluiu em tempos residências, um grande distrito comercial, campos de jogos — pensa-se que o popular jogo nativo americano Chunkey tenha tido origem aqui por volta de 600 —, áreas agrícolas e espaços cerimonial-religiosos. O nome original da cidade é desconhecido, e a designação moderna provém da tribo Cahokia, que vivia nas proximidades no século XIX. Inicialmente, pensou-se que os ocupantes originais da cidade tivessem desaparecido misteriosamente (e alguns artigos e vídeos ainda defendem essa tese), mas os arqueólogos acreditam agora que o local foi abandonado algures por volta de 1350 devido a desastres naturais (nomeadamente terramotos e inundações) e à sobrepopulação. O local foi repovoado por volta de 1500 pelos povos da Confederação Illinois, que ainda lá se encontravam nos anos 1800, mas não tinham conhecimento de quem construíra a cidade que é hoje Património Mundial da UNESCO.

Cahokia Mounds
Montículos de Cahokia The Chickasaw Nation, USA (Copyright)

Os Norte-Americanos Pré-Coloniais Falavam mais de 300 Línguas

Antes da colonização europeia, existiam mais de 300 línguas faladas pelos nativos da América do Norte e, segundo algumas estimativas, possivelmente até 500. Cada nação falava a sua própria língua e comunicava com as outras através de intérpretes ou da língua gestual. Como parte da política de assimilação do governo dos EUA, as línguas nativas americanas foram desencorajadas e, a partir do início do século XIX, as crianças foram retiradas aos pais e levadas para internatos, onde aprendiam inglês e eram ensinadas a adotar a cultura, a religião e os valores europeus. Os nativos americanos não foram autorizados a falar ou a ensinar as suas próprias línguas até à década de 1970 e, por essa altura, muitas já se tinham perdido. Hoje em dia, existem apenas aproximadamente 170 línguas nativas americanas faladas nos EUA. No entanto, estão em curso iniciativas dos nativos americanos para revitalizar as suas línguas ancestrais, incentivando uma ligação com as tradições do passado.

Os Nativos Americanos foram os Primeiros a Cultivar Colheitas Importantes

Algumas das colheitas mais importantes a nível mundial foram cultivadas pela primeira vez pelos nativos da América do Norte. O milho foi introduzido a partir da América do Sul e Central em algum momento durante o Período Arcaico (cerca de 2100 a.C.) e tornou-se um alimento básico em toda a América do Norte, juntamente com o feijão e a abóbora. Estas três espécies eram cultivadas juntas através da prática conhecida como as "três irmãs" da agricultura, ainda praticada hoje em dia. No "plantio consociado das três irmãs", o milho é plantado primeiro, o feijão em segundo (que se enrola no caule do milho) e, depois, a abóbora, cujas folhas fazem sombra às raízes do feijão e do milho. A par destas, os nativos americanos também cultivavam, e continuam a cultivar, cabaças, batatas, girassóis, tabaco, tomates, ameixas além de outros produtos.

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New World Native Plants
Plantas nativas do Novo Mundo Kbh3rd (CC BY-NC-SA)

O Princípio das Sete Gerações

Acredita-se que o Princípio da Sétima Geração (também conhecido como Sustentabilidade da Sétima Geração ou Planeamento das Sete Gerações) teve origem na nação Iroquesa e sustenta que cada decisão tomada por um povo deve considerar os efeitos que terá sobre os seus descendentes sete gerações no futuro. Esta política está em harmonia com o valor cultural das nações nativas americanas, em geral, de que o bem da comunidade como um todo é mais importante do que as necessidades do indivíduo ou da minoria, e de que as pessoas são guardiãs, e não proprietárias, da terra, pelo que as necessidades da terra devem ser sempre consideradas. Como a terra é entendida como um ser vivo, é considerada um membro da comunidade e, por extensão, o mesmo se aplica a todos os animais e à vida vegetal que a terra sustenta. Ao considerarem os efeitos das suas ações na sétima geração, as pessoas não estão apenas a pensar nos seus descendentes, mas no bem-estar contínuo e na sustentabilidade de toda a comunidade.

Constituição dos EUA Modelada pela Confederação Haudenosaunee

A estrutura do governo da Confederação Haudenosaunee foi estabelecida numa constituição que determinava a separação de poderes.

Acredita-se que o Princípio das Sete Gerações guiou as decisões tomadas pela Confederação Haudenosaunee das Cinco Nações dos Iroqueses — Cayuga, Mohawk, Oneida, Onondaga e Seneca — mais tarde conhecidas como as Seis Nações após a inclusão dos Tuscarora. O Grande Conselho das Seis Nações era uma democracia na qual as mulheres tinham uma voz igual e entendia-se que a Grande Lei da Paz incluía todos. A estrutura do governo da Confederação Haudenosaunee foi estabelecida numa constituição que determinava a separação de poderes em diferentes ramos e responsabilidades, e declarava que a autoridade do governo provinha dos governados. Os Pais Fundadores dos Estados Unidos basearam-se neste modelo para criar a sua própria forma de governo.

As Mulheres Como Iguais

O conceito de que o bem da comunidade prevalece sobre o do indivíduo ou da minoria estendia-se às mulheres, não apenas entre os Iroqueses, mas também nas nações norte-americanas em geral. As mulheres eram responsáveis pelo comércio, pela construção e manutenção da habitação, podiam divorciar-se dos seus maridos retendo a casa e os bens, e tinham uma voz igual no governo. De resto, os Iroqueses influenciaram diretamente o movimento pelo sufrágio feminino do século XIX nos EUA, uma vez que as primeiras ativistas, incluindo Lucretia Mott, Elizabeth Cady Stanton e Matilda Joslyn Gage, citavam as mulheres iroquesas como detentoras de maiores liberdades do que as mulheres brancas. Ainda assim, assim que as mulheres receberam o direito de voto através da 19.ª Emenda em 1920, muitas manifestaram-se contra a extensão desse mesmo direito aos nativos americanos, que foram proibidos de votar até 1924, com a aprovação do Indian Citizenship Act; mesmo depois disso, alguns estados continuaram a privar os nativos americanos do direito de voto até à década de 1950.

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O Vasto Corpo de Literatura

As nações norte-americanas produziram um corpo significativo de literatura, inicialmente transmitido oralmente de geração em geração, antes de histórias, poemas, canções e obras mais longas, comparáveis ao romance, terem sido passados à escrita. Cada nação tinha as suas próprias histórias, que mantinham o passado vivo ao mesmo tempo que transmitiam valores culturais importantes. As obras acabaram por ser escritas por colonos brancos interessados na cultura nativa, como o antropólogo George Bird Grinnell, e pelos próprios autores nativos americanos, incluindo Charles Eastman, John Rollin Ridge, Lynn Riggs, Zitkala-Sa, N. Scott Momaday, Louise Erdrich e Sherman Alexie, entre muitos outros. A narração de histórias foi sempre, e continua a ser, um aspeto vital da cultura nativa americana, e a sua literatura inclui aventuras épicas, histórias de fantasmas, histórias de amor, mitos de origem e muitos outros géneros.

Ojibwa Village
Aldeia Ojibwa Paul Kane (Public Domain)

A Ilha da Tartaruga

Muitos mitos de origem nativos americanos relatam como o mundo (ou a América do Norte) foi formado sobre o dorso de uma tartaruga e, por isso, algumas nações, incluindo os Iroqueses, referem-se ao continente como Ilha da Tartaruga — um termo também utilizado por outras nações para designar a Terra como um todo. No mito da criação iroquês, existia um mundo Superior e um mundo Inferior, sendo que o inferior era inteiramente composto por água. A filha do Grande Governante do Mundo Superior, prestes a dar à luz o seu filho, deitou-se numa nuvem que começou a afundar-se em direção ao Mundo Inferior. As criaturas do Mundo Inferior apressaram-se a encontrar algo onde ela pudesse aterrar em segurança, e a tartaruga aceitou que a lama do fundo do mar infinito fosse amontoada nas suas costas. Enquanto a rata-almiscarada mergulhava fundo e trazia terra para alisar sobre a carapaça da tartaruga, as aves guiavam a nuvem e a deusa adormecida em direção a ela. A tartaruga passou então a ser conhecida como a Portadora da Terra e o território como Ilha da Tartaruga.

Lei de Remoção dos Índios de 1830

Os nativos da América do Norte começaram a perder as suas terras na Ilha da Tartaruga quando os europeus chegaram, no final do século XVI e início do XVII, reivindicando o território como seu, de acordo com a sua interpretação da Doutrina da Descoberta. Na região hoje conhecida como Nova Inglaterra, os nativos americanos foram sendo progressivamente privados das suas terras ancestrais a partir de 1620 e, à medida que mais europeus chegavam, mais terra era perdida. A Lei de Remoção dos Índios de 1830 autorizou agentes do governo dos EUA a remover os nativos americanos das suas terras natais a leste do Mississípi para regiões no oeste designadas como "Território Indígena", principalmente o atual estado de Oklahoma. Esta política resultou na morte de muitos nativos americanos, especialmente entre 1838 e 1839 na Nação Cherokee, que se referiu à sua deslocação como o Caminho das Lágrimas (Trail of Tears). A Lei de Remoção dos Índios, sob a presidência de Andrew Jackson, tem sido condenada desde então, e a Declaração sobre os Direitos dos Povos Indígenas de 2007 reconheceu que os nativos americanos têm direito às suas terras; no entanto, até agora, poucos esforços foram bem-sucedidos na devolução de grande parte das mesmas. O Movimento Land Back trabalha atualmente em prol deste objetivo.

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Conclusão

O Movimento Land Back não pretende privar os americanos da atualidade das suas terras e casas, mas apenas a devolução das terras ancestrais e o reconhecimento dos direitos legais dos nativos americanos sobre esses territórios. Da mesma forma, organizações nativas americanas como a Native Hope e o First Nations Development Institute, bem como sociedades e associações tribais, procuram aumentar a consciencialização sobre a cultura, a história e as tradições dos nativos americanos.

Existem muitos aspetos fascinantes na cultura nativa americana e as várias nações diferiam significativamente em muitos aspetos. A história da origem do mundo, por exemplo, é bastante diferente entre os povos da cultura dos Índios das Planícies, como os Sioux e os Pawnee, comparativamente à versão iroquesa apresentada acima; e entre os Iroqueses, tal como noutras nações, existem muitas versões diferentes da mesma história. O Mês da Herança Nativa Americana, celebrado nos EUA todos os anos em novembro, celebra esta diversidade e a herança das mais de 575 nações nativas que existem atualmente nos EUA, incentivando nativos e não nativos a envolverem-se e a apreciarem a cultura dos povos que primeiro construíram as suas casas e ergueram as cidades em toda a Ilha da Tartaruga.

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Perguntas & Respostas

Qual é o sítio indígena mais antigo da América do Norte?

O sítio indígena mais antigo da América do Norte descoberto até à data é Watson Brake, no estado da Louisiana, datado de cerca de 3500 a.C.

Eram as mulheres tratadas como iguais na cultura dos povos indígenas da América do Norte?

Na cultura indígena norte-americana, as mulheres tinham uma voz significativa no governo, regulavam e supervisionavam o comércio, estavam encarregadas da construção das aldeias e eram consideradas iguais aos homens, exceto na caça e na guerra.

Quantas línguas eram faladas pelos povos indígenas da América do Norte antes da colonização?

Antes da colonização, os povos indígenas da América do Norte falavam mais de 300 línguas, podendo esse número chegar às 500 ou mais.

Qual era a maior cidade indígena da América do Norte antes da colonização europeia?

Cahokia, no atual estado de Illinois, foi o maior centro urbano da América do Norte antes da colonização, tendo prosperado entre cerca de 600 e cerca de 1350

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Mark, J. J. (2026, maio 13). Dez Factos sobre os Nativos Norte-Americanos que Precisa de Saber. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2347/dez-factos-sobre-os-nativos-norte-americanos-que-p/

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Mark, Joshua J.. "Dez Factos sobre os Nativos Norte-Americanos que Precisa de Saber." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, maio 13, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2347/dez-factos-sobre-os-nativos-norte-americanos-que-p/.

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Mark, Joshua J.. "Dez Factos sobre os Nativos Norte-Americanos que Precisa de Saber." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 13 mai 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2347/dez-factos-sobre-os-nativos-norte-americanos-que-p/.

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