Armas dos Conquistadores

Mark Cartwright
por , traduzido por Filipa Oliveira
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Os conquistadores ibéricos foram os primeiros militares a explorar, atacar e conquistar territórios nas Américas e na Ásia que viriam a fazer parte do Império Espanhol ou Português. Os povos indígenas não conseguiam competir com as armas dos conquistadores, como canhões, espadas, bestas e lanças, ou, o mais devastador de tudo, a cavalaria blindada.

A superioridade das armas dos conquistadores era combinada com táticas disciplinadas e ajuda significativa de aliados indígenas, o que significava que eles faziam jus ao seu nome repetidas vezes, do México ao Peru, da Índia às Filipinas. Depois que os conquistadores varriam um território como uma praga, o processo de colonização propriamente dito era realizado por colonos e funcionários enviados pelas coroas espanhola e portuguesa para "pacificar" uma região e iniciar a exploração sistemática e prolongada de pessoas e recursos.

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European 16th Century Armour
Armadura Europeia do Século XVI Paul Alex Reed (CC BY-NC-ND)

A Vanguarda do Império

Os conquistadores dos séculos XV e XVI foram a vanguarda dos impérios português e espanhol à medida que estes se expandiam para fora da Europa. Homens que tinham ganho experiência militar e o gosto pela vitória em conflictos como a Reconquista e as Guerras Italianas, os conquistadores possuíam uma moral duvidosa e eram motivados, acima de tudo, por sonhos de riqueza pessoal. Secundários para a maioria eram os objectivos de exploração, comércio, colonização e evangelização que preocupavam as autoridades espanholas e portuguesas. Alguns conquistadores, nomeadamente os líderes, poderiam acalentar objectivos mais elevados de exploração e de "civilizar" os povos que encontravam, mas a soldadesca era composta por invasores absolutamente implacáveis que não se detiam perante nada, nem mesmo perante o assassínio dos seus companheiros europeus, a fim de satisfazerem a sua sede de riqueza e, sobretudo, de ouro. Os conquistadores eram um fardo tal que os monarcas europeus estavam sempre ansiosos por substituí-los por funcionários coloniais mais controláveis assim que possível em qualquer novo território.

Os europeus não tinham escrúpulos em enfrentar um exército muito maior do que sua pequena força.

O principal obstáculo que se interpunha entre um conquistador e a riqueza com que este poderia reformar-se em Espanha eram os povos indígenas. Naturalmente, as tribos locais, assim que perceberam que estes visitantes do outro mundo eram invasores decididos à conquista, ofereceram a melhor resistência que puderam para manter as suas terras, recursos e até a sua própria sobrevivência cultural. Infelizmente para os povos indígenas das Américas e de outros locais, embora muitos fossem exímios na guerra, estavam não apenas séculos, mas eras atrás dos europeus em termos de armamento. Tal era a superioridade das armas dos conquistadores que os europeus não tinham escrúpulos em enfrentar um exército muito maior do que a sua própria pequena força, e as suas inúmeras vitórias faziam-nos parecer invencíveis.

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O Arsenal dos Conquistadores

Uma força de conquistadores podia contar com o seguinte impressionante arsenal de armas:

  • canhões
  • arcabuzes
  • bestas
  • espadas
  • alabardas
  • picas
  • lanças
  • adagas
  • cães de ataque
Falchion Sword
Bracamarte Metropolitan Museum of Art (Copyright)

Os canhões tinham vários tamanhos, desde versões manuais até variedades maiores com rodas, adequadas para atacar fortificações defensivas. Havia colubrinas, falconetes e bombardas, para citar apenas alguns dos inúmeros tipos de canhão em uso no Início da Idade Moderna. Devido ao seu custo e peso, e à escassez de pólvora disponível, foram utilizados muito poucos canhões na guerra nas Américas e nas colónias em comparação com as batalhas na Europa. A força de conquistadores liderada por Hernán Cortés (1485-1547), que conquistou a civilização Azteca no México a partir de 1519, por exemplo, transportava apenas cerca de 18 canhões de todos os tipos. A falta de cavalos preciosos e de animais de carga locais significava que, frequentemente, era necessário recrutar carregadores humanos para arrastar os canhões de uma batalha para outra. Ainda assim, um punhado de canhões carregados com metralha e pedaços de metal aleatórios podia causar danos físicos e psicológicos tremendos a um inimigo inteiramente não habituado a tais terrores. O fumo, o ruído e, claro, os ferimentos terríveis e nunca antes vistos que infligiam, significavam que os canhões valiam todo o esforço necessário para os levar para a ação.

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Uma limitação séria das armas de projétil era o problema logístico de mantê-las abastecidas com munição.

Os arcabuzes eram armas pesadas que exigiam um pavio aceso constante e um suporte para seus longos canos (1 a 1,5 m ou 39 a 60 polegadas). O tempo de carregamento lento — um tiro a cada 90 segundos — era outro factor negativo para o uso eficaz de armas de fogo deste tipo. Muito menos utilizado do que nos campos de batalha europeus mais organizados da época, o arcabuz era mais útil como arma de choque para instilar medo no inimigo do que para realmente causar ferimentos. No entanto, eles podiam ser usados com eficácia em cercos, tanto para defesa quanto para ataque, onde telas de proteção ou ameias permitiam que o atirador recarregasse com segurança.

Outra arma eficaz na Europa, mas muito menos fora dela, era a besta. As bestas eram de todos os tamanhos e materiais, como aço, madeira, osso e cana. Podiam disparar um dardo com potência suficiente para perfurar armaduras de metal e atingir uma distância de até 305 m (1000 pés). O problema para os conquistadores era que os seus inimigos não tinham estas armaduras, e a precisão da arma em matar um único oponente era bem menos útil quando se tratava de um inimigo com milhares de soldados num ataque em frente muito ampla. Assim como o arcabuz, o mecanismo pesado da besta, em que a corda era puxada para trás usando uma catraca ou chave, e a vulnerabilidade distinta das peças degradáveis às condições climáticas locais, levavam a sérios problemas de confiabilidade. O tempo de carregamento lento das bestas — um dardo disparado por minuto — significava que elas também eram mais úteis em cercos. Outra limitação séria das armas de projétil, como canhões, arcabuzes e bestas, era o problema logístico de mantê-las abastecidas com munição e pólvora.

16th Century Morion Helmet
Morrião do Século XVI Metropolitan Museum of Art (Copyright)

Em vez das armas de projétil, foram as armas brancas de combate corpo a corpo que deram aos conquistadores uma vantagem real. As lanças tinham normalmente 3-4 metros (9-12 pés) de comprimento, e as suas longas pontas de metal eram altamente eficazes para perfurar as armaduras nativas.

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As espadas tinham vários estilos e comprimentos, mas as lâminas deste período eram geralmente longas (cerca de 1 m ou 40 pol.), finas e de dois gumes. A lâmina, feita, por exemplo, de aço de Toledo, terminava numa ponta, de modo que a arma podia ser usada tanto para perfurar quanto para cortar em duas direções. Muitas vezes, enquanto um guerreiro inimigo estava ocupado a cortar um conquistador, este último podia fazer um movimento de perfuração e despachar o inimigo com um ferimento fatal no peito. As espadas podiam ter um cabo de uma ou duas mãos, enquanto as guardas eram um simples pedaço de ferro. Um tipo comum europeu da época tinha uma barra em forma de S com uma extremidade dobrada para trás para servir de proteção para as mãos e a outra extremidade dobrada para a frente para que se pudesse enredar a lâmina ou arma do oponente e arrancá-la das suas mãos. O bracamarte de aço, leve e de produção económica, era popular entre os conquistadores; a sua lâmina ligeiramente curva mostrava uma influência óbvia das armas utilizadas pelos mouros em Espanha. Os europeus sabiam que as suas espadas lhes conferiam uma vantagem vital e, por essa razão, nenhum nativo americano era autorizado a possuir uma em território sob domínio espanhol.

Por fim, uma arma nunca antes vista na guerra americana eram os ferozes cães de ataque empregados pelos conquistadores. Eram cães irlandeses, mastins e cães de caça, trazidos para caçar carne e atacar guerreiros inimigos em matilhas. Um galgo escocês (deerhound) tem uma altura de até 80 cm (30 polegadas) e pesa cerca de 40 kg (90 libras), uma visão monstruosa para povos como o Aztecas, que estavam habituados apenas a chihuahuas. Os cães eram também utilizados por alguns conquistadores como um método lento de execução para cativos

A Armadura e a Cavalaria

Duas adições vitais à vantagem dos conquistadores na luta contra os povos indígenas foram as suas armaduras e os seus cavalos. A cavalaria, quando usada em terreno bom e com uma formação disciplinada, provou ser praticamente invencível nas Américas, por exemplo. O conquistador e cronista Pedro de Cieza de León descreveu apropriadamente o cavalo como a fortaleza dos espanhóis (Sheppard, pág. 44). No entanto, transportar cavalos através dos oceanos não era uma tarefa de fácil logística. Os cavalos também eram terrivelmente caros, o que explica por que uma força como a liderada por Francisco Pizarro (cerca de 1478-1541), que atacou a civilização Inca no Peru em 1532, inicialmente continha apenas 62 cavalos.

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Vasco Núñez de Balboa
Vasco Núñez de Balboa Unknown Artist (Public Domain)

Os cavaleiros da cavalaria costumavam usar armaduras de três quartos com botas de couro, para facilitar os movimentos e aumentar a velocidade. Normalmente usavam couraças, proteções para a parte superior das pernas e manoplas de metal. À medida que a conquista das Américas avançava, as armaduras tendiam a ficar mais leves, uma vez que não precisavam proteger contra balas ou flechas. De qualquer forma, as condições climáticas húmidas causavam estragos nas armaduras de metal, mesmo que os espanhóis tentassem combater ao pintar as peças de preto. Muitos conquistadores não se opunham a adoptar tipos locais de armadura, como jaquetas acolchoadas de algodão ou fibras de agave, que tinham sido embebidas numa solução de água salgada para as endurecer o suficiente para resistirem às setas.

Os cavaleiros usavam capacetes, mas geralmente sem proteção facial. O cavalo podia ser protegido com placas de aço no pescoço e na parte frontal da cabeça. As selas de couro tinham placas de aço adicionais para oferecer proteção extra para a parte superior das coxas e virilha. Assim protegido, um cavaleiro podia atacar o inimigo usando o próprio cavalo como um aríete e, em seguida, tirar proveito da sua altura superior para golpear o inimigo com uma espada ou uma lança. Eles podiam carregar um escudo pequeno, um pequeno círculo de aço usado para desviar os golpes do atacante. Escudos de couro endurecido também eram usados, pois eram mais leves e suficientes para resistir aos golpes das armas dos inimigos não europeus.

Um cavaleiro tinha muito mais velocidade e manobrabilidade do que um soldado de infantaria. O cronista Cieza de León descreveu a combinação eficaz de bestas e cavalaria no México:

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...formando duas companhias com bestas, escudos e piques, e outras duas com cavalos, ele [o comandante Rojas] aproximou-se do maior esquadrão de índios por dois lados, para que as bestas pudessem causar-lhe muitos danos... [então] atacou por dois lados com os cavalos em formação fechada e compacta. Pisoteando e matando com as lanças, eles abriram o esquadrão... os índios foram derrotados e dispersos. (Sheppard, pág. 45)

A infantaria, o grosso de qualquer exército de conquistadores, usava capacetes de aço mais simples como o salade, o capacete de ferro, o morrião e a borgonheta, que possuem uma aba inclinada. O seu torso poderia ser protegido por uma couraça de placas de metal fixadas a um suporte de linho ou couro, ou por uma cota de malha. O pescoço podia ser protegido pelo uso de uma gola alta de metal ou gorjal, que subia para proteger a parte inferior do rosto. Com o tempo, a infantaria dos conquistadores adoptou armaduras locais mais leves, uma vez que estas eram eficazes contra as armas locais.

A Resposta do Inimigo

Os povos indígenas estavam equipados com o seu próprio arsenal de armas, mas estas eram em grande parte armas cortantes que usavam lâminas feitas de bronze, cobre ou materiais afiados, mas facilmente quebráveis, como a obsidiana. Outras armas comummente utilizadas eram o arco, a funda, o dardo, a espada de madeira (macuahuitl), a maça de bicos, o machado de guerra e a lança. As lâminas e pontas eram feitas de obsidiana ou de madeira endurecida ao fogo, mas estas não conseguiam perfurar a armadura de metal dos europeus. Apenas com um golpe direto numa área desprotegida, como o rosto, poderia um conquistador ficar em sérios apuros. É por esta razão que os cronistas relatam frequentemente ferimentos como a perda de dentes, narizes e olhos entre os conquistadores, mas muito raramente mortes. A armadura dos indígenas americanos já foi mencionada, e esta era complementada com um pequeno escudo feito de madeira, cana ou couro. Mais uma vez, estes não eram rivais para as armas de pólvora ou para as técnicas de estocada dos espadachins europeus.

Aztec Warriors
Guerreiros Astecas Unknown (Public Domain)

Os conquistadores não eram, naturalmente, invencíveis, ainda que pudessem parecer sê-lo. Em batalhas mais abertas, a cavalaria europeia reinava suprema e, por isso, os exércitos indígenas acabaram por evitar este tipo de confrontos. Os Maias, em particular, eram adeptos da guerra de guerrilha, utilizando emboscadas e ataques nocturnos com grande eficácia. No cerco de Cusco, em 1536-7, um exército Inca ofereceu uma resistência feroz e prolongada contra os conquistadores. Houve também várias reviravoltas quando os guerreiros locais usaram o seu conhecimento da topografia com bons resultados ou quando os conquistadores se tornaram excessivamente confiantes ou ficaram isolados em grupos mais pequenos.

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Os povos nativos adaptaram-se rapidamente às novas ameaças do armamento desconhecido e da cavalaria. Durante a queda de Tenochtitlan em 1521, os guerreiros Aztecas certificaram-se de que evitavam os arcos de fogo das armas de pólvora. Cavaram fossas com estacas para encurralar os cavalos e reutilizaram espadas capturadas, fixando-as a longas hastes. Os nativos americanos tinham frequentemente as suas próprias armas únicas que os europeus desconheciam e, por isso, pagaram caro em vidas antes de se informarem sobre a sua ameaça. Os Incas desenvolveram as boleadeiras (várias bolas ligadas por tiras de couro) especificamente para derrubar cavalos. O povo da Venezuela utilizou longas picas contra a cavalaria com grande eficácia. Os nativos da costa da Colômbia utilizaram setas envenenadas para defender com sucesso o seu território. Existem outros casos de desafio, mas a história geral foi de soldados europeus a vencerem implacavelmente as batalhas decisivas.

Havia outras ameaças para os conquistadores além das armas inimigas. Doenças tropicais, cobras venenosas, a fome e os próprios companheiros conquistadores provocaram, muito frequentemente, o seu fim. A História, no entanto, conta a sua própria versão. À medida que vagas de novos colonos e administradores se mudavam para os territórios inicialmente tomados pelos conquistadores, os impérios espanhol e português acabaram por se estender por todo o globo, e tal foi possível por combinar uma estratégia de guerra total com o uso de aliados locais. Uma ajuda inestimável para as ambições imperiais foi o colapso quase total das estruturas sociais e políticas nestas áreas colonizadas devido à propagação de doenças europeias, um inimigo invisível muito mais mortal do que qualquer uma das armas transportadas pelos conquistadores.

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Perguntas & Respostas

Que espadas usavam os conquistadores?

Os conquistadores usavam uma variedade de espadas, mas a maioria era feita de aço, tinha uma lâmina longa e fina e um protector de mão simples.

De que era feita a armadura dos conquistadores?

Os conquistadores normalmente usavam armaduras de três quartos feitas de placas de metal, mas adoptaram armaduras indígenas leves porque não precisavam de proteção contra armas de projétil.

Quais foram as cinco armas utilizadas pelos conquistadores?

As cinco armas utilizadas pelos conquistadores eram: espadas, bestas, lanças, arcabuzes e canhões.

Sobre o Tradutor

Filipa Oliveira
Tradutora e autora, o gosto pelas letras é infindável – da sua concepção ao jogo de palavras, da sonoridade às inumeráveis possibilidades de expressão.

Sobre o Autor

Mark Cartwright
O Mark é o Diretor Editorial da WHE e é mestre em Filosofia Política pela Universidade de York. Investigador a tempo inteiro, é também escritor, historiador e editor. Os seus interesses particulares incluem a arte, a arquitetura e a descoberta das ideias partilhadas por todas as civilizações.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Cartwright, M. (2026, março 27). Armas dos Conquistadores. (F. Oliveira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2042/armas-dos-conquistadores/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "Armas dos Conquistadores." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, março 27, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2042/armas-dos-conquistadores/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "Armas dos Conquistadores." Traduzido por Filipa Oliveira. World History Encyclopedia, 27 mar 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-2042/armas-dos-conquistadores/.

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