A Vida dos Escravos Africanos na América Colonial Britânica

Joshua J. Mark
por , traduzido por Felipe Barreira
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A vida dos escravizados africanos na América Colonial Britânica era muito pior do que as práticas escravistas em vigor na região antes da chegada dos europeus. As tribos indígenas capturavam as pessoas em incursões, escravizavam aqueles condenados por crimes e os comercializavam entre as tribos. Mas a percepção era de que haviam cometido alguma coisa para merecerem tal destino.

O modelo escravista racial, institucionalizado pelos colonos ingleses na América do Norte, rompeu com este paradigma. Pessoas que não tinham qualquer relação com os ingleses eram escravizadas e forçadas a trabalhar pelo resto de suas vidas. Os seus descendentes eram reivindicados como propriedades que poderiam ser vendidas.

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Daily Slave Life on a Tobacco Plantation
Cotidiano de Escravos em uma Plantação de Tabaco Unknown Artist (Public Domain)

A vida de um escravo na América colonial variava entre as colônias, mas compartilhava um aspecto: o escravo não detinha qualquer direito como ser humano e era considerado propriedade do senhor da mesma forma que uma carroça, um moinho ou um machado. O senhor podia tratá-lo como qualquer outra posse a ser usada como lhe aprouvesse até que perdesse serventia, o que fazia com frequência.

Uma vez na América do Norte, o escravo trabalharia de sol a sol, seis dias por semana nas colônias do sul.

Os africanos eram muitas vezes escravizados por membros de outras tribos e vendidos aos mercadores europeus de escravos, ou eram abduzidos diretamente pelos europeus. Frequentemente, aqueles eram drogados, acorrentados e enviados para os mercados de escravos junto com os que eles trouxeram. Uma vez na América do Norte, o escravo trabalharia de sol a sol, seis dias por semana nas colônias do sul, sob as piores condições, e sujeito a ser vendido por seu dono como se fosse um ancinho, uma enxada ou um martelo. A vida dos escravos na América colonial seguiu esse paradigma de cerca de 1660 até a abolição da escravatura através da 13.ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos de 1865.

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Virgínia e os Primeiros Escravos

Os primeiros africanos na América do Norte desembarcaram em Jamestown, na Virgínia, em 1619 a bordo de um navio holandês que precisava de suprimentos. Esses 20 ou 21 indivíduos foram comprados em troca dos suprimentos necessários pelo então governador Yeardley (cerca de 1587-1627) para trabalharem em suas terras. Naquela altura, os ingleses ainda não tinham o conceito de escravidão racial. Na verdade, a escravidão já havia sido abolida há séculos na Inglaterra, de forma que esses primeiros africanos foram tratados como servos por contrato, por um período fixo de trabalho com sua liberdade prevista e pagamento em terras ao final. O pesquisador David A. Price comenta que:

Embora seja tentador presumir que esses primeiros africanos registrados na América Inglesa tenham sido os primeiros escravos, há evidências que sugerem que isto não seja verdade. Eles poderiam ter tido a posição de servos por contrato, assim como os muitos brancos recém chegados, aptos à liberdade após completarem o período de servidão. (197)

Esse paradigma mudou em 1640 com a escravização de um servo por contrato negro chamado John Punch. Junto com mais dois servos brancos, ele deixou seu senhor antes do período contratado alegando maus tratos. Os três foram capturados, mas enquanto os servos brancos foram punidos com mais quatro anos de servidão, Punch foi condenado à escravidão pelo resto da vida. A partir daí, leis que restringiam os direitos das populações negras começaram a ser aprovadas na Virgínia, instituindo leis escravistas nos anos de 1660, e tornando-a participante ativa no comércio transatlântico de escravos, possibilitado pela rota do Comércio Triangular.

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Sequestro e a Passagem do Meio

O Comércio Triangular foi um sistema de trocas de mercadorias e pessoas entre a Europa, África Ocidental e as Américas. A Europa enviava artigos para a África Ocidental (Primeira Passagem) que então transportava humanos escravizados para as Américas (Passagem do Meio) e de lá outros itens eram enviados à Europa (Passagem Final), formando um ciclo contínuo.

Uma das mercadorias mais valiosas importadas da Europa para a África Ocidental eram armas, munição e pólvora que as tribos africanas poderiam comprar em troca de seres humanos. Uma tribo que possuísse armas poderia subjugar outras, vendê-los por mais armas e expandir seu território. Embora esse arranjo parecesse dar mais poder aos africanos, na verdade apenas os europeus se beneficiavam já que recebiam cada vez mais pessoas para escravizar.

Na África Ocidental, aqueles que traziam os escravos para o mercado, frequentemente também acabavam escravizados.

Elas podiam ser tanto abduzidas individualmente ou, mais comum, em grupos numerosos de uma aldeia. Uma tribo cercava uma aldeia durante a noite, enquanto o grupo dormia, iniciava um incêndio e então capturava os membros que fugiam. Eles eram conduzidos à força para os mercados de escravos no litoral onde eram mantidos aprisionados até serem examinados para venda. Aqueles considerados mais valiosos eram separados dos de maior idade. Os fracos ou doentes eram marcados para que não fossem trocados por uma “mercadoria de menor qualidade”. Os que sobravam eram mortos para manter os custos em alimentação baixos e abrir espaço para receber novos escravos. Frequentemente, aqueles que traziam os escravos para o mercado também acabavam escravizados, como descrito pelo pesquisador Oscar Reiss:

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Os traficantes sempre buscavam “fazer um extra”. Um chefe tribal trouxe uma caravana de negros escravizados acorrentados. Após a conclusão das negociações, ele foi convidado para jantar a bordo do navio. Foi drogado e acordou já em alto mar - agora como parte do grupo de escravos. (33)

Os escravos eram amontoados no porão do navio, os homens acorrentados e separados das mulheres, os meninos separados do resto. Eles eram forçados a deitarem de lado para economizar espaço. Tinham que fazer suas necessidades em baldes que muitos não conseguiam alcançar e que eram muito pequenos para a quantidade de pessoas no porão para serem de qualquer uso prático. À medida que cruzavam o Atlântico, durante a Passagem do Meio, era-lhes permitido subir ao convés quando o tempo estava bom, acorrentados para evitar que se atirassem ao mar. Uma vez nas Américas, os escravos eram descarregados em currais, limpos e vestidos (eram trazidos nus, a não ser que o capitão ordenasse que fossem cobertos) e vendidos aos colonos.

Diagram of the Brooks Slave Ship
Diagrama do Navio Negreiro Brooks British Library (CC BY-NC-SA)

Alojamento, Comida e Vestimenta

A vida de um escravo variava de acordo com a colônia e, dentro das comunidades, de senhor para senhor. Os colonos na Nova Inglaterra e nas colônias do Centro geralmente mantinham os escravos em suas casas ou em pequenas cabanas enquanto nas Colônias do Sul eles eram colocados em numerosos barracões. Um barracão típico é descrito por Reiss:

Era uma construção de um cômodo com chão sujo medindo 5 x 6 metros. O abrigo continha pelo menos uma janela de vidro com portadas. Havia uma porta com tranca de ferrolho e uma chaminé de tijolos com a lareira em chão de terra batida. Isso provia alojamento para sete ou oito adultos, com talvez um mezanino de dormir para crianças. (47)

Outras construções eram feitas de toras de madeira e não possuíam nem janelas nem portas, apenas um pano ou pele de animal cobrindo o vão da porta, com uma lareira e chaminé. Não havia mobília, a luz era pouca e os espaços entre as toras permitiam a entrada da água da chuva e neve.

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Na Nova Inglaterra, os puritanos cuidavam melhor de seus escravizados do que os proprietários de plantations no Sul, porque seguiam mais de perto o exemplo bíblico dos escravos do Antigo Testamento, que comiam e dormiam junto com a família. Nas colônias do centro, os escravos comiam sobretudo milho e batata-doce que eram distribuídos aos domingos enquanto, no sul, o alimento básico era o arroz.

Às vezes, era permitido aos escravos que cultivassem suas próprias hortas, mas apenas aos domingos, pois o resto da semana era de trabalho para seus donos. Obviamente, eles eram proibidos de possuir armas de fogo ou de qualquer outro tipo, e consequentemente não podiam caçar para comer. Carne era dada raramente e sempre a critério do senhor.

Slave Cabin, Mount Vernon
Cabana de Escravizados, Mount Vernon Tim Evanson (CC BY-SA)

As vestimentas também eram fornecidas pelo senhor. A qualidade dependia de quanto ele estava disposto a gastar. As roupas de um escravo poderiam ser, embora nem sempre, um sinal de riqueza e status. Os chamados “negros da casa”, que cuidavam das crianças, cozinhavam, limpavam e serviam como mordomos, estavam sempre bem vestidos, assim como os que acompanhavam seus senhores à cidade regularmente. Nas colônias do sul, os escravos que trabalhavam nas plantations passavam a maior parte do ano quase nus. Tanto homens quanto mulheres não usavam muito mais do que uma tanga.

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Casamento e Família

Como os escravos eram considerados propriedades e sem direitos, o casamento - assim como alojamento, alimentação e vestuário - era decidido pelo senhor. Ele poderia autorizar ou dissolver uma união, ou ainda vender o casal separadamente. Reiss comenta:

O casamento entre escravos tendia a ser instável e frequentemente de duração curta. Os puritanos eram o único grupo de detentores de escravos que levavam essas uniões a sério. O adultério era um pecado grave e o casamento uma instituição sagrada, até mesmo entre escravos. A cerimônia era celebrada, e era esperado que o casal ficasse junto pelo resto da vida. Caso os escravos fossem vendidos, seus donos tentariam vendê-los como uma unidade familiar. Entre outros grupos, apenas aqueles senhores profundamente religiosos tentavam promover a moralidade e evitar a libertinagem entre seus escravos. (53)

Os escravos eram incentivados a se casarem com outros da mesma fazenda ou plantation, assim não desperdiçariam tempo aos domingos para visitar o parceiro(a). Além disso, os filhos dessa união pertenciam ao senhor da mãe. Logo, um escravo que fosse o pai das crianças da escrava de outro dono, enriqueceria um e empobreceria o outro.

Geralmente, a comunidade escravizada como um todo cuidava das crianças até que completassem cinco ou seis anos, quando eram colocadas para trabalhar pelo senhor.

As crianças ficavam sob os cuidados de irmãos e irmãs, crianças ou mulheres mais velhas, enquanto os pais trabalhavam seis dias por semana e, no sul, do nascer ao pôr do sol. Da perspectiva dos senhores, o casamento entre escravos servia apenas para produção de mais escravos. Casais que não produzissem crianças rapidamente poderiam ter seus casamentos dissolvidos e então unidos a outros parceiros.

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Dentro da comunidade, os laços familiares eram fortes, e as pessoas cuidavam e zelavam umas pelas outras, especialmente considerando que, muitas vezes, duas ou mais famílias compartilhavam o mesmo alojamento. Geralmente, a comunidade como um todo cuidava das crianças até que completassem cinco ou seis anos, quando eram colocadas para trabalhar pelo senhor como mensageiros, carregadores de água ou ajudantes de cocheira.

Trabalho e Lazer

Como visto, um escravo trabalhava seis dias por semana, 365 dias por ano, com descanso apenas quando o concedido pelo senhor. Um escravizado podia exercer qualquer trabalho que não envolvesse seu letramento ou armas de fogo. Um escravo alfabetizado era considerado uma ameaça e ensiná-los a ler era proibido na maior parte das colônias, se não em todas elas. Na Nova Inglaterra e nas colônias do Centro, os escravos trabalhavam nos portos, em pequenas fazendas ou como artesãos qualificados e mão de obra especializada. Em todas elas, exerciam funções como cozinheiros, tratadores de cavalos, criados, mordomos, tanoeiros, ferreiros e fabricantes de velas, entre outras. No sul, eram prioritariamente utilizados para o trabalho rural nas plantações de tabaco e arroz.

Tobacco Plantation
Plantação de Tabaco Richard H. Laurie (CC BY-NC-ND)

Além dos domingos, os únicos outros momentos de descanso dado aos escravos eram no lay-by no verão (o fim do período de cultivo nas plantations) e o Natal. No Natal, eles tinham entre três e seis dias de folga. De maneira geral, era quando também poderiam ganhar carne e permissão para tocar instrumentos musicais.

Aos domingos, participavam de cultos, seus ou dos brancos, contavam histórias, cantavam, dançavam e cultivavam suas hortas, caso tivessem autorização para tê-las. Também poderiam ter permissão para produzir seus móveis, reformar suas casas ou se entreterem com jogos. Os domingos, e especialmente, o Natal eram períodos de descanso nos quais os escravos também arquitetavam planos de fuga e insurreições. Por isso, nesses dias, a segurança era reforçada, principalmente no sul.

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Dissidência e Rebelião

Os escravos se utilizavam de várias táticas de resistência como dissimular doenças, danificar ferramentas, fingir não entender o senhor ou negligenciar instruções. No entanto, vez por outra, as rebeliões eclodiam, o que representava um dos maiores temores dos colonos. Por isso, essas revoltas eram reprimidas rapidamente com punições severas, até mesmo para aqueles escravos que não haviam participado.

A primeira insurreição nas colônias inglesas foi a Revolta de Escravos de Nova York, em 1712, instigada e liderada por escravos africanos. A cidade esteve sob controle holandês como Nova Amsterdã até 1664, quando as possessões holandesas foram tomadas pelos ingleses. As liberdades usufruídas pelos escravos durante o domínio holandês foram negadas pelos ingleses. Leis novas e mais severas foram instituídas para os escravos gerando mais atrito. Na noite de 6 de abril de 1712, 23 escravos incendiaram um prédio na Broadway, e mataram os brancos que vieram extinguir o incêndio, com as armas que haviam roubado. Eles foram capturados, presos e executados. Mais de 70 outros escravos foram encarcerados e punidos.

Colonial Slave Quarters, Mount Vernon
Alojamento de Escravos, Mount Vernon Tim Evanson (CC BY-SA)

A maior revolta de escravos nas colônias foi a Rebelião de Stono, na Carolina do Sul em 1739. Um escravo chamado Jemmy liderou 20 escravos do Rio Stono em direção a Santo Agostinho espanhola, na Flórida, onde conseguiriam a liberdade. Eles saquearam um depósito de armas e começaram sua marcha. Outros foram se juntando ao grupo até atingirem mais de 100 escravos. Então atacaram e mataram seus senhores, e destruíram as propriedades. Essas incursões atrasaram a marcha possibilitando que a milícia dos brancos se mobilizasse e os dispersasse. Entre os mortos havia 25 colonos brancos e 30 negros. Mas ao longo do ano seguinte, muito mais negros seriam enforcados ou queimados.

Conclusão

Os escravizados podiam ocupar o lugar de seus senhores na milícia colonial e, posteriormente, no Exército Continental durante a Guerra de Independência dos Estados Unidos (1775–1783) em troca de sua liberdade, mas isso não contribuiu em nada para o fim da instituição da escravidão. Negros livres aparecem nos registros de censo desde a década de 1640 e, portanto, os escravizados que obtiveram sua liberdade na guerra não eram vistos como algo excepcional.

Entre 1800 e 1850, a Nova Inglaterra e as colônias do Centro foram abandonando a escravidão aos poucos, à medida que se industrializavam e sofriam crescente pressão dos abolicionistas. Ainda assim, o uso de mão de obra escravizada manteve-se forte no Sul. Embora a Revolta de Stono seja considerada a maior rebelião graças à participação de mais de 100 escravos, a mais perturbadora foi a Rebelião de Nat Turner em 1831, na Virgínia, que resultou na morte de 55 a 60 homens brancos. Turner e seus seguidores foram executados, mas mais de 200 escravos e negros livres foram mortos em seguida.

Esse evento aterrorizou tanto as colônias do Sul, que leis mais severas para os escravos foram instituídas, aumentando ainda mais as tensões entre os estados do sul e do norte, resultando na Guerra Civil Americana (1861-1865). A Proclamação de Emancipação de 1863 libertou os escravos nos estados sulistas que estavam em rebelião, mas só pôde ser aplicada com o fim da guerra. Com a vitória do norte, a escravidão foi abolida com a 13ª Emenda à Constituição em 1865, encerrando uma instituição que perdurou por mais de 200 anos e escravizou milhões sob algumas das piores condições jamais registradas na história.

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Sobre o Tradutor

Felipe Barreira
Felipe Barreira é bacharel Administração pela Fundação Getulio Vargas e tem Mestrado em Tradução pela London Metropolitan University.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

Cite Este Artigo

Estilo APA

Mark, J. J. (2026, abril 20). A Vida dos Escravos Africanos na América Colonial Britânica. (F. Barreira, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1732/a-vida-dos-escravos-africanos-na-america-colonial/

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Mark, Joshua J.. "A Vida dos Escravos Africanos na América Colonial Britânica." Traduzido por Felipe Barreira. World History Encyclopedia, abril 20, 2026. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1732/a-vida-dos-escravos-africanos-na-america-colonial/.

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Mark, Joshua J.. "A Vida dos Escravos Africanos na América Colonial Britânica." Traduzido por Felipe Barreira. World History Encyclopedia, 20 abr 2026, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1732/a-vida-dos-escravos-africanos-na-america-colonial/.

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