As Cartas e Correspondência na Antiguidade

Artigo

Mark Cartwright
por , traduzido por Wesley G P Gomes
publicado em 10 Setembro 2019
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Disponível em outras línguas: Inglês, Francês, Espanhol

Uma característica comum para várias culturas antigas era a entrega de cartas através de um sistema estatal de comunicação. O meio usado para se escrever pode ter sido diferente, mas os Mesopotâmios, Egípcios, Gregos, Romanos e Incas todos tinham maneiras de enviar mensageiros e informações através de longas distancias e de forma rápida. Postos de abastecimento eram estabelecidos onde os mensageiros podiam comer, descansar, trocar de transporte ou a mensagem podia continuar através de revezamento. Apesar de ainda não ter existido um sistema de correio privado na Antiguidade, vários indivíduos podiam usar esse sistema estatal ou então usavam amigos, escravos, comerciantes e viajantes para enviar suas cartas para lugares distantes. As cartas que conseguiram sobreviver, como tábuas de argila ou pergaminhos de papiros, possuem uma inestimável mina de informações sobre os mais diversos tópicos como preços de commodities, costumes matrimonias e demografias regionais. Também é possível dizer qual era a postura que os povos antigos tinham em relação as cartas ao analisar seus manuais sobre boas práticas de escrita, e na publicação de coleções de cartas escritas por pessoas famosas.

As Cartas do Oriente Próximo

Cartas com escrita cuneiforme no Antigo Oriente Próximo usavam tábuas de argila na forma terracota [lit. cozinhada ou endurecida] e natural [não-cozinhada], e eram usadas pelos escribas para registrarem informações administrativas e as correspondências entre chefes de estado – tanto para seus governadores regionais quanto para seus semelhantes no estrangeiro – o escopo das cartas eventualmente expandiu para incluir todo tipo de assunto desde registros históricos a maldições. O material usado também mudou com os pergaminhos de papiros passando a serem o meio de escrita predileto. Normalmente escritas em Aramaico, as cartas geralmente tinham os nomes do destinatário e do remetente no topo, com o nome do mais sênior aparecendo primeiro. Era também definido que a carta devia ser lida em voz alta para o destinatário (para o caso dele não saber ler). Em seguida, vinha uma passagem de saudações padronizadas, que era comum para a maioria das cartas, e, por fim, o corpo principal do texto. No caso das cartas que diziam respeito a assuntos de estado, cópias eram mantidas dentro dos arquivos reais nos palácios.

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“O mais famoso sistema de correspondência no Oriente Próximo era o Persa angareion que possuía pontos de paradas para seus mensageiros (pirradazis)”

Para tábuas e pergaminhos que precisassem serem enviadas para um destino em específico, mensageiros eram utilizados. O trabalho, quando feito para o estado, envolvia bastante responsabilidade uma vez que o mensageiro era responsabilizado por garantir que a carta chegasse onde deveria. Felizmente para o mensageiro que estivesse sob pressão para viajar grandes distâncias, o estado providenciava uma rede de pontos de paradas para descanso e troca de montaria. As correspondência entre pessoas físicas também acontecia, mas era às custas dos interessados e eles não podiam utilizar a rede estatal.

O mais famoso sistema de correio no Oriente Próximo era o Persa angareion que possuía pontos de paradas para seus mensageiros (pirradazis) localizados há apenas um dia de distância a cavalo entre si. A rede era paga e mantida pela comunidade local por onde ela passava, e abastecia os mensageiros com suprimentos e montarias; assumindo, claro, que eles mostrassem seu documento oficial de passagem lacrado. Esse sistema foi elogiado por Heródoto em seu trabalho Histórias (Livro VIII, Urânia, XCVIII) por seus mensageiros resilientes que viajavam em revezamento a altas velocidades em qualquer tipo de clima. De fato, uma citação feita pelo historiador Grego do século 5 a.C. é usada pela central de correios de Nova York. Dentro da central, uma placa diz:

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“Nem a neve ou a chuva, nem o calor ou a escuridão da noite vai impedir esses mensageiros de completarem suas entregas”

As Cartas do Egito Antigo

Da mesma forma que o Oriente Próximo, as cartas Egípcias eram escritas em tábuas de argila e em papiro. Algumas dessas cartas eram esculpidas em estelas de pedra e escritas em vários idiomas, em particular o Acadiano. A correspondência Egípcia, pelo menos entre os líderes, era peculiarmente vaga e cheia de expressões padronizadas e elogios que beneficiavam apenas o destinatário. Uma característica interessante das correspondências egípcias, era o uso de modelos de cartas que os escribas menos confiantes ou mais inexperientes podiam usar como base. Semelhante ao Oriente Próximo, as autoridades tinham especial interesse em manter cópias de cartas importantes para o caso de perda da original, particularmente propenso a acontecer nos templos e fortalezas egípcias.

Durante o período do Império Novo, as cartas reais eram entregues através de um sistema de mensageiros que normalmente usavam bigas para viajar pelo Império o mais rápido possível. Como no Oriente Próximo, eles eram fornecidos estações de abastecimento para trocar os cavalos e descansar, embora alguns preferissem viajar pelo Nilo e seus tributários. Uma segunda rede de correio gerenciava as correspondências estatais e funcionava como uma hierarquia com mensageiros entregando cartas pelos diferentes níveis de governos locais. É possível deduzir que pessoas físicas ocasionalmente trocavam cartas, mas estas não tinham meios dedicados para serem entregues (porém é de se imaginar se os mensageiros reais vez ou outra faziam uma entrega por fora). Portanto, a melhor opção era ou usar um escravo ou dar a carta a algum viajante de confiança que estivesse indo na direção certa.

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Egyptian Scribe's Palette
Paleta de um Escriba Egípcio
Mark Cartwright (CC BY-NC-SA)

As Cartas do Mundo Grego

A referência mais antiga a uma carta dentro do mundo Grego foi feita por Homero em sua obra Ilíada, escrita em algum momento durante o século 8 a.C., onde Proetus enviou por Belerofonte uma tábua dobrada. Em seguida, Heródoto, durante o século 5 a.C., descreve uma série de correspondências entre o rei Amasis de Samos e o déspota Polícrates (aproximadamente 522 a.C.). O exemplo físico mais antigo de uma carta Grega é um trio de finas tábuas de chumbo que datam de aprox. 500 a.C. Outros materiais usados incluem pedaços de cerâmica e calcário, pele de animais, tabuletas cobertas em uma mistura de cera de abelha e carbono, e tabuletas de madeira com uma das superfícies escurecida ou clareada. Porém, semelhante ao Egito, o papiro era o meio de escrita preferido. Ao invés de pergaminhos, os Gregos preferiam dobrar seus papiros em folhas, amarrá-los com barbantes e, então, selá-los para garantir que somente a pessoa desejada o lesse. O lápis era normalmente feito de junco e mergulhado em tinta, mas a escrita em cera ou tábuas de argila usavam um stylus. Não havia uma rede de correio na Grécia Antiga como no Oriente Próximo, mas existiam mensageiros especializados (hemerodromoi) e navios mensageiros.

As cartas enviadas pelos reis Helênicos (muitas das quais foram transcritas em estelas de pedra) são uma das fontes de informações mais interessantes sobre as cartas gregas. Elas são especialmente úteis pela sua abrangência da administração real, e de como as instituições e práticas Gregas eram encorajadas por todo o Mediterrâneo nos estados formados após a queda do império de Alexandre o Grande a partir de 323 a.C. Os reinos Helênicos chegaram a criar uma rede de correio que era composta e mantida pelos ricos como uma forma de imposto.

As Cartas do Mundo Romano

Os Romanos – tanto homens quanto mulheres de todas as idades – continuaram a usar o papiro para escrever suas cartas, mas às vezes eles também usavam papel velino e couro curtido. Cartas feitas de papiro eram amarradas e seladas, embora o último passo pudesse ser simplesmente algumas linhas desenhadas no topo do barbante e do papel. A partir do século 3 a.C., houve um notável aumento na quantidade de cartas pessoais, apesar de que os remetentes ainda tivessem que encontrar uma forma de enviar essas cartas, seja ela por amigos, escravos ou viajantes confiáveis como comerciantes. Os imperadores e funcionários do estado, por sua vez, podiam usar o sistema estatal de correio, o cursus publicus. Augustus (r. 27 a.C. – 14 a.C.) é citado por Suetonius (aprox. 69 – 130/140 d.C.) como o criador do sistema postal Romano (ou mais precisamente descrito como um sistema de comunicação) para que ele pudesse melhor administrar seu vasto império. Inicialmente, o sistema usou mensageiros (iuvenes) que viajavam desde o remetente até o destinatário e, mais tarde, passou a usar um sistema de revezamento de mensageiros. Os mensageiros eram oferecidos provisões e um novo transporte (vehicula) em pontos regulares por todo os 120.000 quilômetros de estrada, o que os permitia viajar quase 80 quilômetros por dia.

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Roman Road, Spain
Estrada Romana, Espanha
Wikipedia User: Jaume (CC BY-SA)

Haviam dois tipos de estações – aquelas que tinha acomodações (mansiones) e aquelas com o único propósito de trocar de transporte (mutationes). Registros de inscrição sobre uma estação no sudoesta da Turquia em Pisidia, datada do século 1 d.C., registra o número exato de burros, mulas e carroças que um mensageiro tinha direito, assumindo, obviamente, que eles estivessem com seu certificado oficial (diploma). Eventualmente, o cursus publicus se dividiu em dois ramos, com a única diferença entre eles sendo que em um o mensageiro viajaria por carroça (cursus clavularis) e o outro a cavalo (cursus velox). O Direito Romano revela que esse sistema de correio estatal sofria de vários problemas como abusos por particulares, dificuldades em conseguir animais e venda ilegal de certificados postais. Era um sistema que operava a base de requisições e contribuições em forma de trabalho, o que fez do correio romano uma das interferências do governo mais impopulares nas comunidades locais.

Os Romanos escreveram manuais com modelos de cartas & comentários acadêmicos para ensinar como se escrever uma boa carta.

Era muito raro uma carta romana ter data e elas normalmente começavam com algumas frases padronizadas de saudações. A despedida também podia ser bem longa. Ainda era comum ditar o conteúdo das cartas, mas às vezes o remetente escrevia pessoalmente algumas linhas no final. Talvez seja até um pouco curioso para nós que estamos acostumando ao estilo moderno de escrita, mas era raro que as cartas expressassem qualquer detalhe pessoal, como pensamentos e opiniões, com a maioria se limitando a apenas contar os fatos e eventos. Havia, no entanto, alguns livros publicados que eram coleções de cartas escritas por pessoas famosas, particularmente as de Cicero (106-43 a.C.), Plinio o Jovem (aprox. 61 – c. 112 d.C.), e o imperador Juliano (r. 361 – 363 d.C.). Os Romanos, que beiravam o perfeccionismo em tudo que faziam, também escreviam manuais com amostras de cartas e comentários acadêmicos sobre como escrever uma boa carta (normalmente associada a habilidade de retórica), um exemplo é a obra de Julius Victor no século 4 d.C. Sabe-se, através de referências em cartas, que os Romanos também tinham professores que ensinavam a como se escrever cartas.

O ritmo que cartas eram escritas cresceu vertiginosamente no início da era cristã, com uma taxa de alfabetização entres os romanos adultos do sexo masculino chegando a 30%, uma significante porcentagem se comparada aos 10% do período Clássico Grego e aos 1% do Antigo Oriente Próximo (Oleson, 734). O historiador J. Ebbeller descreve o período entre 200 e 600 d.C. como a “Era de Ouro” da antiguidade para correspondências (Barchiesi, 468) à medida que a elite Romana passou a adotar o mesmo sentimento expressado por Cicero em uma de suas cartas: “o que mais poderia me causar imensa felicidade do que te escrever ou ler uma de tuas cartas quando eu sou incapaz de conversar contigo em pessoa.” (Letter to His Friends, 12.30.1, citado em ibid). Também se desenvolveu a convenção de que o destinatário devia escrever uma resposta e existem vários exemplos [de cartas] de Romanos reclamando dessa falta de resposta – provavelmente causada mais pela perda de cartas e pelos perigos envolvidos ao viajar do que a simples negligência.

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As Cartas do Império Bizantino

Talvez inspiradas pelas cartas de São Paulo e outros [teólogos, filósofos, etc.], no Império Romano do Oriente, que viria a ser conhecido como o Império Bizantino, certas cartas eram reverenciadas a tal ponto que elas chegavam a serem lidas diante de audiências. Tamanha era a importância do correio que um, dos três ministros mais importantes em Constantinopla, era diretamente encarregado de administra-lo, o Postal Logothete (Logothetes tou dromou). A partir do século 4 d.C., começou a ter-se cada vez mais cuidado na hora de escrever uma carta, e uma grande quantidade de manuais eram escritos para orientar os leitores. Para os Bizantinos, uma boa carta precisava ter três elementos: ser breve (syntomia), ser clara (sapheneia) e ser elegante (charis). Também havia uma moda de se embelezar as cartas através de pequenas adições nas margens como, por exemplo, escrever enigmas, provérbios ou fazer citações ricamente escritas [através da caligrafia artística]. Por fim, os Bizantinos tinham especial interesse em dar a melhor impressão possível e, portanto, frequentemente enviavam presentes junto das cartas como frutas, roupas ou pedras preciosas. Ambos os presente e carta eram entregues por carteiros dedicados conhecidos como grammatophoroi.

As Cartas Chinesas e Incas

Uma visão geral das correspondências e do correio na antiguidade dificilmente vai ser capaz de abranger todas as civilizações, mas é preciso, ao menos, ser feito uma referência a duas outras culturas fora do Mediterrâneo que também desenvolveram suas próprias sofisticadas e rápidas redes de comunicações: os Chineses e os Incas.

Os Chineses já usavam papel e tinta para escrever desde pelo menos o século 2 d.C., e sua rede de comunicação já existia de certa forma durante o Período dos Reinos Combatentes (século 5 - 3 a.C.), e cresceu vertiginosamente durante a dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.). Para governar um vasto império é preciso ter uma forma de comunicação rápida e confiável, e era dito que os mensageiros Han eram capazes de entregar mensagens imperiais a uma velocidade de 480 km em 24 horas [20km/h], no entanto metade disso parece ser a norma. Seja viajando pela estrada ou pelo rio, os mensageiros podiam utilizar qualquer um dos 1600 postos de abastecimentos criados até a dinastia Song (960 – 1279 d.C.).

Na América do Sul, os Incas (aprox. 1400 – 1533 d.C.) podiam não ter cartas para serem entregues – sem uma forma de escrita, seus registros eram feitos através de um complexo sistema de nós e cordas, o quipu – mas eles certamente tinham um maravilhoso sistema de correio. Os corredores (chaski ou chasquis) operavam em revezamento, passando as informações oralmente para outro corredor a cada 6-9 quilômetros. Dessa forma, as mensagens podiam viajar até 240 km em um único dia através de uma impressionante rede de 40.000 km de estradas construídas com o único proposito de facilitar essa viagem. Claramente, os antigos em praticamente qualquer lugar, tal como hoje, também se preocupavam em descobrir formas de enviar e receber informações da forma mais rápida e confiável possível. Eles construíram essas impressionantes redes de comunicações que, se a nossa tecnologia atual subitamente falhasse, dificilmente seriamos capazes de igualar.

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Sobre o tradutor

Wesley G P Gomes
Um programador que acabou de sair da faculdade e que tem interesse na história, particularmente, do comércio e da viagem durante o mundo medieval e antigo. Sinceramente, não se tem muito mais do que falar.

Sobre o autor

Mark Cartwright
Mark é um historiador que vive na Itália. Seus interesses incluem cerâmica, arquitetura, mitologia e a descoberta das ideias que todas as civilizações partilham entre si. Tem Mestrado em Filosofia Política e é o Diretor de Publicação na Enciclopédia da História Mundial.

Citar este trabalho

Estilo APA

Cartwright, M. (2019, Setembro 10). As Cartas e Correspondência na Antiguidade [Letters & Post in the Ancient World]. (W. G. P. Gomes, Tradutora). World History Encyclopedia. Recuperado de https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1442/as-cartas-e-correspondencia-na-antiguidade/

Estilo Chicago

Cartwright, Mark. "As Cartas e Correspondência na Antiguidade." Traduzido por Wesley G P Gomes. World History Encyclopedia. Última modificação Setembro 10, 2019. https://www.worldhistory.org/trans/pt/2-1442/as-cartas-e-correspondencia-na-antiguidade/.

Estilo MLA

Cartwright, Mark. "As Cartas e Correspondência na Antiguidade." Traduzido por Wesley G P Gomes. World History Encyclopedia. World History Encyclopedia, 10 Set 2019. Web. 30 Set 2022.