Estudantes Romanos em Atenas

Laura K.C. McCormack
por , traduzido por Filipa Oliveira
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A formação em oratória constituía uma parte crucial da educação romana; estava associada à transição de um rapaz para a vida adulta. Como Atenas era considerada o centro intelectual do Mediterrâneo oriental, muitos estudantes empreendiam longas viagens para poderem frequentar as escolas de retórica especializadas mais conhecidas ou estudar num dos vários centros de filosofia já estabelecidos.

Plato's Academy Mosaic
Mosaico da Academia de Platão Unknown Artist (Public Domain)

A Educação Romana

A educação era vista pelos romanos como fundamental para o progresso pessoal. Para os jovens rapazes da classe alta, era essencial para obterem uma posição importante na sociedade romana antiga. As raparigas dos círculos abastados e da elite tendiam a casar-se muito jovens e não prosseguiam formalmente os seus estudos, embora pudessem ter recebido uma educação sofisticada de tutores privados.

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Originalmente, a formação em oratória não era ministrada no contexto escolar, mas sim sob a tutela de um famoso estadista que preparava o seu jovem aluno para uma carreira política no governo romano. No entanto, por volta do século II a.C., a cultura grega exerceu uma influência significativa na República Romana, e a abordagem tradicional deu lugar ao sistema educativo grego. Na Grécia, existiam centros de ensino especializados há séculos e, gradualmente, as escolas de oratória foram-se estabelecendo também em Roma. A filosofia antiga dividia-se em três áreas: ética, física e lógica; os alunos que desejassem estudar filosofia podiam frequentar centros que ofereciam estudos em grego sobre doutrinas como o epicurismo e o estoicismo. Em alternativa, o jovem romano podia sair de casa para estudar no estrangeiro.

Atenas era reconhecida como o melhor local para se mergulhar completamente nas ideias de pensadores tanto antigos como contemporâneos.

Alguns estudiosos modernos referiram-se a este período na vida de um jovem como «frequentar a universidade». No entanto, o termo é utilizado de forma vaga, uma vez que não existia um currículo oficial nem diplomas oficiais. Ainda assim, «frequentar a universidade» na Antiguidade implicava não só aprofundar os estudos, mas também deixar a família para se integrar num novo ambiente e estilo de vida, no qual o estudante podia tornar-se parte integrante da cultura de um famoso centro intelectual.

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Durante a República, entre aqueles que viajaram para o estrangeiro com fins educativos encontravam-se figuras notáveis, incluindo Júlio César (cerca de 100-44 a.C.), o político Marco Júnio Bruto (85-42 a.C.), o orador Cícero (106-43 a.C.), o poeta e satírico Horácio (65-8 a.C.) e Marco Túlio Cícero, o Jovem, filho do orador. Gerações mais tarde, dispomos dos escritos e da correspondência de antigos alunos como o retórico latino Áulo Gelio (123-165 d.C.), o sofista e retórico grego Libânio (314-393 d.C.) e o sofista grego Eunápio (cerca de 345 a c. 420 d.C.), que nos proporcionam perspetivas valiosas através das suas próprias experiências de estudo em Atenas.

A Preparação e os Custos

O jovem rapaz que se preparava para os seus estudos no estrangeiro podia ter apenas 15 anos de idade quando enfrentava uma viagem até Atenas com uma duração de cerca de 12 dias, se as condições meteorológicas o permitissem. Alguns rapazes eram acompanhados pelo seu pedagogo, que tinha a responsabilidade de cuidar do seu jovem mestre e de informar a família sobre o seu comportamento e progresso. Para aprofundar os seus estudos de retórica, oratória, declamação e filosofia, a família do futuro estudante procurava professores de grande reputação; para alguns, isso incluía escolas de elite, como a Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles, ou «Peripatéticos», onde Aristóteles, no seu tempo, teria passeado pela galeria coberta do Liceu enquanto dava aulas aos seus alunos.

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Atenas era reconhecida como o melhor local para se imergir completamente nas ideias de pensadores tanto antigos como contemporâneos. Um comentador antigo observou que havia alguns jovens alunos que vinham para as escolas de Atenas movidos por um desejo sincero de aprender e, por outro lado, havia aqueles que eram «enviados». Cícero, que aprofundou a sua própria educação no estrangeiro, «enviou» o seu filho, Marco Cícero Júnior, para estudar em Atenas com o famoso peripatético Cratippis. Os próprios escritos de Cícero revelam-nos que o jovem Marco estava mais inclinado a alistar-se como soldado do que a prosseguir os seus estudos no estrangeiro; no entanto, acabou por concordar em ir para Atenas.

Four Greek Philosophers
Quatro Filósofos Gregos Cristian Bortes (CC BY-NC-SA)

Era caro viver e estudar no estrangeiro. Cícero, em Epistulae ad Atticum (Cartas a Ático - as suas cartas ao seu banqueiro e amigo, Ático), dá-nos uma ideia das despesas necessárias para manter o seu filho em Atenas: propinas substanciais e uma mesada muito generosa para cobrir o aluguer do apartamento, os escravos e as despesas de subsistência. Os estudos podiam durar até cinco anos e, com os custos consideráveis que isso implicava, é compreensível que nem todos os estudantes romanos prosseguissem os seus estudos. Aqueles que o faziam eram provavelmente abastados, com o objetivo de seguir carreiras na política ou no meio académico. No entanto, dois anos em Atenas eram frequentemente suficientes para uma carreira, e os estudantes de recursos relativamente modestos tendiam a desistir nesta fase. Libânio refere-se a uma ocasião em que um pai retirou o filho da sua turma; este estava no segundo ano do curso, e Libânio considerou isso demasiado cedo; no entanto, no ano seguinte, o jovem venceria triunfalmente um julgamento como advogado.

A Chegada e a Iniciação

O jovem romano chegou ao movimentado porto do Pireu, em Atenas, após uma viagem de 12 dias. Segundo Eunápio e Libânio, alguns destes jovens alunos eram recebidos no porto ateniense por grupos rivais de estudantes leais a um determinado professor. Estes estudantes raptavam os novos alunos e recrutavam-nos para a escola do seu professor. Libânio, que escreveu sobre estes acontecimentos com base na sua própria experiência pessoal, refere-se a estas escaramuças como se fossem ocorrências rotineiras. Libânio recorda que foi capturado por um grupo destes estudantes e colocado numa cela não maior do que um barril, até jurar lealdade ao professor preferido dos estudantes, Diofanto (Or 1.16.20).

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Em Atenas, os ginásios tornaram-se a sede de quase todas as grandes escolas de filosofia.

O processo de iniciação de um novo aluno é descrito por Gregório de Nazianzo (cerca de 330 a cerca de 389 d.C.), teólogo e antigo aluno, nas suas Orações (tít. original: Λόγοι; transliterado: Logoi). Aqueles a quem cabia zelar pela honra do jovem organizaram-se em duas filas e conduziram-no aos banhos. Ao aproximarem-se dos banhos, os alunos mais velhos gritavam e saltavam descontroladamente, como se estivessem possuídos, proclamando que não deviam avançar, pois os banhos não os admitiriam; em seguida, bateram furiosamente às portas da casa de banhos, assustando o jovem aluno recém-chegado, antes de finalmente o deixarem entrar. Gregório de Nazianzo comenta esta cena dizendo que, para aqueles rapazes que nunca tinham passado por isto, teria parecido assustador e brutal, mas afirma que era muito humano e que as ameaças eram fingidas e não reais. Eunápio (cerca de 345 a cerca de 420 d.C.) descreve os estudantes a tomarem o banho ritual enquanto eram ridicularizados pelos seus colegas mais velhos, com a intenção de diminuir a presunção dos recém-chegados e levá-los à submissão. Concluída a iniciação, o aluno era acolhido na escola e recebia uma capa curta e áspera para vestir. Conhecida como tribon e associada aos filósofos, esta capa devia ser usada em público e durante os estudos.

Os Estudos

Os alunos estudavam com o seu professor ao ar livre, num templo ou, por vezes, na casa do professor. Os ginásios, originalmente utilizados para atividades atléticas, foram adaptados para incluir áreas destinadas aos estudos intelectuais durante o período helenístico. Tornou-se comum a construção de uma ou mais exedras — recantos murados — num ginásio. Estas exedras eram salas retangulares ou semicirculares, onde os professores e os seus alunos se podiam sentar para realizar discussões e dar palestras, tendo também sido adicionadas bibliotecas. Em Atenas, os ginásios tornaram-se a sede de quase todas as grandes escolas de filosofia grega.

The Hellenistic Gymnasium, Kos
O Ginásio Helenístico, Cós Karelj (Public Domain)

Eunápio de Sardes na obra Vidas dos Filósofos e Sofistas (tít. original: Βίοι Φιλοσόφων καὶ Σοφιστῶν; transliterado: Bioi Philosophōn kai Sophistōn - frequentemente utilizado o tít. em latim: Vitae Sophistarum ou De Vitis Philosophorum et Sophistarum) apresenta descrições de palestras proferidas por algumas das figuras mais notáveis da época, como o seu retrato vívido do sofista Prohaerésio (cerca de 276 a cerca de 368 d.C.), que, ao proferir as suas palestras, saltava no ar como se estivesse inspirado; era alto, de uma beleza impressionante, com gestos amplos e uma retórica sonora. Eunápio descreve os discursos de Prohaerésio como obras-primas de espetáculo e eloquência avassaladora.

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O sofista ateniense Filóstrato (170-245 d.C.), na obra Vidas dos Sofistas (tít. original grego: Βίοι Σοφιστῶν transliterado: Bioi Sophistōn - frequentemente utilizado o tít. em latim: Vitae Sophistarum), também apresenta uma série de retratos de filósofos-sofistas em ação e oferece uma visão sobre algumas das formas de aprendizagem ao alcance dos estudantes. Segundo nos é dito, alguns estudantes pagavam para assistir a palestras (uma taxa por palestra) de diferentes professores e, para além disso, tinham acesso à biblioteca dos professores para complementar as aulas; os estudantes que tinham o seu próprio professor também podiam aproveitar a oportunidade de pagar para assistir às apresentações de vários professores. Havia outro grupo de estudantes que teria partilhado uma relação aluno-professor mais íntima, e estes estudantes recebiam instrução específica nos seus estudos de retórica e filosofia; estes estudantes eram escolhidos com base no seu mérito pessoal.

Através de Libânio, que, após concluir os seus estudos em Atenas, passou a ensinar retórica, temos uma visão mais aprofundada da vida estudantil. Libânio escreve sobre as suas aulas, nas quais o tempo era dedicado a exercícios preparatórios (progymnasmata); era atribuído um tema aos alunos, que aprendiam a escrever elogios fúnebres e invectivas, e também apresentavam discursos perante os seus pares. Em alguns casos, os melhores alunos eram autorizados a substituir Libânio e a lecionar determinadas aulas. Sabemos, através de cartas que sobreviveram, que no final de um «semestre», durante as férias de verão, Libânio redigia «relatórios» informais para os pais, uma forma de os manter a par do progresso dos seus filhos (Epist. 650).

A Vida Estudantil em Atenas

A vida estudantil não era muito diferente da vida universitária atual. Podemos imaginar centros de atividade estudantil a existir em torno destes centros de ensino. Muitos jovens estudantes experimentavam, pela primeira vez, as liberdades que advinham de estar longe de casa. Em muitos casos, os estudantes permaneciam durante as férias nas cidades onde se situavam os centros de ensino. Podemos certamente imaginar as muitas tentações para o estudante nesta nova vida: jogos, corridas de bigas, festas e folias até altas horas da noite. Aulo Gélio, que estudou filosofia e retórica em Atenas, escreve nas suas Noites Áticas (tít. original: Noctes Atticae) acerca de um professor que se queixa de que, no tempo de Sócrates, os alunos andavam a pé toda a noite para ouvir Sócrates falar, enquanto agora o professor tem de esperar pelos alunos que passaram a noite inteira a beber e, por conseguinte, estão de ressaca até ao meio-dia (7.10.5).

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Greek Philosophers
Filósofos Gregos Amplitude Studios (Copyright)

O filho de Cícero, Marco, cedeu à tentação, e o seu «comportamento escandaloso», que incluía beber e ir a festas, foi denunciado ao pai pelo ateniense Leónidas (Ad Fam. 16.21.2). O jovem Marco negligenciava os estudos, para grande descontentamento do pai, que ameaçou cortar-lhe a mesada se a situação continuasse. Para estudantes que se encontravam a uma distância tão grande de casa, era improvável que o seu comportamento rebelde levasse a que um pai descontente aparecesse à sua porta, embora Cícero tenha considerado a possibilidade de uma visita. O seu filho procurou acalmar os ânimos com uma carta de desculpas, enviada por intermédio do secretário do pai, Tiro; Marco escreve que os erros da sua juventude lhe causaram muito remorso e sofrimento, que o seu coração se afunda com o que fez e que os seus ouvidos não suportam ouvir falar nisso. Afirma ter mudado de comportamento e estar agora a esforçar-se muito nas aulas. Consegue também, nesta carta, referir-se à sua generosa mesada como escassa e solicitar um secretário para lhe poupar o trabalho de transcrever as suas notas das aulas (16.21).

A descrição de Gélio na obra Noites Áticas também se refere a esses momentos passados a desfrutar do novo ambiente e dos novos amigos. Ele conta que jovens romanos e gregos que frequentavam as mesmas palestras se reuniam para visitar os pontos turísticos de Atenas e discutir os seus interesses. Praticavam juntos as suas novas competências, aprendendo a conduzir as suas próprias interações filosóficas (15.2). Gélio descreve uma ocasião em que os alunos se reuniram para jantar e se divertiram com jogos intelectuais, nos quais responder corretamente significava receber uma coroa de louro trançada e um prémio. Ao longo dos anos, à medida que os estudantes avançavam nos seus estudos, foram-se criando laços fortes e amizades.

O Exame Final e a Perspetivas de Carreira

O fim do percurso de um jovem na «universidade» era marcado pela avaliação final, na qual ele tinha de fazer uma apresentação retórica perante uma audiência de seus pares; Libânio escreve que, na sua escola, após o exame, ele comentava e avaliava o discurso do seu aluno. Gregório de Nazianzo relata que, em algumas cidades, esperava-se que os alunos que regressavam demonstrassem as competências que tinham dominado perante um grande público. Alguns estudantes encaravam isso com apreensão, e Gregório conta como se sentiu mal devido à tensão neste momento crucial da sua vida.

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The Arringatore (Orator)
O Arringatore (Orador) corneliagraco (CC BY)

Os jovens rapazes que tinham vindo a Atenas para estudar oratória e retórica podiam agora aplicar as suas novas competências em processos judiciais e em carreiras diplomáticas; muitos embaixadores eram oradores ou sofistas, mas os filósofos podiam igualmente assumir esses papéis. Os jovens licenciados podiam também tornar-se professores e académicos.

O estudante que chegara como jovem aluno ao porto de Atenas alguns anos antes prepara-se para partir. Gregório de Nazianzo faz um relato comovente da despedida. Descreve como professores e alunos se reuniram no cais, com lágrimas a correrem enquanto eram proferidos discursos de despedida; nada, diz ele, é mais doloroso do que dizer adeus a Atenas e àqueles estudantes com quem se partilharam tanto alegrias como tristezas (Or.43,24).

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Perguntas & Respostas

Por que razão os filhos dos romanos abastados eram educados na Grécia?

A Grécia Antiga possuía uma tradição de longa data no campo dos estudos filosóficos e da formação em oratória, e Atenas era considerada o centro intelectual do Mediterrâneo oriental. Por isso, era reconhecida como o melhor local para aprofundar os estudos.

Quais foram alguns romanos famosos que estudaram em Atenas?

Entre os romanos famosos que estudaram em Atenas contam-se estadistas como Júlio César, Marco Júnio Bruto ou Cícero, e o poeta Horácio.

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McCormack, L. K. (2026, setembro 29). Estudantes Romanos em Atenas. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2458/estudantes-romanos-em-atenas/

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McCormack, Laura K.C.. "Estudantes Romanos em Atenas." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, setembro 29, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2458/estudantes-romanos-em-atenas/.

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McCormack, Laura K.C.. "Estudantes Romanos em Atenas." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 29 set 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2458/estudantes-romanos-em-atenas/.

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