Inanna e Ebih é um poema sumério/acádio atribuído a Enheduanna (2285-2250 a.C.), filha de Sargão da Acádia. O título original da obra é Inninmehusa ("Deusa dos Poderes Temíveis") e conta a história da vitória da deusa Inanna sobre o deus da montanha Ebih, depois de ele ter deixado de demonstrar o devido respeito por ela.
O poema (às vezes referido como A Batalha de Inanna com a Montanha) consta na lista como a terceira das principais obras de Enheduanna, depois de Inninsagurra ("A Amante de Grande Coração") e Ninmesarra ("A Exaltação de Inanna"), e apresenta Inanna no papel como deusa da guerra. A popularidade da obra é atestada por, pelo menos, 80 cópias encontradas nas ruínas de Nipur e outras cidades antigas em todo o atual Iraque, e sabe-se que era usada na edubba ("Casa das Tábuas"), a escola de escribas, como parte do currículo conhecido como Decad, os textos complexos que os alunos necessitavam dominar antes de se formarem.
Houve mais interpretações oferecidas para este poema do que para os outros dois, variando de uma alegoria de desastre ecológico a uma visão protofeminista do mito da Queda do Homem, a uma obra em homenagem às vitórias acádias sobre o povo das montanhas do norte, entre muitas outras. Uma leitura simples do texto, no entanto, mostra que está muito alinhado com as outras obras que têm Inanna como personagem central, onde é retratada como orgulhosa, determinada e independente, fazendo o que bem entende, independentemente das consequências.
É mais provável, portanto, que a obra tenha sido originalmente composta em homenagem ao divino feminino — como os outros poemas de Enheduanna —, apresentando Inanna como uma jovem mulher que se recusa a aceitar a falta de respeito de um homem ou do sistema patriarcal que a permite. Esta leitura é apoiada não apenas pelo texto, mas pela vida da autora da obra; embora possa ser interpretada da mesma forma mesmo se escrita por qualquer outra pessoa.
Comentário e Resumo
Enheduanna, a primeira autora do mundo conhecida pelo nome, era uma princesa altamente educada do Império Acádio, o pai, Sargão da Acádia (o Grande, 2334-2279 a.C.), enviou-a para a edubba para se tornar escriba e, em seguida, para a cidade de Ur, onde serviu como alta sacerdotisa no templo do deus da lua Nanna. Escreveu mais de 40 poemas, a maioria baseada em aspectos da sua vida e refletindo a época em que viveu.
Entre as muitas outras interpretações de Inanna e Ebih (um título moderno), está a alegação de que se trata de uma alegoria de um golpe bem-sucedido em Ur por um tal Lugal-Ane, que enviou Enheduanna para o exílio, e do seu regresso ao poder, pelo qual deu crédito a Inanna. Esta leitura encaixa-se melhor no texto do que outras interpretações, mas também é possível que a obra seja simplesmente uma narrativa poética sobre o poder feminino em geral, sem nenhuma relação com a experiência de vida de Enheduanna.
O poema começa com elogios a Inanna (linhas 1-24) antes de iniciar a história de como, ao caminhar nas montanhas, Inanna é insultada por Ebih — personificado pela paisagem montanhosa — que se recusa a mostrar-lhe o devido respeito. Inanna então jura vingança (linhas 25-52). Ela queixa-se ao grande deus do céu An (Anu), pedindo a bênção e ajuda para punir Ebih (linhas 53-111), mas ele recusa-se, referindo que Ebih é mais poderoso do que ela e que deveria pensar duas vezes antes de desafiá-lo (linhas 112-130). Inanna rejeita o conselho, arma-se e ataca Ebih, destruindo-o (linhas 131-159), e anuncia a vitória (linhas 160-181). O poema termina com os elogios ao triunfo de Inanna e conclui, como muitas obras da literatura mesopotâmica, com elogios a Nisaba, deusa da escrita, em agradecimento pela sua inspiração e orientação na redação da obra.
Texto
A passagem a seguir foi retirada de The Literature of Ancient Sumer, (A Literatura da Antiga Suméria), traduzido por Jeremy Black et al., e de The Electronic Corpus of Sumerian Literature, (ETCSL O Corpus Eletrónico da Literatura Suméria) traduzido pelos mesmos autores. As elipses significam palavras ou versos ausentes, e os pontos de interrogação indicam uma tradução alternativa para uma palavra ou frase.
1-6: Deusa dos temíveis poderes divinos, revestida de terror, montada nos grandes poderes divinos, Inanna, completada pela força da arma sagrada Ankar, encharcada de sangue, correndo em grandes batalhas, com o escudo apoiado no chão (?), coberta por tempestades e inundações, grande senhora Inanna, sabendo bem como planear conflitos, destrói terras poderosas com flechas e força e domina as terras.
7-9: No céu e na terra, ruge como um leão e devasta o povo. Como um enorme touro selvagem, triunfa sobre as terras hostis. Como um leão temível, pacifica os insubordinados e rebeldes com a sua coragem.
10-22: Minha senhora, ao adquirir a estatura do céu, donzela Inanna, ao se tornar tão magnífica quanto a terra, ao surgir como Utu, o rei, e estender os seus braços, ao caminhar no céu e vestir um terror temível, ao vestir a luz do dia e o brilho na terra, ao caminhar nas cadeias de montanhas e trazer raios resplandecentes, ao banhar as plantas girin das montanhas (na luz), ao dar à luz a montanha brilhante, a montanha, o lugar sagrado, ao seu ..., ao ser forte com a maça como um senhor alegre, como um senhor entusiasmado (?), ao exultar em tal batalha como uma arma destrutiva — o povo de cabeça negra entoa canções e todas as terras cantam docemente.
23-24: Eu louvarei a senhora da batalha, a grande filha de Suen, a donzela Inanna.
25-32: ( Inanna anunciou:) "Quando eu, a deusa, caminhava pelo céu, caminhava pela terra, quando eu, Inanna, caminhava pelo céu, caminhava pela terra, quando eu caminhava por Elão e Subartu, quando eu caminhava pelas montanhas Lulubi, quando me virei para o centro das montanhas, quando eu, a deusa, me aproximei da montanha, ela não me mostrou respeito, quando eu, Inanna, me aproximei da montanha, ela não me mostrou respeito, quando me aproximei da cordilheira de Ebih, não me mostrou respeito."
33-36: " Como não me mostraram respeito, como não baixaram o nariz perante mim, como não esfregaram os lábios no pó por mim, eu pessoalmente encherei a imponente cordilheira com o meu terror."
37-40: "Contra os seus lados magníficos, colocarei aríetes magníficos; contra os seus lados pequenos, colocarei aríetes pequenos. Eu a invadirei e começarei o 'jogo' da sagrada Inanna. Na cordilheira, começarei batalhas e prepararei conflitos."
41-44: " Prepararei flechas na aljava. Prepararei... pedras de funda com a corda. Começarei a polir a minha lança. Prepararei o bastão de arremesso e o escudo."
45-48: " Incendiarei as suas densas florestas. Derrubarei as suas maldades com um machado. Farei com que Gibil, o purificador, mostre os seus dentes sagrados nos seus cursos de água. Espalharei este terror pela inacessível cordilheira Aratta."
49-52: " Como uma cidade que An amaldiçoou, que nunca seja restaurada. Como uma cidade que Enlil desaprovou, que nunca mais levante a cabeça. Que a montanha trema quando eu me aproximar. Que Ebih me dê honra e me elogie."
53-58: Inanna, filha de Suen, vestiu as vestes da realeza e cingiu-se de alegria. Ela enfeitou a testa com terror e um brilho assustador. Ela arrumou rosetas de cornalina em torno da garganta sagrada. Ela brandiu vigorosamente a arma cita de sete cabeças à sua direita e colocou tiras de lápis-lazúli nos pés.
59-61: Ao anoitecer, surgiu majestosamente e seguiu o caminho até o Portão das Maravilhas. Ela fez uma oferenda a An e dirigiu-lhe uma oração.
62-64: An, encantado com Inanna, deu um passo à frente e tomou o seu lugar. Ele ocupou o assento de honra do céu.
65-69: (Inanna anunciou:) "An, meu pai, eu te saúdo! Preste atenção às minhas palavras. Tornou-me temível entre as divindades do céu. Por sua Graça, minha palavra não tem rival no céu ou na terra. Deu-me a ... e a arma cilig, os emblemas antibal e mansium."
70-79: " Para colocar a base em posição e tornar o trono e a fundação firmes, para carregar o poder da arma cita que se curva como uma árvore mubum, para segurar o solo com o jugo sextuplo, para estender os flancos com o jugo quádruplo, para perseguir incursões assassinas e campanhas militares generalizadas, para aparecer aos reis no ... do céu como o luar, para atirar a flecha do braço e cair em campos, pomares e florestas como o dente do gafanhoto, para levar o arado às terras rebeldes, para remover as fechaduras dos portões da cidade para que as portas fiquem abertas — Rei An, realmente deu-me tudo isso, e ..."
80-82: "Colocou-me à direita do rei para destruir as terras rebeldes: que ele, com a minha ajuda, esmague cabeças como um falcão no sopé da montanha, Rei An, e que eu... seu nome por toda a terra como um fio."
83-88: "Que ele destrua as terras como uma cobra numa fenda. Que as faça rastejar como uma cobra sajkal descendo duma montanha. Que tenha controlo sobre a montanha, examine-a e conheça a sua extensão. Que saia na campanha sagrada de An e conheça a sua profundidade. Os deuses ..., já que as divindades Anuna têm ..."
89-95: "Como é possível que a montanha não me temesse no céu e na terra, que a montanha não me temesse, Inanna, no céu e na terra, que a cordilheira de Ebih, a montanha, não me temesse no céu e na terra? Porque não me mostrou respeito, porque não colocou o nariz no chão, porque não esfregou os lábios na poeira, que eu possa encher minha mão com a cordilheira elevada e entregá-la ao meu terror."
96-99: " Contra os seus lados magníficos, deixe-me colocar aríetes magníficos, contra seus lados pequenos, deixe-me colocar aríetes pequenos. Deixe-me invadi-la e começar o 'jogo' da sagrada Inanna. Na cordilheira, deixe-me preparar a batalha e os conflitos.
100-103: "Deixem-me preparar flechas na aljava. Deixem-me... pedras de funda com a corda. Deixem-me começar a polir a minha lança. Deixem-me preparar o bastão de arremesso e o escudo."
104-107: " Deixem-me incendiar as suas densas florestas. Deixem-me usar um machado contra as suas más ações. Deixem-me fazer com que Gibil, o purificador, mostre os seus dentes sagrados nos seus cursos de água. Deixem-me espalhar este terror pela inacessível cordilheira Aratta."
108-111: " Como uma cidade que An amaldiçoou, que nunca seja restaurada. Como uma cidade que Enlil desaprovou, que nunca mais levante a cabeça. Que a montanha trema quando eu me aproximar. Que Ebih me dê honra e me elogie."
112-115: An, o rei das divindades, respondeu-lhe: "Minha pequena exige a destruição da montanha — o que está a pensar? Inanna exige a destruição da montanha — o que ela está a pensar? Ela exige a destruição desta montanha — o que ela está a pensar?"
116-120: " Ela derramou um terror assustador sobre as moradas dos deuses. Espalhou o medo entre as moradas sagradas das divindades Anuna. Derramou o seu terror e ferocidade sobre esta terra. Derramou o brilho e o medo da cordilheira sobre todas as terras. A sua arrogância estende-se grandiosamente até o centro do céu."
121-126: "Os frutos pendem em seus jardins florescentes e a exuberância se espalha. Suas árvores magníficas são, elas mesmas, uma fonte de admiração para as raízes do céu. Em Ebih... os leões são abundantes sob a copa das árvores e os galhos brilhantes. Ela torna os carneiros selvagens e os veados abundantemente livres. Mantém os touros selvagens na grama florescente. Os veados acasalam entre os ciprestes da cordilheira."
127-130: " Não pode passar pelo terror e medo. O brilho da cordilheira é assustador. Donzela Inanna, não pode opor-se a isso." Assim ele falou.
131-137: A senhora, na sua raiva e ira, abriu o arsenal e empurrou o portão de lápis-lazúli. Ela trouxe uma batalha magnífica e invocou uma grande tempestade. A sagrada Inanna alcançou a aljava. Levantou uma inundação imponente com lodo maligno. Provocou um vento maligno e furioso com cacos de cerâmica.
138-143: Minha senhora enfrentou a cordilheira. Ela avançou passo a passo. Afiou as duas pontas de sua adaga. Agarrou o pescoço de Ebih como se estivesse arrancando esparto. Pressionou os dentes da adaga em seu interior. Rugiu como um trovão.
144-151: As rochas que formavam o corpo de Ebih ruíram pelas suas encostas. Dos seus lados e fendas, grandes serpentes cuspiam veneno. Ela amaldiçoou as suas florestas e as suas árvores. Matou os seus carvalhos com a seca. Derramou fogo nas suas encostas e tornou o seu fumo denso. A deusa estabeleceu autoridade sobre a montanha. A sagrada Inanna fez o que quis.
152-159: Ela foi até à cordilheira de Ebih e disse-lhe: "Cordilheira, por causa da sua elevação, por causa da sua altura, por causa da sua atratividade, por causa da sua beleza, por usar uma vestimenta sagrada, por alcançar o céu, porque não colocou o seu nariz no chão, porque não esfregou os seus lábios na poeira, eu te matei e te derrubei."
160-165: "Como com um elefante, eu agarrei as presas. Como com um grande touro selvagem, eu o derrubei pelos seus chifres grossos. Como com um touro, eu forcei a sua grande força ao chão e o persegui selvagemente. Eu fiz das lágrimas a norma nos seus olhos. Eu coloquei lamentações no seu coração. Pássaros de tristeza estão construindo ninhos nestes flancos."
166-170: Pela segunda vez, regozijando-se pelo seu terrível terror, ela falou com retidão: "Meu pai Enlil derramou meu grande terror sobre o centro das montanhas. À minha direita, ele colocou uma arma. À minha esquerda, um ... foi colocado. Minha raiva, uma grade com grandes dentes, rasgou a montanha."
171-175: " Construí um palácio e fiz muito mais. Coloquei um trono no lugar e tornei a base firme. Dei aos praticantes do culto Kurjara uma adaga e um aguilhão. Dei aos praticantes do culto Gala tambores ub e lilis. Mudei o capacete dos praticantes do culto Pilipili."
176-181: "Na minha vitória, corri em direção à montanha. Na minha vitória, corri em direção a Ebih, a cordilheira. Avancei como uma enchente crescente e, como água subindo, transbordei a barragem. Imponho minha vitória à montanha. Imponho minha vitória a Ebih."
182-183: Por destruir Ebih, grande filha de Suen, donzela Inanna, seja louvada.
184: Nisaba seja louvada.
Conclusão
Embora o poema seja geralmente entendido como obra de Enheduanna, há alguns estudiosos que contestam a afirmação e, portanto, rejeitam a interpretação de que reflete o conflito de Enheduanna com Lugal-Ane. O golpe de Lugal-Ane como fonte, no entanto, não tem nada a ver com o texto em si — nem é necessário ligar Enheduanna à obra —, pois o poema poderia ter sido escrito por qualquer pessoa interessada em incentivar o empoderamento feminino.
Quem quer que o tenha escrito, em regra geral, a obra pode ser interpretada como as mulheres não recebem o devido respeito e como é de direito responder com desafio ao sistema patriarcal, em vez de aceitação. Uma obra posterior, Inanna e Su-kale-tuda (cerca de 1800 a.C.), explora este mesmo tema por meio duma história em que Inanna é violada por um jardineiro e, em vez de sofrer em silêncio após a agressão, ela caça o homem e o mata. O autor desta obra pode ter tido 'Inanna e Ebih' em mente, pois, em ambas, Inanna se recusa a se submeter às expectativas do patriarcado e exige justiça para si mesma nos seus próprios termos.
