Na antiguidade, o Reno era uma importante artéria de comunicação que atravessava toda a Europa, permitindo o comércio, os contactos e o intercâmbio cultural entre as diferentes regiões. Naquela época, assim como hoje, o rio era de vital importância estratégica para o controlo das rotas comerciais e como fonte de matérias-primas. Ao longo do Reno, as culturas celta, germânica e mediterrânica encontraram-se, lutaram e influenciaram-se umas às outras. Uma nova exposição no Antikenmuseum, em Basileia, Suíça — Ave Caesar! Romanos, gauleses e tribos germânicas nas margens do Reno — reavalia as profundas mudanças provocadas por séculos de intercâmbio na região durante a Antiguidade. James Blake Wiener conversa com o Dr. Esaù Dozio, curador do Antikenmuseum (Museu de Antiguidades de Basileia e Coleção Ludwig), para saber mais.
JBW: Muito obrigado por conversar comigo mais uma vez, Dr. Esaù Dozio. Por milhares de anos, as pessoas viram o rio Reno como uma espécie de fronteira, dividindo o norte e o sul da Europa. O rio Reno era um canal de riqueza e intercâmbio. No entanto, estou curioso para saber por que o Dr. Esaù e os seus colegas curadores escolheram o rio Reno como foco da última exposição do Antikenmuseum. Suspeito que a localização de Basileia, às margens do Reno, tenha desempenhado algum papel nisso.
ED: Entre o outono de 2022 e o verão de 2023, a Netzwerk Museen (Rede de Museus do Alto Reno) dedicará uma série de exposições internacionais ao Reno. Trinta e oito museus da Alemanha, França e Suíça destacam a importância do rio para a nossa região a partir de diferentes perspectivas. Para o Antikenmuseum, foi uma ocasião oportuna para apresentar a história antiga do Reno. Neste contexto, Basileia e a região envolvente desempenham um papel de relevo, na medida em que o povoado celta de Basileia-Gasfabrik, o oppidum (povoado fortificado) no Münsterhügel e a colónia romana vizinha de Augusta Raurica oferecem condições excecionais para um projeto desta natureza.
JBW: Muito antes da chegada dos romanos, gregos e etruscos já acediam ao rio Reno. Porque é que os comerciantes gregos e etruscos estavam interessados em negociar com os habitantes celtas ao longo do Reno na Antiguidade? Como era a relação económica entre eles e como se reflete na exposição?
ED: As relações comerciais eram muito diversas. A aristocracia celta parece ter demonstrado um interesse particular pelo vinho enquanto produto de prestígio, bem como pelos utensílios de cerâmica e bronze associados ao seu consumo. Para os comerciantes do sul era muito importanteo acesso aos depósitos de estanho na Cornualha, mas também ao ouro do Reno, ao sal, às peles e, claro, aos escravos. Na exposição, por exemplo, a cerâmica grega de Breisach Münsterberg e os vasos de bronze etruscos das proximidades de Bona mostram a importância destas relações comerciais "internacionais" precoces em toda a Europa.
JBW: Entre os ano de 58 e 52 a.C., Júlio César explorou as disputas entre as tribos celtas para expandir o domínio romano até o Reno. O rio tornou-se, assim, a fronteira da República Romana. Os romanos tentaram aculturar os habitantes locais — germânicos ou celtas — tanto quanto possível; as elites locais também foram autorizadas a manter as suas posições de poder. Tendo isto em conta, como vemos a gradual aculturação dos povos celtas e germânicos no mundo romano refletida nos vestígios arqueológicos? Há algum objeto em Ave Caesar que mostre este processo em ação?
ED: Através das campanhas de César, não se observa nenhuma revolta real no Reno.
No entanto, a presença direta dos romanos acelerou os processos culturais já existentes. Isto pode ser visto em todos os níveis da sociedade, desde os hábitos alimentares até à arquitetura, agora se percebe novidades empolgantes. Os romanos tentaram habilmente integrar as elites nativas. Os que estavam dispostos a ser leais ao poder romano receberam a cidadania romana com os seus privilégios inerente, o que os tornava participantes activos no novo sistema político. Os romanos esperavam que tal proporcionasse uma situação política estável nos territórios recém-conquistados. Outro factor de integração foi o exército romano: os cidadãos gauleses e das tribos germânicas de todas as classes sociais podiam alistar-se e, em troca, após o término do serviço, também recebiam a cidadania romana para si e para os seus descendentes; para muitos, um importante avanço social. Na exposição, o capacete do gaulês Sollionius Super, bem como a estela funerária do cavaleiro germânico Niger, testemunham este desenvolvimento social: ser romano não era uma coincidência étnica, mas principalmente uma decisão política.
JBW: Fale-nos sobre os artefactos das propriedades rurais romanas em exibição na exposição – o que revelam sobre o enorme impacto que os romanos tiveram no comércio e na agricultura ao longo do rio Reno? O que nos dizem sobre o estilo de vida das elites e dos plebeus romanos?
ED: Com os romanos, os hábitos alimentares no Reno também mudaram. Por um lado, eles melhoraram a agricultura e a pecuária existentes. Nas camadas arqueológicas da época romana, por exemplo, os ossos do gado são mais longos, o que nos leva a concluir que os animais ficaram maiores graças a uma melhor criação. Durante o período romano, foram introduzidas e cultivadas novas variedades de frutos ao longo das margens do Reno, tais como a videira, a cerejeira e a ameixoeira, ou ervas aromáticas como o coentro, etc. A região do Reno agora também fazia parte do mundo romano globalizado, de modo que a pimenta e a canela da Índia, por exemplo, podiam ser apreciadas aqui, no nosso país.
JBW: Vários imperadores romanos passaram algum tempo nas proximidades do Reno. Quem foram esses imperadores? Suspeito que seja justo dizer que o tempo que passaram tão perto da fronteira deixou uma marca indelével na forma como abordavam a guerra e a arte de governar.
ED: No início do período imperial, a fronteira do Reno proporcionava aos jovens nobres romanos uma excelente oportunidade de demonstrar as suas capacidades de liderança e tornarem-se populares junto do exército. Tibério comandou uma campanha militar no Alto Reno sob o comando de Augusto. Calígula, filho do famoso general Germânico, viveu por dois anos nos acampamentos legionários no Reno, regressando mais tarde como imperador. Em criança, Vespasiano viveu em Avenches e foi legado legionário na Germânia. Trajano e Adriano também comandaram legiões no Reno. Muitas figuras importantes da história romana viram o Reno com os seus próprios olhos...
JBW: Li anteriormente que a cultura escrita também se espalhou para a região do Reno graças às trocas entre os povos mediterrânicos e os celtas e germânicos. Que provas existem disso ao longo do tempo e do espaço?
ED: Na verdade, os celtas não tinham uma cultura escrita, assim a primeira evidência escrita na nossa região só é documentada a partir da época romana. César, no entanto, relata que os gauleses eram bastante capazes de usar letras gregas para textos curtos. A intensificação dos contatos com o sul a partir do período Latène também levou à adopção de certas conquistas culturais, como a cunhagem de moedas, ao norte dos Alpes. A escrita, no entanto, permaneceu limitada a certos casos individuais. Não é de admirar que o primeiro habitante conhecido de Basileia pelo seu nome fosse um romano: foi apenas por volta do final do século I a.C., ou do início do século I d.C., que Titus Torius deixou o seu nome gravado numa placa de bagagem, na Colina da Sé (Münsterhügel), em Basileia..
JBW: Esaù , muito obrigado por nos apresentar a exposição e partilhar os seus conhecimentos connosco!
ED: Muito obrigado e espero vê-lo novamente em breve no Antikenmuseum!
A exposição fica em cartaz até 30 de abril de 2023 no Antikenmuseum Basel und Sammlung Ludwig, em Basileia, Suíça.
O Dr. Esaù Dozio estudou arqueologia clássica na Universidade de Basileia, na Suíça, e foi membro do Instituto Suíço em Roma, Itália. Contribuiu para vários projectos de exposições, principalmente na Suíça e na Alemanha, e desde 2013 é o curador do Antikenmuseum Basel und Sammlung Ludwig (Museu de Antiguidades de Basileia e Coleção Ludwig) na Basileia, Suíça.

