Boccaccio e a Peste Negra: Texto e Comentário

Joshua J. Mark
por , traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto
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Peste Negra é o nome dado (a partir de 1800) a uma epidemia surgida na Europa entre 1347-1352, em referência aos bubões (inchaço ganglionar) que surgia nas virilhas, axilas e em volta dos ouvidos das pessoas infectadas, já que o germe da Peste invadia os linfonodos. Na época, as pessoas referiam-se a ela como “pestilência” entre outros termos. Sua origem remonta ao Oriente devastado por ela entre 1346-1360 e se manifestava como uma combinação de Peste bubônica, septicêmica e pneumônica.

Giovanni Boccaccio & Florentines Who Have Fled from the Plague
Giovanni Boccaccio e Florentinos que Fugiram da Peste Koninklijke Bibliotheek (Public Domain)

Uma das fontes primárias a respeito da doença foi o escritor e poeta italiano Giovanni Boccaccio (*1313 +1375), mais conhecido por sua obra O Decameron (escrito entre 1349-1353), que relata a história de 10 pessoas que se divertem com histórias quando isolados devido à Peste. No primeiro capítulo, antes da introdução dos personagens, ele descreve como a praga impactou a cidade de Florença em 1348, como as pessoas reagiram ao mal e a inacreditável devastação por mortes que, finalmente, somou algo como 30-50 milhões antes que desaparecesse por si mesma. A epidemia (ou mesmo pandemia) alterou completamente a estrutura social européia e, ao mesmo tempo, abalou o sistema de crenças de muitos dos que a ela sobreviveram.

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Contexto da Peste

Causada pela bactéria Yersinia pestis transmitida pela pulga dos roedores, primariamente ratos, levada de região a região por meio do comércio ou pelas tropas que retornavam ou partiam para uma missão. A bactéria somente foi isolada e identificada em 1894, mas as pessoas do século XIV não tinham a menor ideia da causa da Peste ou como combatê-la. A doença era, primariamente, atribuída à ira de Deus, embora comunidades marginalizadas – judeus entre elas – eram tidas como causa e, conseqüentemente, perseguidas. Muitas respostas, no entanto, visavam apaziguar a angústia de Deus e houve poucos esforços práticos – pelo menos no início – na direção de controlar a disseminação da doença.

Muitos estudiosos concordam que o foco de origem foram os navios genoveses vindos dos portos da cidade de caffa no Mar negro.

A Peste entrou na Europa, vinda do Oriente, via navios comerciais, porém advoga-se a possibilidade de que a Rota da Seda também tenha contribuído para a disseminação. No Oriente, a doença vinha pagando elevadíssimo preço desde, pelo menos, 562 d.C. – como uma continuação da Peste de Justiniano (541-542 e subsequentemente) – acalmando-se em 749 e irrompendo novamente em 1218, declinando novamente até 1332 e ressurgindo completamente em 1346 antes de se deslocar para a Europa.

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O foco de origem, segundo a concordância de muitos estudiosos, concentra-se nos navios genoveses, vindos da cidade portuária de Caffa (ou Kaffa) no Mar Negro (atual Feodosia na Crimeia). A cidade encontrava-se sob sítio da Horda Dourada mongol, sob o comando do Khan Djanibek (reinou 1342-1357) cujas tropas se encontravam infectadas pela Peste do Oriente Próximo. Quando os soldados morriam, Djanibek ordenava que seus cadáveres fossem catapultados sobre as muralhas de Caffa, partindo daí, imagina-se, a infecção da população da cidade. Navios mercantes deixando a cidade aportavam, primeiro na Sicília, em seguida em Marselha e Valência, infectando-as e daí disseminando-se pela Europa.

Narrativa de Boccaccio

Em 1348, a Peste atingiu Florença, na Itália, cidade natal de Boccaccio, matando sua madrasta (sua mãe havia morrido há mais tempo, provavelmente de Peste). Seu pai trabalhava com finanças e comércio e mantinha um cargo no governo como Ministro do Abastecimento antes de morrer, provavelmente pela Peste em 1349, no mesmo ano que Boccaccio começou a escrever O Decameron. Essa obra retrata dez jovens – sete mulheres e três homens – que abandonaram Florença durante a Peste e procuraram abrigo em uma aldeia no campo. Para se entreterem, contaram as histórias que constituem o cerne do livro.

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Spread of the Black Death
Disseminação da Peste Negra Flappiefh (CC BY-SA)

A introdução d'O Decameron, que detalha o surgimento da Peste na cidade, é feita pelo narrador da obra como pano de fundo antes do aparecimento dos dez personagens, todos eles se encontraram em uma igreja vazia no meio do desastre causado pela Peste, antes de se decidirem a ir para o campo. Não está claro se Boccaccio se encontrava presente em Florença quando a doença se disseminava pela cidade, pois seu pai o havia enviado a Nápoles, a negócios em 1348, mas quase certamente esteve por lá e, assim, seria uma testemunha ocular da devastação da cidade. A introdução, apesar de parte de uma obra de ficção, ainda é considerada uma descrição precisa da vida em Florença durante a Peste, pois se coaduna com outros relatos.

Embora Boccaccio afirme que os bubões sejam os primeiros sintomas da doença, muitos relatos da Peste indicam que ela se iniciava com febre, calafrios e cansaço e, em seguida, o aparecimento dos bubões no corpo. É possível que Boccaccio tenha feito uso de uma licença poética e invertido a ordem dos sintomas para ter o efeito de maior intensidade dramática, porém poderia simplesmente ser sua experiência pessoal da Peste.

O Texto

Os trechos a seguir vêm do O Decameron conforme traduzido para o inglês por Mark Musa e Peter Bondanella, em 1982. O relato foi editado devido ao espaço e contém omissões indicadas por elipses:

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Permitam-me dizer que passados mil trezentos e quarenta e oito anos após a frutífera encarnação do Filho de Deus, quando na insigne cidade de Florença... ocorreu ali uma pestilência mortal. Seja devido à influência dos corpos celestes ou pela justa ira de Deus como punição a nós mortais por nossas pecaminosas obras, a pestilência, irrompendo, alguns passados anos, no Oriente, ceifando um número infinito de pessoas, à medida que se espalhava implacavelmente, de um lugar a outro, até finalmente se estender horrível e miseravelmente sobre todo o Ocidente. E, mais uma vez, contra essa doença, nenhuma humana sabedoria ou previsão foi de alguma valia; muitas sujeiras foram removidas da cidade pelos encarregados para isso; a entrada na cidade de qualquer pessoa doente terminantemente proibida e editada muitas normas voltadas para a manutenção de boa saúde. As humildes súplicas foram infrutíferas, mas em muitas ocasiões, os devotos a Deus, com procissões públicas ou com outros meios, também se mostraram ineficazes.

Quase no início da primavera do ano que me refiro, a Peste começou a mostrar seus desoladores efeitos de uma maneira assombrosa. Não assumiu a forma que se apresentou no Oriente, quando o sangramento pelo nariz era um inequívoco sinal de morte inevitável. Aqui, de início, com seus sinais semelhantes em homens e mulheres, com inchaço tanto nas virilhas como sob as axilas, alguns dos quais assumiam o tamanho de uma maçã comum e outros o de um ovo (mais ou menos), chamados pelo povo de gavoccioli (bubões). E das partes acometidas já referidas, em pouquíssimo tempo, os mortíferos gavoccioli se espalhavam indiscriminadamente para o corpo inteiro. Em seguida, os sintomas da doença assumiam a forma de manchas negras ou azuladas nos braços e coxas e, então, para o corpo todo – às vezes muito grandes, outras vezes pequenas, porém espalhadas em grande número. E precisamente como os gavoccioli originalmente prenunciavam (e ainda prenunciam) uma morte iminente, também as manchas tinham o mesmo efeito para quem contraísse a doença. Nem os conselhos dos doutores, nem o poder dos remédios, podiam fazer alguma coisa para curar esta doença, pelo contrário, a natureza do mal era tal que não oferecia nenhuma cura e os doutores se mostravam tão ignorantes que não conseguiam reconhecer sua causa e, como resultado, não conseguiam prescrever o remédio adequado (de fato, a quantidade de doutores, exceto os bem treinados, crescia imensamente em homens e mulheres que nunca haviam recebido qualquer formação médica). De qualquer maneira, poucos doentes conseguiam curar-se e quase todos morriam após o terceiro dia do aparecimento dos sintomas previamente descritos (alguns mais cedo, outros mais tarde) e muitos deles morriam sem febre ou qualquer outro efeito colateral.

A pestilência era tão poderosa que se transmitia ao sadio por contato com o doente, espalhando-se como fogo em palha seca. E o fatídico mal ia mais além: não somente falar ou ficar próximo ao doente trazia infecção e uma morte comum, mas também tocar as roupas dos doentes ou qualquer coisa manuseada ou usada por eles parecia comunicar esta mesma doença à pessoa envolvida...

Algumas pessoas imaginavam que levando uma vida moderada evitando quaisquer excessos poderiam auxiliar consideravelmente a resistir à essa doença e, assim sendo, reuniram-se em pequenos grupos e decidiram ficar separados de tudo. Passaram a viver nas casas onde não houvesse nenhuma pessoa doente e onde pudessem viver bem e com mesa com os mais delicados alimentos e com os mais finos vinhos (mas com a devida moderação), combinaram que ninguém falaria ou ouviria qualquer coisa relacionada à doença ou à morte do lado de fora. Essas pessoas divertiam-se umas às outras com música e outros prazeres de que pudessem dispor. Outros pensavam de modo diverso, acreditando que beber excessivamente, desfrutar a vida, ir por aí vagueando, cantando e celebrando, satisfazendo os apetites de todos da melhor maneira que cada um conseguisse, rindo e fazendo pouco caso de tudo que aconteceu, seria tudo isso o melhor remédio para tal doença. Com isso em mente, praticaram da maneira mais completa aquilo que acreditavam, indo de uma taverna a outra, dia e noite, bebendo em excesso e ainda mais comemoravam privadamente em casa, fazendo tudo o que mais os divertisse. Tudo isso podiam fazer facilmente, pois todos se sentiam condenados à morte e, consequentemente, abandonaram suas propriedades, tanto que muitas casas passaram a ser propriedade comum e se qualquer estrangeiro viesse a ocupá-las, o faria como proprietário de direito...

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Muitos outros adotaram uma posição intermediária entre as duas atitudes acima descritas: nem restringiram seus alimentos ou bebidas como o primeiro grupo, como também não caíram na libertinagem e beberagem como o segundo, ao contrário, satisfizeram seus apetites em grau moderado. Eles não abandonaram a cidade, mas vagavam trazendo nas mãos flores, ervas perfumadas e especiarias, colocavam tais coisas no nariz, acreditando que tais odores constituíam um maravilhoso meio de purificar o cérebro, pois o ar como um todo parecia infectado com a fedentina dos cadáveres, doenças e remédios...

E nem todos que optaram por essas opiniões variadas, nem todos escaparam com vida, ao contrário, muitos dos que optaram por segui-las também caíram doentes... irmão abandonava irmão, tio abandonava sobrinho, irmã abandonava irmão e, com bastante frequência, esposa abandonava o marido e – atitude desprezível, quase inacreditável, pais e mães abandonavam e não cuidavam dos filhos como se não fossem deles mesmos...

Muitos entregavam suas vidas nas vias públicas, durante o dia ou a noite, enquanto muitos que morriam em suas casas eram encontrados por seus vizinhos somente pelo mau cheiro de seus corpos em decomposição. A cidade encontrava-se repleta de cadáveres... Além disso, não recebiam lágrimas ou velas ou honras funerais. De fato, a situação chegou a tal ponto que as pessoas que morriam não recebiam nenhuma atenção, como se fossem cabras... Muitos corpos chegavam, diariamente e a toda hora, à frente de uma igreja, e em tal quantidade que o campo santo era insuficiente para enterrá-los e não havia como obedecer ao antigo costume de oferecer a cada um uma cova individual. Quando todos os túmulos já se encontravam cheios, cavavam-se grandes trincheiras nos cemitérios e dentro delas eram lançados os recém-chegados às centenas, amontoados uns sobre os outros, como carga de navio, cobrindo a trincheira com terra...

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O que mais se pode dizer exceto que a crueldade dos Céus foi tão grande e, talvez, a do homem, que de Março a Julho do mesmo ano, entre a fúria da pestilenta doença e o doente pessimamente tratado ou abandonado em suas necessidades, pelo medo que os sadios tinham, acredita-se que mais de cem mil seres humanos perderam suas vidas dentro das muralhas da cidade de Florença – ali, onde antes da mortal praga, ninguém havia imaginado que tantas pessoas vivessem na cidade.

Conclusão

Para Boccaccio as súplicas religiosas foram inúteis, e outros relatos também dizem o mesmo a respeito da Peste as quais, como ele observou, deixando claro que não havia nenhuma outra proposta que fosse de alguma utilidade. Apareceram na cidade vários panfletos oferecendo conselhos, porém as sugestões eram tão úteis quanto as orações, jejuns e penitência. O estudioso Don Nardo observa isso ao citar o escritor medieval italiano Tommaso del Garbo, que oferecia conselho prático para as pessoas que entrassem em residências de infectados:

Notários, confessores, amigos e doutores que visitem vítimas da Peste, ao entrar em suas casas devem abrir as janelas para que o ar seja renovado e lavar suas mãos com vinagre e água de rosas, e seus rostos, especialmente envolta da boca e narinas. É também uma boa ideia, antes de entrar no quarto, colocar em sua boca vários cravos-da-índia, comer duas fatias de pão embebidas no melhor vinho e beber o restante. Em seguida, ao deixar o quarto, você deve se banhar e molhar seus pulsos com uma esponja embebida em vinagre. Cuide-se de não ficar muito próximo do paciente.

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Nenhuma delas, no entanto, provaram-se efetivas contra a Peste, exceto a sugestão de se manter distância da pessoa infectada, o que se chama atualmente “distanciamento social”. A cidade portuária de Ragusa (moderna Dubrovnik, na Croácia), na época controlada por Veneza, foi a primeira a implementar medidas práticas ao manter os navios isolados por trinta dias sob a política do trentino (30 dias), mais tarde estendido para quarenta dias sob a lei do quarantino (40 dias), quarentena em português. Distância social e quarentena eram, portanto, as únicas medidas práticas capazes de impedir a disseminação da doença e foram as únicas medidas que tiveram algum efeito.

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As respostas religiosas à Peste foram numerosas e incluíram procissões públicas de flagelantes, que passavam pelos vilarejos, cidades e campos açoitando-se e pedindo perdão a Deus pelos pecados da humanidade. Tais movimentos foram finalmente condenados pelo Papa como ineficazes, porém, para as pessoas da época, qualquer outra resposta religiosa era inútil. A percebida ineficiência da religião para impedir, ou pelo menos, aliviar o sofrimento e a morte pela Peste, afastou muitas pessoas da igreja medieval para procurar respostas em outro lugar, um impulso que culminou com a ascensão da visão humanista da Renascença.

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Sobre o Tradutor

Jose Monteiro Queiroz-Neto
Monteiro é um pediatra aposentado interessado na história do Império Romano e da Idade Média. Tem como objetivo ampliar o conhecimento dos artigos da WH para o público de língua portuguesa. Atualmente reside em Santos, Brasil.

Sobre o Autor

Joshua J. Mark
Joshua J. Mark é cofundador e diretor de conteúdo da World History Encyclopedia. Anteriormente, foi professor no Marist College (NY), onde lecionou história, filosofia, literatura e redação. Viajou extensivamente e morou na Grécia e na Alemanha.

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Mark, J. J. (2025, dezembro 13). Boccaccio e a Peste Negra: Texto e Comentário. (J. M. Queiroz-Neto, Tradutor). World History Encyclopedia. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1537/boccaccio-e-a-peste-negra-texto-e-comentario/

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Mark, Joshua J.. "Boccaccio e a Peste Negra: Texto e Comentário." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia, dezembro 13, 2025. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1537/boccaccio-e-a-peste-negra-texto-e-comentario/.

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Mark, Joshua J.. "Boccaccio e a Peste Negra: Texto e Comentário." Traduzido por Jose Monteiro Queiroz-Neto. World History Encyclopedia, 13 dez 2025, https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1537/boccaccio-e-a-peste-negra-texto-e-comentario/.

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