Hoje sentamo-nos com Gordon Doherty para conversar sobre o seu novo livro, Empires of Bronze: Son of Ishtar (Impérios de Bronze: Filho de Ishtar). Radicado no norte gélido e sombrio (ou seja, na Escócia), Gordon tem escrito extensivamente sobre a Grécia e a Roma Antigas. Contudo, o seu novo romance transporta-nos para eras ainda mais antigas, até ao final da Idade do Bronze, para o seio do Império Hitita, na Anatólia.
Perg.: Os Hititas não são propriamente uma "cultura popular histórica", ao contrário dos Egípcios ou dos Romanos. Como surgiu a ideia de escrever sobre esta cultura e este período?
Resp.: Soube desde o início que estava a escolher um nicho pouco mediático para escrever. Mas não é isso a melhor parte — explorar o inexplorado? E que jornada de descoberta tem sido, através de uma era de factos e lendas, de impérios em ascensão e queda, envoltos nas brumas da pré-história. O período de Empires of Bronze abrange a Batalha de Qadesh (a primeira batalha alguma vez registada com detalhe — de tal forma grandiosa que alguns lhe chamam a verdadeira primeira guerra mundial); depois, houve a pequena questão da Guerra de Troia; ah!, e o tema fervorosamente debatido do Colapso da Idade do Bronze — onde os grandes centros do poder antigo foram varridos e os historiadores ainda hoje desconhecem a causa: fomes, sismos ou a invasão dos misteriosos Povos do Mar?
Perg.: Onde encontrou a inspiração para as personagens e para o enredo? Existem mitos e histórias históricas que utilizou para construir a narrativa do romance?
Resp.: A História, como sempre, inspira-me, choca-me e entusiasma-me. Os Hititas registavam tudo em tabuinhas, por isso sabemos muito sobre os seus mitos e deuses — como a batalha do deus das tempestades contra uma serpente demoníaca — uma luta perpétua do bem contra o mal. Eram politeístas (o seu território era conhecido como "A Terra dos 1000 Deuses") a roçar o panteísmo (acreditavam que cada rocha, árvore e rio tinha um espírito). Este tipo de cultura de templo — típica da Idade do Bronze — transpira lendas e tradições. Quanto a elementos "reais", senti-me rapidamente atraído por um príncipe hitita. De acordo com as tabuinhas encontradas sob a antiga capital hitita, o Príncipe Hattusili — ou Hattu, para abreviar — nasceu sob uma sombra. As tabuinhas contam que ele era uma criança delibitada e que Ishtar, a deusa do amor e da guerra, apareceu ao pai — o rei, ou Labarna — num sonho, oferecendo-lhe a oportunidade de salvar a criança. Mas as ofertas de Ishtar eram bem conhecidas no mundo antigo por serem agridoces, e esta, de facto, foi amarga. Que ponto de partida perfeitamente sombrio para um conto antigo!
Onde existem lacunas nos textos e monumentos antigos (e existem muitas), deixo a minha imaginação assumir o controlo. No entanto, tento sempre manter-me dentro dos limites da plausibilidade. Isto não quer dizer que, de vez em quando, não roce esses limites, mas quero que os meus mundos sejam fiéis aos antigos, aos seus costumes e às suas atitudes.
Perg.: Escreveu extensivamente sobre a Grécia e a Roma Antigas. Considerou difícil a entrada num período e localização diferentes?
Resp.: Sim! Foi um empreendimento monumental. No segundo milénio a.C., ainda não tinham sido estabelecidas as fundações clássicas que serviram de base aos meus contos sobre a Grécia, Roma e Bizâncio. O mundo dos Hititas era muito diferente e estranho. Existem alguns aspetos da cultura da Idade do Bronze que mais tarde influenciaram os Gregos Clássicos — é bastante claro que os deuses do Olimpo derivam dos panteões hititas e de outros povos do Próximo Oriente. A título de exemplo: Zeus e os seus raios = Tarhunda, o deus hitita das tempestades. Mas, fora isso, o mundo hitita é um lugar muito insólito. O castigo por levar comida ao rei com as mãos sujas? Era ser-se forçado a comer um prato de fezes humanas quentes (ajudado a ser engolido com uma taça de urina)! Como resolver uma discussão conjugal? Cuspindo na boca de uma ovelha, claro! Se um estranho assassinar um homem nas terras de alguém... o responsável é o dono da terra!
Perg.: Como procedeu à investigação de base? Sabe-se muito menos sobre os Hititas e as suas guerras, simplesmente porque a Idade do Bronze é muito mais recuada no tempo do que as culturas mais populares de Roma e da Grécia.
Resp.: Em qualquer série de ficção histórica, descubro sempre que um livro tende a emergir como a peça central da minha investigação. De Res Gestae (De Res Gestae, Os Feitos) de Amiano Marcelino, para a série Legionary (Legionário). A História, de Miguel Ataliates, para Strategos (Estratego). A História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, para Assassin's Creed Odyssey (Assassin's Creed Odyssey - Odisseia)
Por isso, tive de encontrar a minha "bíblia" hitita. Desta vez, encontrei-a na forma de uma voz mais moderna. A obra de Trevor Bryce The Kingdom of the Hittites (O Reino dos Hititas) é abrangente e acessível — em certas partes, lê-se inclusivamente como um romance, que me possibilitou estruturar e traçar uma cronologia da civilização hitita. Depois, defini que secção da linha temporal iria cobrir na minha série.
Em seguida, comprei vários livros, visitei várias coleções de bibliotecas universitárias e fiz boas amizades com arqueólogos muito inteligentes e especialistas na era hititas, que me facultaram centenas de artigos e teorias. Lenta e minuciosamente, elaborei a minha própria coleção de documentos, pintando a minha versão do mundo hitita, derivada de todas estas fontes. Depois — a parte mais divertida de todas — viajei pelo norte da Turquia e explorei as regiões por mim próprio; espreitem a minha viagem de investigação, o Great Hittite Trail (Grande Trilho Hitita).
Perg.: Condensa factos históricos, acontecimentos e personagens numa só história, mesmo que possam ter estado mais distantes, seja temporal ou espacialmente?
Resp.: Absolutamente! O facto é que a nossa compreensão atual da Idade do Bronze é muito aproximada. Existem cronologias concorrentes, cada uma baseada em factos que conseguimos fixar no tempo — como eclipses solares registados em relevos hititas ou egípcios — confrontados com eventos registados em termos relativos — como o eclipse testemunhado pelo Rei Hitita Mursili I no décimo ano do seu reinado. Em certos pontos, desloquei acontecimentos para criar uma narrativa mais cativante. Sou um historiador amador, mas um contador de histórias profissional. Por isso, para mim, a história vem primeiro.
Perg.: Quanto do livro diria que é inventado para efeito dramático e o que é facto histórico? Como poderia um leitor notar a diferença?
Resp.: Dada a escassez de detalhes de que dispomos, eu diria que existe uma divisão de 60/40 entre factos históricos e licença artística. Mesmo assim, esses 40 por cento de "fantasia" baseiam-se frequentemente em probabilidades plausíveis, tendo em conta a estrutura fornecida pelos 60 por cento de verdade. Confesso sempre estas questões (a alteração de cronologias e de locais ou idades das personagens) na minha nota de autor. Prefiro que um leitor se irrite comigo por comprimir eventos do que se aborreça a meio de um livro onde descrevi cinco anos em que nada aconteceu. O meu objetivo principal é entreter e, espero eu, despertar nos meus leitores o mesmo interesse que senti quando era mais jovem — essa necessidade de explorar e descobrir mais por conta própria.
Muito obrigado pela entrevista! Estamos entusiasmados com o seu novo livro.

